Efésios 1.3-14

Auxílio Homilético

13/07/1997

Prédica: Efésios 1.3-14
Leituras: Amós 7.10-15 (16-17) e Marcos 6.6b-13
Autor: Arnaldo Mädche
Data Litúrgica: 8º. Domingo após Pentecostes
Data da Pregação: 13/07/1997
Proclamar Libertação - Volume: XXII


1. Introdução

Efésios, uma carta-circular, supostamente de autoria dos discípulos de Paulo, enviada a diversas comunidades de cristãos gregos da Ásia Menor, por volta do ano de 100 d.C, tem uma característica diferente das cartas paulinas. Ela não entra nos assuntos locais, como, p. ex., acontece com a Carta aos Coríntios, embora Paulo (At 19.10) tenha vivido em Éfeso cerca de dois anos. Por isso os exegetas denominam esta carta (como a de Colossenses) de carta católica, expressando o caráter geral da mensagem cristã.

A estrutura da carta (v. Dahl, p. 7ss.) poderia ser assim definida:

Inicia com a saudação apostólica (1.1-2) e termina referindo-se ao intermediador da carta, Tíquico (6.21-24); à saudação segue-se o nosso texto com a bendição a Deus (1.3-14) que termina com doxologia (3.20-21); continua com as orações de graças e de intercessão em favor dos ouvintes (l.Sss.; 3.1; 3.14-19); lembra a obra de Deus, em Cristo, por todos os fiéis e a importância do apostolado de Paulo (1.9-2,22; 3.1-13); baseado no que Deus fez e faz, Paulo exorta a comunidade a ter uma vida ética irrepreensível, concluindo com uma oração a seu favor (4.1-6,20).

A mensagem central da carta poderia ser assim resumida: Vocês são agora a Igreja de Cristo, pensem no que isso significa e procurem viver em coerência com sua fé!

Somos confrontados, no caso, com a segunda geração de cristãos. O autor (ou autores) quer consolidar a fé das comunidades da Ásia Menor reafirmando e recapitulando a mensagem paulina para que esta não se perca do horizonte dos seus ouvintes. É provável que as Cartas aos Efésios e aos Colossenses trabalhem materiais comuns da catequese, da liturgia, da homilia e dos hinos emergentes que estavam cristalizando uma tradição, sendo cuidada e divulgada pelos segui¬dores de Paulo. Outros pesquisadores afirmam que ela poderia ter uma autoria dupla, por ocasião de uma visita de Paulo a um dos seus discípulos. A carta teria várias cópias com endereço aberto. Eram lidas pelos enviados e ali deixadas para a edificação espiritual da comunidade.

A Carta aos Efésios tem uma validade ecuménica que ultrapassa seu tempo c espaço. Ela fala a nós hoje e nos encoraja, baseada na obra de Cristo, a caminhai para uma nova sociedade, através de um comportamento ético fundamentado na fé no Deus Triúno. É a grande curva dos tempos, que vai do ato de criação do Pai, da obra redentora do Filho e da promessa do Espírito Santo aos que, pelo Batismo, assumiram a condição de filhos de Deus.

2. Efésios 1.3-14

Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos tem abençoado... (v. 3) abre a saudação com palavras de ação de graças pelo que aconteceu aos fiéis nas comunidades da Ásia Menor. Em Cristo todos foram abençoados reúne os ouvintes de todas as comunidades. O tema desta perícope se resume, pois, ao seguinte: em Cristo Deus nos abençoa!

Os vv. 4-12 trazem as consequências desse ato primeiro. Deus nos elegeu (4-6a) e nos deu redenção dentro de seu plano universal (6b-7,8-10), que inclui nossa participação como herdeiros da graça (11-12). E finaliza afirmando que os ouvintes fazem parte da bênção de Deus, em Jesus Cristo e na promessa do Espírito Santo (13-14).

Destacam-se, neste texto, os materiais litúrgicos. O tema da adoção, como filhos de Deus, indica que ele é parte de uma liturgia batismal. Outros grandes temas estão presentes: a eleição acontece agora pela fé em Jesus Cristo; a vida santificada dos crentes e da comunidade transforma o mundo; eles foram escolhidos para fazer parte da família cristã de todos os tempos e lugares; a redenção de todos os pecados é um ato de libertação; a sabedoria e a inteligência da fé fazem parte do plano universal de Deus, que supera as questões individuais; o mistério de Deus nos selou com o Espírito Santo para sermos herdeiros de uma nova humanidade (e sociedade!).

O Deus que vinha aluando desde os primeiros tempos voltou a agir na vida e morte redentora de Cristo por nós, e está encaminhando a realização do seu plano universal através da fé dos fiéis. A Trindade se faz sentir: através do Filho o Pai realiza o seu plano, o Filho abre o caminho para que o Espírito Santo derrame seus sinais e dons, de modo que todos os que crêem sejam abençoados. Não se trata de uma aula de doutrina sobre a Trindade, mas de uma visão geral que engloba os grandes temas do evangelho.

3. Meditação

Goethe disse certa vez que quem não consegue ter uma visão geral dos últimos dois ou três mil anos de história da humanidade também não entende o seu tempo. Uma coisa assim parece acontecer nesta carta: a fé local, individual e comunitária é colocada no grande plano universal de Deus! Dos inícios da criação, passando pelo evangelho de Jesus Cristo, devemos olhar para a frente, para a atuação do Espírito Santo, e descobrir nossa atuação no cotidiano da vida. Amos é chamado por Deus para profetizar contra Israel (Am 7.10ss.). Os discípulos são enviados dois a dois para curar e pregar (Mc 6.6bss.). Por sermos parte do plano de Deus, enquanto filhos/as de Deus, nossa conduta pessoal e social deverá se orientar por uma atuação evangelizadora e libertadora deste mundo.

Certamente são palavras que registram o entendimento da fé na virada do séc. 1. Elas nos inspiram a localizar o papel da fé e da comunidade no mundo de hoje, na virada para o terceiro milénio. Em dois mil anos de Igreja e cristandade devemos considerar e somar novos fatos e uma nova consciência de fé e mundo onde tudo ficou mais complexo.

Tivemos uma Igreja aviltada e associada por muito tempo ao Estado. Passamos na Idade Média pela Santa Inquisição. Abençoamos as espadas que levaram morte e destruição nas Cruzadas contra os mouros. Em nome de Cristo foram abençoadas as invasões dos continentes desconhecidos e, com elas, a destruição genocida dos povos e culturas indígenas. No continente americano, p. ex., desapareceram, em poucos anos, cerca de 650 povos e culturas pela ação missionária da Igreja, comprometida com os interesses do Estado e do sistema mercantil, emergente na Europa a partir do séc. 16.

A Carta aos Efésios, que, em nosso texto, pede uma conduta irrepreensível, foi rasgada várias vezes pelos fatos históricos de uma cristandade sedenta de poder e de posses materiais. Ali nasceu o imperialismo ocidental, que agiu de forma colonialista no passado e hoje se apresenta na forma neoliberal, destruindo novamente vidas, criando dependências e gerando uma cultura de morte. Olhemos ao nosso redor!

Nesses dias (fins de 1995!) os cofres do Banco Central (BC) estão abertos para as elites, representadas pelos banqueiros que se enriqueceram com o sistema inflacionário, implantado a partir dos anos 60. Agora esses bancos estão falidos pela estabilização da moeda e não podem mais enganar o povo com cifras manipuladas e veiculadas pela imprensa comprometida. Enquanto isso, os cofres do BC continuam minguados para a saúde pública, para o financiamento da agricultura, para a reforma agrária, para o pequeno e médio empresários que sofrem com os juros escorchantes e se vêem obrigados a botar para a rua seus empregados.

Estamos falando dos déficits de nossa civilização, em que a Igreja é chamada pelo evangelho a ter um papel importante. Hoje temos conhecimentos e informações suficientes para lamentar que ela nem sempre foi uma bênção para a humanidade e para os povos do Sul. Ela foi muito mais um instrumento de manipulação por parte dos poderosos. Foi, por muito tempo, a paralisação da esperança.

Dá então para falar no grande plano universal de Deus? Onde estão as promessas do Espírito Santo? Será que a Igreja do terceiro milénio voltará a pregar uma fé para depois da morte, consolando os oprimidos com as bênçãos celestiais? Ou vai assumir outra alternativa, a de ser uma voz de protesto em favor dos pequenos e humilhados, buscando constantemente evangelizar consciências e povos para uma sociedade em que a misericórdia e a solidariedade estejam presentes?

Uma Igreja solidária com os pequenos, não a temos de maneira fácil. A igreja do bispo Edir Macedo cresce entre os pobres e remediados prometendo mais posses materiais (carros importados!). A leitura que fazem da Bíblia associa bênção com a posse de bens mundanos. A Bíblia virou um livro de receitas para o enriquecimento e o sucesso social. Esta é a fórmula do bispo Edir para o crescimento vertiginoso da sua igreja. É o que o povo deseja de todo o coração.

Não e não! Vamos ficar fiéis a Jesus Cristo e nos colocar inteiros debaixo da mão de Deus! Vamos testemunhar uma Igreja que não se alia mais ao poder do mundo para alterar a agenda da história. Vamos ser a Igreja que deixa Deus ser Deus na vida da fé que elegeu a cruz de Cristo como símbolo de sua caminhada!

Como se faz isso? Como se administra uma fé que parece viver de derrotas mil?

Essas são as questões para a comunidade de hoje! Ela humaniza e evangeliza a pequena comunidade de fiéis que continua a cultivar a prática de uma Igreja que aqui foi aportada pelos invasores europeus. Como descobrir nela novos horizontes e novos sinais do evangelho pela ação do Espírito Santo, é disso que devemos falar neste 8Q domingo após a festa do Pentecoste.

Vamos abrir o nosso coração e pedir que Deus nos envie o Consolador e que nos ensine a caminhar pequeno, mas fiel ao seu plano universal. Estamos onde começamos! Perdemos o aparato de força que o Estado conferia. Os poderosos tornaram-se ateus. Miterrand morreu como ateu. Também FHC se confessou ateu em São Paulo. A fé em Deus está restrita ao pequeno grupo de fiéis, assim como tudo se iniciou. Ali é que devemos nos situar.

4. Sugestões para a Prédica

Poderíamos iniciar reunindo as informações gerais sobre a Carta aos Efésios e sobre o texto. Depois, fazer a grande curva trinitária. Expor a Igreja incipiente dos fiéis a Jesus Cristo, passando pela Igreja imperante de Constantino e da Idade Média e chegando ao esvaziamento atual, novamente ao pequeno grupo. E a Igreja que, como pequeno grupo, é desafiada a desistir da associação ao aparato majoritário de poder. No grupo acontece a solidariedade com os derrotados pelo inundo. Ela é celebrada no culto e na Santa Ceia lembrando a cruz de Cristo. As promessas do Espírito Santo e do Reino são resgatadas. A comunidade é convidada a uma vida irrepreensível, que se traduz numa conduta de amor a todos os que dele precisam. Na fraqueza, a força de Deus! Os que têm fé em Jesus Cristo são a esperança e o sinal da Igreja do terceiro milênio!

5. Liturgia

Do hinário Hinos do Povo de Deus, sugiro o hino 76, que aborda temas de nossa reflexão. O hino 263, com melodia brasileira, coloca o tema da bendição. Em lugar do Credo Apostólico, sugiro a leitura com a comunidade do hino 88, de Martinho Lutero, que aborda o tema da Trindade. Como leitura bíblica, os textos de Amos e Marcos previstos para este domingo. As orações devem incluir a realidade local sem esquecer a Igreja universal. Na confissão de pecados, lembrar o pedido de perdão pelos males cometidos pela Igreja.

6. Bibliografia

DAHL, Nils Alstrup et al. Kurze Auslegung des Epheserbriefes. Göttingen, Vandenhoeck & Rup-recht, 1965.
VOLKMANN, Martin. Meditação sobre Ef 1.3-6,15-18. In: Proclamar Libertação. São Leopoldo Sinodal, 1992. vol. XVIII, p. 43-48.
WEBER, Bertholdo. Meditação sobre Ef 1.3-14. In: Proclamar Libertação. São Leopoldo Sinodal 1978. vol. III, p. 62-67.


Autor(a): Arnoldo Mädche
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Pentecostes
Perfil do Domingo: 8º Domingo após Pentecostes
Testamento: Novo / Livro: Efésios / Capitulo: 1 / Versículo Inicial: 3 / Versículo Final: 14
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1996 / Volume: 22
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 17654
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Ó Deus, meu libertador, tu tens sido a minha ajuda. Não me deixes, não me abandones.
Salmo 27.9
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