Apocalipse 3.7-13

Auxílio Homilético

11/12/1977

Prédica: Apocalipse 3.7-13
Autor: Renatus Porath
Data Litúrgica: 3º Domingo de Advento
Data da Pregação: 11/12/1977
Proclamar Libertação - Volume: II
Tema: Advento

1. Preliminares

Raramente é proposto um texto do último livro da bíblia no calendário eclesiástico. Apenas a época do advento, por causa do motivo 'vinda ', faz-nos lembrar dos textos apocalípticos. Já pelos reformadores, o livro do Apocalipse foi tratado com certa cautela, mas não lhe negaram a canonicidade. Com certeza, ele também não é nossa leitura predileta. Por isso cabem aqui algumas notas explicativas. Apocalipsis significa revelação. Sua ênfase sempre foi a história. Já no apocalipsismo judaico, onde o Apocalipse joanino tem suas raízes, a preocupação estava voltada para o futuro da História. Em épocas difíceis, homens interpretavam o curso da história e previam acontecimentos do futuro para dar esperança aos que viviam no presente difícil. O apocalipsismo, visto a partir da perspectiva do evento de Jesus Cristo, não é mais particular, restrito ao povo de Israel. Ele rompeu os limites e tornou-se interpretação da história universal. Apocalipse preserva a herança do AT que Deus é um Deus da história. A salvação deste Deus faz com que essa história se movimente para um alvo. A partir desse centro, devemos avaliar todos os detalhes do apocalipse, para não nos perdermos em incansáveis especulações.

Na atualidade, o tema do Apocalipse esperança ultrapassou os muros cristãos e desempenha um papel importante no marxismo. Esse, por sua vez, desafia a comunidade cristã a recobrar a potencialidade que é a esperança cristã com todas as suas implicações aqui e agora. Neste sentido não deve ver o apocalipse como consolo barato para uma um além distante, mas como testemunho de que Deus é Senhor da história e que as rédeas não lhe escaparam de suas mãos. A promessa que encontramos no último livro não nos leva à passividade, mas nos impulsiona em direção ao que foi afiançado já na realidade social em que vivemos. Este texto do Apocalipse pode nos contagiar com a dinâmica da esperança que pulsa nesse livro.

1.1 – Contexto

A perícope (3,7-13) está inserida na primeira parte do livro, onde o autor trata das coisas presentes (1,19 as que são). A segunda parte perfaz o tema principal, tratando de eventos futuros. Essa abrange Ap 4,1 a 22,5. A carta a Filadélfia é a penúltima das sete cartas dirigidas às comunidades da Ásia Menor. Mesmo que Ap 1,19 sugere esta divisão, as cartas foram escritas à luz das coisas que estão por acontecer. Toda frase está cheia de expectativa e de espera pela vinda do Cristo exaltado. Venho sem demora, ele mesmo diz (3,11). As sete cartas não circularam independentemente, mas já foram compiladas dentro do corpo maior que é o livro de Ap. Assim todas as comunidades receberam ao mesmo tempo as sete cartas. O número sete significa a totalidade. Disto presume-se que são dirigidas a toda a igreja, representada pelas sete. Suas referências às comunidades são históricas, mas isto não é empecilho para que continue escrito de exortação para a igreja de todos os tempos até que ele venha.

1.2 - Texto

O texto apresenta uma estrutura clara: a) Ordem de escrever - v.7a; b) Auto-apresentação daquele que dá a ordem - v.7b; c) Elogios à comunidade - vv. 8-9; d) Promessa e exortação - vv. 10-1 l; e) Conclamação à vitória e promessa – vv..12-13.

v.7 A carta é dirigida ao anjo da comunidade. Para alguns ele é o bispo que a representa. Comparando-se, porém, este termo com uma outra paralela (1,20), percebe-se que anjo aqui representa o que E. Schweizer chama de existência espiritual. Como os 7 espíritos (1,4) perfazem a totalidade do agir de Deus em relação às comunidades, assim os 7 anjos correspondem à resposta dada ao agir salvífico. É, em outras palavras, a realidade criada pela intervenção libertadora de Deus. Significa que a comunidade de Filadélfia deve sua existência à ação de Deus em Cristo. Filadélfia provavelmente foi a cidade de menor porte e de menor importância em relação às demais cidades citadas. Sabemos que recebeu seu nome do fundador Atalo II, chamado Filadelfos de Pérgamo (159-138 a.C.). Era assolada frequentemente por terremotos e por isso tinha que recorrer à ajuda estatal. A pequena comunidade cristã, lá existente, recebeu ainda mais tarde, de Inácio de Antioquia, o mesmo elogio. Só elogios são atribuídos a essa insignificante comunidade, como igualmente aconteceu com Esmirna.

Quem fala a ela é o próprio Cristo Exaltado. Ele se apresenta com predicados repetidos várias vezes no livro. ‘Santo’ e ‘verdadeiro’ são títulos divinos. Esses atributos ele quer atribuir aos que lhe pertencem. Ele quer abarcar o homem com sua santidade e sua verdade. Só por isso a comunidade pode corresponder as características de Cristo. A auto-apresentação continua, citando Is 22,22. Aqui significando o poder que lhe assiste de dar ou não acesso ao reino messiânico. Ele abre a porta à comunidade de Filadélfia. Além de ser autodesignação, ela encerra uma promessa.

v.8 - O elogio se refere as obras que são a expressão da vida da comunidade. Pode parecer estranho que uma comunidade com pouca força (dinamis) recebe um juízo tão positivo. Será que se pensa no pequeno número? Ou seus membros não eram pessoas de destaque? Ou talvez faltam certos carismáticos no sentido de l Co 1,4? Este pequeno potencial não é camuflado, nem escondido. Fala-se abertamente sobre sua situação, isto em si já é uma obra positiva: aceitar sua pouca força como dada por Deus. Mas a obra especificamente positiva é: Guardaste minha palavra e não negaste o meu nome. Este é o real motivo de todo o elogio à Fi1adélfia. Este é o critério para avaliar até onde uma comunidade é ou não é autêntica e verdadeira. É uma completa inversão de nossos valores. A vida da comunidade consiste em receber (palavra) e no dar (testemunho). A igreja tem o tanto quanto ela der adiante. Não deve ser coincidência, se Esmirna, que também só é elogiada, é uma comunidade pobre (2, J). A pobre e a de pouca força, segundo o juízo do Senhor Exaltado, correspondem mais aos traços da comunidade verdadeira e autêntica. Exatamente assim se manifesta a realidade de Deus em Cristo (II Co 11,30; 12,5). À Filadélfia é prometida uma porta aberta, a qual ninguém pode fechar. Quando Paulo fala em porta aberta (Co 16,9; II Co 2,12) , ele pensa em novas perspectivas para a atividade missionária. Aqui porta aberta tem um sentido mais amplo. A pouca força tem seu lugar nos grandes planos do Pantocrator. A pequena Filadélfia está inserida no grande evento da vinda do Reino de Cristo neste mundo. O reino messiânico para o qual o Cristo exaltado abriu a porta (v.7), já irrompeu e abrange a atividade missionária de Filadélfia.

v.9 - A comunidade triunfará sobre todos seus adversários que agora a afligem. Entre eles são mencionados os judeus que nos primeiros decênios eram os perseguidores mais ferrenhos. Eles não são mais povo de Deus, mas Sinagoga de Satanás. Satanás é o poder que quer destruir o que pertence a Deus. Trata-se da pergunta: quem são os verdadeiros judeus - os que assim se declaram ou os cristãos? A decisão da carta é: A comunidade cristã é o verdadeiro Israel e não os judeus. Os cristãos não são homens melhores ou mais piedosos do que os outros. Mas eles sabem que são amados (escolhidos) imerecidamente. Quem reconhece isto não é mais adversário, mas se torna testemunha do amor de Deus em Cristo.

vv. 10/11 - A comunidade com pouca força orientou sua vida conforme a palavra deste Jesus que a convoca a perseverar. Experimentou assim que na comunhão com Jesus recebe força para aguentar. Como recompensa, o Senhor quer guardá-la na hora da provação que sobrevirá a todos os habitantes da terra. O conflito entre os comprometidos com Deus através de Cristo na comunidade, e os separados de Deus, sem Cristo no mundo, perpassa toda a história (conforme o Ap.) e vai se intensificar no seu fim. Esta é a provação constante da comunidade, viver no mundo sem ser do mundo. Até a breve vinda do Senhor vale segurar-se na palavra, e o Senhor desta palavra promete segurá-la na provação máxima que atingirá a todos. A comunidade não será poupada desta provação, mas será sustentada (cf. também Jo 17,15).

vv. 12/13 - Como todas as demais cartas, esta também termina com as promessas para o vencedor. O autor vale-se da figura da competição no estádio, onde o atleta não poupa esforços para sair vencedor. Essas promessas para o vencedor querem, por um lado, mostrar a gravidade da luta e, por outro lado, estimulá-lo à esperança no futuro de Deus. Com isso estamos dentro do tema do Apocalipse: A esperança no futuro que pertence a Deus quer determinar o presente da comunidade.

Cristo mesmo quer fazer do vencedor coluna no santuário de meu Deus e acrescenta expressamente: e daí jamais sairá. No judaísmo, Abraão e os piedosos eram chamados colunas. Também os apóstolos na comunidade primitiva (Gl 2,9; Ef 2,19-22). Na arquitetura, a coluna tem a função de sustentar a construção. Aquele que sair vencedor será incluído no todo do santuário, onde assumirá a responsabilidade de sustentar. Provavelmente santuário e cidade são idênticos. Referem-se ao Reino de Deus consumado, a cujo serviço a comunidade de Filadélfia está agora. Com o nome de Deus, são designados propriedade exclusiva dele. E a inscrição do nome nova Jerusalém lhes confere cidadania nesta cidade. A esperança cristã não é algo individualista, isto o emprego do termo cidade nos proíbe. A esperança e o futuro dos cristãos não é idêntico com alguma das melhores sociedades possíveis, nem um projeto ou expectativa por situações ideais. Esperança cristã é esperança em nome de Deus por algo novo que homens não podem arquitetar. Isto significa que a cidade de Deus tem algo a ver com nossas cidades. A fuga da realidade é negação do nome daquele em quem esperamos. Neste sentido o futuro prometido determina a vida do homem com seus planos, suas construções e seus projetos. Só assim os cidadãos das cidades onde vivem os cristãos crerão naquele que vai criar novo céu e nova terra. Vale, enfim, ressaltar que a pessoa não é esquecida ao ser integrada definitivamente na futura comunidade, isto é, na nova cidade. Através do recebimento do nome a pessoa permanece com seu devido valor. Ao viver esta esperança, o cristão tem que levantar sua voz quando a pessoa é esmagada nos grandes projetos aqui e agora.

A promessa deste futuro absoluto de Deus é o estímulo que pode conservar a cabeça erguida de uma comunidade com 'pouca força' e ameaçada por todos os lados.

Escopo: A comunidade com pouca força corresponde mais às características de seu Senhor, porque está atenta à sua palavra. Assim ela pode confessar seu Senhor e este Ihe promete ampará-la nas provações e lhe garante participação no futuro de Deus.

2.1. – Meditação

2.1.1 - O texto e a Comunidade

a) Provavelmente a nossa comunidade não receberia apenas elogios, como Filadélfia. Nem por isso a carta deixa de ter a sua atualidade. Como as sete cartas são dirigidas à totalidade da Igreja, também a nossa está incluída.

b) O fundamento nos une diretamente àquelas comunidades da Ásia Menor. O mesmo Senhor que criou e sustentou a comunidade de Filadélfia é o que ainda hoje cria e sustém sua comunidade.

c) Temos comunidades com muitos recursos e ao lado dessas existem inúmeras que poderiam ser equiparadas à de pouca força em Filadélfia. Pouca participação em relação ao número de inscritos. Poucos colaboradores. Pouca penetração diante dos grandes desafios. Este texto confronta a comunidade com a avaliação da Palavra de Deus: fraco, mas forte; pobre, mas rico! A comunidade é, neste sentido, a visualização da própria vida de Jesus. O texto não quer suscitar a autocompaixão com nossa fraqueza, mas estimular o pequeno grupo a ater-se à palavra. Somos uma igreja que se declara viver da palavra, mas não usa este critério para medir até onde é autêntica e verdadeira. Continuamos aplicando critérios muito próprios de nossa sociedade: poder, imponência das edificações, retórica dos pregadores, ativismo. Para o texto a ‘nota ecclesiae’ é guardar a palavra e sua imediata implicação: Não negar seu nome. Até que ponto uma comunidade que se torna uma potência não esta negando seu Senhor? Cada pregador deve descobrir o que em seu meio significa: negação de Jesus Cristo.

d) Outra dificuldade que a comunidade encontrara será quanto à parusia de Cristo. Não se pode negar que a vinda de Cristo foi descrita com cores vivas e com imagens presas ao mundo contemporâneo do autor. Cabe ao pregador falar com muita sobriedade do futuro de Deus que na ressurreição de Jesus Cristo teve seu início. Lá Deus manifestou sua soberania sobre a morte e sobre todos os poderes destruidores, criando do nada algo novo. A esperança cristã - que na época de advento recebe atenção especial - é esperança no Deus que cria algo novo que é o alvo da história.

2.1.2 - Sobre a Prédica

Talvez se deva partir do pensamento central e excluir alguns detalhes. Quase se impõe como tópico principal: pouca força” da comunidade. Esta pouca potencialidade, a comunidade recebeu. Sabe lá que pregadores, que recursos, que classe de pessoas a constituíam. Aceitar isto já e louvável porque corresponde ao caminho seguido por seu Senhor em sua encarnação. A pouca força também não legitima qualquer fuga para outros grupos ou potências, cuja contribuição aparentemente é mais influente na sociedade.

O recado deste texto é que ainda vale a pena apegar-se à palavra. Onde a comunidade não tem sua fonte na palavra, ela perde sua contribuição específica que ela tem a dar. É importante que sejamos convencidos a derivar toda e qualquer atuação na sociedade da palavra. As maiores atividades podem ser negação a Jesus Cristo, em vez de testemunho. A existência da comunidade é examinada por um critério, aparentemente muito conservador aos nossos olhos: Guardar a palavra e não negar seu nome. Será que nossa comunidade seria aprovada diante de um exame destes?

Esta é a comunidade que vive no advento, isto é, a ela é prometido o futuro. Esta pequena comunidade tem participação na vinda do reino definitivo de Deus. A esperança no futuro definitivo determina seu presente de lutas e provações. Esta esperança leva a comunidade a viver a promessa de uma nova cidade. A esperança e o futuro em Deus vão determinar nossos planos e projetos parciais. Apenas a comunidade que presta este testemunho será ouvida quando falar do novo céu da nova terra.

Bibliografia

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- LOCHMANN, Jan Milic. Marx Begegnen: Was Christen u. Marxisten eint u. trennt. Gütersloher Verlagshaus Gerd Mohn, Gütersloh, 1975.
- LOHSE, Eduard. Offenbarung des Johannes. In: Das Neue Testament Deutsch. Vol. IV. 1° ed., Vandenhoeck & Ruprecht, Göttingen, 1963.
- Voigt, Gottfried. Die Neue Kreatur. 29 ed., Vandenhoeck & Göttingen, 1971 .

Proclamar Libertação 2
Editora Sinodal e Escola Superior de Teologia


Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Advento
Perfil do Domingo: 3º Domingo de Advento
Testamento: Novo / Livro: Apocalipse / Capitulo: 3 / Versículo Inicial: 7 / Versículo Final: 13
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1977 / Volume: 2
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 7263
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