Deuteronômio 34.1-12

Auxílio homilético

22/02/2004

Prédica: Deuteronômio 34.1-12
Leituras: II Coríntios 4.3-6 e Lucas 9.28-36
Autor: Norberto Garin
Data Litúrgica: Último Domingo após Epifania
Data da Pregação: 22/2/2004
Proclamar Libertação - Volume: XXIX
Tema:

A posse pelo olhar

1. O Deuteronômio – uma palavra

Como já se sabe, Moisés é a figura dominante em todo o livro. É importante lembrar que o Deuteronômio é uma “cópia da Lei”, dada pelo personagem principal ao povo de Israel. Num contexto de despedida, Moisés apresenta ao povo a Lei que deverá ser observada na Terra Prometida. São palavras de exortação, admoestação e ameaça, apelando para a missão de Israel na história e para as promessas de glória que virão a seguir. Não se deve esquecer que há uma suspeita importante sobre a parte central (5-27), que corresponderia ao “Livro” encontrado no Templo durante a reforma de Josias (640-609 a.C. / 2 Rs 22.8).

O conteúdo de Deuteronômio recolhe materiais de antigas tradições literárias de Israel, cultivadas nos santuários de Siquém e Betel, adicionado de contribuições dos círculos levíticos, proféticos e sapienciais. Passou por um longo período de construção orgânica de suas tradições a partir de cerimônias de renovação da aliança e recitação cultual da Lei. Também é importante recordar que, no contexto de Deuteronômio, “sacerdotes” e “levitas” são termos intercambiáveis, visto que os sacerdotes levíticos possuíam legitimidade do oficio. É claro que, a partir da reforma de Josias, eles não podiam mais exercer o seu ofício nos santuários provinciais, mas exclusivamente no Templo de Jerusalém. Está posto que o principal núcleo do livro é constituído a partir da procedência cultual da aliança-lei. Este é o fundamento do texto. Contudo, pode-se observar uma gama de influências que lhe dá conotações diferentes. Um exemplo disso é quando a corrente aliança-lei começou a fazer parte das instituições régias de Ezequias e Josias, adquirindo visibilidade com eficácia na vida religiosa nacional em Judá. É possível perceber a influência da sabedoria e de tratados neo-assírios na concepção da aliança. Concomitantemente, a pregação dos profetas do oitavo século, Miquéias e Isaías no sul e Amós e Oséias no norte, sensibilizou sacerdotes e funcionários do palácio no que se refere à urgência da justiça socioeconômica.

Durante o exílio, o livro sofreu outros acréscimos, como o texto que é nosso objeto de estudo (Dt 34.1-12).

2. O texto – uma palavra

É possível perceber, com certa facilidade, que o texto em questão constitui uma seqüência lógica para Dt 32.48-52. Interrompe essa narrativa a chamada “Bênção de Moisés” (cap. 33), que aos moldes de Gn 49 repassa as doze tribos. É uma breve narrativa no estilo de prosa, que também aparece em outros contextos. Em Dt 3.23-28, que inicia com uma saudação de louvor a Javé. Após a exaltação, Moisés implora para que Deus lhe permita passar o rio. Num tom narrativo, ele explica a recusa de Deus por causa de seu pecado. Por isso lhe permite apenas subir ao monte e contemplar de longe a terra prometida. No outro texto do mesmo livro (Dt 32.48-52), há apenas a ordem de Javé, ordenando que ele suba ao monte para contemplar a terra. Localiza, com mais precisão, os motivos da recusa de Deus para que ele entre e possua a terra, quando diz: “Morrerás neste monte que vais subir e serás reunido aos teus antepassados, como morreu Arão, teu irmão, no monte Hor e ali se reuniu aos seus. Pois pecastes os dois contra mim entre os israelitas, junto às águas de Meribá, em Cades, no deserto de Zim, não santificando meu nome no meio deles” (Dt 32.50s). A outra narrativa dos últimos momentos de Moisés está em Nm 27.12-14. Nesta há uma repetição de termos muito semelhante a Dt 32.48-52.

3. O texto por partes – uma palavra

Moisés se encontrava na planície oriental do vale do Jordão, ao norte do Mar Morto. A tradição sacerdotal localiza ali o chamado “Monte de Moisés”. Trata-se do Monte Nebo. Há, porém, a tradição eloísta, que o localiza sobre o Monte Fasga. Jebel Neba, uma elevação com cerca de 900m acima do nível do mar, é provavelmente o monte mencionado em Deuteronômio. A visão que se tem dessa elevação não se estende além de Gilboa, os planaltos de Gileade a leste e as colinas de Judá a oeste. A citação dos locais segue um sentido anti-horário do norte para o sul: Gileade, Dã, Naftali, Efraim, Manassés, Judá até o Mediterrâneo, o Neguebe e finalmente a planície (kikkar) de Jericó. Moisés está localizado justamente onde as tribos de Israel acampam antes de adentrar a terra prometida, ou seja, nas estepes Moabe, além do Jordão.

Com palavras semelhantes a Êx 33.1, o texto repete a fórmula da antiga promessa de uma terra especial, prometida aos antepassados. O olhar de Moisés pode significar a posse jurídica da terra. Compare-se com Gn 13.14s.

Há certa dificuldade para compreender a descrição da morte de Moisés. A teoria mais aceita é que ele estivera acompanhado no momento de sua morte. Em síntese, o texto quer dizer que Moisés foi enterrado. Apesar de sugerir que o próprio Javé é quem o sepultou, o local é definido como o vale onde Moisés fez o seu último discurso ao povo. De qualquer forma, a falta de precisão tem como objetivo colocar uma aura de mistério sobre o seu sepulcro.

Em relação à idade de Moisés, de 120 anos, sugere um período dividido em três etapas de 40 anos. É um número bastante simbólico para as Escrituras. Poderia significar que ele viveu por três gerações (40 anos era o tempo de uma geração). As observações quanto à saúde dele são análogas à vitalidade de uma árvore (lah – que descreve uma madeira verde, úmida). Em síntese, dentro de uma visão idealizada, característica do oriente, significava que Moisés, apesar de sua idade, possuía vigor físico.

A descrição do pranto do povo sobre a morte de seu líder e a unção de Josué para prosseguir a missão são partes desse momento de despedida. A imposição de mãos garantia a Josué o carisma para continuar. Ele já estava escolhido por Javé para essa tarefa (Nm 27.18-23).

A intimidade que Moisés gozava com Javé, a ponto de estar, figurativamente, “face a face”, é imbatível. Considerado o maior profeta de Israel, Moisés fora inigualável na realização de sinais (´ôt) e maravilhas (mopet), que possibilitaram a saída dos hebreus do Egito. Foi o líder máximo do povo de Israel, nunca igualado por profetas ou reis.

4. A prédica – uma palavra

Moisés não irá entrar na Terra Prometida. Ele não tinha sido suficientemente fiel a Javé (Nm 20.12), embora as razões não sejam plenamente claras. Seu castigo era chegar à orla, olhar, mas não colocar o pé. Sobe ao monte. É no monte (Sinai/Horebe) que ele recebe a Lei. Seu nível é elevado. Sua proximidade é a intimidade de Javé.

Ele ergue o olhar e contempla a terra exuberante de norte a sul e de oeste a leste. Este olhar é parte da posse jurídica da terra (Gn 13.14s). Portanto, para Moisés não há mais dúvidas: a terra é do povo.

Mais do que uma posse jurídica é a posse espiritual. Moisés tem a confirmação de que Javé honrou a sua promessa. O povo que andara pelas areias e pedras do deserto agora se achava às portas de seu lugar. Portanto, o olhar de Moisés lhe dá a visão da garantia. O que os seus olhos contemplam é o “sinal” do concreto que irá se realizar. Não há distância entre sinal e concretude. O povo já possui a terra. Não é necessário colocar o pé para saber que, em Deus, o sinal já é posse.

Por vezes, a Igreja não tem sabido interpretar os sinais de Deus como “posse” dos bens que Ele tem lhes concedido. Freqüentemente, a fé da comunidade tem sido parecida com a fé do apóstolo Tomé – só crê que é real quando apalpa a realidade concretizada. A fé tem a dimensão da posse pelo olhar. Quando se contemplam os bens da graça, eles já são do fiel. A graça de Cristo é sinal e realidade de Deus conosco. Muitas vezes, as dúvidas da comunidade podem levá-la à infidelidade. Na dimensão da fé, o penhor já é a posse.

Este é o último domingo após a Epifania. Aproxima-se a Quaresma. É a luta do Senhor contra as forças da morte, representadas por fariseus e pelas autoridades do templo. É a sua luta para conceder a graça da libertação a todas as pessoas. Assim como Moisés contemplou a terra que estava para ser do povo, assim como o Senhor contemplou a libertação que da cruz vislumbrou, também a comunidade de fé necessita tomar posse da libertação, da fraternidade, da paz, do amor que a promessa de Deus, em Jesus Cristo, já se faz ver diante de seus olhos.

Bibliografia

ARAYA, Eugenio. Meditação sobre Dt 34.1-12. In: KILPP, Nelson & WESTHELLE, Vitor. Proclamar Libertação. São Leopoldo: EST/ Sinodal, 1991. vol. XVII, p. 74-77.
RAD, Gerhard von. Deuteronomy – a commentary. Philadelfhia: The Westminster Press, 1966.
THOMPSON, J.A. Deuteronômio – introdução e comentário. São Paulo: S.R. Edições Vida Nova, 1974.
GOTTWALD, Norman K. Introdução socioliterária à Bíblia Hebraica. São Paulo: Paulinas, 1988.

Proclamar Libertação 29
Editora Sinodal e Escola Superior de Teologia


Autor(a): Norberto Garin
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Epifania
Perfil do Domingo: Último Domingo após Epifania
Testamento: Antigo / Livro: Deuteronômio / Capitulo: 34 / Versículo Inicial: 1 / Versículo Final: 12
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 2003 / Volume: 29
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 6948
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