Colossenses 1.15-23

Auxílio homilético

27/05/1976

Prédica: Colossenses 1.15-23
Autor: Hilmar Kannenberg
Data Litúrgica: Ascensão
Proclamar Libertação - Volume: I
Tema: Ascensão

l - Preliminares

A carta aos Colossenses volta-se contra uma heresia que proclama poderes alheios à fé cristã (principados e potestades) como determinantes no mundo. Para os cristãos isto tem consequências na vida: Práticas ascéticas, leis rígidas sobre comida, bebida, circuncisão, etc. a serem respeitadas; em uma palavra, legalismo.

A heresia atinge em cheio a exclusividade do senhorio de Jesus Cristo, escravizando novamente o homem libertado da lei.

O centro da proclamação da carta é uma decorrência direta desta situação entre os cristãos de Colossos, procedentes do helenismo e do judaísmo e agora completamente abalados com as doutrinas dos hereges, de procedência judaico-sincretistas.

Cristo é o único Senhor do universo e da igreja como nova criação; Cristo é o primeiro entre as criaturas de Deus (e, portanto, nenhuma potestade pode sequer estar a seu lado) e o primeiro entre as novas criaturas de Deus (os ressurretos). Ele derrotou todos os poderes cósmicos. Por conseguinte os crentes estão livres do legalismo.

Toda esta argumentação parte de uma profissão de fé (v 14-20), a qual forma o centro de toda a carta, assim subdividida:

Saudação (1s), ação de graças (3-8) e intercessão (9-11) conduzem ao credo (12-20), onde Cristo é professado como Criador e Salvador universal e em consequência do que os fiéis devem viver de acordo com esta realidade (21-23). Segue uma palavra pessoal do autor, onde ele mostra a tarefa, o regozijo e a aflição do apostolado (1.24;2.5). Só agora vem o confronto direto e polêmico com os hereges (2,6-23), onde o batismo como morte para o pecado e. ressurreição para a vida forma o centro, mostrando que a circuncisão de Cristo aconteceu como derrota de todos os poderes cósmicos. O confronto termina em tom irônico com a pratica dos hereges (2.16-23). A parte parenética da carta se estende de 3.1 até 4.6. E o encerramento da carta é longo: 4.7-18.

A maioria dos exegetas considera Cl uma carta legítima do apóstolo Paulo. Há, contudo, muita terminologia diferente (34 termos são exclusivos em todo NT e 25 dos escritos paulinos), conceitos teológicos incomuns em Paulo, argumentação teológica (Cristo não é o corpo, mas o cabeça do corpo), o conceito de apostolado, etc, que põem em dúvida a autoria do apóstolo.

Colossos se localiza no Vale Licos, todo ele cristianizado por alunos de Paulo. A comunidade de Cl foi fundada por Epafras, conforme faz supor a própria carta. Éfeso é mais provável do que Roma como local em que a carta foi escrita,e a data em que foi redigida deve ser definida de acordo com o autor: Se foi Paulo, deve ser datada o mais tarde possível; se foram seus alunos, o mais cedo possível na época pós-apostólica.

II - Considerações sobre o texto.

Uma alternativa sugerida para a pregação da Ascensão são os vs 21-23, ou seja, a consequência pratica do credo no Cristo Criador e Salvador universal. Se alguém optar por um texto meramente parenético, então escolha outro, mais preciso e claro. Este aqui só poder ser usado como base de prédica em relação ao texto anterior.

Os pesquisadores concordam que os versículos 12 a 20 encerram um texto existente antes da redação de Cl. Concordam, contudo, também que o credo começa realmente com o v 15. Assim é viável a proposição da perícope a partir deste versículo.

Há uma sugestão do texto original do credo. Nós a reproduzimos com os acréscimos do autor entre parênteses. Isto facilita a sua compreensão:

15 Ele (Jesus Cristo) é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação;

16 pois nele foram criadas todas as coisas nos céus e sobre a terra, (as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, soberanias, principados ou potestades. Tudo foi criado por ele e para ele).

17 Ele é antes de todas as coisas e nele tudo subsiste.

18a Ele é o cabeça do corpo, (da igreja).
18b Ele é o princípio, o primogênito de entre os mortos s para que em tudo ele fosse o primeiro;

19 pois nele decidiu residir toda a plenitude

20 e através dele reconciliar tudo para ele, fazendo a paz através dele (pelo sangue de sua cruz)
sobre a terra e nos céus.

São duas estrofes com paralelismos bem expressos, formados pelos vs 15-18a e 18b até 20. Ambas iniciam com um predicativo sobre Cristo: Ele é a imagem ...; ele é o princípio. O segundo verso de dada estrofe começa com a palavra primogênito: Cristo é o primogênito na criação (v. 15) e o primogênito da ressurreição (18b).

Estas afirmações sobre Jesus Cristo são fundamentadas nos vs 16ss e 19s: Pois nele foram criadas todas as coisas..., e: pois nele decidiu residir toda a plenitude ....

III – Meditação

Os termos empregados nestas duas estrofes são pouco comuns na teologia paulina. Eles provêm do contexto religioso grego e principalmente judeu. Citando o credo e ampliando-o de acordo com a exigência da situação, o autor entra completamente em conceitos e linguagem sincretistas da heresia colossense. Acata termos e modifica-os em seu conteúdo. Aceita conceitos e os reinterpreta de acordo com o senhorio absoluto de Jesus Cristo.

O que se dizia da sabedoria, na verdade deve ser dito de Jesus Cristo: Ele é a imagem do Deus invisível, tornada visível e revelada nele. Da mesma forma louva-se a sabedoria como pré-existente e como a primeira coisa criada por Deus (Pv 8.22-31). E isto não é possível, pois Cristo é a realização de todo anseio, de toda especulação filosófica ou religiosa de querer ver Deus (Jo 1.18; 2 Co 4.4 e 6), de saber como Deus age em relação aos homens. Pois: ¨Ele é a imagem do Deus invisível¨. E como tal não existe outra revelação para o crente fora de Jesus Cristo, nem a sabedoria, nem qualquer outro poder ou principado.

Todos os poderes e principados, filosofias e ideologias foram destronados. Acontece que ele é o primogênito. Ele está acima e por cima de tudo e de todos. Ele é o cabeça de todo o principado e potestade (2,10); ele os derrotou, os expôs publicamente e triunfou sobre eles na cruz (!) (2.15).

Aliás, não poderia ser diferente. Como pode alguém ou alguma coisa arrogar para si o direito de primogênito e com isto de poder, se não passa de uma mera e simples criatura do primogênito da criação? Acontece que todas as coisas foram criadas nele. Por conseguinte não há nada igual e muito menos superior a ele.

Assim é dito aos crentes de Colossos que não há poderes nos céus e sobre a terra, não há coisas visíveis ou invisíveis, como tronos, soberanias, principados ou potestades, que sejam iguais ou mesmo similares a Jesus Cristo. Ele tudo fez. E mais do que isso: Ele quer que tudo esteja a seu serviço e sob a sua ação, pois tudo existe graças a ele. Ninguém pode arrogar-se o direito de querer qualificar poderes que assumam a chefia ou influência na igreja. A igreja e o seu corpo e como tal tem um só Senhor: Jesus Cristo.

Tudo se concentra em Cristo. Dele tudo vem e para ele tudo vai. Ele é a base de tudo, é o encontro entre Deus e o mundo, entre Deus e o homem. Encontro que se torna visível na igreja, da qual ele é o cabeça.

Igreja existe por causa do cabeça, não por causa do interesse comum de um grupo de pessoas. Não é o ideal comum ou o sofrimento conjunto que transforma um grupo de pessoas em igreja. Isto só acontece por ação do cabeça da igreja, de seu criador. Como criador universal, ele também cria a igreja, dá a ela dinâmica, forma e direção. Assim ele também é o princípio, aquele que iniciou a comunhão dos santos, aquele que ressuscitou primeiro.

Com a ressurreição do primogênito dentre os mortos, abriu a brecha da salvação para os crentes. O Criador e o Salvador são idênticos. O Senhor sobre o mundo é também o Senhor sobre a vida e a morte. Esta é a plenitude e esta é a reconciliação. Não há outra, mesmo que haja quem assim o afirme. Cristo é o primeiro na Criação. Ele é também o primeiro na ressurreição.

Agora, a reconciliação, a ação do Criador em favor de sua criatura, não acontece em declaração solene, em filosofia, em poder cósmico, em principado ou potestade. A reconciliação acontece em lugar muito humano. Tão humano que é rejeitado por homens que não compreendem a profundidade desta realidade: A reconciliação acontece na cruz!

A cruz com sofrimento, paixão e morte e a edificação da reconciliação. Nela tudo se concentra, nela tudo se resume. O homem procura por liberdade e vai buscá-la na sabedoria, na ideologia, em forças e poderes, e, principados e em sistemas políticos. Mas, libertação esta ali onde o Senhor de tudo e de todos vai às maiores profundezas da vida humana, à morte, para buscar a vida; ali na cruz esta a libertação.

O homem procura fugir de seu destino inexorável, de sua vida sem opção, porque sujeita ao implacável sistema de causa e efeito,e se entrega ao sincretismo religioso, onde lhe são anunciados poderes redentores, os quais não passam de coisas criadas e sem força alguma. Faz isto porque sente vergonha em buscar a libertação no mais simples e modesto de tudo: Na cruz de Cristo!

O homem , construtor da máquina, procura libertar-se da ditadura que ele estabeleceu sobre sua pessoa: Ela determina o ritmo, hora e velocidade do trabalho; ela programa tudo para ele. Então recorre à meditação transcendental, que o ensina um caminho para safar-se a si mesmo com autosalvação. Ele deveria recorrer à humilhante realidade da cruz para então saber-se senhor sobre tempo e coisas.

A cruz é a real ascensão, a verdadeira entronização, a proclamação definitiva do senhorio de Jesus Cristo. Ela não fica na esfera particular e pessoal. A cruz é lugar da reconciliação, do restabelecimento da paz sobre a terra e nos céus. A cruz é universal.

É esta ascensão pela humilhação da cruz que transforma os colossenses, como estranhos e inimigos por natureza, em santos, inculpáveis e irrepreensíveis. Faz isto se eles viverem esta realidade que se manifesta na pregação do evangelho. Ascensão quer ser vivida aqui, na humilhação da cruz. A salvação é a elevação do crente à categoria de filho de Deus. Esta elevação só se vive na baixa categoria da cruz de Cristo.

IV - Prédica

O centro da mensagem é o seguinte:

Não há nenhuma força capaz de determinar vida presente ou futura dos crentes nos céus e sobre a terra! Jesus Cristo é o único e universal Senhor. Este senhorio universal se manifesta no acontecimento da cruz. Crer neste senhorio é viver a realidade libertadora e servidora da cruz.

A situação dos ouvintes determina a acentuação de um ou de outro ponto.É possível que a influencia do sincretismo em algumas comunidades seja tão acentuado que será necessário falar exclusivamente sobre o senhorio de Jesus Cristo como primogênito da criação e criador de todas as coisas.

Em situação assim nunca se deve omitir a diferença fundamental entre a fé cristã e religião. Nosso texto deixa isto bem claro em sua interpretação: Ascensão não é a saída de Cristo deste mundo, mas a sua presença permanente como Senhor! A salvação vem a nós. Cabe-nos dar-lhe uma resposta com a nossa vida. Isto quer dizer: Deus age e nós reagimos. No caso da religião, o homem vai a procura da salvação. Consegue galgar diversos degraus em sua direção, graças a seu esforço e zelo. Cada ato cumprido é um passo realizado para a salvação. Quem salva é o próprio homem. Este é o caso do espiritismo, desde o mais elevado ao mais baixo, como umbanda, etc. Mas este também é o caso de todo e qualquer tipo de religião oriental tão em moda, em verso e prosa, como Xino-Ou-lê, etc. A nossa resposta está na salvação exclusiva por parte de Deus. Querer salvar-se a si mesmo e desprezar a ação salvadora de Deus na cruz de Cristo. E mais: pode ser também uma fuga da própria cruz, que sempre é uma consequência da resposta positiva que damos à cruz de Cristo. Cada cristão é um servidor.

Com isto fica claro o seguinte: Condenamos a justificação pelas obras, mas também devemos condenar a inércia decorrente da falsa interpretação de que Deus tudo fez por nós e que, portanto, tudo está feito. Ascensão é o dia do Senhor e Libertador de todos os poderes que nos coloca a caminho para combater os falsos senhores e libertadores com o serviço da cruz. Só quem é capaz de dar-se pelo outro vive a sua libertação por Cristo.(Veja Cl 1.22 e 23, onde permanecer na fé é condição).

Por outro lado, é bem possível que o dia da Ascensão nos possibilite a fazer frente a nossos deuses prediletos e preferidos de hoje: Produção, renda, consumo, progresso. O progresso se consegue - e esta é a regra do jogo - sempre as custas de alguém. Se não fosse às custas de alguém ninguém progrediria tão rapidamente e todos ficariam no mesmo nível. O progresso é hoje a potestade mor, seguido por um batalhão de príncipes, formando um verdadeiro principado. Este principado está a serviço de si mesmo. Ele sujeita os homens a suas leis e os escraviza a suas determinações. É evidente que não há fuga ideológica. A fuga hippie como solução global é impossível, e a solução ideológica muda apenas a cor ou o nome dos poderes e do principado. A solução deve ser dada às pessoas aqui e agora. Elas devem saber quem é o Senhor e constatar, por conseguinte, a função real destes poderes endeusados por todos e condenados pela ascensão da cruz de Jesus Cristo.

Não importa qual a atualização escolhida, se a religiosa ou se a desenvolvimentista, ou nenhuma das duas. O que interessa é que tenhamos coragem de inverter os valores: Subir ao céu é agir na terra, e ser grande é ser um servidor; viver é morrer, e reconciliar é separar. Se com isto os homens começarem a andar de pernas para o ar, menos mau. É sinal de que alguma coisa está começando a mudar e de que os valores começam a ser outros. E afinal, por que subir não poderia significar o mesmo que descer?

Cito a definição do catecismo para adultos (Evangelischer Erwachsenenkatechismus, pág 405) sobre a ascensão de Jesus. É uma boa ilustração, a qual deve ser lida como preparo à prédica, apesar de ser em alemão:

A subida não vai em direção às estrelas, de modo que um astronauta possa encontrar Jesus por lá. A viagem vai para o futuro. Com a ressurreição Jesus superou todo e qualquer conceito de tempo.
Agora toda a história converge nele.

Hino sugerido: Jesus Cristo é Rei e Senhor, Hinário da IECLB, no. 112).

V - Bibliografia

KÄSEMANN, Ernst. Kolosserbrief. In: Die Religion in Geschichte und Gegenwart (RGG), enciclopédia ed. por Kurt Galling e outros, tomo 3, col 1727/28, 3a ed., Verlag Mohr, 1959.

RENDTORFF, Heinrich. Der Brief an die Kolosser. In: NTD, Vandenhoeck & Ruprecht, Göttingen, 1955.

MAKXSEN, Willi. Einleitung in das Neue Testament, 2a ed, Gütersloher Verlagshaus, 1963. Calwer Predigthilfen, tomo 8, pág 238-244, Calwer Verlag, Stuttgart, 1969.

Proclamar Libertação 1
Editora Sinodal e Escola Superior de Teologia


Autor(a): Hilmar Kannenberg
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Ascensão

Testamento: Novo / Livro: Colossenses / Capitulo: 1 / Versículo Inicial: 15 / Versículo Final: 23
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1976 / Volume: 1
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 7234
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