Apocalipse 21.1-5

Auxílio Homilético

13/05/2001


Prédica: Apocalipse 21.1-5
Leituras: Atos 13.44-52 e João 13.31-35
Autor Paulo A. Daenecke
Data Litúrgica: 5º. Domingo da Páscoa
Data da Pregação: 13/05/2001
Proclamar Libertação - Volume: XXVI


1. Os textos num piscar de olhos

O novo tempo da graça está aí. A grande revelação aconteceu. Páscoa foi há pouco celebrada. O anúncio da vitória permanece. A esperança se renova na fé que se fortalece. O tempo da escuridão é ofuscado pela luz. Ela é resistente, imbatível, insistente.

A celebração da ressurreição de Jesus Cristo, o Senhor dos senhores, o Deus encarnado nos gestos de amores, que vê a aflição e ouve os clamores, é o sintoma profícuo do grão que, lançado no chão, germinou, produziu seus frutos, que, espraiados no terreno da vida, encontraram a suficiente fertilidade para favorecer a contínua efervescência da mobilidade da fé.

A leitura de Atos destaca a palavra, o zelo dos apóstolos, a luz, o conflito, a ruptura, a f é e a alegria.

O Evangelho de João aponta para a presença e ausência, glorificação e vida na vivência do amor.

O Apocalipse enfoca a esperança de concretização do novo céu, da nova terra, da alegria, da festa, da superação das dores e sofrimentos, da perene celebração e aliança de Deus com o seu povo. Pois Deus habitará com eles. Eles serão povos de Deus e Deus mesmo estará com eles. E lhes enxugará dos olhos toda lágrima, e a morte já não existirá, já não haverá luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras coisas passaram (v. 4-5).

2. Opressão e resistência

Um acirrado conflito. Uma terrível crise e opressão. Uma perseguição escandalosa das forças do Império Romano contra o grupo de cristãos e cristãs dá o tom e o toque das ardilosas estratégias para desmontar a fidelidade do povo sofredor (Is 52) neotestamentário das primeiras comunidades cristãs.

Culto ao imperador, era a voz dos ufanados imperialistas; culto ao Deus dos oprimidos e libertador era a reação cada vez mais ousada daquela espezinhada cristandade. As antagônicas e antagonizadas forças lutavam cada qual com sua, assim especulada, supremacia.

Haveria um fim? Haveria um vencedor nessa batalha? O que aprender não só dos sintomas, mas também das cicatrizes profundas já evidentes de corpos e vidas dilaceradas constantemente?

Proclamar libertação, viver o evangelho, redescobrir a fé, renovar o compromisso do amor prático, fortalecer a comunhão à luz da oração são ingredientes essenciais da receita que prepara e tempera a massa que se transforma em alimento que nutre o povo na abertura do caminho e construção do seu espaço de expressão da dignidade, direito e valor.

João, portanto, em seu perspicaz espírito criativo, dinâmico, inventivo, leva às comunidades, sob a forma de simbologia, o néctar da animação e resistência contra o poder opressor imperialista romano. Entremeado de selos, besta, dragão, candelabros, trono, trombetas, vozes, ele descreve a dura realidade das primeiras comunidades cristãs no algoz emaranhado que o Império lhes impõe. É fundamental que se tenha claramente posto que o Apocalipse é uma mensagem de esperança para uma época de hedionda perseguição e quer manter no povo oprimido a perseverança na fé e a resistência às forças opressoras.

As comunidades da Ásia Menor - Éfeso, Esmirna, Pérgamo, Tiatira, Sardes, Filadélfia e Laodicéia ( Ap 2-3 ) - são abastecidas pelo alento joanino, no contexto dos anos 90-96 d.C., sob a opressiva ação do imperador Domiciano, ainda que já houvesse antes e conti¬nuem em ciclos posteriores, perseguições que martirizaram pessoas e grupos. Os capítulos anteriores a Ap 21.1-5 enfocam esse sofrimento, cuja descrição já vai se delineando ao longo dos capítulos, a exemplo da fúria do dragão que se abate sobre a terra. Uma besta emerge do mar, recebendo do dragão o seu poder, besta que blasfe¬ma Deus, exige adoração e oprime os santos. Representa esta fera o poder do Império Romano que exige culto a César como se fosse ele o próprio Deus. Entram por isto em violenta colisão a comunidade cristã e o estado romano, produto de Satanás em pessoa (Ap 13.1-10) (Brakemeier, p. 75).

3. Redescobrindo a fé

A luta é feroz. Precisa acontecer. É o desenrolar da história, que traz em seu bojo um conteúdo dinâmico que, na situação das comunidades, ainda tem um inimigo a vencer, ou seja,resta ainda o dragão, o próprio Satanás. No entanto, João vê descendo um anjo do céu com uma corrente em sua mão. Este lança o dragão em cadeias e o atira ao abismo, onde fica em reclusão por mil anos. Acontece então a primeira ressurreição, a dos mártires e dos que trazem o signo de Cristo em sua testa... por ser a ressurreição para a vida, é bem-aventurado quem nela for julgado digno de participar (Ap 20.1-6 ) (Brakemeier, p. 77).

O capítulo 21 é a porta de entrada para o novo. Novo tempo. Nova realidade. Ele descreve a perspectiva da superação dos conflitos e sofrimentos. É a mensagem viva presente naqueles e naquelas que persistem e perseveram na fé, na esperança, no amor. Ainda que as agruras sejam fortes e quase imbatíveis, João assevera que a vitória de Deus é consumada com a criação de um novo céu e uma nova terra, na qual se encontra a nova Jerusalém. Deus mesmo vem aos homens. É o novo mundo diferente do velho. Não mais haverá dor nem pranto, nem sofrimento nem morte. Deus faz novas todas as coisas, prometendo ao vencedor a participação na glória futura, em sua nova criação (Ap 21.1-8). (Brakemeier, p. 78)

A descrição de Ap 21.1-5 (6-8) resume os detalhes minuciosos e precisos dessa visão que ilumina a vitória da vida em sua plenitude, ratificando a possibilidade da não subserviência aos poderes malignos. Isto se clarifica à medida que à descrição da nova Jerusalém, a radical antítese à velha Babilônia, é dedicada muita atenção (Ap 21.9ss). Construída de preciosíssimo material e alicerçada no fundamento dos doze apóstolos (cf. Ef. 2.20), essa cidade, a noiva do Cordeiro, é de inigualável beleza e esplendor. Na verdade, porém, ela não é descritível com palavras humanas. Forma um cubo de gigantescas dimensões. Ele simboliza isso à perfeição. Impureza e pecado nela não têm lugar. Inclusive ela não tem necessidade de templo, pois a presença de Deus e do Cordeiro é imediata, e na cidade ressoa sem interrupção a glória de Deus. Com esse novo mundo, aliás, se restabeleceram as condições do paraíso perdido (Ap 22. 1-5). O rio da água da vida e a árvore da vida caracterizam a recuperação do estado original. Simultaneamente, porém, o novo excede o antigo. Pois na nova Jerusalém não mais haverá nem sol, nem lua, e ainda assim não se fará noite. Tudo será luz, pois Deus mesmo iluminará as pessoas, e elas reinarão de eternidade em eternidade (Ap 22.5) (Brakemeier, p. 78).

4. No sofrimento: esperança ativa

Os anos 90 d.C. concentram o foco apocalíptico joanino; é neste espaço que ele brota e floresce. É a flor que desabrocha entre pedras e espinhos. Irradia alento, confiança, nova paisagem, na descrição de Ap 21.1-5; o sinal da nova criação, inteiramente gratuita, cuja origem está no poder de Deus. Esta novidade se refere à Aliança, ou à união dos homens com Deus. A nova Jerusalém, a Noiva enfeitada para o Noivo, é a Humanidade inteiramente renovada, que irá unir-se definitivamente com o seu Esposo, o Cristo Ressuscitado. É a Esposa do Cordeiro que viverá de sua vida (Ap 22.9) (Gorgulho, Anderson, p. 196).

Sinais fundamentais caracterizam esta novidade, assim elencados:

É a presença de Deus que se comunica com os homens (= homem e mulher): Deus se dá em comunhão e habita com eles (v. 3); realiza-se a união plena da Aliança, cuja fórmula é relembrada: a união se realiza pelo Deus-com-eles, o Emanuel, que assegura a presença de Deus entre os homens; não existe mais sofrimento ou privação (v. 4); a Vida é comunicada plenamente, e os homens tornam-se filhos de Deus, participando do seu próprio ser (v. 5)... (Gorgulho, Anderson, p. 197).

5. Sinais de vida - revelação de Deus

Esta visão de futuro, não apenas reformado, mas novo, dinamizado no Apocalipse de João, alimenta a caminhada presente do povo em sua esperança e resistência, em sua confiança no auxílio e misericórdia de Deus (Lm 3.22ss).

Há um olhar para trás que lembra a criação de Deus (Gn), contudo das coisas antigas, nada sobrou. Tudo se foi (Ap 21.1-4)! E Deus proclama: Sim, faço novas todas as coisas! (Ap 21.5) (Mesters, p. 76). Há uma releitura do paraíso terrestre que foi contaminado e se contorce em dores e sofrimento. Porém, não haverá mais morte, nem luto, nem choro, nem dor (Ap 21.4)! Deus enxuga as lágrimas que ainda sobraram (Ap 21.4). Ele dá de beber da fonte da água da vida (Ap 21.5). (Mesters, p. 77). Há redescoberta da aliança de Deus com o povo no processo de libertação como antigamente, depois da saída do Egito, também agora Deus vem morar com o seu povo (Ap 21.3). Estende sobre ele a sua tenda (Ap 21.3) e pronuncia as palavras da aliança. Ele diz ao povo: Eu serei o seu Deus, e vocês serão o meu povo! (Ap 21.3). E ele diz a cada um em particular: Eu serei o seu Deus, e você será o meu filho! (Ap 21.7). Deus faz a aliança com o povo todo e com cada um particular! É a perfeita harmonia do povo entre si e do povo com Deus; do indivíduo com a comunidade e da comunidade com o indivíduo! Ninguém se perde nem no anonimato da massa do povo, nem no individualismo de uma fé que só pensa em si... (Mesters, p. 77).

6. Novo mundo - alegria e vitória da fé

O texto bíblico de Ap 21.1-5 expressa a vivacidade da vida no Reino de Deus; a vitória sobre os poderes malignos arremetidos con¬tra n dignidade, direito e liberdade, cujo processo se dá em meio ao turbilhão de desgraças sofridas. Eis aí, na descrição de Ap 21.1-5, os frutos de uma esperança e fé ativas que as provações não tiveram poder de sufocar.

A alegria é sinal de vitória, é festa, é celebração; mas para alcançá-la é necessário não resignar e crescer no entendimento de que a paciência (constância) é a grande virtude dos perseguidos. Esta palavra exprime a atitude do cristão que espera e persevera. Pela paciência o cristão espera a vinda de Cristo, que o introduzirá no Reino, junto a Deus. Esta espera da vinda de Cristo se traduz praticamente pela perseverança e pela fidelidade, apesar das dificuldades presentes. O princípio da paciência é, portanto, a fé em Jesus que vem, sua característica é a força interior que permite perseverar, e ela se exerce praticamente pela constância nas perseguições (Lesbaupin, p. 85).

A coragem vivifica. Nada, portanto, de conformismo diante das injustiças, nada de acomodações diante das dominações políticas, econômicas ou ideológicas, nada de reducionismo diante da urgência da missão a cumprir, pois não se trata tão-somente de uma luta espiritualista e individualista (Rubeaux, p. 76), no entanto, é a concretização da promessa e vontade de Deus, cujo centro é a mensagem da vitória da fé, do Jesus Cristo ressuscitado, vencedor, que age na história e abre à humanidade uma nova possibilidade. A possibilidade de um mundo novo, de uma nova paisagem, firmada na dignidade, justiça e paz, que vai se gestando já na história, nos jeitos e gestos da vida abundante.

Descubra na sua localidade focos de opressão e perseguição motivados pela fé. Anime a sua localidade para o exercício da dignidade.

Celebre as vitórias que a perseverança e a resistência ajudaram a conquistar.

Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas (Ap 2).

Bibliografia

BRAKEMEIER, Gottfried. Reino de Deus e esperança apocalíptica. São Leopoldo : Sinodal, 1984.
GORGULHO, Gilberto S., ANDERSON, Ana Flora. Não tenham medo. 2. ed. São Paulo : Paulinas, 1978.
LESBAUPIN, Ivo. A bem-aventurança da perseguição. 2. ed. Petrópolis : Vozes, 1977.
MESTERS, Carlos.; A esperança de um povo que sofre. 9. ed. São Paulo : Paulinas, 1983.
RUBEAUX, Francisco. A luta permanente. Estudos Bíblicos, 2. ed., Petrópolis : Vozes, vol. 6.


Autor(a): Paulo Augusto Daenecke
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Páscoa
Perfil do Domingo: 5º Domingo da Páscoa
Testamento: Novo / Livro: Apocalipse / Capitulo: 21 / Versículo Inicial: 1 / Versículo Final: 5
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 2000 / Volume: 26
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 17611
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Colossenses 2.6-7
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