Apocalipse 22. 10-16

Auxílio Homilético

01/12/1984

Tema: Comunidade cristã: instrumento ou entrave para as lutas populares? Uma avaliação.

Explicação do tema:

Fim de ano é época de balanço e avaliação. Nas comunidades cristãs revisam-se normalmente as contas e projetam-se os orçamentos. Por que não avaliar também, e prioritariamente, se, onde e quando a comunidade e seu pastor acompanharam seus membros nas lutas populares por libertação e transformação social? Muitas vezes membros participam em associações de bairro, sindicatos e outros movimentos reivindicatórios sem a solidariedade e o apoio de sua comunidade de fé. Quantas vezes, ao invés de apoiar, a comunidade se omitiu ou então se levantou como instancia harmonizadora ou até mesmo repressora? Se fé, esperança e amor vão de mãos dadas, em que a comunidade ajudou a organizar e a levar adiante a luta dos desempregados, operários, sem-terra, atingidos por barragens, empregadas domésticas, peões, agregados, índios, etc.?

Texto para a prédica: Apocalipse 22. 10-16

Autor: Leonídio Gaede

l — Introdução

Nos moldes tradicionais, uma comunidade religiosa geralmente é uma salada de categorias sociais: tem professores, estudantes, colonos, comerciantes, empregados, patrões e muitos outros. Além dis só, se a falta de sentido ainda não afastou uma classe, não raras vezes o pregador e a pregadora têm entre seus ouvintes orelhas dominadas e dominantes. Ou então, se a desapropriação de sentido peneirou os frequentadores de culto, isto ainda não significa que os desapropriados estejam excluídos do quadro de membros da comunidade. Em outras palavras, pode até ser que ou o pobre ou o rico tenha deixado de frequentar a igreja, mas dificilmente por esse motivo terá sido riscado da lista. Seja rico, seja pobre, contra ou a favor, na hora do Batismo, do enterro, do casamento ou da Santa Ceia, ele aparece.

Por outro lado, de reunião em reunião, de greve em greve e abaixo de repressão e mais repressão, a sociedade brasileira vai-se organizando por categoria e por bandeira. Assim, dia após dia vai ficando mais patente — e para cada vez mais gente — a luta de classes no Brasil. Ao pregador e à pregadora cabe a pergunta: como se situam os serviços da minha comunidade em relação a esta realidade?

Muitas vezes a ação social da Igreja de Cristo através da comunidade local é reprimida por preconceitos criados pela assistência social do tipo caça-votos, desenvolvida e mantida por grupos político-partidários dominantes. Isto é altamente pernicioso. E por causa disto não é mais surpresa para o pastor e a pastora quando uma pessoa extremamente bondosa com seus vizinhos, de repente, se opõe a uma ação concreta a favor de um grupo de oprimidos. Neste balanço de fim de ano pode, portanto, também ser oportuno avaliar como se lida com esse preconceito enraizado principalmente na classe média que, por causa de sua história, enxerga desapropriação e desestabilização em tudo que não segue a rotina.

II— O texto e a base da pregação

O impulso de pensar que é difícil de entender e explicar o Apocalipse deve, no m mimo, ser levado conscientemente a sério no preparo da pregação.

Há duas formas simplistas de se falar do Apocalipse:

a) Situar o texto na sua época e depois chegar à conclusão de que ele ainda tem uma mensagem para os dias de hoje, porque até parece que naquela vez foi que nem é hoje.

b) Perceber a profecia do texto e chegar à conclusão de que ela é eterna (o Apocalipse fala do fim do mundo).

O pregador deveria se abster de tomar água desses dois poços, porque a água deles vem da barragem construída pela confusão de método e conteúdo, hermenêutica e fé. A única fonte no Apocalipse que com certeza vem da rocha eterna (Jesus Cristo) é a fonte que podemos identificar com as palavras cruz e repressão.

O Apocalipse não foi inventado pelos cristãos. Ele é uma forma de transmitir uma mensagem; forma esta que os cristãos adotaram para transmitir a mensagem de Cristo. Por isso a questão não é o Apocalipse, mas a questão é o Cristo. O Apocalipse é só o vaso onde a flor vai dentro; e vale dizer: é um vaso bom de carregar a flor em tempo de cruz e repressão.

Para clarear, um exemplo negativo: uma causa do grande lucro que o tráfico da maconha rende é a sua proibição.

Há uma eficiência: o lucro;
há uma forma: o tráfico clandestino;
há uma situação: a proibição.

Façamos a ponte:

Há uma eficiência: Cristo é exaltado;
há uma forma: o Apocalipse;
há uma situação: a cruz/repressão.

Com esta chave podemos entrar no texto previsto (Ap 22. 10-16): O anjo de Jesus veio dizer às igrejas que Jesus — o nascido para ser rei, o A e o Z — está para vingar (no sentido da planta que vinga) com a distribuição do que é justo para todos.

Que continue
                 o injusto, sujo, cão, feiticeiro, impuro, assassino, mentiroso,
produzindo
                 injustiça e sujeira.

Que continue
                o justo, santo, limpo,
produzindo
                justiça, santificação e garantia de vida.

Em outras palavras, o texto diz: É hora de balanço. (Em princípio a gente se assusta porque imediatamente vem a pergunta cadê a chance de conversão? A resposta a esta pergunta nos desafia a deixar a mania de sempre falar sobre tudo. O texto determina o que vamos falar.)

Ill — A prédica

A prédica poderá incluir uma constatação: a organização popular no Brasil vem-se aperfeiçoando de ano para ano (é claro, a força da repressão ainda é muito grande). As greves que irromperam em 1978 acabaram sendo um marco final para os anos escuros que se seguiram a 1964. Com todas as falhas, o movimento avança no sentido de ganhar força através da união de mais segmentos. Cada vez mais se entende que, sem dinheiro e sem exército, o único poder popular é a força da união. Continue o injusto fazendo injustiça... o justo continue na prática da justiça.

Uma figura poderá ser útil: Tem gente, na frente da televisão, afundada em confortáveis poltronas e em pesados bancos (dívidas), que, entre um e outro aperitivo, discute novela, futebol, guerra no Oriente e presidenciáveis. Qual está sendo o assunto, nesta hora, numa celebração de CEBs, numa reunião de associação de vila, numa assembleia de metalúrgicos, num encontro de sindicalistas autênticos? Continue o injusto fazendo injustiça... o justo continue na prática da justiça.

Um simples relato pode ajudar; sobre como, por exemplo, os desempregados, os meeiros, os bóia-frias, os sem-terra, os pequenos colonos, o STR, as empregadas domésticas, os atingidos por barragens etc., de tal e tal lugar, em tal dia se reuniram e decidiram isto e aquilo. Continue o injusto fazendo injustiça... o justo continue na prática da justiça.

O convite insistente à oração em favor de grupos oprimidos bem conhecidos e a favor do trabalho junto com estes grupos é muito favorável à unidade dos membros.

IV — Subsídios litúrgicos

1. Confissão de pecados: Santo Deus, misericordioso Pai, por tua graça vivemos este fim de ano com a esperança de ver um ano novo e bom. Pedimos-te perdão pelos erros praticados e pelas omissões no ano que passou. Perdoa que a força da organização popular não conseguiu impedir que trabalhadores rurais morressem envenenados e assassinados. Perdoa que os rios e ares continuam sendo poluídos sem que teu povo imponha a sua voz. Perdoa a lentidão com que avança a campanha pela Reforma Agrária. Perdoa que o povo da periferia de muitas cidades ainda não conseguiu ocupar e destinar ao bem comum todo solo urbano mal aproveitado. Por Jesus Cristo, vencedor da cruz e da repressão, nós te pedimos: tem piedade de nós, Senhor!

2. Oração da coleta: Senhor, tu que nos reuniste para este culto, reúne também nossos espíritos para que, unidos em um só pensamento, nos alegremos com todos os benefícios que concedeste, no ano que está findando, aos.... (citar grupos oprimidos conhecidos). Concede-nos neste culto força e ânimo para desistirmos de nossa cega autodefesa que sempre nos impede de apoiar a luta dos oprimidos. Por Jesus Cristo que, contigo e com o Espírito Santo, vive e reina eternamente. Amém.

3. Leituras bíblicas: Lc 13.6-9; Mt 10.34-39.

4. Assuntos para a oração final: Oremos por todos os indefesos da nossa sociedade - crianças, velhos, doentes e presos - para que eles nos contagiem com a força que têm de suportar o sofrimento sem resultado, e com a esperança; pela UNE, para que a luta seja em favor da transformação do sistema de educação, de empresa lucrativa para instrumento de libertação nacional; pela CUT, para que desperte trabalhadores que suando o dia inteiro nem têm tempo para pensar e una a camada mais grossa do país: os trabalhadores empobrecidos; pela CONTAG, para que seja instrumento de reivindicação na mão de colonos; pelos grupos específicos que movem as reivindicações em nível local, para que cresçam e ganhem muitos amigos na região.

V – Bibliografia

- GOPPELT, L. Teologia do Novo Testamento, v. 2. São Leopoldo, 1982.
- MESTERS, C. Esperança de um povo que luta - O Apocalipse de São João. São Paulo, s.a.
- SCHRAGE, W. et allii. Apocalipsismo. São Leopoldo, 1933.


 


Autor(a): Leonídio Gaede
Âmbito: IECLB
Testamento: Novo / Livro: Apocalipse / Capitulo: 22 / Versículo Inicial: 10 / Versículo Final: 16
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1984 / Volume: 10
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 14639
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