Atos 6.1-7

Auxílio Homilético

20/08/1978

Prédica: Atos 6.1-7
Autor: Joachim Dürkop
Data Litúrgica: 13º. Domingo após Trindade
Data da Pregação: 20/08/1978
Proclamar Libertação - Volume: III


l - Para a exegese

A exegese desta perícope não se torna complicada seguindo-se a intenção do autor. Em seu ser ela é simplesmente uma reprojeção de fatos ocorridos com várias explicações para um melhor entendimento destes fatos. Os helenistas foram etimologicamente os membros da comunidade cristã de Jerusalém que falavam a língua grega como língua materna e eram antes membros das sinagogas da diáspora em Jerusalém (At 6,9). Os hebreus foram aqueles membros que pertenceram ao judaísmo palestinense. A distribuição diária provavelmente esteve ligada com as refeições diárias e sacras no templo (At 2.46).

A exegese desta perícope torna-se difícil se ela for usada como fonte histórica para constatar um desenvolvimento na constituição da comunidade primitiva. Assim se levantam muitas perguntas difíceis. O ponto de partida é a observação de que o encargo diacônico não é uma instituição fixa que acompanhou o encargo dos apóstolos (pregar o evangelho) na história da igreja primitiva. Por exemplo: Estêvão e Filipe depois não encontramos mais como diáconos, mas como pregadores do evangelho. Exatamente o grupo de helenistas da comunidade de Jerusalém parece ter sido aquele grupo que sustentou a missão da igreja primitiva (At 6.5. 8s ; 8.4s; ll.19s). O uso desta perícope como texto a pregar não tem nada com uma reconstrução histórica dos acontecimentos, mas tem muito mais seu valor no conteúdo real e na finalidade teológica desta narração. Por causa disto nós podemos desistir de uma reflexão mais profunda sobre as perguntas que surgem através de uma visão histórica.

II - Para a meditação

Uma meditação sobre este texto pode andar em diversas direções. Bem no início da nossa perícope encontramos no centro a pergunta sobre as divergências na comunidade cristã de Jerusalém e também ficamos sabendo como elas foram superadas. A comunidade cristã é comunhão na fé dos pecadores justificados por Jesus, caminhando em direção ao seu alvo. Apesar disto existem em seu meio divergências, desentendimentos, até mesmo rixas e brigas. A causa para estes acontecimentos não encontramos simplesmente no fato de que as viúvas helenistas se sentiram esquecidas na distribuição diária. Atrás desta murmuração muito mais se encontram outros problemas mais profundos. O descuido em relação às viúvas helenistas só foi a causa que revelou abertamente a insatisfação na comunidade cristã de Jerusalém. Em verdade os dois grupos nesta comunidade - helenistas e hebreus - são separados por causa das línguas diferentes e das maneiras diferentes de viver; até mesmo existiam diferenças na vivência da fé. Os helenistas tiveram uma compreensão mais liberal do evangelho do que os hebreus, que conservaram uma compreensão mais legítima do mesmo.

O nosso texto mostra como a comunidade cristã de Jerusalém enfrentou e superou as dificuldades ocorridas. A situação perigosa na comunidade nem foi negada, nem dramatizada. Os apóstolos viram o grande perigo de uma separação iminente na comunidade e também o enfrentaram. Mas, no outro lado, eles não tiveram nenhum interesse em criar um ambiente catastrófico, pensando numa dissolução da comunidade. Também a questão da culpabilidade não foi examinada. Não ficamos sabendo certamente se estas acusações foram nada mais do que só suspeitas ou fatos reais. Os apóstolos não olharam para trás, mas muito mais para frente. Eles não perguntaram: Como isto podia acontecer? Sua pergunta é uma outra: Como nós poderíamos melhorar esta situação em que a comunidade se encontra? As sugestões dos doze foram bem refletidas. Eles não deixaram retroceder seu serviço, ou melhor, seu encargo de pregar o evangelho, em face do perigo real na comunidade, para prestar assistência social pessoalmente. Expressivamente ficaram com a sua tarefa central, que incluiu oração e a pregação da palavra de Deus. Na situação perigosa da comunidade eles fizeram apenas uma sugestão: Encontrar pessoas capazes para este serviço novo e necessário. Da con-sideração sábia dos apóstolos em relação a esta situação resultou que os escolhidos pertenceram quase todos ao grupo dos helenistas , levando em consideração os nomes deles. Deste modo foi sublinhada a afinidade dos dois grupos - os helenistas e os hebreus - nesta comunidade cristã de Jerusalém. Assim o desentendimento entre os dois grupos foi vencido sem consequências fatais para a vida comunitária. O crescimento na comunidade não parou. O texto mostra de uma maneira especial como o crescimento espiritual está ligado com ou em relação ao número dos membros. V.7: Crescia a palavra de Deus e, em Jerusalém, se multiplicava o número dos discípulos. Sem o seu primeiro dito esta frase perderia realmente seu sentido.

Podemos também meditar sobre a instalação de encargos novos na comunidade e sobre a ocupação deles. A nossa perícope nos mostra que na comunidade primitiva desde o começo existiram serviços individuais e também certas estruturas que regularam estes antes de serem institucionalizados mais tarde. Não existiu uma concepção rígida e inflexível dentro da qual os apóstolos e a comunidade agiam. Houve muito mais uma mobilidade nesta questão. Foi solucionado diferentemente caso por caso levando em consideração cada situação peculiar ocorrida. Observamos também que em todas as questões comunitárias e de ocupação dos encargos na comunidade há concordância entre a autoridade dos doze e a comunidade toda. O texto mostra isto claramente. Os sete nem foram colocados ditatoriamente pelos apóstolos nem plebiscitaria mente chamados pela assembleia da comunidade. Os apóstolos sugeriram à comunidade, e esta aceitou. A comunidade procurou pessoas qualificadas, e os apóstolos encarregaram os escolhidos. Sua ação culminou em oração e impor das mãos como consolidação real de bênção divina. Isto não foi simplesmente uma forma litúrgica bonita!!! Neste ato se juntaram as linhas da ação humana e da direção pelo Espírito Santo, isto é: a vocação externa e a interna.

Assim se abre um novo assunto que deve ser refletido. Qual é a relação entre assuntos espirituais e assuntos profanos na comunidade e na igreja? Em nosso texto - assim parece - existe uma separação profunda, havendo de um lado a pregação do evangelho e a oração e do outro lado a ação diacônica e caritativa, com certeza também a administração da comunidade. O esquema dos interna e dos externa como também dos in sacris e dos circa sacra já encontramos na comunidade primitiva de Jerusalém e com isso é fundamentado biblicamente. Justamente o livro de Atos dos Apóstolos mostra que este esquema de uma separação dos encargos não foi executado depois com rigidez. A realização diverge do que foi programado. O planejamento humano é corrigido por intervenções divinas. De fato dois dos sete se desligaram dos outros e entraram no encargo de pregar o evangelho (Estêvão e Filipe) sem nenhuma intervenção do lado dos apóstolos. Eles não reclamaram no sentido: Vocês são aqueles que têm o encargo de servir às mesas, e a pregação é nosso encargo! A verdade é; Justamente o Estêvão e o primeiro mártir de Jesus Cristo por causa de seu testemunho profundo do evangelho. A relação da nossa perícope com toda a história de Estêvão deixa bem claro: Divisão no trabalho da igreja torna-se muito importante, mas todo o trabalho, também a ação diacônica e o engajamento social, se baseiam sempre no fundamento da igreja, isto é:na pregação do evangelho e na oração. A constatação dos doze no v. 2 ainda tem o seu valor atual para os pregadores que estão em dúvida sobre o efeito da pregação hoje em dia.

III - Para a prédica

Nossa perícope está destinada para o 13º. Domingo após Trindade, que se chama Domingo do Bom Samaritano. Este fato aconselharia que a prédica tivesse como tema central a ação diaconal da igreja, o que quer dizer: Testemunhar o evangelho em palavra e ação. A obra diacônica da igreja é necessária, também como serviço especial, mas deve ser fundamentada no evangelho mesmo. São duas perguntas que precisam receber uma resposta na prédica:

1. Como a comunidade cristã de hoje pode vencer as suas dificuldades?

2. Como a comunidade cristã de hoje organiza o serviço que ela tem a prestar diante da miséria que realmente existe em nosso país e em nossas comunidades?

IV - Bibliografia

- BEYER, Hermann Wolfgang. Die Apostelgeschichte. 8a. ed., Göttingen, Vandenhoek & Ruprecht, 1957.
- STÄHLIN, Gustav. Die Apostelgeschichte. NTD. 12a. ed., Göttingen, Vandenhoek & Ruprecht, 1968.
- WENDT, Hans Hinrich. Handbuch uber die Apostelgeschichte.7a. ed., Göttingen, Vandenhoek & Ruprecht, 1888.
- LECHLER, Gotthard Victor e GEROK, Karl, Apostelgeschichten. In: Tneologisch-homiletisches Bibelwerk 4a.ed. Bielefeld e Leipzig, Verlag von Velhagen und Klasing,1881.


 


Autor(a): Joachim Dürkop
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Pentecostes
Perfil do Domingo: 14º Domingo após Pentecostes
Testamento: Novo / Livro: Atos / Capitulo: 6 / Versículo Inicial: 1 / Versículo Final: 7
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1978 / Volume: 3
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 18169
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