Eclesiastes 3.1-8

Auxílio Homilético

28/11/1980

DIA DE AÇÃO DE GRAÇAS - Eclesiastes 3.1-8 - Ulrico Sperb

Todas as coisas, vira, vira, vira,
tem sua hora, vira, vira, vira;
todos anseiam seu tempo sob o céu;
tempo de nascer e tempo de morrer,
tempo de plantar e tempo de colher;
tempo de matar e tempo de curar;
tempo de rir e tempo de chorar.

2. Estribilho: Todas as coisas
Tempo de construir e tempo de derrubar,
tempo de dançar e tempo de prantear,
tempo de pedra espalhar
e tempo de pedra ajuntar.

3. Estribilho: Todas as coisas...
Tempo de falar e tempo de calar,
tempo de guerra e tempo de paz
e tempo de se abraçar,
tempo de se afastar do abraço.

4. Estribilho: Todas as coisas...
Tempo de buscar e tempo de perder,
tempo de rasgar e tempo de coser,
tempo de amar e tempo de odiar,
tempo de paz, eu juro, ainda há tempo.

(Cancioneiro da OASE, 1980)

l - Tudo tem seu tempo

A primeira impressão que se tem deste texto - bem como de todo o livro de Eclesiastes — é de um relativismo ou até de um negativismo assustador. Este livro parece não se coadunar com os demais livros do AT (Westermann, p. 193). Pessoalmente tive no início a impressão de estar lendo algum filósofo existencialista de algumas décadas atrás. Tudo parece relativo. Falta a segurança, tão clara nos demais livros do AT. Segurança esta baseada numa fé inabalável em Deus (Javé).

O autor de Eclesiastes, no entanto, não é um ateu nihilista (von Rad. Vol.l, p.470). Por isso falei de primeira impressão. Pois esta impressão provém de nosso condicionamento do século XX. Se afastarmos nosso preconceito e deixarmos o texto nos atingir, sentiremos - ao invés do negativismo assustador — as profundas verdades de suas palavras.

Notamos que este texto é uma poesia. Os vv. 2-8 formam um poema bem simples há uma sequência de verbos antônimos entre si. A palavra tempo entrelaça os verbos. Observe-se que ela aparece 28 vezes (tanto no original, quanto na tradução de Almeida).

Por falar em tradução de Almeida: ela é bastante fiel. Ao pregar, mudei apenas alguns verbos para toma-los mais compreensíveis. Há, porém, duas palavras que troquei, por se adaptarem mais ao original: no v.4b, ao invés de tempo de prantear, e tempo de saltar de alegria, pus tempo de prantear, e tempo de dançar; e no v.8a, ao invés de tempo de amar, e tempo de aborrecer, pus tempo de amar, e tempo de odiar.

Continuando a análise do termo tempo: aqui não se trata do tempo, no sentido abstrato, mas do tempo determinado e preciso, preeenchido por um certo acontecimento (von Rad. Vol.2, p. 109). Para o israelita o tempo é sempre vivido. A vida é uma sequência de tempos. E tudo tem o seu devido tempo (v. 1).

Em nosso poema aparece uma série de 14 verbos com seus respectivos antônimos. E estes verbos podem ser classificados em duas categorias: ação e sentimento das pessoas. A única exceção é formada pelo primeiro par: nascer e morrer (v.2a). As pessoas vivem entre estes dois. Elas agem e sentem. Tudo está entrelaçado. Entre o nascimento e a morte está a vida, a qual é preenchida pela sucessão de tempos.

Estes tempos são de atos e sensações. Além disso oscilam entre o positivo e o negativo, entre o bom e o ruim, entre o que se gosta e o que não se gosta.

Qual é, porém, o sentido deste poema? Tudo tem o seu tempo e há tempo para tudo. Mas para quê? O poema deve ser inserido em seu contexto. Aí notaremos que ele desemboca no v. 11 a: 'Tudo fez Deus formoso no seu devido tempo. (Zimmerli, p.55)

Não é a pessoa que estabelece os diferentes tempos. Eles acontecem e a pessoa não pode interferir. Por isso mudam seus sentimentos conforme a mudança do tempo. Deus é quem fez os tempos e deu às pessoas a consciência da mudança dos tempos. Eis aí o mistério: os tempos vêm de Deus, as pessoas sentem e conhecem suas mudanças, mas não podem interferir (v. 10). Deus fez tudo de maneira correta. E Deus deu às pessoas a consciência de sua ação (Gn 1.27-30). Só que a pessoa não pode compreender a ação e a obra de Deus em toda sua extensão, do início ao fim. (Wolff, p. 138)

II - Tempo de agradecer

Mesmo que o testemunho de fé esteja além de nosso texto, limitei a perícope aos w. 1-8. Isto por três motivos: a) Em nem todos os textos bíblicos encontramos um testemunho de fé imediato. Pelo fato de estarem na Bíblia, porém, sabemos que tal testemunho está inserido em seu contexto, b) Na pregação expressei o testemunho de fé e abrangi o contexto, c) Há anos conheço a canção sobre o texto e sempre gostei dela. Por isso, antes da pregação um grupo de jovens cantou a canção. E no final da pregação li o texto da Bíblia.

O Dia de Ação de Graças para nós significa uma oportunidade para agradecer a Deus pela colheita (v.2b). Ao mesmo tempo, porém, é uma oportunidade para fazermos um balanço sobre nossa vida e a vida da comunidade. E durante um ano acontece tudo aquilo que é descrito nos vv. 1-8.

Nós vivemos num mundo de contrastes. Entre o nascimento e a morte, entre o plantio e a colheita, convivemos com o bem, o bom, o agradável, o alegre e o ruim, o mau, o desagradável, o triste. Também nós falamos de tempos bons e tempos difíceis. E uma das constatações de nosso texto é a de que não há desgraça que dure para sempre.

Temos que cuidar para não tirar conclusões moralizantes do texto. Mais ou menos no seguinte sentido: Faze com que haja menos tempo de matar do que de curar. Procura derrubar menos do que construir. (v.3) A intenção do texto não é esta. O positivo é justamente o fato de que este poema encara a vida e o mundo como realmente são. Não adianta tapar o sol com uma peneira. Também não adianta desistir, tornar-se cético, nihilista ou fatalista. O importante é aceitar tudo da mão de Deus (Wolff, p.139). Veja o que o próprio Eclesiastes diz: No dia da prosperidade goza do bem, mas no dia da adversidade considera em que Deus fez assim este como aquele, para que o homem nada descubra do que há de vir depois dele. (7.14)

O bem aceitamos com prazer de Deus, mas o mal nos leva à revolta contra Deus. É esta atitude que Eclesiastes — com sua sabedoria - enfrenta. Sua opção é aceitar tudo como vontade de Deus (3.16-22). Porém não aceitar de braços cruzados, mas sim agindo e vivendo com muita vontade, confiança e alegria. O próprio Eclesiastes o diz num outro poema muito bonito (9.7-10). Este poema inclusive pode ser inserido no sermão.

A ação humana num mundo de contrastes, o poema 3.2-8 a descreve tão bem no entrelaçamento entre ação e sentimento.

Dia de Ação de Graças é um dia de fazermos um balanço do que fizemos, pensamos e sentimos durante o ano que passou. E para nós cristãos este balanço acontece diante de Deus. O grande momento de libertação é que podemos pedir perdão por todo mal que fizemos e podemos dedicar todo o bem que fizemos a Deus. Entre o nascer e o morrer acontece o bem e o mal. E nós nos deixamos envolver tanto por um, como por outro. Em tudo, porém, podemos conviver com Deus. Ele nos perdoa o mal e aceita o nosso bem.

Eclesiastes parece responder à pergunta donde vem o mal?, afirmando ele vem de Deus. Mas a resposta mais correta, conforme Eclesiastes, é: no plano de Criação de Deus também existe espaço para o mal. E isto corresponde à nossa teologia: onde há liberdade, há também a possibilidade de se usar esta liberdade para o mal.

O importante em Eclesiastes é o reconhecimento de que nem o bem e tampouco o mal são perenes. E ambos podem ser aceitos e vividos com Deus.
 

III - Tempo de anunciar

De bons poderes sinto-me cercado,
Bem protegido e, de fato, consolado;
Assim desejo eu passar os dias
E ter convosco um ano de alegrias.
De bons poderes vemo-nos cercados,
De pensamentos para o bem voltados.
Deus está presente noite e dia,
Assim é certa hoje sua alegria.

(Dietrich Bonhoeffer, De Bons Poderes)

A confiança e a segurança de fé me vêm à mente, neste poema de Bonhoeffer. Esta certeza de fé deve ser anunciada num dia de Ação de Graças. Toda nossa vida é envolvida por Deus. Tanto o plantio como a colheita provêm de Deus.

Tudo tem o seu tempo e todos os tempos estão nas mãos de Deus. Esta é uma verdade que nos liberta dos tempos dos homens, em que eles parecem ser os donos do tempo. Pois também eles têm o seu tempo sob o céu.

Dia de Ação de Graças é oportunidade de (re)colocarmos nossos tempos sob os cuidados de Deus. Se agradecemos pela colheita, então também podemos agradecer pelo plantio e por tudo que aconteceu no meio tempo, inclusive pelo desagradável.

O poema que escolhemos para o Dia de Ação de Graças é um sim para a vida, com todos os seus altos e baixos. Eclesiastes sabe que Deus fez tudo bem, pois Deus viu tudo quanto fizera, e eis que era muito bom (Gn 1.31). Para nós, cristãos, o sim de Deus é mais claro ainda, pois vivemos com a certeza do evangelho de Jesus Cristo.

Preguei sobre este texto com muita alegria e entusiasmo, não por último, pelo fato de que senti o quanto Eclesiastes compreendia a vida e de como nossa vida se enquadra neste poema. Tanto nossa vida particular, quanto a vida da comunidade e da sociedade atual. Tudo tem o seu tempo, também o século XX tem o seu tempo determinado. E ainda há tempo...

IV - Bibliografia

- BONHOEFFER, D. Resistência e Submissão. Rio de Janeiro, 1968.
- VON RAD, G. Theologie des Alten Testaments. Vol.l. S.ed., München, 1966; Vol.2. 4.ed., München, 1965.
- WESTERMANN, C. Abriss der Bibelkunde. 3.ed., Stuttgart/Gelnhausen, 1964.
- WOLFF, H. W. Anthropologie des Alten Testaments. München, 1973.
- ZIMMERLI. W. Die Weltlichkeit des Alten Testaments. Göttingen, 1971.


Autor(a): Ulrico Sperb
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Dia de Ação de Graças

Testamento: Antigo / Livro: Eclesiastes / Capitulo: 3 / Versículo Inicial: 1 / Versículo Final: 8
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1980 / Volume: 6
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 18244
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