Atos 2.1-13 - Deus constrói a sua Igreja

Prédica

03/06/1979

PENTECOSTES
DEUS CONSTRÓI A SUA IGREJA
Atos dos Apóstolos 2.1-13 (Leitura: Salmo 147) 

Há uma história muito antiga que se encontra no primeiro livro da Bíblia, em Gênesis 11. É a história da torre de Babel. Ela nos conta que em toda a terra havia apenas uma língua, e que os homens, tendo descoberto uma grande planície fértil, disseram: «Vinde, edifiquemos para nós uma cidade e uma torre cujo tope chegue até os céus e tornemos célebre o nosso nome, para que não sejamos espalhados por toda a terra.» Sabemos o que veio depois. O tope da torre não chegou até os céus. O nome de seus construtores ficou famoso, sim, mas em um sentido bem diferente. A torre de Babel, abandonada e transformada em ruína, tornou-se um símbolo de confusão e de desarmonia: Deus confundiu a língua de seus construtores orgulhosos e os espalhou sobre toda a terra. 

Anos atrás, cientistas americanos desenterraram restos de uma torre semelhante, no atual Iraque, a antiga Babilônia. A torre era um templo, uma igreja! Bem no alto dela havia um pequeno recinto onde era colocada a estátua de uma divindade. Então esta construção dos babilonenses era um ato religioso! Eles queriam colocar o seu deus em um lugar bem alto. O deus deles servia para engrandecer o nome deles, e assim, eles queriam eternizar o seu próprio nome. Queriam construir uma igreja eterna, firme e segura, cujo tope tocasse as nuvens, coroando-a, depois, com a estátua de um deus, obra de suas mãos. Queriam apoderar-se do céu e colocar lá o deus feito por eles. Um deus que teria a função de guardar a unidade dos babilonenses, um deus nacional, um deus do povo, um símbolo da grandeza, da inteligência e do poder dos homens. 

Parece que a torre e Babel é uma figura de toda religião feita e inventada pelo homem: O homem quer chegar ao céu, quer eternizar o seu nome, quer usar a divindade como instrumento de seus planos criativos. A Bíblia deixa bem claro que tal religião não leva a Deus. Ela não cria a união dos homens. Cria confusão. Deus não permite que o tope desta torre chegue ao céu. Qualquer projeção de sonhos religiosos humanos, tão bonitos e grandiosos que sejam, não tem futuro. Tais sonhos estão condenados desde o início. A religião que o homem faz é idolatria. O homem separado do Deus verdadeiro tem um interesse em fazer ídolos, porque o ídolo é mudo. O ídolo não fala, não contraria nunca a vontade do homem. E é isto que o homem separado do Deus verdadeiro quer. Ele quer um deus mudo, que o deixe erguer as suas torres, os seus templos, os seus sonhos de validade e de grandeza. 

Deus acabou com o sonho dos construtores da torre de Babel. Não uma vez, mas milhares de vezes. A confusão das torres — e das religiões do mundo é prova disto. A confusão de línguas, de opiniões políticas, filosóficas e religiosas de nosso tempo atual é prova suficiente para os que têm olhos que querem enxergar. 

A história de Pentecostes, que lemos há pouco, parece ser um ato de Deus, realizado bem no meio deste nosso mundo «babilônico»: Quem ouve a longa lista de povos representados em Jerusalém naquele dia: partos, medos, elamitas — e até cretenses e árabes (pense só: judeus e árabes juntos, no mesmo lugar!), ele é obrigado a lembrar-se de Babel e da confusão de línguas lá originada. E o que acontece no dia de Pentecostes, é realmente a resposta de Deus à confusão babilônica, também à confusão religiosa dos homens todos. É o começo da construção — não de um templo humano, mas da igreja de Deus. Uma igreja que não é feita com tijolos queimados no fogo, mas sim, com pessoas sobre as quais desceu o fogo do Espírito Santo. 

Vejamos bem: Esta igreja de Deus é construída de cima para baixo. Não são os homens que lançam o fundamento. Não é um sonho humano projetado para o céu. É Deus mesmo que derrama o seu Espírito Santo sobre um grupo de pessoas amedrontadas, incapazes, por si, de levar adiante a tarefa que lhes tinha dado o seu Mestre. O Espírito Santo vem «de repente», no momento em que Deus quer. Ninguém tinha «aquecido» as pessoas presentes. Ninguém as tinha entusiasmado com palavras fogosas. O Espírito Santo vem de surpresa, e vem com poder. «Veio do céu um som, como de um vento impetuoso, e encheu toda a sala onde estavam assentados.» — Este vento impetuoso não era o Espírito. Era o sinal que o acompanhava. Um sinal que explicava o seu poder. Um vento impetuoso, uma tempestade repentina evento que o homem não consegue fazer nem manejar. «O vento sopra onde quer», diz Jesus. Ninguém pode encher um balão com um pouco deste vento impetuoso e dizer: Agora eu tenho o Espírito Santo. Não. Deus permanece o Senhor de seu Espírito. É bom que o saibamos! 

Mas Deus manda, Deus derrama o seu Espírito, e onde este Espírito estiver agindo, aí começam a acontecer coisas milagrosas. O vento derruba o que é podre. Ele renova o ar viciado, ele põe em movimento as coisas paradas e estagnadas. 

E outro sinal acompanha a descida do Espírito Santo: É o fogo. Línguas «como que de fogo» pousam sobre as cabeças dos discípulos. Também o fogo não é o Espírito. É um sinal que o acompanha. Um sinal que explica a sua ação: O fogo, uma vez acendido, continua queimando. O homem não precisa esgotar os pulmões, assoprando para que as chamas não se extingam. Fogo produz fogo, luz produz luz, calor produz calor. O Espírito Santo é que nem um fogo que Deus acendeu na terra. Este fogo nunca se extinguiu, mesmo nos tempos mais escuros da história humana. Os homens não precisaram usar de fole para o manter queimando. O que eles precisam fazer, é deixar o fogo tomar conta, é deixar-se tomar pelo fogo do Espírito, é vir a ser portadores e instrumentos do Espírito de Deus. 

É isto o que acontece no primeiro Pentecostes. Os discípulos são tomados pelo Espírito Santo, como uma coivara seca é tomada pelo fogo. O Espírito transforma a natureza fria deles, transforma o seu coração «lenhoso», e eles começam a arder e a luzir. Tornam-se instrumentos do Espírito de Cristo, iniciando a obra missionária de levar o evangelho a todos os povos do mundo. E recebem o dom de falar em outras línguas, de forma que os estrangeiros, presentes nestes dias em Jerusalém, os entendem. É bem o contrário do que aconteceu em Babel: É como se o Espírito de Deus desfizesse os efeitos do espírito do orgulho humano, da vontade louca do homem de bancar Deus: Em Babel, foram os homens que construíram. Aqui, no dia de Pentecostes, é Deus quem constrói. Em Babel, os homens se desuniram, passando a falar línguas que seus semelhantes não entendiam. Em Pentecostes, Deus desfaz esta desunião, desmancha a barreira de línguas e de raças que existe entre os homens. As pessoas passam a entender a mensagem e passam a entender-se uns aos outros. Nosso texto diz que «atônitos e perplexos interpelavam uns aos outros: Que quer isso dizer?» — Sim, que quer isso dizer? O Espírito Santo o deixa bem claro: Com as ruínas da torre de Babel, em meio à confusão humana, Deus começa a construir a sua igreja eterna, igreja feita de pedras vivas, na qual Jesus Cristo é a pedra angular. 

E como Deus constrói? É através da pregação de sua palavra. Palavra que é anunciada pelo pescador Pedro que agora estica pela primeira vez a grande rede de Deus, na sua qualidade de pescador de homens. Ele ergue a voz, prestando contas daquilo que aconteceu com eles. Anuncia o cumprimento da pregação -dos profetas, anuncia a morte e a ressurreição de Jesus, e termina, dizendo: «Esteja absolutamente certa, pois, toda a casa de Israel de que este Jesus que vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo.» 

É uma mensagem muito clara, portanto. Não é nenhuma fala de pessoa embriagada. É tão clara a mensagem, tão aguda a espada do Espírito, que chega a doer: «Este Jesus que vós crucificastes!» Muitos dos presentes provavelmente estavam entre os que haviam gritado: «Crucifica-o», no dia do julgamento de Jesus. Agora, movidos pelo Espírito, bem sóbrios, bem lúcidos, perguntam: Que faremos, irmãos? -- E passam a aceitar a mensagem. Passam a aceitar o juízo de Deus sobre a sua vida passada e a oferta de uma vida nova. Voltam as costas ao espirito babilônico do desamor e da confusão, aceitam o batismo e se tornam membros da primeira comunidade cristã estabelecida na terra. 

Notamos, assim, que o Espírito Santo não faz o homem perder a sua sobriedade, a sua cabeça clara, O que pode haver de mais sóbrio, de mais claro do que dizer a uma pessoa: «Olhe, o que aconteceu aí, você é o culpado!» — É um diagnóstico duro, que nada tem que ver com êxtase, com embriaguês religiosa. E o que pode haver de mais sóbrio, do que esta pessoa aceitar o diagnóstico? Sim. O fogo de Deus é diferente do fogo humano. O fogo humano faz fumaça. O entusiasmo humano esconde a culpa do homem. É só observar o que acontece num terreiro de Umbanda. Aí, na gira, não se fala de culpa aí é a embriaguês religiosa que reina. O Espírito Santo não embriaga. Ele confronta o homem com o Deus da verdade, e o confronta consigo mesmo. Despertando a fé, desperta o arrependimento, a vontade irresistível de mudar de vida, de obedecer a Deus. 

Houve muita fumaça, depois de Pentecostes, em todo o mundo, também na igreja de Cristo. Houve muitos que tentaram reconstruir a torre de Babel com seu orgulho humano. Deus os deixou construir, castigando-os com a devida confusão. Isso tudo — é bom que o saibamos — acontece também entre nós. Seríamos cegos, se não enxergássemos a confusão religiosa e espiritual, também a reinante em nossa pátria brasileira. Mas tudo isso não poderá desfazer o que aconteceu no primeiro Pentecostes e o que continua acontecendo através dos tempos: É que pessoas frias e descrentes ouvem a mensagem do evangelho; o Espírito Santo lhes abre o coração; eles são aceitos por Cristo, e, de sua parte, o aceitam como Salvador. Eles passam a pertencer ao povo de Deus, povo que vai crescendo através dos séculos, até que estes séculos se acabarem e que o Reino dos céus cumprir e consumar o que em Pentecostes foi iniciado. 

Oremos: Vem, Espírito Criador, e acende em nós o fogo da fé. Faze nossos corações arder, e queima todas as impurezas de nossa vida. Faze-nos ouvir, com cabeças bem claras, o evangelho de Jesus. Leva-nos ao arrependimento e dá-nos a certeza do perdão. Dá-nos que na comunidade de Jesus tenhamos a nossa família onde achamos paz e conforto. Ilumina toda a igreja cristã. Une o povo que te pertence. Livra-o de todo engano. Dá que o evangelho de Cristo ilumine a terra. Amém

Veja:
Lindolfo Weingärtner 
Lançarei as redes - Sermonário para o lar cristão
 Editora Sinodal
 São Leopoldo - RS
 


Autor(a): Lindolfo Weingärtner
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Pentecostes

Testamento: Novo / Livro: Atos / Capitulo: 2 / Versículo Inicial: 1 / Versículo Final: 13
Título da publicação: Lançarei as redes - Sermonário para o lar cristão / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1979
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Prédica
ID: 19584
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