Agora vai...

Isaías 63.7-9

04/01/2020


Isaías 63.7 Falarei da bondade do Senhor, dos seus gloriosos feitos, por tudo o que o Senhor fez por nós, sim, de quanto bem ele fez à nação de Israel, conforme a sua compaixão e a grandeza da sua bondade. 8 “Sem dúvida eles são o meu povo”, disse ele; “são filhos que não me vão trair”; e assim ele se tornou o Salvador deles. 9 Em toda a aflição do seu povo ele também se afligiu, e o anjo da sua presença os salvou. Em seu amor e em sua misericórdia ele os resgatou; foi ele que sempre os levantou e os conduziu nos dias passados.” (NVI)

“Agora vai…”

Prezada comunidade,
às vezes as coisas não vão… Uma expectativa frustrada, uma máquina quebrada, uma relação desfeita, um pneu furado, uma conta bancária no negativo, a prova escolar na qual levou bomba, a doença que voltou, e a lista não para de crescer. O jargão “agora vai …” sempre representa uma esperança a mais, tão importante e de tanto peso quanto aquele outro dito popular: “ano novo, vida nova”. A frustração, porém, chega na maioria das vezes mais cedo que mais tarde.

O texto do profeta Isaías que acabamos de ler igualmente parece misturar sentimentos: a esperança de que agora a vida vai dar certo e a cruel realildade a ser enfrentada com muito sacrifício.

Depois de muitos passos

Até chegarmos ao capítulo 63 do livro deste profeta evangélico, muita água rolou por debaixo da ponte. É tanta história contida no livro do profeta Isaías que se aceita que tudo isso teria sido escrito por três autores distintos. Primeiro o povo israelita se afastou de Deus e de Sua vontade acreditando que nada e ninguém poderia os derrotar. Confiavam em Deus de maneira institucional ( — não relacional!) uma vez que Seu Templo estava no meio da cidade santa.

Vieram os babilônios com suas tropas, cercaram e derrotaram a cidade de Jerusalém, saquearam e profanaram o Santo Templo e, ainda por cima, despojaram violentamente a autoconfiança de um povo que não mais tinha Deus em seu coração.

Vem uma segunda expectativa: o povo baseava-se na esperança de terem supostos direitos como eleitos de Deus e uniam isso às probabilidades de que o poderosos Deus, vitorioso em tantas batalhas, não os deixariam à merce de um rei profano.

Sonhavam com a Nova Jerusalém (cap. 54). Imaginavam encontrar uma cidade com ruas de ouro ladeadas de pedras preciosas. Ao chegar o dia da libertação do exílio, se puseram à caminho e o grande sofrimento da deportação precisou ceder lugar às frustrações de terem que reconstuir um lugar devastado, inseguro, miserável.

Poderia ser pior

Terceiro momento do livro: só não poderia ser pior. Foi pior!

Nada pior que perder a fé, a coragem, a determinação de enfrentar os desafios, por mais terríveis que possam ser.

Após muito quilômetros de estradas empoeiradas, caminhando para o exílio; após muitas horas de orelhas quentes ouvindo que haviam errado grandemente ao confiar no templo que construíram e não no Deus do Templo que deveria ser obedecido, este povo estava sem horizonte. O Salmo 121 literalmente não fazia mais sentido nenhum: “Elevo os meus olhos para os montes, de onde me virá o socorro?”

As atitudes compensatórias, para ensurdecer a própria consciência, tinham cada vez mais lugar de destaque: roubar, matar, cometer adultério, jurar para encobrir mentiras, oferecer sacrifícios a outros deuses — tudo como vemos relatado pelo profeta Jeremias no capítulo 7. Isso só ocasionou uma reação no coração do povo: perder a fé no único Deus Criador.

Quando se perde a fé, se esquece com muita rapidez das promessas feitas por Deus. Quando se perde a fé, parece restar apenas ainda um resquício de confiança em si mesmo, nos seu potencial, mas que logo desaparece como nevoeiro. Por isso, quando se pergunta o que ainda poderia ser pior, é hora de resgatar o que já foi prometido. Um bom exemplo deste resgate de memória, que ajuda a recuperar a fé, é o que o profeta diz no capítulo 61, e que Jesus também repete nos Evangelhos de Lucas e Mateus: “O Espírito do Senhor Deus está sobre mim, porque o Senhor me ungiu para pregar boas-novas aos pobres, enviou-me a curar os quebrantados de coração, a proclamar libertação aos cativos e a pôr em liberdade os algemados.” (NAA)

A chance da salvação

Quando as pessoas param de lutar por si mesmas, buscando transpor seus limites e passando por cima de suas frustrações e decepções, chega o momento de receber a salvação que vem de Deus. Esta é a mensagem desta última parte do texto de Isaías. Falarei da bondade do Senhor, dos seus gloriosos feitos, por tudo o que o Senhor fez por nós, sim, de quanto bem ele fez à nação de Israel, conforme a sua compaixão e a grandeza da sua bondade”. Toda a desilusão e todo desencantamento com a volta do exílio, e tendo que encarar a dura darefa de reconstruir a vida, dar sentido à vida, não traria resultado positivo com mais críticas e repreensões. Este é o momento evangélico — mais um deles — do profeta Isaías. É necessário anunciar a mensagem da consolação, restabelecendo as relações de confiança entre as pessoas tomadas de problemas e desafios sem fim. Desconfianças mútuas destroem possibilidades de reconstrução. Acredito que por isso Deus acena com a salvação, a Sua salvação.

A tradução do versículo 9 pode ser um pouco complexa: “…e o anjo da sua presença os salvou… Nem um mensageiro, nem um anjo, mas Ele mesmo [Javé] os salvou” (LXX) é certamente a forma correta de entender quem é o autor da salvação do povo (Elicott). Não fica absolutamente nenhuma dúvida de que a confiança no Deus Salvador restaura a vida e a dignidade de vida de toda a humanidade.

Eis a chance da salvação!

Agora vai…

Porque Deus amou todas as pessoas, sem exceção, Ele a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens”(Fp 2.7), pendurado em uma cruz em meio a mal-feitores, o Santo e Fiel em meio aos profanos e infiéis. Deus amou tanto que arrogantes, perdidos, zombadores, hipócritas, frios de coração são alcançados pela Sua misericórdia. Assim Ele sempre os levantou e os conduziu nos dias passados” (v.9).

Gente com falta de vontade, pessoas indiferentes e arruinadas — como nós — recebem novo alento a partir da Sua palavra. Ninguém deveria estranhar se Deus busca se reencontrar com um povo que geração após geração virou suas costas para Sua vontade. Deus não vira as costas! Esta é a Sua vontade: amar as pessoas. Porque Deus amou o mundo de tal maneira que veio ser como você e eu, em santidade, para nos resgatar para uma nova realidade. Sua ânsia é de amar e restaurar pessoa por pessoa. A liberdade que Deus tem para fazer isso é resultado da Sua fidelidade. Isto ele revelou de forma tão penetrante e comovente, como nunca se viu antes e nunca mais se verá no futuro: Jesus Cristo nascendo, vivendo, morrendo e sendo ressuscitado para nos salvar.

Querida comunidade,
as festas passaram e o mundo volta ao normal. Guerras e rumores de guerra se intensificam novamente. Divisões, mortes e a miséria humana nos causam a mesma sensação de decepção como a vivida pelo povo na volta do exílio. Tudo continua desarrumado e caótico.

Mas nós somos a diferença. Vivendo nosso Batismo, convertendo o nosso coração para Cristo Jesus, poderemos concretizar a esperança e fé na vida das pessoas ao nosso redor. Afinal, a salvação não é e nunca foi um status pessoal da perfeição, mas revelação da graça de Deus para toda a humanidade.

Deus nos ampara e conduz pelo seu Espírito Santo, e quer fazer isso continuamente. Sejamos seus instrumentos de esperança e fé em nosso novo ano.

Amém. 


Autor(a): Pr. Rolf Rieck
Âmbito: IECLB / Sinodo: Sudeste / Paróquia: Rio de Janeiro - Martin Luther (Centro-RJ)
Área: Confessionalidade / Nível: Confessionalidade - Prédicas e Meditações
Testamento: Antigo / Livro: Isaías / Capitulo: 63 / Versículo Inicial: 7 / Versículo Final: 9
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Prédica
ID: 54867
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Assim, outros carregam o meu fardo, a força deles é a minha. A fé da minha Igreja socorre-me na perturbação. A oração alheia preocupa-se comigo.
Martim Lutero
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