Dia Internacional da Mulher - Cantares 7.1-8.8

Auxílio Homilético

08/03/1996

Liberdade é sempre a liberdade daquele que pensa de modo diferente.
(Rosa Luxemburgo.)

O Dia Internacional da Mulher é comemorado no dia 8 de março. Já estamos acostumadas a neste dia estudar e refletir sobre exemplos de mulheres na Bíblia. Inicialmente optamos por mulheres que se destacaram na história do povo de Deus, como Débora, Rute, Ester, etc. Mas vimos que não só as heroínas aparecem na Bíblia e que estas talvez nem sejam o exemplo mais apropriado para o nosso contexto sofrido de América Latina. Aí descobrimos as mulheres sem nome, as simples mulheres do povo. A mãe de alguém, a mulher que varria a casa, a mulher que fazia o pão, a viúva de alguém, e assim por diante. Também começamos a descobrir as mulheres nas entrelinhas da Bíblia. Lá onde elas não apareciam perguntamos: qual era o seu papel neste contexto, onde elas estavam. Perguntamos pelas relações de gênero em cada texto.

Neste sentido proponho para estudo neste Dia Internacional da Mulher um texto de Cantares.

Cantares é um livro um tanto esquecido na nossa Bíblia. Por que será? Será por que ele fala do amor, da paixão entre um homem e uma mulher de uma forma muito clara, sem rodeios? Seria Cantares profano demais para estudarmos e lermos em nossas frias igrejas? Temos já a louvável iniciativa do Proclamar Libertação XIX de trazer subsídios para Bênção Matrimonial baseados em Cantares. No entanto, não é possível a poesia de amor de Cantares só no âmbito do casamento, pois nem de casamento Cantares fala. Fala pura e simplesmente do amor entre uma mulher e um homem.

1. Exegese

— Mas o que quer dizer esse poema? — perguntou-me alarmada a boa senhora.
— E que quer dizer uma nuvem? — retruquei triunfante.
— Uma nuvem? — diz ela. — Uma nuvem umas vezes quer dizer chuva, outras vezes bom tempo...
(Mário Quintana.)

1.1. Situando o Livro

O título do livro na tradução de João Ferreira de Almeida é Cantares de Salomão (1.1). Provavelmente o fato de atribuir a composição a Salomão é uma ficção para dar importância ao livro. Salomão era considerado o pai da sabedoria no antigo Israel. Na Bíblia — Edição Pastoral o título é Cântico dos Cânticos, ou o Melhor dos Cânticos.

Cantares é um livro de poemas de amor, erótico. É uma coletânea de cânticos populares autónomos que foram reunidos em livro no período pós-exílico. Alguns autores afirmam que esses poemas eram usados nas festas de casamento, o que parece improvável, pois o livro não menciona o casamento. O livro gira quase que exclusivamente em torno de uma mulher e de um homem que estão apaixonados e declaram este amor.

Talvez essa intenção de cantar única e exclusivamente o amor num texto bíblico tenha escandalizado as autoridades eclesiásticas, surgindo então várias interpretações do livro. A interpretação de cunho religioso diz que o amor cantado é o espiritual. Que o texto é uma parábola — uma alegoria — sobre o amor que liga Deus ao seu povo, ou mais tarde, Cristo à sua Igreja. Quanto esforço para tapar a nudez do corpo apaixonado, para calar a boca sedenta de amor, anular o corpo ardente de desejo! Outra linha interpretativa vai no sentido profano que diz ser Cantares uma antologia de cânticos de amor humano, sem estar ligada ao amor divino. Mas como e por que estariam esses cantos na Bíblia? Esta linha não o explica.

Fugas! Incapacidade de misturar o amor humano/profano com o amor divino/sagrado. Deixemos de lado esses pré-conceitos e vamos interpretar Can¬tares do jeito como os cânticos aparecem mesmo. Despidos da ideia de separar o nosso corpo e o nosso espírito; o humano e o divino. Inconcebível não falar em dicotomias? Vamos deixar que a doce melodia dos cantos de amor e o cheiro de corpos plenos de prazer invadam o nosso próprio corpo no estudo deste texto sagrado.

A redação final do livro deu-se por volta do ano de 400 a.C, no período pós-exílico, quando os persas dominavam a Palestina. A dominação persa era inovadora, acontecia sem derramamento de sangue, mas em forma de extorsão. Os persas permitiam o retorno dos exilados a seu país de origem. Permitiam a reestruturação dos povos quanto à sua religião e costumes, mas não lhes era permitida a independência económica e política. Essa certa autonomia religiosa permitida no caso do povo de Israel foi manipulada pelo pessoal do templo. Os sacerdotes trataram de reorganizar a vida do povo em torno da lei e do templo, controlando e regulando todos os setores da vida dele. Baseada no livro do Levítico, a classe sacerdotal implementou a lei da pureza. E é nos corpos humanos que vai agir a lei do puro e do impuro. E o corpo mais castigado com a impureza é sem dúvida o da mulher. Realidades humanas femininas como menstruação, gravidez e parto necessitavam de rituais de purificação, condenando assim a mulher a longos e intensos períodos na contramão da lei. A menstruação é uma realidade na vida da mulher, então isso a tornava impura pelo fato de ser mulher.

O interesse da classe sacerdotal (masculina) em relação à lei da pureza era separar o povo de Israel dos outros povos. Essa lei atingia principalmente as mulheres estrangeiras que haviam casado com homens do povo, com a intenção de expulsá-las e, assim, purificar a raça. A lei visava também os interesses políticos e econômicos subordinados à religião, estratificando a sociedade judaica em puros e impuros. O controle era exercido pelo templo e pela lei. Os rituais asseguravam ao templo as ofertas e sacrifícios, que tinham seu preço, confirmando assim o interesse econômico do templo. Essa situação levava muitas pessoas à pobreza, ao endividamento para assegurar a pureza de sua vida e linhagem.

Neste sentido, com esse clima de preconceitos frente ao corpo e ao sexo, principalmente ao corpo e à sexualidade da mulher, Cantares é um canto de protesto. Com seu canto a mulher exalta as belezas do corpo tanto dela quanto de seu amado. É uma inversão da lei da pureza, sendo o puro agora o corpo, a sexualidade, a relação sexual em si. Diante da exclusão da mulher da sociedade, Cantares põe na boca de uma mulher melodias de protesto. Ela é que é a protagonista da história, que chama o seu amado para o amor, desprezando costumes e leis que lhe proibiam isso.

Frente à necessidade da tradição cristã de desprezar (desprazer) o corpo sexuado, espiritualizando-o, negando-o, tornando-o fruto do pecado, principalmente o corpo da mulher, Cantares desmascara e desnuda os preconceitos.

Ao nos aproximarmos do texto sagrado, precisamos estar cientes dessa carga que ele traz consigo. É preciso, também, levar em conta que os anos de amarras que carregamos em nossos próprios corpos atrapalham ao querermos ler o texto com o corpo todo, sentindo seu cheiro, seu gosto e vendo seu colorido.

É um desafio lermos Cantares em nossas igrejas tão acostumadas com o certinho, com a razão. E lermos assim, com o corpo, com prazer! Mas se não o fizermos, estaremos contribuindo para a continuidade das friezas, dos preconceitos e tabus em relação à sexualidade, ao corpo, à paixão opostos ao sagrado, ao divino. Cada pessoa está consciente da realidade na qual vive e saberá ir devagar, respeitando a individualidade das outras pessoas, sem atropelar, mas sem deixar de experimentar.

1.2. O Livro

Milton Schwantes (Debaixo da Macieira — Cantares à Luz de Ct 8.5-14, Estudos Bíblicos, Petrópolis, no 40, 1993, p. 41) divide o livro em cinco poemas:

1.5-2.7: o roteiro poético de todo o poema. Temas: o desejo do encontro, a hora do amor, o encontro debaixo dos ciprestes e a relação sexual (2.4-6).

2.8-3.5: é o desencontro. Trata do amor que deseja, mas não se concretiza.

3.6-5.8: é o centro. Retoma o primeiro e o segundo blocos. O encontro desejado acontece e é celebrado.

5.9-8.4: é o mais longo e o mais completo. Conteúdo: o encontro entre os amantes, o enlace dos abraços e das danças e, enfim, a relação sexual.

8.5-14: é conclusivo. É fala de mulher.

1.3. O Texto para Reflexão — Ct 7.1-8.4

O texto dança. A mulher dança. A dança é acompanhada pela descrição do corpo da mulher. Não se trata de uma simples descrição de atributos da mulher boa, vulgarizada, mas é texto apaixonado com muito encanto por parte do amado. A dança exala o desejo. O movimento do corpo se dá ao sabor das emoções. Até o encontro dos dois no beijo, molhado, gostoso (7.10). Aqui o amor é descrito sem preconceitos, sem protótipo a ser enquadrado no que é estabelecido pela sociedade machista e opressiva. O corpo da mulher é um corpo em dança, com muita sensualidade.

De 7.11 a 8.4 há um novo poema que descreve o desenrolar do encontro. Depois do beijo os dois vão ao campo, lugar de liberdade, vão à vinha para vê-la florescer, para ver os botões se abrindo e as romãzeiras florindo. No campo, lugar do amor, do namoro, dos abraços, da harmonia com a natureza, o corpo geme e exala o cheiro do fruto, não proibido, mas bom de ser comido, desfrutado.

Depois do amor experimentar a liberdade no campo, sem medo de represálias, de vigias, de poder opressor, dominante, ele acontece na casa da mãe (e só da mãe!), onde se dá o prazer. A casa é para o amor, o êxtase, o prazer da relação de amor. Os corpos se encontram e se abraçam (8.3), se curtem, acarinham, deitados um junto ao outro, fascinados pela paixão (8.4).

Esse é o texto sagrado descrevendo o amor entre duas pessoas. Não podemos dizer que isso é alegoria, pois é muito real, palpável. Afirmamos que essa é a manifestação do amor de Deus. Experimentar o amor entre dois seres humanos é experimentar o amor divino. O amor, a paixão em sua totalidade, de duas pessoas com sua sexualidade, sensualidade, é o lugar privilegiado da experiência da manifestação de Deus. Sendo o amor humano o lugar da experiência de Deus, ele não pode ser vulgarizado, reprimido, condenado. O preconceito contra a paixão, o amor humano, é preconceito contra uma das formas de Deus se manifestar à sua criação. Bagatelizar esse amor é bagatelizar o mistério da experiência divina. Condenar esse amor é desprezar a Deus. (Veja Ivo Storniolo & Euclides M. Balancin, Como Ler o Cântico dos Cânticos — o Amor, uma Faísca de Deus, 3a ed., São Paulo, Paulinas, 1991 [Como Ler a Bíblia].)

2. Atualizando

Proponho que no Dia Internacional da Mulher a reflexão seja feita sobre a questão do corpo da mulher, excluído, reprimido, vulgarizado, feito mercadoria. Sugiro que se reflita sobre a sexualidade reprimida, o desejo contido. O desconhecimento do corpo representa alienação. E em nossa sociedade machista, patriarcal a identidade ainda se define somente pela anatomia, pelas características biológicas. Resgatar o sentido do corpo, o conhecimento do próprio corpo representa uma ruptura profunda. O corpo é sagrado, é morada do Espírito Santo; por isso, usá-lo como mercadoria, vulgarizá-lo, desprezá-lo é ofensa à criação de Deus. O amor entre um homem e uma mulher é manifestação do amor de Deus; por isso, não é algo de que se tenha que sentir vergonha, não é algo que possa se tornar mera troca. Deve-se enfatizar a beleza do amor entre duas pessoas e a plenitude dessa relação no respeito à sexualidade e ao prazer.

Pode-se trabalhar de diversas formas. Pode-se levar cartazes sobre ditos que vulgarizam a mulher, cartazes de corpos de mulheres vendidos como mercadoria, corpos de mulheres sofridas, doentes, tristes, etc. Outros com mulheres trabalhando, mulheres com filhos, simplesmente mulheres. O texto de Cantares permite o uso da criatividade. Vamos ler o texto não só com os olhos e com a razão. Vamos sentir o cheiro, o gosto e a cor do texto. Vamos provar do vinho do texto e deixar o corpo bailar ao som da palavra de Deus. Uma sugestão de interpretação neste sentido temos em Nancy Cardoso, Ah... O Amor em Delícias! RIBLA, Petrópolis, na 15, 1993, pp. 47-59.

Há restrições e problemas quanto a esse tema, claro! Mas muitas vezes o bloqueio está em nós mesmas/os. Deixemos o perfume do texto chegar ao nosso ser. E para saber qual é o gosto do bolo, não é necessário comê-lo todo de uma vez, basta uma fatia!


Autor(a): Elaine Neuenfeldt
Âmbito: IECLB
Testamento: Antigo / Livro: Cantares / Capitulo: 7 / Versículo Inicial: 1
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1995 / Volume: 21
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 14202
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