Efésios 1.20b-23

Auxílio Homilético

31/05/1984

Prédica: Efésios 1.20b-23
Autor: Friedrich Genthner
Data Litúrgica: Dia da Ascensão
Data da Pregação: 31/05/1984
Proclamar Libertação - Volume: IX

I — Considerações iniciais

A Carta aos Efésios apresenta-nos algumas dificuldades quanto à época, autoria e lugar de origem. Há duas posições bem fundamentadas:

1. Uma, que aceita o apóstolo Paulo como autor da carta — é mencionada sua prisão (3.1; 4.1; 6.20), está presente a doutrina da justificação (2.1ss — Rm 3.28) e dos dons espirituais (4.7ss — 1 Co 12. 1ss), fala-se na nova Igreja composta por judeus e gentios (1.11; 2.11 — Rm 11) e na Igreja como corpo de Jesus Cristo (1.23; 4.12,16 — 1 Co 12.12). De fato, Paulo esteve dois anos em Éfeso e no início da carta consta o nome dele.

2. Outra, que se baseia em Ef 1.1 — em Éfeso não é original; o texto apresentado por Nestle-Aland em seu Novum Testamentum Graece tem outros endereços como, por exemplo, Laodicéia. Expressões como aos santos apóstolos e os homens espirituais (4.11) não combinam com a linguagem de Paulo. Estas palavras se relacionam melhor com a primeira geração pós-apostólica. Além disso, articulam-se nesta carta questões eclesiásticas que pressupõem a Igreja, como instituição. A importância desta carta não diminui, se aceitarmos como seu autor um desconhecido que viveu na Ásia Menor entre os anos 80 e 100 d.C.

O tema da epístola toda pode ser formulado assim: a ação divina na Igreja de judeus e de gentios (Ef 1.1s).

A carta divide-se em duas partes principais. A primeira parte (El 1.3 - 3.21) trata dos cristãos que devem levar a sério a sua vocação, e aborda o mistério da vocação dos gentios. Esta nova visão de Igreja culmina na doxologia Bendito o Deus.....A segunda parte (El 4.1 -6.24) fala da realidade cristã no dia-a-dia, de como se vive dignamente a vocação na igreja, na família, no matrimônio e no mundo com suas tentações e desafios.

É na primeira parte desta carta que encontramos as palavras para o dia da Ascensão: Ef 1.20b-23. Este mesmo texto consta de uma outra série de perícopes (VI), indicado para o 4° Domingo após Epifania (Ef 1.15-23). Onde se realiza a reconciliação entre Deus e os homens, fala-se em epifania ou revelação. Jesus, com seu anúncio da boa nova, revelou seu Pai (Mc 4.35-41; 2 Co 1.8-11; Is 51.9-16; Gn 8.1-12).

Nos w. 200-23 proclama-se que este Jesus Cristo é posto por Deus como Senhor sobre tudo. Este trecho faz parte de testemunhos que formam o fundamento cristológico de nossa fé e vida cristã, como, por exemplo, Lc 24.50-53; Al 1.3-11; Jo 17.20-26; Jo 18.33-38 e Ap 4.1-11.

II — O texto

Os vv. 20b-23 contêm muitos aspectos importantes que deveriam ser analisados. Quero aqui limitar-me ao mais necessário para a prédica. ENERGEIN (v.20), exercer, faz-nos pensar no que Deus, em seu poder, é capaz de realizar, seja por meio de seu Filho, seja através de nós, que nele cremos. Essa palavra-chave é descrita no Credo Apostólico. Neste ponto não pode haver dúvida nenhuma: a ressurreição de Jesus é obra divina (1 Co 15.15-19). Este fato está explicado em quatro sentidos:

1. EGEIRAS, ressuscitar (Jo 12.1,9,17; At 3.15; 4.10; 5.30; 10.40; 1 Co 6.14). Os evangelistas e apóstolos, a Igreja cristã e a nossa participação na missão de Deus baseiam-se todos nessa obra divina. Deus colocou diante de nós o desafio de vida nova, vida que não se en¬quadra em nossos modelos.

2.KATHISAS, pôr, sentar: Deus colocou Jesus Cristo no lugar certo. O que foi esperado durante gerações pelo povo do Antigo Testamento — que viesse um messias com a capacidade de salvar, congregar, iluminar e conservar o seu povo — está-se realizando. E, mais ainda, Deus o colocou de tal forma que ele ultrapassa em muito as expectativas, à sua direita. Dele depende o futuro. O mundo e a nossa vida estão em suas mãos. O que na cruz poucos perceberam (Ml 27.45-54) está aberto para todos: Jesus Cristo, KYRIOS, Salvador e Juiz (Mc 1.11; Mt 3.17; Lc 3.22; Jo 1.34).

3. HYPOTASSÕ, submeter-lhe tudo, pôr debaixo de seus pés. Esta expressão é usada, em Lc 10.17,20, contra poderes demoníacos, e significa (Fp 3.21) que também estes poderes estão incluídos sob o seu governo e senhorio. O resultado da ressurreição é uma nova realidade (Fp 2.9-11): tudo é posto debaixo dos seus pés.

4. DIDOMI — Deus deu Jesus como cabeça à Igreja. A Igreja tem um rumo bem definido. Se Jesus é o Senhor da Igreja, dos poderes neste mundo, da morte, do diabo e do pecado — então ele é o Senhor absoluto (Ef 1.22; Hb 2.8ss). Justamente essa sua posição condiciona a nossa vida e o nosso relacionamento, de uns com os outros: obediência da Igreja (Ef 5.21 ss), amor mútuo (Ef 5.25ss), crescer em direção a Cristo (Ef 4.15s).

Pelo poder de Deus, demonstrado na ressurreição de Jesus Cristo, começa uma nova forma de convívio. Neste sentido não é muito feliz o termo alemão Himmelfahrt ou a designação Ascensão para este dia que a Cristandade comemora. O que tal dia nos quer lembrar está muito bem expresso na canção Rei dos reis que encontramos no cancioneiro infantil As crianças desta terra: Rei dos reis, Senhor dos senhores: Glória! Aleluia! Jesus, Salvador — Jesus meu Senhor, reina para sempre: Glória! Aleluia!

Queremos refletir ainda sobre duas palavras fundamentais: SOMA, corpo, e PLÉRÕMA, plenitude.

Corpo: Esta palavra ê empregada como uma parábola para descrever a Igreja. Numa rápida consulta à chave bíblica constata-se que este termo foi usado em relação a uma comunidade local (1 Co 10.17; 12.12-27). Em certos momentos Paulo podia perguntar: foi Cristo separado e dividido?. (1 Co 1.13s) O mesmo termo também servia para descrever a vida da Igreja toda, a Igreja de Jesus Cristo (Ef 1.22s). Este corpo de Cristo celebramos na Santa Ceia, no engajamento diário em prol do próximo, no sofrimento pela missão de Deus (Mt 5.4). Este corpo não é estéril. Cada membro participa com o seu dom, edificando a Igreja toda (Jo 15.1 ss). Há um critério para o que é Igreja: onde Cristo é o centro da vida, onde se reúne a comunidade para crescimento em conjunto e onde se vive para o próximo. Neste corpo de Cristo há uma nova mentalidade, uma nova dimensão de vida.

Plenitude: Uma palavra muito frequente nas cartas aos Efésios e aos Colossenses. Há muitas ligações entre as duas cartas. A palavra plenitude tem o significado: Igreja, Jesus Cristo, ambiente novo, espaço para desenvolver a vida nova, espaço de liberdade e de comunhão com Deus. O nosso planeta, o nosso ambiente vivencial, não apresentam as dimensões que a palavra plenitude visa. O grande milagre é que Deus nos convida a participar desta plenitude. Ef 4.13 fala em chegar até lá, e em Ef 3.19 e Cl 2.10 lemos que a nossa participação começou com o Batismo. Realmente, esta reflexão sobre o Batismo, a Igreja e a vida cristã baseia-se no plano que Deus tem: dar-nos parte nesta plenitude.

Em resumo: Pela ressurreição de Jesus Cristo, Deus subjugou todo o tipo de força diabólica, morte e pecado. Criou em seu Filho uma nova situação e uma nova perspectiva para a vida. Agora há esperança bem fundamentada para todos. Quem se deixa conduzir por este caminho participa da Igreja na qual Jesus Cristo é o cabeça.

III — A caminho da prédica

O tema da pregação pode ser O mundo tem um novo Senhor. E esta colocação poderia ser desenvolvida em três partes:

1. Jesus Cristo é o Senhor pelo poder de Deus;
2. Jesus Cristo é Senhor sobre as situações caóticas;
3. Jesus Cristo é o Senhor da Igreja.

1. Muitos aceitam que Jesus Cristo é um entre outros. Dizer que ele é o único provoca muita gente. Para a Bíblia isto não é novidade; já no Primeiro Mandamento Deus revela como deseja viver com os que ele criou. Críticas não faltam de nossa parte. Quando os cosmonautas Glenn e Titow foram perguntados se encontraram Deus durante seu voo espacial, responderam: O Deus em que cremos não é assim, que possa ser enxergado pela janelinha da aeronave. Uma outra testemunha, o Dr. Rudolf Wirchow, afirma: Autopsiei inúmeros corpos, mas nunca achei uma alma. Estas expressões nos mostram a dificuldade que sofremos para compreender o que Deus fez. Os ingleses têm uma excelente forma de explicar isto: eles empregam a palavra sky para descrever a atmosfera, o universo; e usam a palavra heaven que descreve a existência humana. Estamos dentro do senhorio de Deus. Lemos em At 1.11: Varões galileus, por que estais olhando para as alturas? Deus veio ao nosso encontro. Muitas vezes constatamos só o negativo na vida: ausência, solidão, tristeza, pobreza, injustiça e abuso de poder. Uns perguntam: onde se sente que a fé em Deus transporta montes? O dia da Ascensão de Jesus não significa que ele desapareceu. Pelo contrário: ele chegou mais perto ainda. Pilatos, interrogando Jesus, perguntou pelo poder. E Jesus respondeu: Nenhuma autoridade terias sobre mim, se de cima não te fosse dada (Jo 19.11). Este poder de Jesus nem sempre é aceito ou percebido, como aconteceu com os discípulos: Por que sois tímidos, homens de pequena fé? (Mt 8.26). Este poder não depende do nosso sim, pois é dado peto Pai. Assim, com certeza, Martim Lutero podia confessar: ... para que eu lhe pertença e viva submisso a ele em seu Reino... :

2. Há, hoje em dia, situações que chamamos de caóticas. Poderes que parecem violentos querem destruir a criação de Deus e enganar as pessoas. Há vários exemplos: quem detém a palavra e o poder coloca-se sobre os outros e pisa neles; aparelhos automáticos são colocados no lugar de pessoas humanas; segue-se uma política que atende o pequeno com esmolas, quando deveriam ser mudadas as estruturas; continua o sistema de exploração em que um vive às custas do outro; pessoas deixam de ser sinceras, leais e responsáveis em seus cargos e funções.

O Novo Testamento usa uma palavra impressionante: proclamar Jesus. A Igreja proclama Jesus Cristo, porque ele já estendeu o seu braço sobre a terra, o céu e a nossa vida. Diante desse fato os cristãos, a Comunidade, são chamados a agir: Em nome de Cristo, pois, rogamos que vos reconcilieis com Deus (2 Co 5.20). Sob essa proclamação do senhorio de Cristo qualquer outro poder torna-se transparente. Mentira, engano, crime e brutalidade são desmascarados por Cristo. Cria-se, assim, uma nova situação: nela os cristãos vivem em grande liberdade em relação aos poderes. O drama se reflete também em nós, que com facilidade nos deixamos puxar para trás. Mas Deus fez a ruptura definitiva. Nossa tarefa consiste em não darmos mais nenhuma chance às forças malignas. Devemos, isto sim, nos aprofundar no amor de Cristo (Rm 8.37-39).

3. A Igreja está incluída no senhorio de Jesus Cristo. A gente estranha a expressão do autor da Carta aos Efésios. Como fica com as igrejas, denominações ou seitas que pregam: Somente a nossa igreja salva, somente a nossa é a verdadeira? Que tensões agitam a IECLB! Qual o nosso conceito de missão? Neste texto de Efésios se diz: a Igreja cresce a partir de Cristo e em direção a ele. Se concordamos com o fato de que esta carta é da época pós-apostólica, ela nos atesta que numa fase crucial da vida da Igreja foi descoberta a verdadeira unidade em Cristo. Nos conflitos cristológicos nota-se a importância da palavra Cristo, o cabeça da Igreja.

É importante mostrar alguns sinais que resultam da confissão Cristo é o Senhor: o movimento ecumênico, a elaboração de material didático e religioso para as escolas, a intercessão, o diálogo, a colaboração frente a problemas sociais como o desemprego. Em Cristo, a Igreja é um sinal do seu senhorio. Que esperança esconde-se na Igreja para o mundo de hoje! Que futuro Deus nos abriu em Cristo! Por isso fazem parte da verdadeira Igreja o Batismo e a Santa Ceia.

IV — Subsídios litúrgicos

1. Poderiam ser cantados no culto os hinos 74, 73, 95 e 235.

2. Confissão de pecados: Misericordioso Deus e Pai: louvamos o teu nome, pois colocaste Jesus Cristo como Senhor acima de tudo. Nós temos que confessar: durante a semana pouco ou nunca pensamos em ti e em tua obra Vivemos a nossa vida como se tu não existisses Em certos momentos de dificuldade procuramos por ti, chorando, gritando, implorando por socorro Ficamos impacientes quando demoras em nos atender. Perdoa-nos em nossa desobediência! Liberta-nos do mal que nos domina, e implanta em nós o leu Espírito! Tem piedade de nós, Senhor!

3. Anúncio de graça: Eis que estou convosco todos os dias até à consumação dos séculos (Mt 28.20b).
4. Oração de coleta: Bondoso Deus, Senhor do céu e da terra, tu instituíste Jesus como Senhor na tua glória. Celebramos a tua presença, aqui e em toda a nossa vida. Obrigado pelo perdão dos nossos pecados. Obrigado por nos declarares teus filhos. Abençoa a nossa comunhão, nosso ouvir, cantar e orar. Amém.

5. Leitura bíblica: Lc 24.44-53. Voto após a leitura: E eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim mesmo.

6. Oração final: Jesus Cristo, nosso Senhor, celebramos este dia em que começaste a governar sobre todo o nosso mundo. Em muitas partes há pessoas que ainda te ignoram e rejeitam. Por outro lado há muitos que te confessam com alegria e júbilo. Ajuda-nos, dá-nos coragem e fé, para que tu sejas o centro de nossa comunidade, de nossa família e de nosso trabalho. Em especial, oramos por nossa Igreja e por todos os seus obreiros. Concede o teu Santo Espírito a toda a cristandade para que proclame com alegria o teu Evangelho. Pedimos que estendas a tua bênção sobre nossas famílias, amigos, colegas e vizinhos. Juntos queremos experimentar a vida oferecida por ti, gratos pela mensagem que hoje ouvimos. Que tu sejas o elo em nossa comunhão. Pedimos por todos que exercem autoridade na vida social, econômica e política em nosso país. Tu sabes como é grande a tentação que o poder exerce sobre nós. Muitas autoridades abusam do poder que lhe é dado. Senhor, faze com que reconheçam que todo o poder é cedido por ti. Muda os corações dos poderosos e fortalece o nosso povo sofrido. Amém.


 


Autor(a): Friedrich Genthner
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Ascensão

Testamento: Novo / Livro: Efésios / Capitulo: 1 / Versículo Inicial: 20 / Versículo Final: 23
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1983 / Volume: 9
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 13431
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