Atos 17.22-31

Auxílio Homilético

27/04/2008

Prédica: Atos 17.22-31
 Leituras: João 14.15-21 e 1 Pedro 3.13-22
 Autor: Gottfried Brakemeier
 Data Litúrgica: 6º. Domingo da Páscoa
 Data da Pregação: 27/04/2008
 Proclamar Libertação - Volume: XXXII

 

1. Preliminares

No pluralismo religioso do século 21, marcado por sérios conflitos e pela urgência do diálogo, a prédica do apóstolo Paulo no Areópago de Atenas adquire especial relevância. Mostra, num exemplo concreto, como a primeira cristandade enfrentou o complexo mundo religioso de então e desempenhou sua missão. Misturavam-se, em Atenas, religiosidade popular e tradições filosóficas, dando ao universo da fé um colorido altamente variado. De certa forma, a história se repete. Dois mil anos depois, a comunidade cristã volta a lutar com uma religiosidade não-cristã, difusa e agressiva. Qual o recado do texto para tal situação?


2. Informações exegéticas

Na composição do livro dos Atos, o discurso de Paulo frente a filósofos estóicos e epicureus (At 17.18) constitui um dos pontos altos. Também para Lucas, o autor do livro, Atenas era mais do que uma cidade. Era um símbolo, sinônimo da cultura grega e de suas nobres tradições. É verdade que, na época do Novo Testamento, a capital da Grécia estava em decadência. Vivia da glória de tempos passados. Conforme estimativas, o número de habitantes não excedia a casa dos 5.000, ficando muito aquém de Corinto, por exemplo. Mesmo assim, mantinha o fascínio de antiga metrópole do espírito helênico. Por isso a chegada do evangelho a esse lugar tinha que despertar alguma atenção.

Lucas descreve essa chegada na forma de uma fala do apóstolo Paulo, que, em sua segunda viagem missionária, passa por aquela cidade. Não se trata de um protocolo, e sim de um paradigma de pregação missionária, para o qual a teologia de Paulo contribuiu sem dúvida nenhuma. Mas não é essa a única fonte. Lucas quer mostrar como se deve pregar entre os gentios. Para tanto recorreu às melhores tradições homiléticas de seu tempo. Importante, pois, não é a pergunta pela autoria desse discurso, mas pelos elementos típicos de que se reveste. Cabe respeitar que o auditório de Paulo não é constituído por gente simples, mas pela elite intelectual. Também nesse caso o público determina o modo da fala. Curiosos, os filósofos conduzem o apóstolo ao Are- ópago, o “Rochedo de Ares”, algo afastado da vida tumultuada na praça, para lá, na tranqüilidade do lugar, ouvir o que tem a dizer. Mesmo não podendo convencer seus interlocutores, o anúncio do evangelho, que naturalmente não se limitou a essa única oportunidade (v. 17), trouxe algum fruto. Embora não surgisse comunidade cristã em Atenas, houve quem acolhesse o evangelho, sendo citadas duas pessoas: um homem chamado Dionísio e uma mulher de nome Dâmaris (v. 34).

A fala de Paulo inicia com uma referência à realidade local (v. 22/23), atestando aos atenienses acentuada religiosidade. A prova está na quanti- dade de altares espalhados pela cidade, entre os quais se encontra um com a inscrição “a um deus desconhecido”. A arqueologia não detectou exatamente aquele altar. Mas altares dedicados “a deuses desconhecidos” ou a várias divindades de uma só vez eram comuns na antiga Grécia. São documentos de um déficit religioso. Quanto maior o número de deuses, tanto maior a confusão e a incerteza. Paulo usa esse altar como gancho para sua pregação. Diz que vem anunciar o que seus ouvintes inconscientemente adoram. Afirma ser a religiosidade politeísta sintoma de ignorância, um juízo que atinge também a filosofia enquanto compartilhar a dúvida. Paulo admite que também o paganismo possui uma vaga idéia de Deus, mas não o pleno conhecimento. Por isso passa a falar do Deus verdadeiro (v. 24/25). É o criador do mundo, que por isso é também o Senhor de tudo o que existe. Ele não habita em templos feitos por mãos humanas nem necessita de serviços diaconais. Como poderia ter carências o Deus do qual provêm todas as coisas? Nessas últimas duas questões, os filósofos gregos, em sua crítica à religiosidade popular, concordariam. É interessante observar que Lucas, na composição desse discurso, combina tradição bíblica com idéias do mundo grego. Falta aqui o espaço para detalhar o assunto. Assim já procedia a teologia judaico-helenística na época. Não renunciava ao específico de seu anúncio, mas procurava facilitar o acesso a ele, mostrando convergências entre os mundos grego e hebraico.

É esse método que está em evidência também no resto dessa fala. A humanidade foi criada a partir de uma pessoa (Adão), espalhada pela terra e submetida a regras de tempo e espaço (v. 26). Sua vocação consiste na busca de Deus (v. 27), embora essa não consiga vencer a incerteza. Mesmo assim, Deus não está longe do ser humano. Pois nele vivemos, nos movemos e existimos (v. 28). Essa é uma fórmula quase panteísta, comum no estoicismo, mas interpretada nessa passagem rigorosamente como prova da proximidade de Deus. Demonstra-o a citação, dizendo: “Nós somos de sua raça”. Existe um parentesco do ser humano com Deus, afirmado por alguns poetas gregos, como Lucas bem lembra. O pano de fundo bíblico correspondente é, sem dúvida alguma, o atributo da imagem de Deus, que distingue o ser humano no conjunto da criação e lhe garante singular proximidade a Deus. Por tudo isso proíbe-se a adoração de Deus em estátuas de ouro, prata ou outros ma- teriais (v. 29). O mesmo vale em relação a idéias de Deus concebidas pela imaginação humana. São sinais de deplorável ignorância religiosa. Não fazem jus ao mistério do divino.
Deus, porém, passa uma esponja na ignorância de épocas passadas, determinando que seja anunciada agora em toda a parte a necessidade da conversão (v. 30). A ignorância dos pagãos tem algo de culposo, ainda que Deus, antes do anúncio da conversão, não a penalize. Importa não somente ampliar os conhecimentos a respeito de Deus, mas também mudar o rumo da vida. “Conhecimento de Deus” jamais se resume numa questão meramente teórica. Sempre possui implicações práticas. Exprime-se em “culto”. É preciso aprender a adorar Deus “de corpo e alma”. Em tudo isso não se trata de simples questão opcional. Pois Deus é o juiz do mundo. Ele já fixou o dia no qual julgará em justiça a “ecumene”, isto é, a “terra habitada”, por um escolhido seu, a quem credenciou publicamente mediante a ressurreição dos mortos (v. 31). O nome de Jesus Cristo não é mencionado. Mas quem lê o livro dos Atos sabe a quem o pregador se refere. Jesus é o divisor de águas da história. Ele marca a diferença entre antes e depois. Ele transforma ignorância em conhecimento de Deus. Inaugura uma “nova era”.

Os filósofos, quando ouvem falar em ressurreição dos mortos, interrompem o discurso de Paulo. Consideram a afirmação ridícula (v. 32). Certamente teriam outras razões para se irritar. No entanto, é significativo que o dissenso se inflame justamente na mensagem da Páscoa. Permanece a pergunta: Eles conhecem Deus (cf. Mc 12.24)?

3. Reflexões meditativas

Chamo atenção para a meditação de G. U. Kliewer sobre esse mesmo texto em PL XV, 1989, p. 213s. Oferece interessante contextualização, alta- mente útil para uma prédica em nossos dias. Acrescento alguns pensamentos meus, resumindo-os em quatro itens:

1 – Recomenda-se à pregação cristã o esforço de facilitar às pessoas ouvintes o acesso ao evangelho. A brutal condenação das aberrações, da superstição e da idolatria de quem não comunga o nosso credo denuncia falta de amor e está em desacordo com a estratégia missionária da primeira cristandade. Essa mostra que a acomodação tem limites, sim. Não permite a traição do evangelho. E, no entanto, convida a iniciar pelas convergências, pelas afinidades, pelo que é convicção – e tarefa! – comum. Em vez do confronto deverá ser privilegiado o encontro. A partir daí, é claro, será necessário ressaltar também a novidade do evangelho, sua inconformidade com práticas dúbias, o chamado à mudança. Mas isso com sensibilidade pastoral, que procura evitar ofensas pessoais e choques culturais. Convém à missão cristã conjugar firmeza de posição, tato na metodologia e conhecimento de causa.

2 – A quantidade de altares acusa a ambigüidade da religião e de religiosidade. Também hoje não é diferente. Os cultos a Deus são muitos, melhor: São muitos os deuses a que se rende culto. No fundo, Deus continua “desconhecido”. Por isso mesmo está crescendo no Brasil e no mundo o número de pessoas que se declaram “sem religião”. É gente que desistiu da busca de Deus e se cansou da briga entre as religiões. Será melhor viver sem Deus? Ora, mesmo se Deus for excomungado, os problemas humanos persistem. De certa forma, até mesmo se multiplicam. Não é essa a saída, não. Mas é bom lembrar que as prédicas nos Areópagos de hoje têm outro auditório do que estóicos e epicureus. Aí estão também ateus, muçulmanos, espíritas entre muitos outros, que, mesmo não freqüentando os cultos luteranos, estão curiosos por saber o que temos a dizer. E a religiosidade exuberante de nosso povo, como avaliar? Será demonstração de fé ou sinal de um anseio angustiado, de um grito de socorro, de uma emoção compensatória para as frustrações do cotidiano?

3 – O evangelho proclama o Deus inconscientemente procurado pelo ser humano, o Deus verdadeiro, o criador de céus e terra, juiz do mundo, ma- nifesto em Jesus Cristo. Com que direito o afirmamos? Todo mundo acha que seu Deus é o único verdadeiro. Como sair do impasse? Ora, é preciso discutir “Deus”. Quem será ele? Como falamos dele? Estará próximo do ser humano, terá compaixão, terá amor a seu mundo? Ou será um tirano que gosta de oprimir a criatura, que impiedosamente cobra os deveres, que julga conforme o “carma” e que manda matar seus inimigos? Nós pregamos o Deus de Jesus Cristo, cujo supremo mandamento é o amor, que se compadeceu da criatura pecadora e que quer que nos dirijamos a ele como “Pai Nosso”. A verdade da religião decide-se no discurso sobre Deus e no modo de nosso culto. Deus é um só, evidentemente. Mas as idéias sobre ele divergem e são até mesmo contraditórias. Que nós adoramos todos o mesmo Deus é uma grande mentira.

4 – Nesses horizontes, a acusação da “ignorância religiosa” que se atesta aos outros deve ser articulada com a máxima cautela. Do ponto de vista cristão, ela é procedente, sim. Pois nós conhecemos Deus de modo diferente do que o paganismo ontem e hoje. Mas a autenticidade do Deus de Jesus Cristo não é nenhuma evidência. Em meio ao pluralismo religioso de hoje, tal afirmação não passa de uma opinião subjetiva. Por isso mesmo precisa de confirmação, o que não pode acontecer sob desconsideração de Jesus Cristo. Na concorrência religiosa, o amor de Jesus Cristo, sua palavra e ação, sua cruz e ressurreição são dados fundamentais. Portanto a prédica cristã deve argumentar, “verificar” a fé, mostrar suas razões. Certamente ela não pode oferecer demonstrações científicas. Mesmo assim, ou justamente por isso, deve ser convincente, o que, além do argumento, exige uma prática correspondente. O que se deve temer não é o ataque das outras religiões. O que inspira temor é a possibilidade de uma pregação cristã fraca, sem poder persuasivo, irrelevante.

4. Pistas para a prédica

Ao pensar na prédica, ocorreram-me diversas imagens de gente religiosa. Lembrei-me daquela senhora que se15a9rrasta de joelhos escada acima até o altar de uma capela em cumprimento da promessa que fez por uma graça alcançada. Na televisão, foram exibidas filas de pessoas para adquirir as pílu- las milagrosas de Frei Galvão. Eu soube de um homem que vendeu seu carro para dar o dinheiro à Igreja Universal, a fim de salvar o irmão de uma terrível doença. Vi massas de gente caindo em transe em razão de uma experiência carismática. Tive diante de meus olhos o retrato de fanáticos executando barbaramente inocentes em nome de Deus. Religião tem muitas facetas, algumas repugnantes. As pessoas buscam Deus, esperando dele salvação. Mas qual é o Deus a quem de fato adoram e a quem oferecem seus serviços?

Sugiro colocar a prédica sob essa pergunta. Isso não sem antes ter in- formado sobre o texto e ter mostrado sua relevância. Aliás, os textos laterais sublinham aspectos do que acabamos de expor. O trecho João 14.15-21 reforça ser amor o distintivo do Deus de Jesus Cristo, dom e compromisso ao mesmo tempo. Em 1 Pedro 3.13-22, a comunidade está sendo exortada a estar pronta para dar razão de sua esperança (v. 15). Isso através de palavra e conduta. É assim que se convencem os “pagãos”. E nós, para quem construímos os nossos altares? A pergunta autocrítica não pode faltar. Comunidade cristã é chamada a avaliar continuamente as imagens de Deus, inclusive aquelas encontradas em seu próprio meio. Ou seria Deus um ilustre desconhecido, construção fictícia de um cérebro doentio, uma projeção alienante? Todas essas questões estão implícitas na mensagem desse texto. Uma prédica será insuficiente para explorar sua riqueza. Mas ela deverá dar alguns passos para orientar a comunidade e dar razão da fé no Deus que estava em Cristo e que o ressuscitou dos mortos.


5. Subsídios litúrgicos

Confissão de pecados:

Senhor! Perdoa-nos se estamos confusos e confusas em meio a tantas ofertas religiosas. Já não mais sabemos por onde nos orientar e o que crer. Vacilamos em afirmar a nossa fé e até mesmo nos sentimos despreparados para tanto. Ademais, deixamos de dar testemunho do evangelho através de nosso agir. Nossa conduta, por demais vezes, está em desacordo com a tua vontade. Confessamos ser difícil amar o nosso próximo, que nos irrita e que julgamos não merecer o nosso amor. Por isso mesmo te rogamos: queiras dar-nos a força de teu Espírito para cumprir nossa vocação. Tu chegaste perto de nós em Jesus Cristo e prometeste perdoar nossas dívidas. É por isso que te pedimos. Tem compaixão de nós! Mostra-nos o caminho que devemos trilhar e a missão que temos a cumprir. Kyrie eleison!

Oração de coleta:

Senhor! Obrigado pela oportunidade de nos reunir em culto. Se há pes- soas que preferem permanecer em casa, o prejuízo é seu. Pois tu nos confortas com a tua palavra. Tu nos motivas para uma nova ação, tu nos encorajas a enfrentar mesmo problemas difíceis. Faze com que o teu Espírito Santo permaneça conosco nesta nova semana, que ele nos conduza e fortaleça quando fraquejamos, que nos preserve a alegria no que fazemos. Nós temos a coragem de nos dirigir a ti, sem medo e com toda a confiança. Pois através de Jesus Cristo aprendemos que és bondoso e que nos queres como teus filhos e tuas filhas. Pois é nessa qualidade que nos dirigimos a ti. Dá-nos amparo nos pe- rigos e fortalece em nós a fé. Por Jesus Cristo te pedimos. Amém.

Intercessão:
Senhor! Na intercessão nossos olhares se dirigem ao sofrimento alheio. Dele nosso mundo está cheio. São tamanhas as dimensões, que poderíamos desesperar. Por que existe tanto mal? Estamos ameaçados de nos tornar apá- ticos frente a tanta notícia horrível nos meios de comunicação. Será que nosso mundo tem cura? Senhor, ouve o clamor de teu povo, vem socorrer as pessoas em situação difícil, faze com que justiça seja feita a quem sofreu crime. Nós te rogamos: Dá uma nova mentalidade a esse nosso povo para que venha a odiar a corrupção, acabe com a impunidade, volte a honrar a honestidade. Protege-nos contra o perigo do conformismo com o mal e o desespero diante de tanta lama na sociedade. Nós nos solidarizamos com as vítimas inocentes do terror, compartilhando sua dor e seus anseios por um outro mundo, em que amor, paz e esperança já não sejam palavras vazias. O mesmo desejamos para nós. Dá-nos força para o engajamento na boa causa. Assiste a todas as pessoas que se encontram em situações de crise, principalmente as pessoas doentes, moribundas, atingidas por golpes cruéis. Dá-lhes força para superar a tristeza e reconquistar a alegria. Enfim, nós te pedimos em favor da tua igreja em todo o mundo, particularmente da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, seus obreiros e seus membros. Concede que seja vigorosa no cumprimento de seu mandato, semeando a fé, motivando para o amor e alimentando a esperança. Isso para tua glória e para o bem de tua criatura. Amém


 

 



 


Autor(a): Gottfried Brakemeier
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Páscoa
Perfil do Domingo: 6º Domingo da Páscoa
Testamento: Novo / Livro: Atos / Capitulo: 17 / Versículo Inicial: 22 / Versículo Final: 31
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 2007 / Volume: 32
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 20092
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