Atos 1.1-11

Auxílio Homilético

25/05/1995

Prédica: Atos 1.1-11
Leituras: Efésios 1.(16-20a) 20b-23 e Lucas 24.(44-49) 50-53
Autor: Valdir Frank
Data Litúrgica: Ascensão
Data da Pregação: 25/05/1995
Proclamar Libertação - Volume: XX

1. Introdução

Estamos entre os anos 80 e 90 depois de Cristo; poucos anos após a destruição de Jerusalém (70) e próximo da nova perseguição às comunidades cristãs desencadeada pelo imperador Domiciano (81-96). Portanto, ainda estamos nos primórdios do cristianismo. Não estamos tão distantes do sincretismo religioso promovido pelos gregos e pela dominação romana. Ambos, gregos e romanos, unificaram numerosas nações; misturaram culturas, costumes e religiões. É recente a perseguição de Nero (54-68). Segue-se a criação do culto imperial, por Vespasiano (69-79). Neste contexto se situam as jovens comunidades cristãs.

2. A memória como fonte orientadora

Os acontecimentos do ano 33 já estão distantes. A morte e a ressurreição de Jesus, em certo sentido, são momentos do passado. As testemunhas oculares já se foram. Mulheres e homens, discípulos e discípulas que acompanharam o Senhor morto e ressurreto já não existem mais. Jerusalém não é mais o centro de referência. Ainda mais com a sua destruição recente (70). São perdas significativas. Algumas certezas caem. Em meio à crise, vem a pergunta: o que fazer? Que valores permanecem? Onde encontrá-los? Como a palavra viva de Deus pode ajudar em meio à perda do rumo? Como continuar a caminhada?

a) O passado como fonte inspiradora de esperança

Os problemas do presente ofuscam. Trazem consigo o perigo da alienação. É preciso reagir. É preciso fundamentar esta reação. Conforme At 1.1-5, Lucas relembra fatos marcantes e decisivos da história do cristianismo. Assim, as comunidades são reabastecidas com fundamentos antigos e seguros. Ele busca firmar laços com o judaísmo tradicional. Estabelece vínculos com a comunidade primitiva de Jerusalém. Agora, o templo não existe mais como centro cúltico e como símbolo da história da salvação. Porém é importante manter algum vínculo com esse lugar. Até parece que, conforme Lc 24.50-53, após a ascensão de Jesus, se permanece em Jerusalém (templo).

b) O presente: sinal do caminho histórico da Igreja

A jovem Igreja cristã já tem sua caminhada após a morte e ressurreição de Jesus. Alguns anos já separam as comunidades do ano 33. O reino de Deus iniciado em Jesus Cristo já abriu caminho até os confins da terra (v. 8). A missão iniciada por Jesus foi levada adiante por discípulos e discípulas. Eles e elas têm sido conduzidos e conduzidas pelo poder consolador da presença de Deus. A Igreja, portanto, já tem sua marcha na história. A missão a todos os povos (confins da terra), que vem de Cristo mesmo, através da sua escolha e envio (Jo 15.16), está em andamento. Enfim, discípulos e discípulas foram sendo empurrados e empurradas ao testemunho daquilo que viram e ouviram (At 4.20). E, conforme Mc 16.19-20: E eles(as), tendo partido, pregaram em toda parte, cooperando com eles(as) o Senhor, e confirmando a palavra por meio de sinais, que se seguiram.

3. Dialogando com o texto

Vv. 1-5: Já no primeiro versículo, chamam a atenção as palavras: Jesus começou a fazer e a ensinar. Elas expressam a ideia de movimento, de continuidade. Houve um início e, ao mesmo tempo, há quase que um convite a que se dê continuidade ao já iniciado. E o que podemos perceber com clareza nos versículos seguintes (vv. 2-5). Eles retomam, fazem a memória dos momentos básicos e decisivos do personagem central da fé cristã, Jesus Cristo, e a missão conferida aos apóstolos e às apóstolas. Esta lembrança carrega consigo uma força extraordinária de coragem e de esperança. O passado já foi experimentado. Ele ajuda a compreender o presente. Ilumina-o. E, ao clarear-se o presente, abrem-se perspectivas mais objetivas quanto ao futuro.

E assim que Lucas vai ao encontro das comunidades. Sua preocupação é ajudar a clarear o momento histórico presente, visando superá-lo. Há necessidade de um reavivamento da memória. Fazer memória ajuda a superar as crises. Não é difícil imaginar, além das crises internas, o quanto o monstruoso Império Romano era um entrave à vida das pequenas comunidades cristãs espalhadas em seu meio.

V. 6: Ainda estamos numa visão de mundo essencialmente judaica, diante da ardente expectativa de uma surpreendente instauração do reino de Deus, ou melhor, da restauração do reino de Israel. A pergunta é dirigida a Jesus como sendo o possível protagonista da restauração desse reino e, ao mesmo tempo, há a pergunta quanto ao tempo em que isso sucederá.

V. 7: Acontece uma resposta de Jesus. Ela não permite especulações. É uma questão de exclusiva competência de Deus. Aqui Jesus retoma basicamente o que já está dito em Mc 13.32.

V. 8: Aqui temos o resultado e a lembrança de alguns anos da caminhada cristã após a ressurreição de Jesus. A missão que vem de Cristo mesmo, movida pelo Espírito Santo, tem conduzido o movimento iniciado pelo Verbo que se fez carne (Jo 1.14) até o momento histórico presente. Discípulos e discípulas, movidos e movidas pelo Espírito Santo, já foram, são e serão testemunhas de Jesus. E sua ação não se restringe a Jerusalém. Ultrapassa os limites desta e se expande aos confins da terra.

Testemunhar aquilo que viram e ouviram é o essencial. Não há dúvida de que os fundamentos básicos dessa missão são a morte, a ressurreição e a ascensão de Jesus Cristo e tudo o que Jesus começou a fazer e a ensinar.

V. 9: Lucas usa uma forma corrente de expressar a exaltação de pessoas importantes. Na tradição romana, a ascensão ao céu não era um fato qualquer. Ainda mais quando testemunhas presenciavam a subida aos céus. Por isso, Jesus elevado às alturas, à vista deles é uma forma clara de expressar a missão salvadora de Jesus, e, ao mesmo tempo, abre-se o espaço para a credibilidade do testemunho daquelas pessoas que presenciaram esse acontecimento.

V. 10: As pessoas que presenciavam a subida de Jesus, impressionadas, fixam seus olhares no céu. Parece que ficam obcecadas pela visão. Dão a impressão de imobilismo, de falta de ação e percepção da realidade terrena. Enfim, vivem na terra. Nesta precisam colocar os olhos e os pés. Esta é a função dos dois varões vestidos de branco, pois chegam como mensageiros de Deus para reorientá-las. A partir deste momento começa sua missão de levar adiante a proposta de Jesus. Os dois varões, mensageiros, ajudam a interpretar o momento (cf. Lc 24.4). Reafirmam a presença de Deus, apesar da ausência física de Jesus.

V. 11: A interferência dos varões não deixa dúvidas quanto ao que subiu ao céu. O exaltado é o mesmo e continua sendo o ponto de referência. O exaltado é o que é, que era e que há de vir (Ap 1.4). A certeza de que o exaltado é o vindouro gera esperança porque também engloba o futuro. Anuncia-se a certeza de que também o futuro está em suas mãos e em seu poder. O futuro está assegurado. Não há necessidade de especulações quanto ao amanhã. O que importa é que Ele voltará. Abre-se agora o tempo da atividade humana nesta história. Estabelece-se um vínculo entre a história passada e a futura iniciada pelo exaltado. Abre-se o tempo da efetiva participação humana no destino da história. Agora não é mais possível ficar somente com os olhos fitos no céu. É chegado o tempo do sereis minhas testemunhas... até os confins da terra com e sob o poder do Espírito Santo (At 1.8).

4. Sugestões para o uso do texto

1. Iniciar a reflexão/diálogo trazendo algum exemplo que fale da importância da memória/história. Poderia ser lembrado um fato marcante da comunidade ou do grupo que foi experimentado e tenha servido de experiência desafiadora e enriquecedora. Também é possível fazer isso a partir de uma experiência pessoal. Quem sabe até seja melhor entrar por esta e integrá-la no comunitário/estrutural. A situação de hoje poderá ser iluminada com aquela vivida pelas pessoas/ comunidades de ontem (do texto).

2. Entrar pelo próprio texto, deixá-lo falar: em caso de prédica, ler o texto uma ou duas vezes e/ou recontá-lo para a comunidade. Assim, haverá maior sintonia entre o pregador ou a pregadora e as pessoas ouvintes. Poderá ser usada a sequência dos versículos, auxiliando-se com os subsídios já refletidos no item 3 (Dialogando com o texto). Sabemos que tantas vezes subestimamos a capacidade de acompanhamento e, ao mesmo tempo, o vínculo imediato que as pessoas estabelecem com a vida hoje a partir da simples leitura do texto. Seguidamente os especialistas e as especialistas falam demais sobre o texto e não deixam o texto falar para si mesmos(as) e muito menos para os ouvintes e as ouvintes. ' 'Deixar o texto falar'' poderá proporcionar também reflexões consoladoras e desafiadoras em diferentes grupos de estudos bíblicos.

5. Subsídios litúrgicos

Intróito: e qual a suprema grandeza do seu poder para com os que cremos, segundo a eficácia da força do seu poder; o qual exerceu ele em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos, e fazendo-o sentar à sua direita nos lugares celestiais. (Ef 1.19-20.)

Confissão de pecados/tópicos: Quantas vezes temos memória curta, seja em termos eclesiásticos ou seculares, e, por isso, ficamos sem rumo; temos dificuldades em crer, ainda mais quando Deus se revela no reverso da história normal; outros e outras fazem a história em nosso lugar, sejam elas pessoas, meios de comunicação...; como luteranos/as, temos negligenciado demais, em (ermos práticos, o central da fé evangélica (somente Jesus Cristo salva) e suas consequências para todas as pessoas chamadas ao sacerdócio (pastorcentrismo/ sacerdócio geral); falta-nos clareza missionária, somos por demais voltados/as a nós mesmos/as; temos dificuldades em vincular as coisas do céu com as coisas da terra (olhos fitos no céu...); delegamos a tarefa do sereis minhas testemunhas a outros e outras e, nós mesmos/as, onde estamos?

Absolvição: Porque na esperança fomos salvos. Ora, esperança que se vê não é esperança; pois o que alguém vê, como o espera? Mas se esperamos o que não vemos, com paciência o aguardamos. (Rm 8.24-25.)

Oração de coleta: Agradecimento pela revelação de Deus no dia-a-dia da vida, seja em bons ou maus momentos; pela oportunidade de estarmos em comunidade num mundo tão dividido. Pedir o auxílio do Espírito Santo para que guie e oriente o culto/encontro.

Oração final: Incentivar a participação de pessoas da comunidade/grupo para expressarem sua fé, seus agradecimentos, pedidos e intercessões.

6. Bibliografia

COMBLIN, José. Aios dos Apóstolos; Comentário Bíblico — Vol. I: 1-12. Petrópolis, Vozes; São Bernardo do Campo, Imprensa Metodista; São Leopoldo, Sinodal, 1988.
EHLERT, Heinz. In: PL XI. São Leopoldo, Sinodal, 1985. p. 242ss.
LOPES, Eliseu Hugo. O Caminho Feito pela Palavra; para Ajudar na Leitura de Atos dos Apóstolos. São Paulo, Paulinas, 1984.


Autor(a): Valdir Frank
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Ascensão

Testamento: Novo / Livro: Atos / Capitulo: 1 / Versículo Inicial: 1 / Versículo Final: 11
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1994 / Volume: 20
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 14457
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