Atos 9.1-20

Auxílio Homilético

30/04/1995

Prédica: Atos 9.1-20
Leituras: Apocalipse 5.11-14 e João 21.1-14
Autor: Valério Guilherme Schaper
Data Litúrgica: 3º Domingo da Páscoa
Data da Pregação: 30/04/1995
Proclamar Libertação - Volume: XX


1. O caminho de Damasco

Propositalmente coloquei a palavra caminho no título. Paulo viaja para Damasco. Certamente, ele segue por um determinado caminho. Pretende procurar alguns que são do Caminho. O tema do caminho na Bíblia é muito amplo.

Nos contos infantis sempre há caminhos. A recomendação reiterada nesses contos é que o caminho não deve ser abandonado sob hipótese alguma. Entretanto, o caminho é constantemente abandonado. Bom, mas é justamente nesse momento que começa a história de fato. O que seria da história de Chapeuzinho Vermelho, se ela não tivesse tomado um atalho? Quem ia se interessar pela história de uma menina que foi levar uns doces para a vovozinha e, seguindo pelo caminho recomendado, cumpriu sua tarefa a contento?

Para Paulo, tudo começa no caminho de Damasco. Este é seu caminho, este é seu atalho. No atalho-caminho de Damasco, os caminhos se cruzam. Como nos contos, no atalho-caminho de Damasco o imprevisível espera por Paulo. Não há medidas preventivas, proteções ou outras rotas.

2. O texto: considerações exegéticas

O texto de Almeida coincide com o da Bíblia de Jerusalém. As variantes com probabilidades, apresentadas no aparato crítico, não são de tal ordem que pudessem estabelecer alterações susbtanciais de sentido no texto.

Embora alguns estabeleçam uma certa separação entre os vv. 3-9 e 10-19a (Schille, p. 222; Lüdemann, p. 111-7), permanece sempre um exercício de hipóteses tentar determinar fontes em Atos (Lüdemann, p. 118-9; Comblin, p. 66.). Pode-se especular se os precisos elementos topográficos (Schille, p. 219) no texto não deveriam ser atribuídos a uma fonte. Comblin e Conzelmann apontam para uma fonte antioquena (Conzelmann, p. XXCVJJ; Comblin, p. 65). Entretanto, o autor retrabalhou de tal maneira o material que se torna difícil determinar, estilisticamente, cesuras.

Portanto, tomemos o texto como se nos apresenta, pois se, como salientam os autores (Schille, p. 218-9, 222-3; Lüdemann, p. 111, 115-7; Comblin, p. 65, 177, 181), temos aí muito trabalho redacional, uma série de recursos literários (epifania, visões, resumos, repetições, etc.), mais vale perguntar pela localização e importância do evento na obra do autor e para a vida das suas comunidades.

Devemos perguntar se o fato de encontrarmos o evento de 9.1-20 repetido, em forma de autobiografias de Paulo, em 22.4-16 e 26.9-18 (as três versões do evento coincidem no fundamental, ainda que as duas últimas pareçam versões melhoradas) seria um indicador da intenção do autor. A repetição é um recurso historiográfico (Schille, p. 218), mas este recurso está a serviço de um propósito definido (Comblin, p. 63). Decisivo acerca da intenção do autor é a comparação com a interpretação que o próprio Paulo dá a esse fato:

De todos os textos onde Paulo menciona esse evento e fala do seu ministério, o mais representativo para nosso objetivo aqui é Gl 1.10-17. Paulo diz que o evangelho que recebeu não o foi segundo homens, mas por revelação de Jesus Cristo. Assim, frisa ele, não consultou nem carne nem sangue e tampouco subiu a Jerusalém para falar com os apóstolos, como aponta Atos. Paulo esforça-se por demonstrar a descontinuidade entre ele e a comunidade de Jerusalém, entre ele e a tradição dos apóstolos, pois, bem sabe Paulo, anuncia o evangelho da incircuncisão.

O autor de Atos, bem mais tarde, tem outros interesses. Ele quer a todo custo legitimar e defender as comunidades de tradição paulina como elas estão subsistindo. As pressões que as comunidades sofrem vêm dos judeus e dos romanos. Contra os últimos, o autor procura demonstrar que não há uma oposição entre o cristianismo incipiente e o Império. Contra os primeiros, que nos interessam com vistas ao texto, o autor procura enfatizar a continuidade entre a tradição de Jerusalém e a tradição das comunidades paulinas. Nesse afã, a figura de Paulo é idealizada, às vezes negativamente, para ressaltar aspectos de continuidade (Comblin, p. 64-5). Porém é preciso relativizar uma imagem tão absoluta de Paulo como implacável e desalmado perseguidor. Afinal, ele foi aluno de Gamaliel (At 22.3 — é possível tomar como seguro esse testemunho de Atos?), e acerca da ponderação, sensatez e abertura deste homem é possível ler em At 5.33-39. Isso falaria a favor de uma certa ponderação e abertura do próprio Paulo.

3. Paulo: vocação ou conversão?

A impressão que temos é que os comentários exegéticos desconstroem paulatinamente o texto e, ao final, estamos muito distantes da pergunta hermenêutica básica (pois simples): o que este texto pode nos dizer na nossa vida, no nosso contexto? A desconstrução é necessária, mas normalmente desatina nossas perguntas mais essenciais. Além disso, textos como este, que tratam de conversão (ou vocação?), parecem provocar alergia nos exegetas (Schille, p. 226). Eles não sabem o que fazer com a pujança literária, com o vigor do maravilhoso, com a força do milagre.

Comblin quer ver no esplendor deste relato uma origem popular (Schille, p. 219, argumenta que a procedência literária do elemento da dupla visão, vv. 10-17, dificilmente falaria a favor de uma proveniência popular). Tratar-se-ia da versão popular corrente sobre a mudança radical de Paulo, isto é, como o evento de Paulo foi lido em coordenadas de milagre. Essa hipótese não é descabida, pois é comum que as pessoas tratem com as tintas do maravilhoso os fatos cujo sentido transborda o comum.

Entretanto, seja como for, estamos diante do evento do caminho de Damasco. Ali acontece algo de fundamental que excede o nosso entendimento: um encontro entre Jesus e Paulo, uma intervenção divina. Paulo converte-se. Ele é vocacionado (embora seu comissionamento ocorra só no contato com Ananias). A propósito da conversão de Paulo, Bultmann diz que não se tratava de um colapso moral interno nem de um arrependimento ou de uma iluminação emancipatória, mas de uma obediente submissão ao julgamento de Deus, que se fez conhecido na cruz de Cristo, sobre todas as realizações e jactâncias humanas (p. 188).

Falávamos anteriormente de caminhos. Falávamos também da educação de Paulo aos pés de Gamaliel, homem aberto e sensato. Certamente algo disso frutificou em Paulo. É bom lembrar também que o perseguidor, depois de um tempo, começou a tornar-se muito semelhante ao perseguido. Pensava o que ele pensaria. Pensava como ele reagiria. Perguntava-se se ele sofre. Perguntava-se por que pessoas se sujeitam a sofrer tanto. Perguntava-se que conteúdo, que mensa¬gem fantástica é essa que leva essas pessoas a tal desapego. Paulo era um homem sensível, aberto. Certamente não ficou imune à proximidade que a situação de perseguição cria entre perseguido e perseguidor. Como nos contos infantis, ele também abandonou o caminho do zelo da tradição dos seus pais. Tomou o atalho da abertura, da sensibilidade. Como sabemos, tudo começa quando abandonamos a estrada principal. Mas agora temos algo novo, pois, como está escrito em Is 35.8-10, haverá um Caminho Santo e este caminho ninguém errará, nem mesmo o louco. Esse caminho veio ao encontro de Paulo e disse: Eu sou o caminho, a verdade e a vida'' (Jo 14.6)

4. Bibliografia

BUITMANN, Rudolf. Theology of the New Testament. New York, Charles Scribner's Sons, 1951. v. 1. 366 p.
COMBLIN, José. Atos dos Apóstolos; Volume 1:1-12. Petropólis, Vozes; São Bernardo do Campo, Imprensa Metodista; São Leopoldo, Sinodal, 1988. 214 p.
CONZELMANN, Hans. Acts of the Apostles. 2. ed. Philadelphia, Fortress, 1987. 287 p. (Ilermeneia).
LÜDEMANN, Gerd. Das frühe Christentum nach den Traditionen der Apostelgeschichte: ein Kommentar. Göttingen, Vandenhoeck & Ruprecht, 1987. 285 p.
SCHILLE, Gottfried. Die Apostelgeschichte des Lukas. Berlin, Evangelische Verlagsanstalt, 1983'. 492 p. (ThHNT).


Autor(a): Valério Guilherme Schaper
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Páscoa
Perfil do Domingo: 3º Domingo da Páscoa
Testamento: Novo / Livro: Atos / Capitulo: 9 / Versículo Inicial: 1 / Versículo Final: 20
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1994 / Volume: 20
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 17687
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