Atos 3.1-10

Auxílio homilético

29/08/1982

Prédica: Atos 3.1-10
Autor: Knut Robert Wellmann
Data Litúrgica: 12º. Domingo após Trindade
Data da Pregação: 29/08/1982
Proclamar Libertação - Volume: VII


I — Observações ao longo do texto

1. Haenchen, observando a passividade do apóstolo João, tira a conclusão de que foi Lucas que o colocou ao lado de Pedro para assim ter dois mensageiros (Lc 10.1) e duas testemunhas cristãs perante o Sinédrio. A dois, é evidente que os apóstolos representam toda a comunidade cristã.

2. O conviver dos cristãos com os judeus no templo (compartilhando a oração e a mensagem) ainda parece normal. Hoje esta fraternidade, na esperança e na saudade, está esgotada. É um prejuízo em termos de vida e experiência com Deus.

3 Tanto aqui, nos vv.4-5, quanto em 14.9, parece importante o relacionamento consciente entre apóstolo e doente. Em 14.9 a fé do doente vai ao encontro da cura. Aqui o apóstolo estende a mão a um doente que a recebe sem ter esperado por ela. Não acho bem elaborar teorias sobre o relacionamento entre fé e cura. Acho melhor transmitir esperança a todos que dela precisam.

4. A frase de Pedro, prata e ouro não tenho — mas, o que tenho,eu dou, dá um aspecto bem especial a esta história. A expressão quase solene prata e ouro certamente quer dizer que não se trata de uma questão particular, só deste momento, mas de uma característica geral da Igreja cristã, representada pelos apóstolos. Ela não vive possuindo e dando bens (pouco antes do nosso texto, ela se apresenta como comunidade de partilha), mas criando e salvando vida.

5. Haenchen lembra a visão messiânica de Isaías, os coxos saltarão como cervos... (35.6).

II — Contexto

Nosso texto se restringe à cura do homem coxo. No contexto, a cura é motivo e prova para a mensagem que segue: Jesus é o Cristo, o Senhor vivo. Continua Pentecostes. A cura se realiza em nome, no poder de Jesus de Nazaré, que é o Cristo. Assim, a mensagem da cura também é: Jesus Cristo morto e ressuscitado. (Mesters) Esta mensagem, porém, não se transmite em termos de doutrina, mas naquela alegria que Jesus, o autor da vida'' (v.15), significava para um povo sofrendo sob leis e doutrinas. Os que tinham medo de perder com esta libertação, combateram-no com as suas doutrinas e o seu poder, e o mataram. Mas ele volta em atos de libertação. E o povo sente de novo o poder, o jeito, a presença de Deus (v. 10). A prédica deveria ter este cheiro de Cristo libertador, do Deus vivo que ama o seu povo sofredor. A comunidade deveria sentir o Cristo tirando-nos de situações e ideias que nos paralisam, levando-nos a um chão e um espírito de esperança, de liberdade e amor.

III — A cura

Existe o dom de curar, na igreja do Evangelho e em igrejas do presente. Em nossa Igreja ele quase não existe. Os luteranos, em caso de necessidade atravessam as fronteiras — muitas vezes clandestinamente e com consciência pesada — para buscar cura em outras igrejas. Depois, são considerados traidores e batuqueiros. O que faremos para participarmos, nós também, deste dom do Evangelho? Esforçar-nos? Os dons do Espírito não podem ser roubados. Desistir, conscientemente? Ou formar uma grande igreja de partilha, das diversas igrejas com os seus diversos dons: uma igreja onde tudo que Deus deu a cada uma delas se coloca à disposição de todos, e especialmente do seu povo mais sofredor? Não é preciso organizar essa igreja da partilha ou trocar a própria igreja por outra: basta oferecer, mutuamente, sem inveja e briga, o que se tem de Deus nas diversas igrejas. Em nosso Centro Comunitário em Alvorada praticamos isto: o poder de curar dos crentes”; o jeito de celebrar os momentos da vida, dos católicos: a superioridade do pensar e agir, dentro do perdão e do amor, dos luteranos; etc. — tudo para todos. Aconteceu que um dos nossos membros luteranos, procurando uma corrente de oração numa igreja pentecostal e se afastando por um tempo da nossa, se encontrou, sem saber, naquela igreja com uma evangelista que vive em comunhão conosco no Centro Comunitário. Ao nosso ver, nosso texto nos convida para sonharmos com uma igreja de partilha — em vez das separações. E a visão dos profetas: os povos e seus reis (as igrejas e seus teólogos e pastores) levando seus presentes ao monte de Sião onde se encontra o povo predileto de Deus: os que sofrem. E o que vale entre as confissões, vaie mais ainda entre as diferentes linhas da nossa Igreja e confissão.

IV — O coxo

Já nos comentários tradicionais se fala do coxo como figura simbólica — além de ser uma pessoa concreta. Champlin: Houve um tempo em que Deus contemplou o mundo como um aleijado caído às portas do céu... Deus mandou seu Filho, que nos criou a mensagem que liberta. Nas interpretações mais novas da Bíblia, esta mensagem se manifesta viva, e a nossa fé libertadora que vem de Cristo se desdobra. Em nossos dias, o bispo de uma das dioceses católicas do Nordeste brasileiro disse ao povo: Antigamente a Igreja deu a vocês coisas e coisinhas. Agora ela mesma está pobre. Mas hoje em dia ela lhes dá algo muito mais valioso. Ela chama vocês: Levantem-se e andem! Não fiquem mais passivos e paralisados! Levantem-se e ajam, assumam o seu destino, se unam e se organizem, aprendam e lutem — em nome do Jesus Cristo e no seu Espírito! Nosso texto nos convida a pensar: como fazer para que um povo, silenciado, passivo, e recebendo esmolas durante séculos, se levante e comece a andar? Como fazer com que isto aconteça no Espírito de Cristo? Talvez comecemos assim: que o grupo das acolchoadeiras no nosso Centro Social ou os pais da nossa Creche parem de ser dirigidos, mandados e atendidos, e comecem a debater e decidir juntos tudo o que se refere a eles. Até chegar à ideia das comunidades de base, onde as associações, os grupos dos Direitos Humanos, os sindicatos, etc. lutam por melhores condições de vida, no seu local ou na sua categoria, e os partidos políticos lutam por leis justas e um sistema mais justo. E, lutando por um projeto da sociedade (não pelo Reino de Deus que só ele sabe criar), eles têm, no seu meio, a comunidade cristã, fonte do seu espírito, onde refletem e celebram, perante Cristo, os momentos da sua caminhada, onde se corrigem e animam, um ao outro. É preciso sonhar com uma igreja de pouco dinheiro — para que ela chegue a ter ideias maiores e melhores do que apenas assistência social: para que ela estenda a sua mão ao povo que precisa se levantar e andar e participar da formação da nossa sociedade, numa responsabilidade que se alimenta do Evangelho.

V — Onde não há cura

Perante um texto que canta a libertação, precisamos nos lembrar daqueles que não recebem cura. Há curas — mas mesmo nas lgrejas dos crentes há casos sem solução. Há casos em que missionários chamam os doentes: Levanta-te, vem cá!, e eles não vêm. Dá uma dor no coração para quem assiste. E há doentes que nem se comunicam com outros: não têm capacidade de se comunicar — e continuam sempre assim. O que fazer com este sofrimento? Qual será o fim ilido deste sofrer?

Sabemos o sentido do sofrimento de Jesus: sofrendo, ele criou em nós a fé em que — recebendo e dando — podemos viver e morrer. Sabemos hoje, também, o sentido do sofrimento dos povos oprimidos e explorados: da sua fome e de toda a sua miséria. É perante esta situação que todos nós começamos a questionar a nossa fé e que a nossa fé começa a se renovar para todos nós. Como Abraão teve que deixar a sua terra — onde a fé tinha sofrido tantas distorções e destruições que não era mais contato com o Deus verdadeiro — para se reencontrar, aos poucos, com o Deus da verdade: assim nós, ao entrarmos no povo sofredor de hoje e na sua miséria, nos encontramos de novo com Deus como ele é. E, levando junto conosco todo o povo sofredor para dentro da Bíblia, a nossa fé tão murcha renasce e refloresce. No seu sofrer, o povo cumpre uma missão divina para todos nós.

Sabemos, também, o sentido do sofrimento de todos que estão sendo torturados e assassinados na luta por um mundo fraternal. É uma sabedoria antiga da Igreja: ao contrário do que os assassinos es-peram, o sangue das testemunhas da fé é semente que faz o movimento crescer.

Mas qual o sentido dos sofrimentos físicos e mentais que excluem pessoas da caminhada do povo de Deus e as fazem marginalizadas de nossa luta que tem tanto sentido? Para que vivem os que não podem contribuir em nada? É bom se esquecer deles? Ou será que justamente eles são os mais importantes na nossa marcha? Não são eles que impedem que as nossas explicações e sentidos ocupem, cada vez mais, o lugar do próprio Deus que não cabe nem em nossas cabeças nem em nossas mãos? São eles que mantêm aberta a porta ao Deus vivo para nós que nos embriagamos facilmente com nossas filosofias. O que não tem cura nem sentido, normalmente nos faz colocar em dúvida a presença de Deus. Mas, no fundo, garante para nós a sua presença.

Para nós, é necessário nos encontrarmos com Deus naquilo que fica sem cura, sem explicação ou sentido. Assim, em vez de cairmos e morrermos, sendo nós nossos próprios deuses, falsos deuses, continuaremos filhos do verdadeiro Deus.

VI — Subsídios litúrgicos

1. Confissão de pecados: Deus, nosso Pai. No último domingo saímos daqui dispostos a enfrentar e vencer a realidade da vida — pela fé. Mas a realidade foi mais forte que a nossa fé. Voltamos hoje feridos e derrotados, e pedimos: perdoa o que não se realizou, não se salvou por falta ou fraqueza da nossa fé. Recupera, neste culto, o nosso espírito, autoriza-nos mais uma vez, por tua palavra que ouviremos no meio dos nossos irmãos: Tem piedade de nós, Senhor!

2. Oração de coleta: Deus, ao ouvirmos o Evangelho, faze com que o fio da nossa realidade, das nossas preocupações, encoste no fio das tuas palavras e assim se acenda a luz e saibamos seguir a nossa caminhada. Amém.

3. Assuntos para a oração final: agradecer por todos dons que Deus dis¬tribuiu no mundo e nas igrejas; pedir que cresça nas igrejas o desejo de unirem seus dons em beneficio daqueles necessitados que Deus tanto ama; pedir que se tenha mais coragem e sabedoria nas igrejas para estender a mão ao povo e fazê-lo andar, adulto, livre, no Espírito de Cristo; pedir que os que parecem ser inúteis e até obstáculos na nossa caminhada, por defeitos físicos e mentais ou pela idade que enrijece — tenham o seu lugar central na comunidade e nos representem a porta para o verdadeiro Deus que não cabe em nós.

VII — Bibliografia

- CHAMPLIN, R. N. O Novo Testamento interpretado. Vol.8. Guaratingetá, s.a.
- HAENCHEN, E. Die Apostelgeschichte. Göttingen, 1968.
- MESTERS, C. Os Atos dos Apóstolos. In: Subsídios. Vol.7. S.Mateus, s.a.


Autor(a): Knut Robert Wellmann
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Pentecostes
Perfil do Domingo: 13º Domingo após Pentecostes
Testamento: Novo / Livro: Atos / Capitulo: 3 / Versículo Inicial: 1 / Versículo Final: 10
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1981 / Volume: 7
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 14616
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