Confessando Nossa Fé - Introdução

Estudos da Confissão de Augsburgo

29/01/1980

INTRODUÇÃO

1. Todo aquele que me confessar diante dos homens, também eu o confessarei diante de meu Pai que está nos céus; mas aquele que me negar diante dos homens eu o negarei diante de meu Pai que está nos céus (Mt 10.32s). Estas palavras de Jesus nos dizem o que é uma confissão. Confissão é dizer sim ou não para Jesus Cristo, tomar partido em favor ou contra Jesus. Confissão é discipulado.

— Uma tal confissão quer ser a Confissão de Augsburgo que, neste ano de 1980, está comemorando 450 anos. Ela é, depois da Sagrada Escritura e ao lado do Catecismo Menor de Martim Lutero, o documento básico, através do qual expressamos o que Jesus Cristo é para nós. A Confissão de Augsburgo é também aquele escrito que permitiu entre nós, aqui no Brasil, o surgimento da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB). Éramos originalmente quatro igrejas independentes (o Sínodo Riograndense, o Sínodo Evangélico de Santa Catarina e Paraná, a Igreja Evangélica Luterana no Brasil e o Sínodo do Brasil Central), que descobriram a sua unidade na Sagrada Escritura, no Catecismo Menor de Lutero e na Confissão de Augsburgo. Desde 1949 nós confessamos a nossa fé em Jesus, conjuntamente, através da Confissão de Augsburgo. 

2. As palavras da Confissão de Augsburgo foram escritas em uma situação bem especial. Todos nós conhecemos a Martim Lutero e sabemos que por causa de uma descoberta que ele fez, por volta de 1517, toda a situação religiosa na Alemanha, ficou bastante agitada. Lutero descobriu que Deus não é um Deus que quer que o homem morra, mas viva! Deus não quer condenar, mas salvar o homem. Quando fez esta descoberta, o reformador não ficou COM ela para si. Ele a anunciou. Sua descoberta se alastrou como rastilhos de pólvora por toda a Alemanha. Sempre que o Evangelho se liberta, não há mais quem o segure. Ele tomou conta do apóstolo Paulo, de Santo Agostinho, de Lutero e de milhares de contemporâneos de Lutero.
Onde o Evangelho age, também surgem mudanças. Na Alemanha de então, começaram a ocorrer mudanças. A partir do Evangelho se iam descobrindo novas realidades. Surgiu uma nova concepção de igreja, de santa ceia, houve casamentos de pastores, monges abandonavam conventos. Com isso ocorriam mudanças. A Alemanha se via dividida em dois campos, os adeptos da velha e da nova fé. O culto passou a ser oficiado em língua alemã, havia santa ceia sob pão e vinho, comunidades escolhiam seus pastores. O povo criava novos hinos, em que se cantava da liberdade trazida por Deus em Cristo. Muitos cristãos, lendo a Bíblia e encontrando a proibição de imagens, foram mais longe e começam a destruir imagens, altares, etc. 

Essa liberdade significava perigo para os cristãos da nova fé. Desde o século VI, fé católica e fidelidade ao Estado tinham sido uma e a mesma coisa. Quem passava a ensinar algo diferente daquilo que até agora fora ensinado em questões de fé, era herege e, ao mesmo tempo, traidor da pátria. Por algum tempo, porém, puderam ocorrer mudanças no campo religioso, na Alemanha, porque o Imperador Carlos V, o homem que tinha que zelar pela fidelidade política e religiosa, estava empenhado em lutas com seus dois principais opositores: o Papa e o rei da França. Em 1529 a situação, porém, mudou. Nesse ano, Carlos V venceu a seus opositores e anunciou, por carta, aos príncipes alemães a convocação de urna Dieta, isto é, uma reunião dos representantes dos principados e cidades que formavam o Império Alemão. Esta Dieta ocorreria na cidade de Augsburgo e deveria iniciar a 8 de abril de 1530. O Imperador vinha disposto a reparar o ultraje que fora feito a Cristo. Na sua opinião, as mudanças feitas, a partir do Evangelho, pelos adeptos da nova fé, eram um ultraje a Cristo. Atrasos na viagem do Imperador fizeram com que a Dieta só se iniciasse em junho de 1530. 

Quando o príncipe eleitor da Saxônia, — território onde Lutero residia e que tinha na cidade de Wittenberg sua capital —, recebeu a convocação para a Dieta, procurou entrar em contato com seus partidários. Eram eles: Felipe de Hesse, Ernesto de Lüneburgo, Jorge de Ansbach, Henrique de Mecklenburgo e Wolfgang de Anhalt. Nas cartas enviadas, João, o Constante — é este o nome do príncipe eleitor da Saxônia — procurou mover seus partidários a se fazerem presentes na Dieta, para juntos poderem difundir e defender a fé evangélica. As respostas não foram muito alentadoras, pois mostravam que não havia unanimidade de pensamento. Enquanto alguns viam a importância da Dieta na defesa da fé e do sacramento, outros julgavam ser mais importante quebrar a hegemonia política do Imperador. Também entre as cidades não havia unanimidade. Essa situação era perigosa. Diante da inatividade de seus partidários, o príncipe eleitor encarregou a Universidade de Wittenberg da elaboração de um documento, no qual fossem dadas as razões para as mudanças havidas na Igreja, em seu território. Este documento recebeu o nome de Artigos de Torgau. 

Quando se dirigiu para a Dieta de Augsburgo, o príncipe João, o Constante, levou consigo, entre outros conselheiros, a Felipe Melanchton, colaborador de Lutero e professor na Universidade de Wittenberg. Lutero não pode ir junto, por estar banido. Como o Imperador tardasse em chegar a Augsburgo, João, o Constante, encarregou Melanchthon de elaborar um novo escrito que abrangesse os Artigos de Torgau e outros escritos anteriores. Esse novo escrito nós conhecemos, hoje, sob o nome de Confissão de Augsburgo. Em maio de 1530 o escrito foi enviado a Lutero, que a ele se referiu da seguinte maneira: Eu li a Apologia (defesa) de Melanchton, a qual me satisfaz e eu nada sei como melhorá-la ou modificá-la, o que também não conviria, já que eu não consigo manifestar-me de modo tão manso e suave. Cristo, nosso Senhor, ajude que ela traga grandes frutos, como nós esperamos e pedimos. 

A 15 de junho de 1530 o Imperador entrou em Augsburgo. No dia seguinte seria festa de Corpus Christi. Os príncipes evangélicos negaram-se a obedecer à ordem do Imperador de participar da procissão. Foi um ato de coragem, mas também de perigosa desobediência. A chegada do Imperador fez com que os príncipes evangélicos, que ainda vacilavam em princípios de 1530, se unissem agora, assumindo em conjunto o documento de Melanchton. 

Carlos V quis que o documento fosse simplesmente entregue. Os príncipes, porém, quiseram confessar sua fé publicamente e conseguiram que o documento fosse lido perante toda a Dieta. Essa leitura ocorreu no dia 25 de junho de 1530, às 15 horas. O texto foi lido em latim e em alemão. Após a leitura, o Imperador proibiu a divulgação do texto. Mas em pouco tempo ele estava divulgado em toda a Alemanha. 

Ao saber do ocorrido, Lutero viu cumpridas as palavras do Salmo 119.46: Falarei dos teus testemunhos na presença dos reis, e não me envergonharei. 

A Confissão de Augsburgo é uma pública confissão de fé, uma confissão do senhorio de Jesus Cristo. A confissão como tal foi apresentada em hora de perigo. Ali, em Augsburgo, nossos pais luteranos fizeram uma pública confissão de fé, de sua fé em Jesus Cristo. 

O Imperador não aceitou o documento, mas este veio a ser a base para as igrejas luteranas na Alemanha e, hoje, em todo o mundo, também aqui entre nós no Brasil. 

3. A Confissão de Augsburgo abrange ao todo 28 artigos que estão divididos em duas partes. Na primeira, deparamo-nos com Artigos de fé e de doutrina (artigos I-XXI). Eles se ocupam com três questões básicas: 

a. Os artigos I-III pretendem demonstrar a concordância com a doutrina da Igreja Antiga a respeito de Deus (I), origem do pecado (II) e cristologia (III). 

b. Nos artigos IV-VI e XVIII-XX é apresentada a compreensão reformatória do Evangelho: Justificação (IV), ministério da pregação (V, seria mais correto se o artigo fosse intitulado de mediação do Espírito Santo, através de Palavra e Sacramento), nova obediência (VI), livre arbítrio e origem do pecado (XVIII-XIX), fé e boas obras (XX). 

c. Nos artigos IX-XV deparamo-nos com problemas relativos à Igreja: Conceito de Igreja (VII-VIII), sacramentos (IX-XIII, note-se que aqui a confissão e o arrependimento estão incluídos entre os sacramentos, sem, no entanto, serem declarados como tais), ordem e ritos eclesiásticos (XIV-XV).

Além dessas três questões básicas, encontramos ainda três questões específicas: autoridades civis (XVI), segunda vinda de Cristo para juízo (XVII), culto aos santos (XXI). 

Na segunda parte (artigos (XXII-XXVIII), deparamo-nos com Artigos sobre que há divergência e em que se trata dos abusos que foram corrigidos: Das duas espécies do sacramento (XXII), Do matrimônio dos sacerdotes (XXIII), Da missa (XXIV), Da confissão (XXV), Da distinção de manjares (XXVI), Dos votos monásticos (XXVII), Do poder eclesiástico (XXVIII). No final, são abordados, sumariamente, temas como indulgências, peregrinações, excomunhão, etc.

Veja:

Confessando Nossa Fé – Estudos da Confissão de Augsburgo

A Confissão de Augsburgo (sem notas e comentários)

 


Âmbito: IECLB
Título da publicação: Confessando Nossa Fé - Estudos da Confissão de Augsburgo / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1980
Natureza do Texto: Artigo
ID: 19755
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Cristo, juntamente com todos os santos, assume a nossa forma pelo seu amor, luta ao nosso lado contra o pecado, a morte e todo o mal. Em consequência, inflamados de amor, nós assumimos a sua forma, confiamos em sua justiça, vida e bem-aventurança.
Martim Lutero
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