Ecumenismo no dia-a-dia

01/12/1997

Ecumenismo no dia-a-dia

Heinz Ehlert

O ecumenismo de base teve a sua primavera também em Curitiba. Isto aconteceu nos anos sessenta, em virtude do Concílio Vaticano II. De repente, padres, pastores, freiras, mas também muitos leigos interessados reuniram-se para organizar encontros ecumênicos. Encontros esses que serviriam para viver e celebrar, mas também aprofundar e mostrar ao mundo a nova, recém descoberta unidade que temos em Cristo. Os primeiros cultos da Semana da Oração pela Unidade dos Cristãos encheram os templos de diferentes denominações: católicos, luteranos, presbiterianos, anglicanos, metodistas, reformados e até ortodoxos. Um padre católico pregou na Igreja Luterana e eu, um pastor luterano tive o privilégio de pregar no templo do Colégio Marista, com o aplauso do nosso presbitério e o apoio franco de muitos membros. Mas não ficou naquela semana. Encontros regulares de estudos bíblicos, de conferências sobre temas teológicos palpitantes e levantados com o Concílio Vaticano II, além de reuniões de oração caracterizaram esta primavera ecumênica. O novo era a inclusão dos católico-romanos. Entusiasmante a alegria deles de poder estar junto aos irmãos separados e sentir e expressar esta fraternidade na fé comum. Até um Centro Ecumênico foi criado, com uma biblioteca e coleção de revistas e escritos sobre ecumenismo.

ASSINTEC
25 anos de diálogo ecumênico

Alguns decênios transcorreram desde então. O clima ecumênico mudou no mundo e em Curitiba. Mas sempre existiram pessoas e grupos que mantiveram acesa esta chama do amor pela unidade dos cristãos. Anualmente se realizam na semana que antecede à Pentecostes a Semana da Oração pela Unidade dos Cristãos. As Igrejas participantes continuam sendo as mesmas. Sentimos a falta de denominações evangélicas, como os batistas, menonitas e os pentecostais. A participação de membros das diferentes denominações é modesta. Mas o ardor dos participantes é admirável. Além desses cultos, realizaram-se encontros de estudo bíblico e de outros assuntos que visam o diálogo ecumênico qualificado e a aproximação entre as Igrejas.

Como expressão da unidade que já temos em Cristo foi fundada em Curitiba, há 25 anos, a exemplo de outros Estados (p. ex. Santa Catarina), uma associação ecumênica para planejar, organizar e implementar o ensino religioso (ou educação religiosa) nas escolas públicas chamada Associação Interconfessional para a Educação de Curitiba (ASSINTEC). O nome mostra que originalmente só se pensava em Curitiba. Mais tarde, foi estendida ao Estado do Paraná inteiro. Foi firmado um convênio com o governo do Estado e com a Prefeitura Municipal de Curitiba.

A Secretaria de Educação do Paraná entregou a coordenação do ensino religioso nas escolas públicas do sistema estadual à ASSINTEC. Em todos os Núcleos de Ensino foi organizado um Serviço de Ensino Religioso (ecumênico). Por influência da ASSINTEC a Constituição do Estado do Paraná prevê um ensino religioso interconfessional nas escolas públicas. Professores lotados nas escolas podem assumir as aulas de' ensino religioso, dando para isto 50% de sua carga horária. O ensino religioso é, portanto, ensino pago. O Estado também colocou à disposição da ASSINTEC espaço físico para o funcionamento de sua sede administrativa, além de cooperar financeiramente para a manutenção de professores para os serviços gerais da ASSINTEC. Entre esses serviços gerais merece destaque a elaboração de material didático para o uso no ensino religioso escolar e a realização de diferentes cursos para a formação de professores.

Da ASSINTEC participam representantes da Igreja Católica Romana, Luterana, Presbiteriana, Reformada, Anglicana e Metodista. Há alguns anos a AS SINTEC adotou uma Base Doutrinária Comum que se baseia no Evangelho de Jesus Cristo conforme as Escrituras Sagradas, assinalando, porém, que será considerada e respeitada a tradição confessional de cada uma das Igrejas cooperantes.

O trabalho tem sido desenvolvido num espírito de verdadeira fraternidade cristã, tanto nos órgãos diretivos como no corpo de colaboradores executivos (funcionários e principalmente, professores). Pode ser chamado, portanto, de um exemplo a seguir de ecumenismo de base. A ASSINTEC também realizou esporadicamente Encontros de Diálogo Ecumênico para os quais foram convidados representantes oficiais das Igrejas em âmbito local como também regional e que contaram com a participação de bispos e outros líderes das Igrejas cooperantes.

Capelania Ecumênica - assistência aos doentes

Um outro exemplo de ecumenismo de base temos no trabalho da Capelania Ecumênica do Hospital de Clinicas de Curitiba. Ela foi organizada oficialmente há 5 anos. Participam dela teólogos credenciados pela Igreja Católica, Luterana e Batista. Cada capelão titular tem o seu suplente. Eu tenho o privilégio de ser o capelão titular luterano e o P. Johann Friedrich Genthner é o meu suplente. A esta equipe ecumênica está entregue toda a assistência espiritual hospitalar neste Hospital Universitário ou Hospital-Escola (também chamado de Serviço Religioso). Na estrutura do hospital este serviço está vinculado à direção clínica. Foi adotado um Regulamento do Serviço Religioso que garante não só o exercício da assistência espiritual como parte do processo de cura, mas também permite que possa acontecer de maneira ordenada e integrada aos demais serviços, dentro de um espírito ecumênico e de respeito aos direitos dos pacientes.

No serviço de assistência espiritual, a Capelania Ecumênica conta com um grande número de visitadores voluntários, recrutados e credenciados pelos três capelães. Em encontros mensais de celebração, estudo e oração além de conferências técnicas, estes voluntários são instruídos e preparados para a sua tarefa. É impressionante como durante estes anos este grupo amadureceu, tanto no sentido de aperfeiçoamento técnico como na cooperação ecumênica que certamente tem os seus reflexos para dentro das respectivas Igrejas.

Cabe ainda mencionar que este ecumenismo de base deu origem a uma cooperação ecumênica na área hospitalar que é digna de nota. Uma é a realização do Simpósio de Capelania Hospitalar do Hosp de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (foram realizados já 4, em período anual). A outra é a constituição de uma Associação Cristã de Assistentes Espirituais Hospitalares de Curitiba. Ela reúne capelães de, até agora, 10 hospitais de Curitiba, membros da Igreja Católica, Luterana, Batista, Presbiteriana, Menonita e Adventista. Tem por objetivo difundir, fortalecer e aprimorar a clínica pastoral em hospitais.

SEB — um esforço de muitas Igrejas

Um último exemplo de como funciona o ecumenismo de base em Curitiba, vale a apena mencionar. Trata-se de um empreendimento que já tem mais de 50 anos. Várias Igrejas Evangélicas resolveram fundar um hospital evangélico. Para este fim constituíram a Sociedade Evangélica Beneficente (SEB) de Curitiba. O começo foi bastante modesto. Logo nos primeiros anos também a Comunidade Evangélica Luterana de Curitiba veio a integrar esta obra assistencial. O objetivo era dar um cunho evangélico aos serviços hospitalares. No prédio foi incluído um recinto para ser a capela e desde os primórdios foi chamado um capelão hospitalar para realizar cultos diários transmitidos aos quartos através de um sistema de som, além de visitas regulares a pacientes. Foi dada muita ênfase ao atendimento de pessoas carentes (chamadas então de indigentes).

A obra cresceu. Além do Hospital Evangélico foi criada a Faculdade Evangélica de Medicina do Paraná e o Colégio Evangélico de Enfermagem (forma auxiliares de enfermagem). O Hospital foi ampliado, tendo hoje mais de 500 leitos. É o único hospital deste porte em Curitiba que conta com um corpo de 4 capelães hospitalares além de um Superintendente Espiritual. Uma capelã é de nossa Igreja (IECLB). O serviço de assistência espiritual responde a um Conselho de Ação Espiritual do qual faço parte.

A Sociedade Evangélica Beneficente conta hoje com 13 Igrejas Evangélicas como mantenedoras. Mais recentemente ingressaram a Assembleia de Deus e a Igreja do Evangelho Quadrangular.

A cooperação ecumênica (várias das Igrejas mantenedoras preferem evitar este termo) experimentou, no decorrer de sua história, muitas rivalidades e crises. Também hoje não está livre de tensões. Mas sempre prevaleceu a vontade de superar diferenças e levar adiante esta obra diaconal dos evangélicos, demonstrando ao mundo que a despeito da diversidade existe uma unidade de fé e ação.

Ecumenismo de base ou na base, isto é, lá no dia-a-dia das comunidades locais exige, como em toda a parte, uma vontade de reconhecer e viver a unidade que nos é dada em Cristo e de obedecer ao Senhor da Igreja, Jesus Cristo que orou ao Pai que todos sejam um (João 17).

O autor é pastor da IECLB e reside em Curitiba, PR

Ver ìndice do Anuário Evangélico - 1998


Autor(a): Heinz Ehlert
Âmbito: IECLB
Área: Ecumene
Área: Missão / Nível: Missão - Acompanhamento e consolação
Título da publicação: Anuário Evangélico - 1998 / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1997
Natureza do Texto: Artigo
ID: 25845
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Portanto, a fé é assim: se não vier acompanhada de ações, é coisa morta.
Tiago 2.17
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