A significação da Faculdade de Teologia para a Federação Sinodal

04/12/1959

A SIGNIFICAÇÃO DA FACULDADE DE TEOLOGIA PARA A FEDERAÇÃO SINODAL

Artigo publicado em: Sementeira e Ceifa, Publicação Comemorativa por Ocasião da Inauguração do Prédio Principal da Faculdade de Teologia em São Leopoldo, 4 de outubro de 1959, 9-11 

A Faculdade de Teologia, fundada em São Leopoldo, no ano de 1946, tornou-se, por resolução do Concílio Geral do Sínodo Riograndense, em 19571, e consequente ratificação desta resolução pelo Concílio da Federação Sinodal, em 1958, juridicamente um estabelecimento da Federação Sinodal. De fato, já o fora havia muito tempo. Desde o início, antes mesmo da assembleia de fundação, no ano de 1950, nem para o Sínodo Riograndense nem para qualquer outro dos demais sínodos havia dúvida de que a Faculdade de Teologia em São Leopoldo seria o estabelecimento de formação comum dos pastores nacionais para todo o Brasil. Assim a unidade íntima dos quatro sínodos tem sua manifestação visível na Faculdade de Teologia, antes mesmo de encontrar sua expressão jurídica na constituição da Federação. 

Pode-se formular a pergunta por que só tão tardiamente — p. ex. 60 anos após a fundação do Sínodo Riograndense — se verificou, dentro dos quatro sínodos, a criação de um estabelecimento próprio para formação de pastores; e para responder tal pergunta pode-se apontar a uma série de fatores: Todos os quatro sínodos eram corporações eclesiásticas pequenas, em toda parte se carecia de forças e meios, outras tarefas se impunham como de maior urgência, sobretudo, porém, os sínodos não eram igrejas autônomas, e sim, filiadas à Igreja Evangélica na Alemanha, em parte como sínodos e, em parte, ainda como comunidades isoladas, sendo que a responsabilidade pelo envio de pastores cabia exclusivamente à Igreja Evangélica na Alemanha. Decisivo, porém, com certeza foi outro fator: O reconhecimento nítido de que uma pequena igreja evangélica que perdesse o contato vivo com teologia e vida de uma congregação religiosa maior, haveria de atrofiar-se teologicamente em ambiente católico. A fim de conservar tal contato com a teologia da Igreja-Mãe o mais estreito possível, parecia, em verdade, o caminho apontado ser o de que futuros pastores, também os nacionais, tivessem sua formação teológica no âmbito da Igreja-Mãe, enquanto tal fosse possível. 

Em virtude da 2ª. Guerra Mundial, porém, e da nacionalização a ela ligada, no Brasil, esta possibilidade se tornara problemática. A fundação da Faculdade de Teologia, em 1946, foi uma necessidade. Efetuou-se — sem resolução de qualquer concílio — pelo presidente do Sínodo Riograndense, simultaneamente diretor do Instituto Pré-Teológico, por cujos formandos, que estavam à espera de sua formação teológica, ele se sabia responsável. 

Ao mesmo tempo, porém, foi a expressão da nítida consciência de que as relações dos quatro sínodos para com a Igreja-Mãe haveriam de ser diferentes do que até então haviam sido, e que, no futuro, o caminho dos quatro sínodos no Brasil de qualquer modo poderia vir a ser um caminho em comum. No Concílio de 1950, em que se constituiu a Federação Sinodal, assim como na Ordem Básica da Federação, por esta razão se cita a Escola de Teologia em primeiro lugar entre as tarefas, cuja responsabilidade os quatro sínodos assumem em comum. Com isto está dito que para nenhum dos sínodos e para nenhuma de suas comunidades pode haver tarefa maior e mais importante do que a Escola de Teologia. 

É motivo de satisfação o fato de se constatar hoje o quanto as comunidades em todo País compreenderam isto, relegando a segundo plano tarefas internas, sem dúvida necessárias, em benefício da construção da Faculdade de Teologia. E justamente na mesma medida em que aprendem a considerar a causa da Faculdade de Teologia como sua própria, elas afirmam e confirmam a sua corresponsabilidade pela Federação Sinodal como igreja autônoma. Pois, desde a sua constituição, a Federação Sinodal e não mais a Igreja Evangélica na Alemanha é responsável pela formação de novos pastores. Por isso está certo ter-se enquadrado a Escola de Teologia em São Leopoldo, como Faculdade de Teologia, na responsabilidade da Federação Sinodal. Esta não seria igreja autônoma, caso não considerasse primacial a tarefa de cuidar da formação de pregadores. E as comunidades não cumpririam com sua corresponsabilidade, se não se soubessem obrigadas a facultar o acesso à pregação a jovens em seu meio que se sabem chamados a servirem à Palavra de Deus. A Igreja não mereceria fé em sua pregação, se não fizesse tudo que está em suas forças, para salvaguardar o serviço da pregação. 

Ainda hoje a Federação Sinodal — embora seja a maior igreja não-católica na América do Sul — é uma igreja pequena em ambiente católico. Ela não terá, forçosamente, o orgulho de, a qualquer preço, querer desenvolver uma teologia própria, nacional. Ao contrário, há de — fiel à sua própria história — procurar manter-se no mais estreito contato com a pesquisa teológica na Igreja-Mãe, como também com a teologia evangélica em geral.

Será tarefa da Faculdade de Teologia a realização sempre renovada deste contato. É certo que se lhe apresentarão, de modo especial, problemas resultantes do mundo que a cerca, o do meio ambiente brasileiro. Como único estabelecimento em comum de ensino e pesquisa de teologia reformativa dentro da Federação Sinodal, é a Faculdade de Teologia o lugar onde se processam a troca de ideias e a discussão responsável com o ambiente religioso e espiritual no Brasil. 

Assim, certamente se pode dizer que a Escola de Teologia é, para o futuro de nossa Igreja no Brasil, de importância que não pode ser superestimada. Como lugar de formação em comum dos pastores nacionais para os quatro sínodos e como estabelecimento de ensino e pesquisa em comum, é ela a expressão da autonomia e responsabilidade da Federação Sinodal e, ao mesmo tempo, sinal visível da unidade íntima dos quatro sínodos. Ela evidencia a firme vontade da Federação Sinodal de ser, conscientemente, Igreja Evangélica no meio ambiente brasileiro, corresponsável pelo País e por seu encontro, de maneira acertada, com o Evangelho. Por isso é questão importante e séria para todos que se sabem vinculados à Federação Sinodal, se torne a Faculdade de Teologia cada vez mais uma Faculdade modelar em todos os sentidos. 

Nota:
1. O relatório sobre o 52o Concílio do Sínodo Riograndense registra o seguinte: «Autorizando a Diretoria a transferir a administração da Escola de Teologia para um conselho administrativo a ser constituído por membros das entidades congregadas na Federação Sinodal e que deverá prever uma participação razoável do Sínodo Riograndense e conservar o caráter da Escola, assegurando-lhe a continuidade do espírito atual, autorizando-a, ao mesmo tempo, a elaborar, em comum acordo com o corpo docente da Escola em apreço, um projeto de estatuto para o estabelecimento.» (52° Concílio Geral do Sínodo Riograndense, 16 — 19 de maio de 1957 em Panambi, São Leopoldo, Ed. Sinodal, [1957] 20 s.) No Boletim Informativo no 2 (Agosto de 1958) da Federação Sinodal (p. 14) foi constatado que com isso caberia à Federação a plena responsabilidade pela Escola de Teologia. Agradeceu-se ao Sínodo Rio-grandense por ter possibilitado, através de sua resolução de 1957, que a Escola se tornou um estabelecimento da Federação, estabelecimento esse no qual se manifestou a Federação Sinodal já muito antes de sua constituição jurídica. O Conselho Diretor da Federação aprovou, em sua reunião de 11 e 12 de março de 1958, os Estatutos do estabelecimento, decidindo-se pela designação oficial «Faculdade de Teologia» (Theologische Hochschule). A Faculdade, como sendo o estabelecimento de formação e pesquisa teológicas comum aos quatro Sínodos, foi considerada como a manifestação mais clara da unidade interna e da autonomia da Federação Sinodal.

Veja:

Testemunho Evangélico na América Latina

 Editora Sinodal

 São Leopoldo - RS
 


Autor(a): Ernesto Theophilo Schlieper
Âmbito: IECLB
Título da publicação: Testemunho Evangélico na América Latina / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1974
Natureza do Texto: Artigo
ID: 19747
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