Apocalipse 3.7b-8,10-13

Auxílio Homilético

31/12/2011

Prédica: Apocalipse 3.7b-8,10-13
Leituras: Êxodo 13.20-22 e João 10.14-16,27-29
Autor: Eloir Enio Weber
Data Litúrgica: Véspera de Ano Novo
Data da Pregação: 31/12/2011
Proclamar Libertação - Volume: XXXVI

1. Introdução: É o fim do mundo?

Transcrevo abaixo uma mensagem que produzi para um devocionário com base em Mateus 24.30b: “Todos os povos da terra chorarão e verão o Filho do Homem descendo nas nuvens, com poder e grande glória”.

“Rosa, com o que você está preocupada?” – perguntou o esposo Mário. “Estou tensa e nervosa, sim. A vizinha disse que agora está confirmado: o mundo vai mesmo acabar em 2012”. Mário, com muita paciência, abraçou a esposa e disse: “Eu penso que não cabe ao ser humano fazer previsões a respeito da data da volta de Cristo. Pessoas de fé não precisam se preocupar com isso, mas aguardar com alegria. Cristãos não precisam ter medo do fim do mundo, mas aguardar com alegria a volta de Cristo, cujo dia e hora ninguém sabe. Neste dia, todos os povos chorarão ao ver Jesus voltar. Acho que muitos chorarão de alegria, mas haverá muitos chorando porque não deram ouvidos e não se prepararam. Rosa, você precisa aprender a confiar mais na Bíblia e em Jesus e desconfiar das coisas que a vizinha lhe fala”.

Poucos são os assuntos que mexem mais com a imaginação humana do que o tema do fim dos tempos. É muito comum depararmo-nos com previsões baseadas em cálculos e sinais supostamente descritos na Bíblia. O tema também é destaque na indústria cinematográfica. Pessoas espertas sabem o que aflige o ser humano e com isso exploram o tema, provocando pavor.

Nós cristãos não aguardamos o fim do mundo como um caos total. Deus criou o mundo a partir do caos. Se ele o devolvesse ao mesmo, seria decretada a sua derrota. Em Jesus Cristo, ele veio para vencer as forças do caos, instaladas pelo pecado. Jesus morreu, foi ressuscitado, subiu ao céu e voltará em glória para levar as pessoas de fé ao reino de Deus, que é a ausência da morte, da doença, do sofrimento e do pecado. Este evento eu quero aguardar com alegria, não com preocupação. Neste dia, eu quero chorar, mas de alegria, por sentir Cristo pleno em mim (Castelo Forte, 19/11/2011).

2. Exegese

2.1 – O Apocalipse de João

O Apocalipse de João foi escrito no final do primeiro século (94-95 d. C), numa época de perseguição aos cristãos em todo o Império Romano. O principal motivo da perseguição era a negativa dos cristãos em adorar o imperador como Senhor e prestar culto a ele. O imperador naquele contexto era Domiciano.

O livro foi escrito para as pequenas comunidades espalhadas pelo Império Romano, especialmente na província da Ásia. Os receptores desse escrito eram cristãos perseguidos. Para esses, o livro trouxe uma dupla mensagem: por um lado, de uma maneira tipicamente apocalíptica, trouxe estímulo aos cristãos que estavam sob grande pressão, assegurando-lhes que o inimigo seria destruído e que no final Deus triunfaria; por outro lado, em estilo profético, o Apocalipse desafiou os cristãos a combater as sutis forças do mal.

As sete cartas para as sete igrejas da Ásia formam o primeiro grande bloco do Apocalipse. Todas as cartas têm uma estrutura semelhante: cita-se o destinatário, segue a apresentação de quem fala e, na sequência, fala-se da situação da comunidade. Por fim, há uma palavra específica para cada uma delas, conforme a necessidade (convite ao arrependimento, alerta, promessas, recompensa etc.). Todas terminam com: “Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas”.

Entre as sete cartas encontramos duas que não contêm nenhuma crítica. Uma das que não contém críticas é a carta destinada à igreja em Filadélfia, uma comunidade fraca e limitada, mas que permanece fiel à sua fé. Essa é a carta em apreço neste estudo. (A outra é a igreja em Esmirna, uma comunidade pobre que enfrentava perseguição.) É na fraqueza do ser humano que se manifesta o amor incondicional de Deus, dando força e coragem.

2.2 – O texto

V. 7b – Depois de indicar o destinatário (v. 7a), aquele que fala se apresenta. Trata-se do próprio Cristo, que se apresenta com diversos predicados: o “santo”, o “verdadeiro”, “aquele que tem a chave de Davi”. Ele tem o poder de fechar e abrir, o que significa que possui o poder de conceder ou não acesso ao reino.

V. 8 – Jesus conhece as obras (missão?) da igreja. Ele não está desatento às dificuldades que a comunidade tem para manter acesa a chama da fé e para perceber a porta aberta (porta que o próprio Cristo abriu e mantém aberta – aberta para acolher outras pessoas, para o reino?). Neste versículo, é falado de forma clara que se trata de uma comunidade com “pouca força”, mas que guarda a palavra de Cristo e não nega o nome dele. Uma comunidade frágil, mas que persiste na fé e resiste, pela fé, à pressão que sofre. A fragilidade não serve de desculpa para cruzar os braços e aceitar a pressão do mundo. É na fragilidade que o poder de Deus se manifesta mais forte.

V. 10 – Guardar a Palavra recebida e persistir nela é descrito como um re¬quisito básico para ser guardado na “hora da provação” (= juízo final?). A fé vem pelo ouvir a pregação da Palavra, diz Paulo em Romanos 10.17. Sabemos que somente pela fé somos acolhidos na graça e que unicamente pela ação de Cristo somos salvos. A comunidade de Filadélfia recebe, neste versículo, um elogio (“guardaste a Palavra”) e, como consequência, recebe também uma promessa (“te guardarei na hora da provação”). A parte final do versículo fala do juízo final – dia no qual serão “experimentados os que habitam a terra”. Esse é um tema central da carta à comunidade de Filadélfia. Fica evidente que aqueles que têm fé não serão poupados da provação, mas serão sustentados naquela hora. Seremos todos julgados: os salvos e os condenados.

V. 11 – Este versículo continua com o tema iniciado no anterior. Conclama a comunidade a conservar a fé, prometendo, assim, a coroa (vitória no reino). A promessa da salvação é renovada: “venho sem demora”. A parusia (vinda de Jesus em glória e para o juízo) era esperada como algo imediato. A promessa da parusia para um curto espaço de tempo é bastante comum na literatura apocalíptica.

V. 12 – Este versículo é fortemente marcado pelo estilo apocalíptico: a vitória será concedida (futuro) àquelas pessoas – comunidades – que se mantiverem fiéis a Deus no presente. A fidelidade presente não cairá no esquecimento. Deus vence no fim. O reino (futuro) é a promessa que sustenta a fidelidade no presente. A fé é a única forma de resistir. Assim os fiéis vivem a realidade do “já e ainda não” do reino em nosso meio. A “nova Jerusalém que desce do céu” será a morada dos fiéis que resistirem às perseguições, pressões e até às ameaças de morte. Aliás, a terminologia do reino de Deus como a “nova Jerusalém” é outro tema muito presente na literatura apocalíptica. Esse tema é amplamente desdobrado por João no final do livro (Ap 21-22).

3. Meditação

31 de dezembro de 2011 – Neste dia, estamos todos em clima de festa. Na maioria das vezes e na maioria dos lugares, a celebração do culto tem como pano de fundo o som dos foguetes que estouram, pessoas alegres que se cumprimentam e se desejam felicidades no novo ano que inicia. Muitas delas certamente já têm festa marcada na casa de algum familiar e, ao sair da celebração, já têm um rumo a seguir. As famílias recebem a visita de parentes de longe; não raras vezes, esses vêm junto para o culto.

Para quem mora em Porto Alegre (imagino que seja assim em qualquer outra grande cidade), é a semana mais tranquila do ano. Não há congestionamento e caos no trânsito, não há filas nos supermercados, não é necessário se preocupar com vaga no estacionamento, enfim, para quem fica na cidade é a melhor semana do ano. Em geral, é uma semana na qual se consegue “respirar” depois de todos os eventos e preparativos antes do Natal. Não é diferente para nós – pastores e pastoras –, que tivemos uma interminável lista de eventos desde o início do Advento. É para dentro desse clima que é necessário fazer a reflexão desse texto bíblico.

Todos os anos, a festa de réveillon segue seu ritmo. No entanto, imagino que há um elemento diferente nesta virada do ano de 2011 para 2012. A maior parte das pessoas talvez leve o assunto mais em tom de brincadeira, mas não podemos deixá-lo passar em branco. Trata-se do tema do fim do mundo, que, conforme se fala, deve acontecer no dia 21 de dezembro de 2012. Conforme os defensores da ideia, nesta data acontecerá o fim de um ciclo, segundo o antigo calendário maia. Essa suposição gerou um sem-número de teorias, programas nos meios de comunicação, livros, sites na internet e filmes como “2012”. É um assunto que merece uma reflexão teológica madura, pois as pessoas “consomem” leituras teológicas suspeitas e tendenciosas a respeito do fim do mundo.

Aliado a isso, sabemos que as pessoas são bombardeadas com notícias de catástrofes de toda ordem. Não faltam os “teólogos de plantão” para dizer que tudo isso são “sinais dos tempos”. As pessoas que participam de nossos cultos não raras vezes “bebem de outras fontes”. Isso traz confusão de ideias no aspecto da compreensão teológica. Aqueles que fazem a leitura fundamentalista da Bíblia têm servido um prato cheio. É só olhar em nossa volta e perceber o que já houve neste ano (isso que estou escrevendo esta meditação na última semana de maio – até o dia 31 de dezembro falta ainda mais meio ano).

Em seguida, enumero alguns fatos que, não raras vezes, são interpretados como “sinais dos tempos”. Começamos o ano com o maior desastre natural no Brasil, ocorrido nas cidades serranas do Rio de Janeiro. E isso se repetiu em inúmeras cidades brasileiras, que sofreram as consequências das cheias – cito como exemplo São Lourenço do Sul/RS. Em muitos lugares do mundo, esses fenômenos naturais se repetiram, trazendo perdas de vidas humanas, de bens materiais, trazendo sofrimento para muitas pessoas. Uma parte do Japão foi varrida por um tsunami que se espalhou por diversos países. Além das vidas e dos bens materiais perdidos, a tragédia expôs a vulnerabilidade da energia atômica e os riscos que ela representa para o mundo. Esse fato trouxe insegurança em muitos lugares do mundo, especialmente na Europa, onde essa forma de geração de energia é amplamente usada. Todos nós ficamos chocados e revoltados com o episódio do jovem que invadiu uma escola no Realengo/RJ, atirando contra os alunos, ferindo e matando muitos deles. Uma tragédia sem precedentes no Brasil. Episódios como esses mostram como a nossa sociedade doente produz pessoas cada vez mais doentes. A violência está instalada nas escolas, deixando inseguros profissionais da educação, pais e alunos. A guerra contra o terrorismo (ou seria entre terroristas?) teve um evento importante neste ano: a morte de Osama Bin Laden, procurado nos últimos dez anos. Muitos foram os casos de mães que abandonaram filhos em lixeiras e na rua. Ocorreram acidentes de trânsito de toda ordem. Nesta semana (final de maio), o noticiário dá conta de que ministro da Casa Civil, Antônio Palocci, é investigado por enriquecimento ilícito (como estará o caso até dezembro?).

Enfim, dá um peso no coração só de lembrar esses casos todos. Mas todos esses episódios retornam à mente na “retrospectiva do ano”, são relembrados e revividos, trazendo consigo o tema: “sinais dos tempos”.

Temos diante de nós a oportunidade de olhar para todos esses eventos e colocá-los à luz da palavra bíblica numa reflexão teológica madura, enfocando as promessas bíblicas de uma “nova Jerusalém”. O mundo não está entregue ao poder do caos. Deus continua no comando da história. A comunidade de Filadélfia recebeu um elogio por manter-se firme na verdadeira fé, apesar de ser pequena e fraca. Nós também podemos e devemos espalhar sinais da “nova Jerusalém”, do reino entre nós.

“Venho sem demora” (Ap 3.11). A parusia pertence a Deus. A ele pertence o kairós, o tempo oportuno. Especulações sobre o fim do mundo não cabem a nós. A Bíblia não quer ser um livro de cálculos matemáticos para especularmos sobre a parusia. O fundamental é que permaneçamos na fé em Cristo. Ninguém sabe o dia e a hora. Deus continua querendo nos guiar, assim como guiou o povo de Israel pelo deserto: de dia com uma coluna de nuvem e de noite com uma coluna de fogo (Êx 13.20-22, um dos textos de leitura).

Apesar do clima de festa de fim de ano, as pessoas que vêm ao culto nesse dia querem ouvir uma mensagem de esperança para o novo ano que inicia. A igreja precisa, à luz do evangelho, despedi-las com esperança. Elas precisam sair do culto na certeza do amor de Deus, que em Cristo veio para ser o “Bom Pastor” (Jo 10.14-16, 27-29, o evangelho do dia). Cristo veio com o objetivo de unir todas as pessoas para tornar-se “um só rebanho com um só pastor” (Jo 10.16). As pessoas necessitam iniciar o ano de 2012 com a certeza de que “o poder que o meu Pai me deu é maior do que tudo, e ninguém pode arrancá-las [as ovelhas] da mão dele” (Jo 10.29).

4. Imagens para a prédica

Diante do exposto, acredito que temos uma linha de reflexão definida. Temos a mensagem e a data na qual esse tema será tratado. Em seguida, sugiro alguns tópicos que podem auxiliar:

– Considero importante fazer uma retrospectiva dos acontecimentos do ano (da forma como fiz até o mês de maio). Acontecimentos locais são necessários.

– Fazer menção ao tema do fim do mundo em 21/12/2012.

– A partir disso, entrar no texto do Apocalipse, fazendo a leitura e a interpretação do mesmo.

– A Palavra precisa passar pelo centro da Bíblia – Jesus Cristo. Falar do evangelho do dia. A relação de cuidado que Deus assume com a humanidade em Jesus Cristo.

– Falar do cuidado que Deus teve com o povo na saída do Egito. Deus caminha com o povo. Deus não se descuida de nós.

– Todos os cuidados e eventos bons e importantes que tivemos ao longo do ano que termina (citar exemplos locais).

– A história está nas mãos de Deus, e nessa certeza podemos iniciar e viver mais um ano na graça e na esperança. Levar a comunidade a olhar com esperança para o futuro.

– Terminar com a mensagem descrita na “introdução” do presente estudo.

5. Subsídios litúrgicos

O clima da celebração deve ser festivo. O início da pregação talvez seja um pouco pesado, mas o final da pregação deve dar o tom da esperança, da alegria em aguardar e viver em Cristo, no reino. As pessoas devem sair da celebração com a cabeça erguida, sabendo que se fala muito por aí sobre o fim do mundo, mas que em Cristo temos motivos para aguardar com alegria, colocando sinais do reino já aqui, agora e ao longo do novo ano. Esse deve ser o clima da liturgia.

Na confissão de pecados e no Kyrie, poder-se-iam preparar imagens de acontecimentos do ano, momentos dos quais precisamos nos arrepender e pedir perdão. Igualmente se poderiam colocar nas mãos de Deus, em clamor, os eventos que provocaram dores.

O Gloria in excelsis deve ser festivo. Também ali se podem usar imagens com as quais louvamos e glorificamos o nome de Deus “nas maiores alturas”.

A Ceia deve ressaltar o sentimento de sair do culto renovado, perdoado dos pecados dos quais nos arrependemos e animados para viver mais um ano cheio de esperança. Temos um Deus que é Senhor da história. No fim, seremos recebidos para um banquete na presença do próprio Cristo no reino.

Sugerimos distribuir um balão vazio para cada pessoa. Colocar dentro um bilhetinho contendo uma mensagem de esperança para o ano novo. Na parte final do culto, todos podem encher o seu balão e jogá-lo para o ar, de forma que cada qual pegue um balão que não seja o seu. Pedir para levá-lo para casa, ainda cheio. Antes de dormir (aos que vão dormir cedo) ou à meia-noite (para quem participar de alguma festa), estourar o balão e ler a mensagem em voz alta.

Bibliografia

ELLUL, Jacques. Apocalipse – Arquitetura em Movimento. São Paulo: Edições Paulinas, 1980.
MESTERS, Carlos. Esperança de um Povo que Luta: O Apocalipse de João, uma Chave de Leitura. São Paulo: Edições Paulus, 1983.
WILCOCK, Michael. A Mensagem do Apocalipse. São Paulo: ABU Editora, 1986.
 


Autor(a): Eloir Enio Weber
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Silvestre/Véspera de Ano Novo

Testamento: Novo / Livro: Apocalipse / Capitulo: 3 / Versículo Inicial: 7 / Versículo Final: 13
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 2011 / Volume: 36
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 25626
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Martim Lutero
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