Celebração da Santa Ceia

Alocução

25/11/1996

1. Considerações Preliminares

Agora me lembro. Tinha que ir próximo ao correio. Por isso resolvi aproveitar e tirar as cartas da caixa postal.

Havia pouca correspondência. A maioria endereçada à comunidade e aos estudantes da moradia estudantil. Porém uma carta estava endereçada a mim. Abri-a no caminho. Era justamente uma carta solicitando a minha contribuição para o Proclamar Libertação de 1997.

Caminhava com a carta aberta nas mãos. Logo, corri meus olhos por ela buscando o texto bíblico proposto. Desta vez, não havia nenhuma sugestão! Contudo, uma coisa deixou-me alegre. Havia, sim, uma sugestão temática: celebração da Santa Ceia.

Continuei caminhando. Enquanto isso, pensava em que poderia escrever. Muitas coisas brotaram. É claro! Há tempo que gostaria de escrever um artigo sobre a Ceia. O que eu desejava, de fato, era dar a minha contribuição. Sempre quis ver em nossas comunidades a Santa Ceia celebrada com mais fraternidade, com mais alegria e prazer. Muitas coisas vieram à minha mente. Reservei-as. Tomei nota.

Uns dias mais tarde, sentei-me para começar a elaborar o artigo. Minha primeira atitude foi anotar os pontos que ansiava levantar na discussão.

Logo em seguida, busquei os volumes do PL. Pretendia encontrar artigos anteriores que já abordassem o assunto. Foi uma surpresa! Primeiro, porque poucos, de fato, abordavam diretamente o assunto. Segundo, uma deliciosa constatação. Encontrei um bom artigo, de Joachim Fischer (vol. V, p. 65ss.). Ali estavam todas as minhas ideias. Se você possui este número em sua casa, leia-o. Para aqueles que não o têm, gostaria de ressaltar os pontos mais importantes:

1) Fischer faz um breve relato da Ceia do Senhor na comunidade primitiva. Relembra a ideia da Ceia como instrumento e momento da fraternidade.

2) O texto bíblico abordado naquele artigo é o famoso trecho da Carta de Paulo aos Coríntios (l Co 11.23-29). Fischer retraia a situação da comunidade de Corinto. Explicita, assim, a intenção de Paulo em suas advertências. A Ceia transformara-se ali numa manifestação evidente das diferenças sociais presentes na comunidade. Ela, que deveria servir para quebrar essas barreiras, foi, ao contrário, tomada pelos membros privilegiados de Corinto como sinal de ostentação e desprezo pelos mais simples.

3) Um terceiro ponto importante é a insistência de Paulo em chamar os cristãos de Corinto a uma participação consciente na Ceia do Senhor.

4) Outro detalhe positivo: Fischer retoma a nossa tradição luterana diante da Santa Ceia. Lembra que há uma ênfase por demais individualista em nossas celebrações eucarísticas. Ao lado disso, há ainda nos corações dos nossos cristãos um enorme sentimento de culpa que os impede, muitas vezes, de se achegarem à mesa com o espírito aliviado.

5) Por último Joachim Fischer lembra a Ceia como alimento para a vida. O pão e o vinho tomados junto aos irmãos, junto às irmãs é momento de renovação, de fraternidade, de memória do Cristo. É o alimento na jornada terrena da comunidade cristã.

Estes são os pontos importantes do artigo. O texto de Fischer, apesar de ter sido escrito há quase 20 anos, ainda demonstra que nossas comunidades pouco mudaram no tratamento dado à Santa Ceia. Insistimos ainda em conduzi-la como um momento de muita solenidade. Tornamos aquele lindo espaço mais pesado, mais carrancudo. Com certeza, momento menos libertador do que aquele desejado pelo Cristo.

2. O Texto

Contei a vocês um pouco da minha experiência diante da tarefa de colabo¬rar através deste artigo. Gostaria de usar o texto de l Coríntios 11. Já não se faz necessário. Então, outra ideia surgiu em minha mente. Poderia abordar um salmo. Até hoje, temos apenas três salmos abordados em nossos PLs.

Que tal o Salmo 133?, pensei. Ali está presente um importante fator que gostaria de presenciar em nossas celebrações eucarísticas. Vamos em frente. Mais adiante voltaremos a falar disso.

Ainda gostaria de apresentar uma tradução livre do Salmo 133. Com ela quero ressaltar elementos importantes do texto que, às vezes, são acobertados por uma tradução mais retocada:

1 Eis como é bom e como é agradável
sentarem1 os irmãos e também estarem unidos.
2 Como o óleo bom sobre a cabeça, o qual desce pela barba, a barba de Aarão, desce até a gola de suas vestes,
3 como o orvalho do Hermon, desce até os montes do Sião. Ah! ali ordena Javé a bênção, vida para sempre!

Este salmo fazia parte de um grupo. Este conjunto provavelmente era usado nas louvações das peregrinações do povo para Jerusalém. Apesar de ser um conjunto, dentro deste grupo encontramos diversos modos e origens para os salmos individuais. O 133 parece ser de origem sapiencial. A sabedoria queria mostrar o fio condutor que fortalecia o próprio povo, o povo de Deus.

Que elemento presente neste texto parece ser essencial para enfatizarmos em nossas celebrações eucarísticas? Gostaria, agora, de passar à alocução. Nela pretendo explicitar esta resposta.

3. Alocução

Caros irmãos e irmãs em Cristo. A gente abre a Bíblia porque confiamos que ela seja a luz que ilumina a nossa caminhada. A gente abre a Bíblia juntos porque acreditamos que este livro é livro de comunidade, livro para se ler a dois ou três reunidos. Assim também, Jesus vem para o meio de nós.

Mais do que abrir a Bíblia juntos, nós também hoje nos assentamos juntos à mesa da Santa Ceia. Na Ceia, Deus também quer vir e comunicar a nós a sua graça e o seu amor.

O texto previsto para este momento de reflexão é um salmo. Um salmo que servia para conduzir o povo em sua caminhada de peregrinação. Um salmo que servia para alimentar a fé desse povo que caminhava junto até o palco da adoração. Estamos falando do Salmo 133.

Gostaria, neste instante, de passar à sua leitura. Acompanhemos:

(Leitura do Salmo 133.)

Este texto, cantarolado, orado, recitado, guiava o povo de Deus. Que o Espírito deste mesmo Deus nos conduza também através desta sua Palavra!

O Salmo 133 é pequeno, mas muito belo. Ele nos fala, em tom bastante poético, sobre a beleza da comunhão. Ali temos belas figuras, belas imagens. A comunhão é aqui motivo de comparação.

A comunhão primeiro é comparada à unção de um sumo sacerdote. É o óleo bom sobre a cabeça, que desce pela barba até a gola de suas vestes. A unção com azeite era usada para os mais diferentes fins. Servia para enfeitar as pessoas (Rt 3.3), para refrescar o corpo (2 Cr 28.15), para purificar o corpo (Is 57.9), curar enfermos (Tg 5.14), curar ferimentos (Lc 10.34), preparar os mortos para o sepultamento (Mt 26.12) e até para preparar armas para a guerra (Is 21.5).

Todavia, uma aplicação se destaca. A unção com o azeite queria separar coisas e pessoas para o serviço de Deus (Êx 30.22-33). A comunhão entre as pessoas é tão bela como a separação do sumo sacerdote para este serviço.

A beleza continua. Agora é a natureza. Numa região inóspita, árida como a Judéia, o orvalho é motivo de frescor, de vida. O monte Hermon é coberto, em seus picos mais altos, de gelo. No verão, o gelo vai derretendo e descendo os montes, vai atingindo o leito do rio Jordão. Cruza toda a Palestina até chegar aos montes do Sião, em Jerusalém. Os montes de Sião aparecem aqui como o local sagrado do templo. Por isso se diz que dali Deus ordena a bênção e a vida para sempre.

Essas são as figuras, são as belezas que envolvem a comunhão entre as pessoas. Contudo, bi uma beleza maior.

O salmo inicia nos convocando para observar como é bom e agradável as pessoas estarem sentadas, estarem juntas, estarem celebrando, estarem lutando. E quero chamar a atenção de vocês para isto. É bom estarem sentadas. E bom estarem, acima de tudo, unidas. Quer dizer, estarem sentadas, viverem juntas ainda não é sinal de perfeita comunhão. Esta se traduz no momento do pensamento comum. A partir daí também nascem os objetivos comuns. A comunhão brota na unidade de propósito. Brota no interesse comum que conduz o povo até Deus.

Por isso este salmo deve ter sido usado nas peregrinações do povo. Enquanto caminhava, cantava, orava, o povo tinha um só objetivo: chegar até a adoração. O salmo queria convidar aquela gente, na volta desses encontros de fé, a assumirem esta posição também em suas aldeias, em seus clãs, em sua vida comunitária.

E para nós hoje que nos assentamos em torno do pão e do vinho? O que este texto nos fala?
Sem dúvida, Deus quer nos conduzir em comunhão. A Ceia quer ser a expressão máxima dessa comunhão. Comunhão de irmãos e irmãs que têm um objetivo comum: o reino de Deus. A Ceia quer ser a expressão máxima daquele caminhar que se concretiza no dia-a-dia da comunidade. Nesses momentos de fraternidade, temos que testar a nossa verdadeira união.

No domingo, nos reunimos para celebrar a presença de Deus em nossas vidas. Reunimo-nos para celebrar a verdadeira comunhão entre irmãos. Nestes momentos de Ceia a gente não só se depara com nosso Deus. Mas deparamos conosco mesmos. Deparamos com a nossa caminhada.
A Ceia, portanto, é mais do que um momento de olharmos para dentro de nós. Hoje, aqui, quer ser o momento de olharmos para o lado. Para os olhos do outro, da outra. A Santa Ceia quer nos levar a abrir nossos olhos e enxergar ao lado. Quer nos levar a expressar o sorriso. O sorriso para o amigo, para a amiga, para a criança que está no colo. O sorriso para o desconhecido que está adiante. Hoje, em volta do aliar, a gente não deve só tomar a mão ao lado. Mas a apertar. Bem forte! E sentir que dentro da sua mão existe uma outra. Você não está só!

Por isso, Jesus disse: Eis que tudo está preparado. Se alguém abrir as portas eu vou, entro c ceio com ele e ele comigo. (Ap 3.20.) Hoje queremos abrir todas as portas da nossa vida. Para que Jesus e outros entrem por elas. Para que lá no fundo sejamos atingidos pela verdadeira comunhão, a verdadeira Ceia do Senhor!

Nota

1 O sentido primário do verbo é sentar-se, agachar-se. Numa celebração diante de uma mesa de Ceia enfatizo esse sentido. No entanto, o conteúdo deste verbo ainda vai na direção de habitar, de viver, principalmente, de conviver.


Autor(a): Roberto Natal Baptista
Âmbito: IECLB
Testamento: Antigo / Livro: Salmos / Capitulo: 133
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1996 / Volume: 22
Natureza do Texto: Liturgia
Perfil do Texto: Alocução
ID: 17644
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