Atos 10.34-38

13/01/2002

Prédica: Atos 10.34-38
Leituras: Isaías 42.1-7 e Mateus 3.13-17
Autor: Paulo Moisés Nerbas
Data Litúrgica: 1º Domingo após Epifania
Data da Pregação: 13/01/2002
Proclamar Libertação - Volume: XXVII
Tema: Epifania

1. Textos do dia

Isaías 42.1-7
É um texto com profecia da vinda do Servo do Senhor, o Messias. Conforme provas abundantes do Novo Testamento, tudo se cumpriu com a vinda de Jesus Cristo ao mundo. Essa profecia é citada pelos evangelistas e apóstolos pelo menos quinze vezes no Novo Testamento. A ênfase, portanto, recai sobre a vinda do Messias, o Servo do Senhor, e sua obra a realizar. É um texto apropriado para a Epifania, pois revela o Salvador e a salvação prometida pelo Senhor. Trata-se do amado do Senhor sendo enviado para vir ao encontro daqueles que o Senhor também ama. Entre esses não estão apenas aqueles que pertencem ao Israel racial, mas também os gentios, o que revela a amplitude do amor de Deus. Virá com o propósito de “não esmagar a cana quebrada, nem apagar a torcida que fumega”. Será, portanto, uma vinda de socorro para aqueles que anseiam por sua ajuda, uma vinda, por isso, a ser saudada com ações de graças.

Mateus 3.13-17
No batismo de Jesus, o Deus Triúno coloca seu carimbo de aprovação sobre a obra de redenção da humanidade. Diante de Jesus estava a obra a fazer. A epifania batismal demonstra que era obra aprovada pelo Senhor, pois aquele que a realizaria era, de fato, o Filho amado de Deus, assim declarado pelo próprio Pai. Aprovando a missão a ser efetuada por Jesus, Deus manifestou seu amor pela humanidade e seu desejo de ela alcançar o socorro que só o Messias é capaz de trazer. Era o sim de Deus para a obra e o autor dela.

Atos 10.34-38
O capítulo 10 de Atos relata, do início ao fim, a história de Cornélio, um centurião romano “piedoso e temente a Deus” (v. 2), embora de origem gentílica, ou seja, um não-judeu. Várias considerações podem ser anotadas sobre o texto e aquilo que ele revela. Prefiro, porém, ficar com aquilo que nos permite refletir sobre o tema que vejo em destaque ns três leituras do dia: Deus, por amor, providencia socorro para quem dele carece. No caso específico de Cornélio e sua família, constata-se o socorro divino para não-judeus e gentios. A ação salvadora de Deus não fica presa a qualquer limite imaginado pelas pessoas. Deus não se deixa tolher na sua ânsia de vir em socorro, movido por sua misericórdia.

2. Análise de Atos 10.34-38

v. 34 – Corremos o risco de imaginar as ações divinas a partir das nossas ações, atribuindo a Deus um comportamento idêntico ao nosso. Quando distinguimos entre nações, raças, grupos sociais, religiões, com facilidade deixamos de prestar atenção naqueles que não consideramos “dos nossos”. Criamos muros para resguardar nossas preferências e limitamos o alcance do olhar gracioso de Deus, imaginando que ele contempla tão-somente aqueles que colocamos dentro dos nossos muros.

Pedro, ensinado por Deus, conforme ele mesmo confessou (v. 28), encontrava-se pronto para agir diferentemente da forma como antes julgava correta. “Deus não faz acepção de pessoas”, afirmou o apóstolo. É um verdadeiro proclamar da universalidade da graça divina, que, para nós, lembra duas verdades expressivas. Primeiramente, consola-nos com a certeza de que a misericórdia do Senhor também é para nós, está à nossa disposição. Em segundo lugar, leva-nos a olhar por sobre os muros construídos ao redor das nossas preferências e ver naqueles que estão do outro lado criaturas a quem Deus quer fazer conhecida a sua graça, para socorrê-las e ampará-las também. Chama-nos, portanto, a uma atividade voltada para a evangelização e diaconia, sem prejulgar a quem quer que seja. Se Deus não faz acepção de pessoas, por que haveríamos de proceder de modo diferente?

v. 35 – Em continuação às palavras do versículo anterior, Pedro inclui o “em qualquer nação”, tão importante para justificar sua ida à casa de Cornélio. O apóstolo reconheceu que o objeto do amor divino não são raças especiais, porém aquelas que compõem as raças, ou seja, as pessoas. O “em qualquer nação” pode ser compreendido por nós como “em qualquer cidade, em qualquer família, em qualquer bairro ou vila”. Revela-nos a forma de Deus olhar para as pessoas, chamando-nos, ao mesmo tempo, para uma avaliação da nossa maneira de vê-las. A Palavra de Deus tem o poder de nos surpreender, como surpreendeu Pedro no episódio junto a Cornélio. São surpresas que apontam para novos caminhos e outras atitudes a serem seguidas por aqueles que foram chamados por graça à vida de servos do Senhor. Também os já servos do Senhor têm a aprender que Deus está ansioso por vir em socorro de todos, mesmo que estejam em situação que, aos nossos olhos ou pelos nossos padrões de julgamento, não teriam muita chance de serem lembrados pelo Senhor. Contudo, não fazem eles parte daqueles que estão “em qualquer nação”?

Há que ressaltar, todavia, o final deste versículo. Aponta para uma condição a fim de alguém ser aceito e recebido por Deus. “Aquele que o teme e faz o que é justo” será aceito pelo Senhor. É preciso cuidado aqui para não atropelar os passos a seguir, pois correríamos o risco de concluir erradamente o nosso pensamento. Em primeiro lugar, lembremos que Deus deseja que mulheres e homens em qualquer nação cheguem a temê-lo e pratiquem o que é justo. Para tanto, procura fazer conhecida a sua Palavra, pois ela revela o caminho para o temor a Deus e a prática da justiça. A Igreja é convocada para levar a mensagem reveladora, o que nos coloca, individualmente, entre os privilegiados que atuam na obra da missão.

Em segundo lugar, é aceitável a Deus aquele que o teme e faz o que é justo. Não há outro caminho para chegar a tanto, a não ser através da comunhão de fé com o Filho de Deus e Salvador, Jesus Cristo. É o temor filial que o texto menciona. Não é fruto de uma imposição tirânica de um senhor sobre um subordinado. Antes, é o resultado da confiança na Palavra daquele que amorosamente nos aceita como Pai.

Por sua Palavra quer dar a vida aos seus filhos. Ora, em Cristo, Deus aceita qualquer pessoa como filho ou filha. Quem foi aceito teme ao Senhor, porque crê encontrar nele a vida. Por temor entendemos o aceitar da vontade do Pai e a busca para cumpri-la, apesar de todas as dificuldades em razão de continuarmos sendo pecadores. Por temor ao Senhor, faz também o que é justo. O fazer justiça acontece na prática da vontade do Pai. É o esforço do povo de Deus para colocar em ação o que Deus apresenta para ser praticado como justiça. Fazer o que é justo sempre precisa ser lembrado nos seus dois sentidos: horizontal e vertical. O primeiro aponta para o nosso relacionamento com o próximo, a partir da nossa condição de filhos de Deus. O segundo indica nosso relacionamento com Deus. O justo diante dele é aquele/a que vem coberto pela justiça de Cristo, da qual nos apropriamos por meio da fé. Por melhores que sejam as intenções por trás das nossas ações, elas sempre estarão contaminadas pelo pecado que ainda habita em nós. Por conseguinte, apenas por meio de Cristo, o que fazemos será visto com “justo” pelo Senhor. A que conclusão, portanto, chegamos? Ora, o caminho para o temor filial e para a prática do que é justo, condição para ser aceitável a Deus, passa por Jesus Cristo. Nele Deus vem em socorro das pessoas em qualquer nação. Como é bom constatar isso no domingo em que lembramos o batismo de nosso Senhor e Salvador, fato que “carimbou” a aprovação de Deus sobre a pessoa e obra de Jesus.

v. 36 – A mensagem do socorro de Deus a todos, sem fazer acepção de pessoas, foi enviada aos filhos de Israel. Aqueles, como caixas de ressonância, serviram aos propósitos divinos para que a Palavra chegasse ao conhecimento de outras nações. Qual tem sido a nossa ação como caixas de ressonância da mensagem do socorro de Deus aos que se encontram em qualquer cidade, família, bairro ou vila? A palavra de socorro é o evangelho da paz, por meio de Jesus Cristo. Paz com Deus, paz em Cristo. Paz com Deus foi oferecida a Cornélio e sua família. Era, porém, a paz em Cristo. Paz que Pedro, como seu mensageiro, levava àquela casa. É o convite para sermos também promotores da paz. Paz com Deus em Jesus Cristo... Mas quem é Jesus? Seu batismo traz a revelação: é o Filho amado de Deus. É o Messias prometido, o Salvador profetizado. Pedro acrescenta algo: este é o Senhor de todos, afirma o apóstolo. É o Senhor; sobre isto não há dúvida. A mensagem do evangelho da paz, todavia, convida a ver neste Senhor o Salvador, o que transforma completamente a situação de cada ser humano diante do Senhor. É o Senhor de todos, quer todos saibam ou não isso. Qual, entretanto, o desejo de Deus? Que todos, em qualquer nação, creiam e confessem que este Senhor “me remiu a mim, homem perdido e condenado, me resgatou e me salvou de todos os pecados, da morte e do poder do diabo” (Lutero, Explicação do Segundo Artigo do Credo Apostólico).

vv. 37,38 – A preocupação de Pedro volta-se claramente para uma direção. Quer que Cornélio e os seus se familiarizem o máximo com Jesus, a fonte da paz, o Senhor de todos. Faz menção de fatos já conhecidos aos ouvintes, como a divulgação da Palavra após a pregação do batismo de João. Jesus de Nazaré foi ungido por Deus com o Espírito Santo e poder por ocasião do seu batismo. Ungir é empossar. Portanto, ter sido ungido por Deus equivale a dizer ter sido empossado por Deus como Messias. Uma vez ungido, Jesus cumpriu a sua atividade messiânica, já prevista por Isaías na profecia sobre a vinda do Servo do Senhor. Fez o bem, curou, em cumprimento da profecia, porque Deus já determinara isso através dos profetas. Além disso, por meio de suas ações revelava que o Reino de Deus já lá estava (ver Lc 7.22).

Creio que o desejo de Pedro de tornar Jesus familiar a Cornélio e sua família concentra em si um dos pontos altos da reflexão a partir dos textos do dia. Se o socorro de Deus às criaturas chega por meio de Jesus, como este será conhecido, aceito e crido, se não houver familiaridade com Jesus Cristo? Somos remetidos como Igreja, como cristãs e cristãos, mães e pais, amigas e amigos, a uma reavaliação do como do nosso agir para deixar Jesus Cristo familiar a quem Deus deseja que seja familiar. A quem mesmo? Aos que se encontram “em qualquer nação”! Valemo-nos de estratégias, linguagem, atitudes e abordagens apropriadas para o objetivo em vista dentro das várias e diferentes situações específicas de quem Deus quer socorrer com o evangelho da paz? É boa notícia aquilo que colocamos diante dos olhos e ouvidos carentes de socorro? Qual a embalagem utilizada por nós para transportar a boa notícia para junto daqueles que serão receptores dela?

Consola-nos saber que o socorro de Deus é multifacetado. Dirige-se também a nós, oferecendo-nos amparo para adotar novos procedimentos no cumprimento da missão de anunciadores da paz. Sempre é tempo de aprender, como Pedro aprendeu, a fim de participar da fantástica experiência de ver alguém familiarizado com Jesus, reconhecendo-o como Senhor e encontrando nele o socorro do Salvador.

3. Sugestão homilética

Tema: Passar adiante o socorro de Deus.
a – Batismo de Jesus: revelação de Deus a respeito do seu Filho.
b – Propósito da revelação: torná-lo familiar ao mundo como o Messias prometido.
c – Nossa situação de Igreja: o propósito da revelação se cumpriu em nós.
d – Nossa ação agora:
– Reconhecer o desejo de Deus de vir em socorro das pessoas, pois ele não se restringe a nós. Ele busca “em qualquer nação”.
– O que essa verdade muda em nós?

1 – Tira-nos da acomodação e leva-nos a olhar para além dos nossos muros.
2 – Questiona a nossa ação até agora no sentido de tornar Jesus familiar às pessoas.
3 – Remete-nos ao socorro de Deus, alcançado em Jesus, para lá encontrarmos a motivação que nos põe a agir.

4. Termos-chave

Destaco três termos que considero indispensáveis para a reflexão dentro da forma como transcorreu. São eles: o socorro de Deus, pois revela sua misericórdia ilimitada; aceitável a Deus, porque permite apontar para “como” ser aceitável a Deus; familiarizar com Jesus, a fim de que se concretize a aceitação por parte de Deus.

Bibliografia

HOYER, George W. Chamados para servir. Porto Alegre : Concórdia, 1988.
ROTTMANN, Johannes H., SCHOLZ, Vilson. Atos dos Apóstolos. Porto Alegre : Concórdia, 1997. v. 2.

Proclamar Libertação 27
Editora Sinodal< e Escola Superior de Teologia


Autor(a): Paulo Moisés Nerbas
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Epifania
Perfil do Domingo: 1º Domingo após Epifania
Testamento: Novo / Livro: Atos / Capitulo: 10 / Versículo Inicial: 34 / Versículo Final: 38
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 2001 / Volume: 27
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 7158
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