Atos 10.34-38

Auxílio Homilético

08/01/2006

Prédica: Atos 10.34-38
Leituras: Isaías 42.1-7 e Marcos 1.4-11
Autor: Margarete Emma Engelbrecht1
Data Litúrgica: 1º. Domingo após Epifania
Data da Pregação: 08/01/2006
Proclamar Libertação - Volume: XXXI

1. Divisões

Do lado de lá dói o dedo, vem o doutor põe a mão,
do lado de cá quebra o braço, isso não é nada não!!!
(canção de movimentos populares)

A divisão mais presenciada por nós em nosso cotidiano é, sem dúvida, a da classe social. Na busca por socorro, atendimento na área da saúde, ter ou não ter plano de saúde modifica todo o tratamento dado às pessoas.

A divisão de etnias compromete a missão da igreja. Ainda se discute se cotas para pessoas afro-descendentes é justa ou não. Quer superar-se peca- dos históricos sem o comprometimento de expectativas ou oportunidades de grupos que sempre se destacaram. “Lute por seu direito, sim, mas não me incomode!”: essa parece ser a máxima do momento.

Isso é ainda mais evidente se a mobilização de um grupo que quer lutar por algum direito incomoda a organização ou a agenda de outras estruturas ou grupos ou indivíduos. Cita-se sempre a máxima “o direito de um vai até o direito de outro”, sem construir, em conjunto, nossa convivência, nossas regras e direitos.

Em nossas igrejas, a divisão de crentes e neófitos provoca dores em ambas as partes. Também é comum a divisão entre crentes e os “de tradição”.
De qualquer forma, o discurso fácil contra a divisão das pessoas boicotou, pasmem, a organização. Desde o final da década de 1990, para reunir pobres, afro-descendentes, mulheres ou qualquer grupo que reivindique discussão de termos, valores etc., é preciso, de antemão, ter muito bem formulada a defesa do direito de reunir-se em “separado”. Há uma busca por “comunhão” barata, nem sempre com o devido esclarecimento, com o devido amadurecimento. E repetem-se, então, formas abusivas e de desrespeito, que irão “ganhar a discussão” sem o devido aprofundamento, sem a devida dignidade.

2. Divisão no texto

Atos dos Apóstolos, escrito no final do primeiro século, aborda questões que interessavam a determinada comunidade. Para isso retoma assuntos que nem sempre estavam “claros” para as pessoas às quais o texto é escrito. O direcionamento é evidente, haja vista as epístolas testemunharem, por exemplo, uma história diferente do que é redigido em Atos.

“Atos não conhecem quaisquer diferenças entre a doutrina de Pedro e a de Paulo.(...) A vida da comunidade primitiva é retratada como comunhão pacífica de todos que dela faziam parte.”2

O cristianismo que se formava de gente oriunda do mundo gentio, sem a tradição judaico-cristã e de gente cristã, com formação helenista, fazia da ética uma discussão obrigatória. – Talvez porque traziam “éticas” diferentes de seus grupos, de suas religiões, e havia uma necessidade de unificar a forma de ser e também de convencer as pessoas recentemente convertidas da “ética” da “nova comunidade”. Havia a necessidade de uma formação que fosse unificando o grupo religioso que se formara em torno de princípios básicos de convivência e de confissão de fé.

“E na modificação do decreto dos apóstolos numa soma de manda- mentos visa a mostrar que o que estava em questão não eram perguntas da legislação cultual, mas instruções éticas dos apóstolos para toda a igreja.”3

É por isso que o texto em questão, At 10.34-38, “encontra-se inserido no relato da instituição dos sete até a perseguição por Herodes. É antecedi- do pelos trechos que descrevem a evangelização em Jerusalém e na Palestina e sucedido pelos relatos da missão que irá até Roma”4 .

“Local da discórdia é Cesaréia; fronteira da terra judaica com o “mundo pagão”, portanto, na periferia. Temos, então, o local. Mas, temos também as pessoas envolvidas: Cornélio (centurião da corte) e Pedro (judeu zeloso). O lugar da resolução: o grande centro, Jerusalém. O assunto em discussão, a legislação: em primeiro, a lei da impureza (Lv 11) e, em segundo, a lei que proibia aos judeus misturarem-se com os pagãos.”5

É interessante perceber que as soluções para essa discussão surgem de caminhos diversos:

“Soluções: para Cornélio, ‘um anjo vem ao seu encontro’ (At 10.22); a Pedro, ‘o próprio Senhor’ (At 10.14). A síntese: ‘Pedro, então, começou a falar: de fato, estou compreendendo que Deus não faz diferença entre as pessoas. Pelo contrário, ele aceita quem teme e pratica a justiça, seja qual for a nação a que pertença”6 .

3. Divisões na reflexão

O sofrimento identifica as pessoas, torna-as semelhantes. Normalmente se cita a “igualdade na sepultura”, tema sempre em voga, especialmente onde temos nossos atos litúrgicos de enterro. Mas é só ver pessoas bem diferentes, que se submetem a um tratamento de câncer, que são assoladas pela violência, pela morte de familiares no trânsito, que seja, vemos o quanto também se tornam similares as experiências. O último versículo do texto em questão anuncia Cristo como o “que fez o bem e curou”.

“O nojo do mundo em que vivo, da sua brutalidade e sua sede por mais morte me derruba e, em meio a esse mundo da propaganda da beleza dos aviões de caça e dos tanques, apresentada de forma cada vez mais elegante e aberta, em meio a esse mundo, em forma de indústria da morte, do cresci- mento econômico desenfreado, que nada aprendeu do episódio de Tschernobyl, em meio a essa mentira cintilante e perfeita eu não estou mais sozinha com a minha tristeza: a dor de Deus abraça a minha dor e a tristeza que hoje vivemos se transforma em uma força que une, combate e é solidária. Minha força cresce a partir da minha tristeza. Toda a minha tentativa visa transformar a ‘tristeza do mundo’. Eu não acho que seja possível transformar a ‘tristeza do mundo’ em alegria. Isso seria pedir demais, como se pudéssemos reorganizar a profunda tristeza. Também seria pedir de menos, porque então a ‘tristeza do mundo’ seria substituída somente pelas alegrias deste mundo, principalmente no fato de ter, de possuir, de usar, de consumir as alegrias deste mundo.
Penso que é nossa tarefa transformar a ‘tristeza do mundo’ na dor de Deus, e com a dor de Deus eu faço uma experiência singular.”7

Penso em Cornélio e Pedro, penso nos grupos que se identificavam com um ou com outro, penso em nossas comunidades que ainda repetem essas divisões, penso em nosso mundo que sempre colhe frutos do sofri- mento, da exploração e quase nunca da alegria.
Confessar esse Cristo que tem a presença de Deus (e não é dividido), esse Cristo que cura (não é o Cristo que escolhe alguns, mas que faz denúncias políticas; que promulga como bem maior o amor e o respeito mútuos ) é buscar unidade.

4. Texto para falar do Batismo de Jesus Cristo. Divisão entre nós.

Ai vida que tanto sabe doer, ai tanta dor
que sabe a vida, ai saber tanto que a vida dói,
ai vida que me faz sentir
tão viva de amor, porque a vida continua! (Andrea Mühlhäuser)

Estamos no domingo em que se celebra o Batismo de Jesus Cristo. A prática do Batismo tem provocado sérias divisões em nossa igreja. Sem superarmos a discussão entre batismo de infantes, batismo de pessoas adultas (sempre dizemos que as duas formas são aceitas pela IECLB), veio a discussão sobre batismo no Espírito Santo, batismo nas águas, necessidade de se confirmar o Batismo, rebatismo e tantas outras práticas que temos “visto e ouvido”.
A semelhança com o texto é interessante. Alguns dizem que ouviram o anúncio de anjos, que poderiam ser interpretados como os que trazem elementos da tradição, “Cornélios”. Outros dizem que receberam diretamente do Espírito, “Pedros”, que querem ter liberdade diante de uma estrutura quase rígida.

É novamente a teologia da cruz que vai direcionar o enfoque desta pregação. Não consigo desvincular do Batismo a certeza do Batismo, amor total para com a criança portadora de deficiência, especialmente a mental, ou para aquela que morreu antes de “tomar decisão para sua vida adulta”.
Não consigo desvincular do Batismo o fortalecimento diante de dificuldades, que vamos enfrentando em nosso cotidiano (lembrando o que Lutero escreveu em sua mesa de trabalho: “sou batizado!”).
Não consigo desvincular do Batismo a possibilidade de reconhecer erros, coisas que só pessoas “adultas” conseguem fazer.

“Se a dor fosse somente dor, eu não poderia denominá-la dor de Deus. Mas, por ela estar orientada para a alegria, por ela ser carregada pela ale- gria, eu a chamo de dor de Deus.”8

Reconhecendo a dor em nosso cotidiano, denunciando-a e propondo justiça, integridade, ética, solidariedade... é que vamos curando. Vamos as- sumindo esse ser sacerdote, sacerdotiza, no dia-a-dia. Mas vamos recebendo do Espírito Santo, de graça, o tal poder... poder da cura, da alegria... poder de reconhecer comunhão.

Cornélio e Pedro tinham diferenças. Tinham metas diferentes também. A comunidade de Atos reconhece essas diferenças. E coloca palavras de reconhecimento mútuo. Há recuperação de história conjunta, há valoriza- ção de um pelo outro. A história de Cristo, contada aqui por Pedro, não deixa dúvidas de que o agir de Deus fez ressuscitar Jesus e é por meio dele e por ele que a igreja se torna testemunha desse fato inquestionável para fé, não simplesmente por comodismo humano ou por aspiração pessoal – o amor de Deus acontece, porque somente Deus é capaz de não impor condi- ções para amar, curar, restabelecer, batizar...

Temos a tendência de criar escalas de valores entre nós. Quem é mais importante? Que disciplina é mais importante para o conhecimento? Qual raça é a melhor? A comunidade primitiva questionou-se até a respeito de qual dom seria o mais importante...

Isso já não era mais a contenda entre Pedro e Cornélio, a partir da afirmação de que Deus trata todos de modo igual – o que recebemos de Deus é importante de qualquer forma e tem um fim específico na ação de Deus no mundo, realizada em nossa vivência da palavra de Deus.

O que se buscava nas primeiras comunidades cristãs era consenso dentro da diversidade criada a partir da pregação dos apóstolos. As diversas vertentes sociais, religiosas e culturais dentro da comunidade estavam sendo desafiadas a conviver e a achar um consenso comum especialmente sobre a pessoa de Cristo e a missão dos “novos convertidos”. Sem a centralidade em Cristo, nada disso teria sido possível e a tradição apostólica teria se perdido. Por isso o debate não se acalora a respeito de quem recebe ou não o poder do Espírito Santo, mas sobre o testemunho que a igreja é chamada a dar a partir do Cristo, que andou por toda parte fazendo o bem e curando todos. Nos processos de fazer o bem e de curar, as pessoas iam se encontrando, mostrando o amor de Deus e ensaiando uma “nova sociedade”, possível somente a partir de Deus.

Ora, as nossas diferenças no conceber do agir de Deus distanciam-nos da centralidade da fé em Jesus Cristo – de repente o que é importante não é Cristo, mas é quem recebe ou não o Espírito, quem confirma ou não o seu Batismo. Ao ajudar pessoas, ao sentar-se à mesa, ao chamar seus discípulos, Jesus não preconcebeu atitudes, moral, ética... Ladrões, prostitutas, usurpadores de impostos estavam em seu círculo de amizade. As pessoas modificavam-se depois do encontro com Cristo, não por ser uma imposição para a cura ou para a salvação, mas porque se sentiam chamadas a experimentar aquela novidade que as fez enxergar o mundo e a própria dor de outra forma. Cristo não criou condições. Foi a “incondicionalidade” de seu amor que modificou pessoas, que transformou pensamentos, que criou coragem em discípulos medrosos trancados em Jerusalém – é a incondicionalidade do amor de Deus que diferencia o seu agir do nosso agir condicional em nosso mundo (tem que ser da mesma igreja; vestir-se da mesma forma; comportar-se como manda a minha regra etc.).

O consenso é importante para a convivência em grupos – sem consenso é impossível alcançar a meta, porque no meio do caminho o testemunho se dilacera. Há um abismo entre diferença e diversidade. Na comunidade cristã primitiva, havia uma diversidade de pensamentos, costumes e regras que tiveram que achar um consenso, por crerem numa causa maior. Diversidade é uma variedade de opiniões que podem e devem conviver. Diferença é o que causa desigualdade, divergência, é o que divide.

O que temos hoje em dia é diferença! Diferença de classes, diferença de credos, diferença entre seres humanos, diferenças e mais diferenças... elas nos dividem e nos tornam inimigos.

O que Deus postula para nosso convívio fraterno é a diversidade em que, na variedade de costumes, raças e credos, possamos trabalhar fazendo o bem e curando, como testemunho a partir daquele que nos aceitou incondicionalmente e que nos acolheu em nossos abismos. Deus ensina a congregar, reunir, “comungar” – Deus está na contramão dos nossos próprios anseios de “sucesso”, “justiça” e “verdade teológica”.

Notas:

1. Agradeço mais uma vez à colaboração da Pa. Vânia Moreira Klen na discussão e finalização desse estudo.
2. Lohse, 1980, p. 168.
3 Idem, p. 174.
4 Idem, p.164.
5. Otávio Filho, op. cit.
6 Idem.


Bibliografia

LOHSE, Eduardo. Introdução ao Novo Testamento. 3. ed. São Leopoldo: Sinodal, 1980. pp. 163-174.
FILHO, Otávio A. S. In: MUR. Missão urbana e rural. (www.mur.com.br/colunistas) SÖLLE, Dorothee. Deve haver algo mais: reflexões sobre Deus. Vozes, 1999. 109p.


Autor(a): Margarete Engelbrecht
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Epifania
Perfil do Domingo: 1º Domingo após Epifania
Testamento: Novo / Livro: Atos / Capitulo: 10 / Versículo Inicial: 34 / Versículo Final: 38
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 2005 / Volume: 31
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 18443
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