AIDS - Um Grande Desafio

Auxílio Homilético

01/12/1989

l — Considerações teológicas

AIDS, uma sigla, cujo significado poucas pessoas sabem decifrar, tornou-se uma palavra ameaçadora e apavorante, criando um mal-estar generalizado e uma angústia coletiva neste final de século e de milénio. Manchetes nos jornais, artigos em revistas, campanhas pela TV, out-doors ao longo das rodovias, enfim, muita discussão e desinformação houve nos últimos cinco anos. Os meios científicos e médicos entraram em polvorosa e os círculos religiosos do mundo não poderiam ficar imunes a este debate. Afinal, a doença mexia com a vida e a morte, com culpa, pecado, castigo e fim do mundo. Os debates giraram e giram em torno de aspectos políticos e aspectos de ordem existencial. O sentido da vida, o significado da morte, a eutanásia voltaram a ocupar a ordem do dia.

Outrossim, a doença jogou água nos moinhos dos grupos religiosos sequiosos em moralizar os comportamentos tão soltos e desregrados nas últimas décadas. O fato de a doença estar vinculada inicialmente a grupos desviantes de nossa sociedade contribuiu para que aqueles que se auto-denominavam normais encontrassem motivos auto-justificadores para a sua moral. Os homossexuais, as prostitutas, os drogados, etc. historicamente não tiveram e não têm espaço em nossas igrejas históricas. Na medida em que a doença ultrapassou este círculo de condenados e ameaça todo o conjunto da sociedade, algumas igrejas movimentam-se em seu trabalho pastoral na direção desta parcela excomungada e começam a cuidar das ovelhas de seu rebanho, também ameaçado.

Que testemunho as igrejas evangélicas podem dar? Como encaram esse novo desafio ao ministério pastoral? Que consequências ele traz para a sua postura teológica e prática em termos comunitários?

1. Redescobertas — Redefinições

Nos últimos decénios algumas igrejas protestantes têm descoberto o mundo e a sociedade como espaço de sua atuação transformadora. Superou-se o hiato e a separação do mundo visto como um mal ameaçador. Outras igrejas permaneceram ou reforçaram a sua ética individualista, moralista e legalista. Esta postura fez com que uma meritocracia permeasse sua práxis social ou moral santificadora. Esqueceram ou colocaram em segundo plano o dado bíblico que causou a reforma do século XVI: a doutrina da graça.

A AIDS vem trazer à tona com toda a sua força este postulado bíblico, uma vez que ela nivela todos os homens e mulheres na vida e na morte, na sociedade e diante de Deus. As tentativas de organizar clubes ou grupos de elite que procuram criar uma espécie de bolsa de sangue, cercando-se contra todas as ameaças de contração da doença pela via das transfusões, revelam que, a despeito de nossa sociedade de classes onde uns são mais iguais que os outros, há uma ameaça que nivela todos na doença e na morte. Não há pessoas melhores que estejam em condições de julgar as demais pelo seu comportamento. Não são os méritos e as virtudes ou a condição de classe que nos fazem aceitáveis diante de Deus. É a sua graça somente que nos faz idóneos e capazes de sermos seus filhos.

Uma antropologia baseada na bondade humana e nos privilégios de classe é sempre excludente e marginalizadora, uma vez que a partir dela cada pessoa, individualmente, ou como classe, torna-se a medida de tudo. O que não acompanha seus princípios e práticas, quem é fraco e marginalizado, não possui poder para afirmar seus valores, sendo, portanto, excluído e abandonado.

O NT aponta para a realidade conflitual da pessoa humana e da sociedade. Mostra a situação de culpa, seja a ânsia auto-promotora de justiça, seja a marginalização sócio-econômica, que somente poderá ser superada com a intervenção gratuita de Deus e de seu reino.

2. Carentes da graça, mendigos necessitados de acolhida, marginais buscando integração

Que pensar e dizer de um homossexual com AIDS, marginalizado pela sociedade, cheio de culpa, cuja vida sempre foi um tormento?

Ou o que pode uma prostituta revelar de valor positivo, se sua vida foi uma constante aflição e culpa?

E um dogrado, no fundo do poço de sua crise existencial, poderá reivindicar que direitos diante de Deus?

E os hemofílicos ou acidentados que contraíram a AIDS por transfusão de sangue, bem como a massa de pobres que são atendidos nos hospitais públicos onde o controle do sangue (provindo do mercado dos bancos de sangue) é precário, terão eles a seu favor a inocência ou a fatalidade?

A partir da graça de Deus, o que nos faz dignos e aceitáveis diante de Deus é a sua aceitação incondicional. Isto quer dizer que qualquer pessoa, cristã ou não, também não possui o direito de advogar privilégios e prerrogativas e a partir delas, julgar, condenar e marginalizar as demais. Todos estamos num mesmo patamar: Somos todos carentes da graça, mendigos necessitados de acolhida, marginais buscando integração.

Quando um doente de AIDS, colocado ou não no rol dos assim chamados grupos de risco, se pergunta: Por que eu fui atingido?, também o amor gratuito de Deus tem comiseração dele. Uma volta à doutrina da graça incondicional de Deus possibilita novas relações entre as pessoas que, em nossa sociedade, são vistas unicamente pela perspectiva da produtividade e da eficiência, atoladas na competição e concorrência.

3. Castigo de Deus?

Um equívoco deve ser desfeito: Deus nãos castiga pela doença. A graça e o amor de Deus não punem mediante enfermidade e sofrimento. Deus nos ama mesmo quando tivermos e apesar de termos doenças ou sofrermos por outros motivos. É através do amor e do carinho que pessoas com AIDS e seus amados experimentarão vida mais plena. A crise da AIDS convida-nos a aprender que o amor incondicional de Deus não é um luxo, mas é uma necessidade básica da condição humana. O exemplo de Jó mostra que o sofrimento pode vir a uma pessoa a despeito de sua bondade, e através do ensino de Jesus aprendemos que a ligação entre pecado e doença está quebrada e a ligação entre perdão e amor é realizada.

4. Separação e marginalização

A AIDS poderia ser considerada a síndrome da separação e alienação entre pessoas e de todo o sistema que as envolve. Gera-se angústia e medo que, consciente ou inconscientemente, toma conta das pessoas em virtude da ameaça da morte, favorecendo o isolamento. Michel Mafesoli diz que a AIDS golpeia o próprio espaço onde se permuta a vida. Ela é uma ameaça à espécie, mas isto, não esqueçamos, em dois aspectos: enquanto doença mortal, mas também no sentido em que pode bloquear o próprio princípio de permutação, uma vez que a AIDS é bem uma doença do intercâmbio, da comunicação. Seus agentes são o sangue e o esperma. . .

5. Sexualidade e defesa da vida

A sexualidade é um dom de Deus a ser desfrutado e usado criativamente. Isto significará coisas diferentes a diferentes pessoas. Como todos os dons, ela pode ser abusada ou usada em prejuízo de alguém. Quando isto acontece, vidas e relacionamentos sofrem. A resposta de Deus a nossa ruína e sofrimento é cura e integridade, não punição e doença. Relação nenhuma causa AIDS. O vírus causa AIDS. Daí porque todos os esforços devem ser concentrados na luta contra esta força destruidora; esta força de morte chamada vírus HIV. Os cristãos proclamam a vida, isto é, a boa nova de que em Jesus Cristo Deus tomou a iniciativa de proclamar que a realidade da morte não é a realidade final. A mensagem cristã procura oferecer cura, conforto e vida mesmo num mundo partido. AIDS lembra-nos que nós somos criaturas mortais, vivendo vidas limitadas num mundo imperfeito. Todas as criaturas são amadas por Deus. A todos é oferecido conforto e alívio no sofrimento através da ação graciosa de Deus em nosso favor por Jesus Cristo. A vontade é saúde e integridade para toda a criação.

6. Oportunidades para a comunidade cristã

O ministério pastoral comunitário pode oferecer reconciliação, apoio e consolação. As necessidades espirituais de fé, esperança, perdão reconciliação, carinho humano e amor incondicional, não-julgador estão presentes. Luteranos e protestantes em geral deveriam estar familiarizados com o poder curador da graça. Há um lugar para o testemunho público que se coloca contra a intolerância, indiferença e discriminação. Neste sentido a AIDS introduz elementos novos nos sistemas teológicos elaborados nas últimas décadas. Não podemos agir como os amigos de Jó que, com uma atitude de superioridade e de certeza orgulhosa, marginalizam-no para que a sua desgraça caiba no seu sistema teológico e o seu mundo não seja perturbado. Por isso somos chamados e seguir o exemplo de nosso Senhor Jesus Cristo que encarnou em sua pessoa a graça por excelência. Colocou-se sem nenhum ar de superioridade ao lado dos sofredores e, em sua miséria, proclamou-lhes a boa nova de vida plena e abundante. A comunidade cristã é chamada a exercitar em palavras e ações aquilo que o apóstolo vivenciou em seu ministério, a saber, Fiz-me escravo de todos. . . fiz-me fraco com os fracos. . . (l Co 9.12,22).

II — Transição para a prédica

As reflexões acima expostas pressupõem uma leitura bíblica prévia. Por isso vários textos bíblicos poderão ser usados para a prédica, uma vez que ela é temática. Paradigmático poderia ser a relação de Jesus com os leprosos e doentes em geral. Destaque-se a cura do leproso em Mc 1.40-45 (e paralelos) em que se pode dar realce ao gesto de Jesus (v. 41) rompendo com todo o sistema de pureza estabelecido e deitando abaixo todos os preconceitos que envolviam os impuros.

A abordagem de Paulo com sua ênfase na gratuidade poderá estar ancorada em Rm 5.6-8, onde é explicitada a graça que antecede a vida cristã. Poderão servir também outros textos de Paulo, mas o acima citado vem ao encontro a toda a reflexão que foi desenvolvida anteriormente.

Agora, dependendo das circunstâncias, a parábola do amor do pai (filho pródigo — Lc 15.11-32) será de grande ajuda para a comunidade na descoberta da atitude de auto-suficiência e superioridade diante dos desviantes. Jesus justifica sua boa-nova perante seus críticos (filho mais velho) e conclama-os para a participação na festa do reino. Que eles não se escandalizem com a sua ação e pregação em favor dos desclassificados. Os piedosos, seguros em sua moral, são atingidos em sua consciência.

Assim, a ação gratuita de Jesus diante dos doentes, a atitude gratuita do pai para com o filho mais novo na parábola, desmascarando a intolerância do filho mais velho, e o amor de Deus que precede a tudo e a todos são elementos que poderão orientar a prédica neste tema espinhoso, cheio de preconceitos, ignorância e desinformação.

A verdade é que a grande tentação do pregador será a de enveredar no caminho do moralismo. Além de elencar dados relativos à doença (há dados em profusão em revistas, jornais, hospitais, médicos, etc.), o alvo maior da prédica deverá ser o anúncio do amor desmesurado de Deus e o desarme da relação culpa-doença, pecado-castigo, que é insustentável biblicamente (Lc 13.1-5; Jo 9.1ss). Neste contexto faz-se necessário romper com a compreensão generalizada de que a AIDS é uma doença de homossexuais. Esta posição não encontra amparo científico nenhum.

O anúncio do amor de Deus que quer vida para todos traz consigo o juízo das estruturas e sistemas de não-vida que vigem entre nós. Torna-se imperiosa a denúncia do sistema de saúde de nosso país que comercializa sangue humano e faz da doença um negócio, tornando o atendimento digno um luxo de poucos. Outrossim, a prédica poderá motivar para debates e palestras com médicos, psicólogos, assistentes sociais, etc., ou mesmo para ações concretas que envolvem os membros da comunidade.

Estrutura possível de uma prédica:

1. Introdução: informes e colocação do problema;
2. O amor de Deus;
3. Culpa-doença — sexualidade;
4. Vida para todos — saúde pública;
5. Ação concreta.

Outra possibilidade seria a distribuição e leitura da carta pastoral da presidência da IECLB (886/89) e usá-la como ponto de partida para uma reflexão bíblica em que se reforçariam alguns aspectos ali expostos.

Ill — Auxílios litúrgicos

1. Hinos: 166 (HPD) e Seu nome é Jesus Cristo

2. Intróito: Sl 62.2-8

3. Confissão de pecados: Pai de nosso Senhor Jesus Cristo! Reconhecemos que em nossa auto-suficiência e prepotência esquecemos que tu és nosso criador e mantenedor. A AIDS faz-nos descobrir novamente aquilo que esquecemos ou queríamos ignorar: que somos mortais!
Pedoa-nos o descaso e indiferença com que olhamos nossos irmãos doentes, condenando-os, imputando-lhes culpa. Renova-nos com a força de teu Espírito, dando-nos novos olhos, para sermos benevolentes; novos ouvidos, para ouvir os gemidos de dor; nova boca, para transmitir palavras de consolo; novas mãos, para amenizar a dor e o sofrimento; novo coração, para sentir e amar o outro como nosso irmão. Por Jesus Cristo, teu Filho amado. Amém!

4. Leitura bíblica: Algumas das passagens supra-mencionadas ou Carta pastoral n° 886/89 da presidência da IECLB

5. Oração final: Oração de um aidético*: Senhor Deus, nosso Pai de Amor, Misericórdia e Justiça, aqui neste leito de dor e angústias, com o corpo enfraquecido, mas a alma de joelhos e resignada, agradeço, Senhor, não pela dor em si, mas por tudo que ela me ensina e faz ver.

Meu Deus, apesar de saber que tenho doença considerada incurável — incurável para os homens, e não para Ti — louvo teu nome por saber que és autor maior da vida, e, portanto, nos deste a morte, não para o fim, mas para o contínuo começo do progresso e redenção.

Portanto, Senhor dos sofredores, te peço todas as forças para minha alma, e que essa mesma força se faça sentir no meu corpo, se for de tua vontade. Imuniza-me, Senhor da força, contra a revolta, a tristeza, o desespero e a desolação, que são mais mortais que esse vírus. Sei, Grande Amigo, que minha doença não é castigo como podem pensar muitos, mas a grande oportunidade de me redimir e reformar.

Assim sendo, ó Pai, esse cálice de amarguras nada mais é que poderoso tónico de minh'alma, para que ela possa dar vitalidade a si mesma e reluzir na fonte da Vida maior, que sou eu mesmo, me preparando para atravessar uma ponte de dor, para o outro lado de ternas consolações, onde todos nós aidéticos nos encontraremos com nossos irmãos que já partiram. (Este parágrafo poderá ser modificado. Espelha a compreensão do autor.)

E lá não seremos mais chamados aidéticos, mas vencedores junto a Jesus, Teu Filho e irmão Nosso. Amém! (T. R. F., ex-travesti e aidético, Rio de Janeiro)

IV - Literatura auxiliar

- PL VI, p. 258ss e PL XII, p. 241ss sobre Mc 1.40-45.
- Comunicações do ISER, Ano 4, no 17 (1985) e Ano 7, 31 (1988).
- Carta Pastoral n° 886/89 da Presidência da IECLB.
- Revista do CEM, Ano X, no 2 (1988)
- Contact 56, outubro 1987 - Comissão Médica Cristã do CMI
- EKD Texte 24 — AIDS: Orientierung und Wege in der Gefahr
- LWB - Dokumentation n: 25, Novembro 1988 - Seelsorgerische Arbeit in Bezug auf AIDS
- Dirschauer, K/Skriver, A. Bedrohung durch AIDS. Lutherische Monatshefte 1988(3)
- Bock, Martin. AIDS-Hilfe vorbereiten. Lutherische Monatshefte 1988
- Westphal, Hinrich C. G. Zum AIDS-Problem. Lutherische Monatshefte 1988(9)

• A terminologia usada data dos anos ’80. A linguagem politicamente correta adotada posteriormente não fala mais em “aidético”.
 


Autor(a): Rolf Schünemann
Âmbito: IECLB
Área: Missão / Nível: Missão - Diaconia / Subnível: Missão - Diaconia - Saúde e alimentação
Área: Missão / Nível: Missão - Acompanhamento e consolação
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1989 / Volume: 15
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 13484
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A intenção real de Deus é, portanto, que não permitamos venha qualquer pessoa sofrer dano e que, ao contrário, demonstremos todo o bem e o amor.
Martim Lutero
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