Atos 1.15-26

01/06/2003

Prédica: Atos 1.15-26
Leituras: Salmo 47.1-8 e João 17.11-19
Autor: Paulo Moisés Nerbas
Data Litúrgica: 7º Domingo da Páscoa
Data da Pregação: 01/06/2003
Proclamar Libertação - Volume: XXVIII
Tema

 

l. O contexto

Este auxílio destina-se a um domingo do próximo ano, ou seja, 2003. O contexto da perícope, todavia, leva-me a pensar em algo que mexe com muitos brasileiros no atual momento do presente ano, 2002. Mais alguns dias e acontecerá novamente a Copa do Mundo de Futebol. Na semana passada, saiu a lista dos jogadores convocados pelo treinador da seleção brasileira. São atletas que, nos distantes países da Coréia e do Japão, terão a missão de bem representar o Brasil, trazendo, se possível, o título de campeões do mundo. Diante da necessidade de formar um bom time, alguns critérios foram observados para compor a lista dos selecionados. Sem critérios não há condições de escolher os atletas.

Antes de voltar ao céu, o Senhor Jesus havia dito aos discípulos que eles seriam testemunhas do Senhor tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e S amaria e até aos confins da terra (Atos 1.8). Tendo já ocorrido a ascensão de Cristo, sabiam os discípulos que a copa do mundo estava por começar. Dentro de pouco tempo seriam os representantes do Senhor em várias partes do mundo, dando a conhecer aos povos aquilo que o Senhor Jesus tem para oferecer. A lista dos selecionados, todavia, não estava completa. Na verdade, poderia estar, caso um dos que haviam sido chamados não tivesse abandonado a seleção por não ter amado acima de tudo aquele que o havia escolhido. A necessidade de preencher a vaga deixada por Judas Iscariotes criou o contexto dentro do qual está inserido o texto desta perícope.

Alguns destaques podem ser feitos a partir do contexto, pois eles nos fazem ver como o texto os aborda. Primeiramente, havia uma missão a cumprir, e os discípulos estavam mobilizados para realizá-la. Em segundo lugar, a mobilização pura e simples não era suficiente, porque se fazia necessário cumprir certas condições básicas para partir em missão. Uma delas era o preenchimento da vaga deixada por Judas Iscariotes. Em terceiro lugar, o preenchimento da lacuna existente deveria obedecer a certos critérios, pois a missão a ser encarada exigia gente qualificada para cumprí-la.

Olhar para a ação dos discípulos naquele contexto significava também colocar os olhos na ação do Senhor deles, Jesus Cristo. Embora tivesse se ausentado visualmente deles, continuaria presente junto dos seus, orientando-os, guiando-os e capacitando-os para o exercício da missão que lhes fora confiada. A sua oração por eles em João 17.11-19 revela o que o Senhor queria que acontecesse após o seu retorno ao céu. Os discípulos seriam testemunhas de Cristo. Sua missão desencadeou um testemunho que correu o mundo e chegou também a nós. Graças a ele, confessamos hoje a nossa fé no Salvador. Percebemos nisso o amor tio Filho de Deus também por nós, fato que nos motiva a não interromper a cadeia de testemunho, pois ainda há mais gente que deve ouvir a respeito de Jesus e da salvação. Estamos mobilizados para tal missão? ; De que maneira? Estamos atentos aos critérios necessários para que ela se cumpra segundo a expectativa do Senhor? Tudo isso deve ser lembrado quando tentamos situar o texto dentro do nosso contexto.

2. O texto

V. 15: ocorria uma assembléia com cerca de cento e vinte pessoas. Não conhecemos os nomes de todos elas. Mas isto não é o que mais importa. Mais importante é o termo usado por Lucas para qualificar quem lá estava naquela assembléia. Eram irmãos (e irmãs). Levantou-se Pedro no meio dos irmãos. O termo irmãos é escutado entre nós principalmente como forma de saudação entre alguns cristãos. Além disso, qual o significado dele para nós?

Por que somos irmãos e irmãs? Eis a questão primordial a ser enfocada. Irmãos e irmãs existem somente dentro de uma família. Há um vínculo muito especial entre eles que os leva a se reconhecerem como tal. Os irmãos e as irmãs daquela assembléia em Jerusalém, bem como os que estão na igreja cristã de hoje fazem parte da família de Deus. Foram todos adotados por Deus, aceitos por ele, porque são um com o Filho de Deus, Jesus Cristo. A unidade com Jesus por meio da fé lhes traz a bendita condição de filhos e filhas de Deus, membros da sua família, irmãos entre si. Tal fato move o nosso olhar tanto no sentido vertical como no horizontal. Com o primeiro movimento, reconhecemos a misericórdia do Senhor como única causa para nossa adoção na sua família. Pelo segundo movimento, vemos nos irmãos e nas irmãs criaturas que estão muito mais próximas de nós do que talvez vínhamos imaginando até então e passamos a refletir mais sobre todo o significado de tal proximidade para nossa vida e nossas atitudes.

Os irmãos e as irmãs, que foram adotados por Deus mesmo sendo pecadores, mobilizaram-se para providenciar o que era preciso a li m de realizar a missão deixada pelo Senhor ressuscitado. A convocação a missão só tem sentido para nós quando descobrimos constantemente quem somos: membros da família de Deus, convidados para agir na companhia de irmãos e irmãs, com o propósito de tornar Cristo conhecido, pois não há limite para a misericórdia divina. Ela faz com que o Senhor esteja sempre pronto a receber na sua família aqueles que se irmanam a Cristo por meio da fé no Salvador.

V. 16-20: o final do versículo 20 dá a razão por que se reuniu aquela assembléia de irmãos e irmãs: Tome outro o seu encargo, ou seja, um outro deveria assumir o cargo anteriormente ocupado por Judas Iscariotes. Esta parte do texto concentra a sua atenção no ocorrido com Judas. O que realmente havia acontecido?

Também Judas Iscariotes era contado entre os irmãos. Era tido como um com o Filho de Deus, Jesus Cristo e, portanto, também um com os demais. Nas palavras de Pedro, ele era contado entre nós e teve parte neste ministério (v. 17). Por que, então, o desfecho trágico daquela vida? Porque deixou de ser irmão, separou-se de Cristo, encheu-se de amores por outra coisa e abandonou o seu Senhor.

Não há dúvida de que o trágico exemplo de Judas deixa uma forte advertência. Abandonar a Cristo em troca de outros amores transforma-se em armadilha perigosíssima. Na prática, uma das piores consequências verifica-se quando trabalhar com os irmãos e pelos irmãos transforma-se em trabalhar contra os irmãos. Isto é resultado do desligamento daquele que une os irmãos, de Cristo. Embora tendo tido participação no serviço com os irmãos, termina por abandoná-lo. Geralmente, em meio às comunidades, os problemas com os irmãos são, antes de tudo, problemas com aquele que nos fez irmãos. Nosso relacionamento horizontal com os que nos cercam depende do nosso relacionamento vertical com o Senhor. Judas Iscariotes abandonou o ministério com os irmãos porque havia abandonado a comunhão com o Senhor.

V. 21-22: a vaga criada pela ausência de Judas Iscariotes devia sei preenchida. Por quem? Por quem preenchesse uma exigência básica. Deveria ser alguém que tinha estado na companhia dos demais discípulos por todo o tempo em que o Senhor Jesus andara entre eles. Precisava ser do grupo. Alguém poderia argumentar a favor do assim chamado espírito de grupo, apontado como tão necessário para o êxito de um empreendimento em que participam pessoas. O espírito de grupo, todavia, dependia de quem havia formado o grupo: dependia do Senhor Jesus. Ninguém entraria no espírito daquele time sem haver tido convivência com Jesus. Não se tratava apenas de receber treinamento de Jesus para o cumprimento de uma missão. Era muito mais.

Exigia uma ligação de amor com o Mestre, fruto da confiança nele como o verdadeiro Messias enviado por Deus. Tal confiança era obra do próprio Cristo, criada e fortalecida por ele durante o período em que esteve com os seus seguidores. Somente por amor a Jesus, alguém poderia tornar-se testemunha da sua ressurreição na companhia dos demais discípulos. Não se pode esquecer o que significava testemunhar a ressurreição de Jesus naquele contexto histórico.

O testemunho da ressurreição de Jesus leva ao anúncio do Cristo Vivo com tudo o que ele oferece à humanidade. Isso significa, às vezes, bater de frente com aquilo que se apresenta na situação em que nos encontramos. É geralmente o contrário daquilo que parece dominar o cenário. Conclui-se, portanto, que a ligação de amor com o Senhor Jesus, fruto da confiança nele gerada pela convivência com ele, torna-se Indispensável para quem é lembrado como candidato ou candidata a servir o Senhor como testemunha de sua ressurreição. Por ter abandonado a comunhão com Jesus, Judas Iscariotes desqualificou-se para essa missão. A oportunidade para conviver com o Senhor permanece sendo oferecida para todos nós através da Palavra eterna!

V. 23-26: a congregação reunida propôs dois nomes: José, chamado Barsabás, cognominado Justo, e Matias. A congregação propôs os nomes. É um fato digno de nota. Os onze lá presentes nada impuseram. Limitaram-se ao que lhes cabia, ou seja, orientar sobre como agir diante da necessidade existente. Não estaria aí uma bela instrução sobre ações do clero e do laicato dentro da igreja? Há funções cabíveis a um e outro. Seus limites precisam ser observados, a fim de que haja edificação do corpo de Cristo.

A escolha foi precedida de oração. A oração brota da confiança no coração. Tentar fazer a obra da igreja sem invocar o Senhor dela é perder tempo. Não é assim que esse procedimento não leva a nada. Pelo contrário, alcançará resultados, que se mostrarão estranhos à natureza da igreja. Invocar o Senhor não se restringe à oração pura e simples. Como a confiança leva à invocação, também conduzirá à aceitação daquilo que vem em resposta do Senhor. Assim aconteceu na ocasião do texto. Por isto, Matias tomou o lugar do Iscariotes.

É quase inevitável a lembrança relacionada com o nosso modo de agir dentro da missão de testemunhar a Cristo. Agimos em confiança no Senhor com tudo o que isto representa na prática? Novamente se justifica mencionar aqui a importância da convivência com Jesus. A confiança não cai do céu. Nasce porque é gerada pelo próprio Senhor naqueles que com ele estão. A oportunidade para conviver com o Senhor permanece sendo oferecida para todos nós através da Palavra eterna!

3. Proposta homilética

Sugiro o desenvolvimento de prédicas ou estudos a partir daquilo que vejo como grande tema brotando do texto, ou seja, a mobilização da igreja para o desempenho de sua missão como testemunha da ressurreição de Cristo. Refletir sobre o ocorrido naquela congregação de Jerusalém permite-nos inspiração e orientação para fixar os requisitos básicos para a ação de uma igreja que almeja permanecer mobilizada a fim de testemunhar o Cristo vivo. Indico três pontos que julgo notáveis no texto: a) Não houve acomodação da igreja a uma situação que não era a ideal; b) o perfil de quem ocuparia a vaga de Judas Iscariotes, especialmente no que se refere ao resultado da convivência com o Senhor; c) a confiança no Senhor como fundamento da ação a ser realizada. Os três conjuntamente, ou qualquer um deles em separado, poderão fornecer o tema preponderante para a celebração em vista.

Proclamar Libertação 28
Editora Sinodal e Escola Superior de Teologia


Autor(a): Paulo Moisés Nerbas
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Páscoa
Perfil do Domingo: 7º Domingo da Páscoa
Testamento: Novo / Livro: Atos / Capitulo: 1 / Versículo Inicial: 15 / Versículo Final: 26
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 2002 / Volume: 28
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 7163
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Que todo o meu ser louve o Senhor e que eu não esqueça nenhuma de suas bênçãos!
Salmo 103.2
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