Efésios 1.3-6, 15-18

Auxílio homilético

02/01/2005

Prédica: Efésios 1.3-6, 15-18
Leituras: Isaías 61.10-62.3 e João 1.1-18
Autora: Marga Ströher
Data Litúrgica: 2º Domingo após Natal
Data da Pregação: 2/01/2005
Proclamar Libertação - Volume: XXX
Tema: Natal

1. – Introdução e considerações gerais à Carta aos Efésios

1.1. - Introdução geral à Carta aos Efésios

A chamada Carta aos Efésios tem mais caráter de síntese teológica, composta de liturgia e de discurso parenético, do que de carta. É também uma das mais discutidas do NT no que diz respeito à autoria e à comunidade destinatária. Essa carta não estava destinada, pelo menos não exclusivamente, à comunidade de Éfeso. A expressão “em Éfeso”, presente na saudação inicial da carta, falta em vários manuscritos mais antigos e relevantes para a análise textual dos escritos paulinos e é desconhecida ou contestada em várias fontes dos chamados Pais da Igreja, como Orígenes, Tertuliano, Basílio e Jerônimo. O título “aos efésios” deve ter entrado somente depois do fim do século II na lista do cânon. É possível que as destinatárias da carta fossem as comunidades do vale do Lico, na região da Frígia. Tíquico é enviado à comunidade para a qual essa carta é dirigida (6.21-22) e, segundo Cl 4.7-9, Tíquico e Onésimo são enviados para a comunidade de Colossos, que tem relações próximas com as comunidades de Laodicéia e Hierápolis (Cl 2.1; 4.13-16). Há evidências, inclusive, de uma possível dependência literária de Efésios em relação a Colossenses ou conjeturas de que essa tenha sido a carta enviada aos Laodicenses (hoje desconhecida). Dificilmente pode-se afirmar para qual igreja ou quais igrejas em particular a carta foi escrita; de qualquer maneira, ela foi bastante difundida entre as comunidades cristãs e consolidou-se como a Epístola aos Efésios.

A característica dessa epístola é de carta circular, pois não aparecem situações ou problemas de uma comunidade em particular, não há saudações a pessoas da comunidade e há indicações de que a pessoa que escreveu essa carta não conhecia seus destinatários (1,15; 3.2; 4.20). O único nome citado é o de Tíquico, que seria o portador da mesma. Essa carta provavelmente não é de Paulo: ela menciona que a igreja está edificada sobre o fundamento dos apóstolos e profetas (2.20). Dificilmente pode-se imaginar que Paulo – ou algum apóstolo ou apóstola – tenha se autoproclamado como o fundamento da comunidade. Antes a convicção de que o único fundamento da igreja é Jesus Cristo (cf. 1 Co 3.11). A carta deve ter sido escrita para um círculo de comunidades da Ásia Menor, incluindo a comunidade de Éfeso, e faz parte da tradição teológica paulina.

Há discussão na pesquisa sobre a autoria e a autenticidade paulina da carta. Alguns autores defendem que ela foi escrita por Paulo. José Comblin afirma que não há “argumento decisivo de crítica externa para decidir a favor da autenticidade paulina ou não”; o conteúdo da carta é melhor compreendido “a partir da situação da igreja ao redor dos anos 90” depois da Era Comum (d. E.C.) e não da época contemporânea de Paulo (Comblin, p. 7). Dois argumentos em favor disso: a) em Ef 2.20, por exemplo, pressupõe-se que os apóstolos estão mortos, pois é afirmado que a igreja está construída sobre o fundamento dos apóstolos e profetas – conforme exposto acima; b) a carta é bastante geral, impessoal, não menciona pessoas na saudação e fala das pessoas da comunidade como se não as conhecesse pessoalmente: “tive notícias de vossa fé no Senhor Jesus” (1.1; 2.1ss; 1.15; 3.2; 3.25; 4.17). Em Atos, no entanto, temos referências a uma longa temporada de Paulo nessa comunidade, pelo menos três anos (At 19.10; 20.30-31; cf. 18.18-21), o que faria com que tivesse uma vinculação pessoal com ela.

Em Efésios, não há sinal de um episcopado já estabelecido nas igrejas; não há grande preocupação pelos desvios de doutrina e pelo ensino dos chamados falsos mestres (de outra doutrina), presente nas Cartas Pastorais e nas cartas de Inácio de Antioquia. Também não há referência explícita a perseguições – o que pode ser uma indicação de a carta ser anterior às Pastorais, às cartas de Inácio de Antioquia e às perseguições de Domiciano.

O autor da Carta aos Efésios é o mesmo ou conhecia a Carta aos Colossenses. Se não é possível afirmar uma dependência dessa carta, pode-se indicar uma influência da Carta aos Colossenses sobre a Carta aos Efésios. A carta parece que reescreve a Carta aos Colossenses, fazendo uma releitura da mesma, ampliando alguns conceitos, como a eclesiologia – aqui vinculada em boa parte ao modelo de família patriarcal.

A Carta aos Efésios está construída basicamente em dois blocos: um com desenvolvimento teológico mais dogmático, intercalado com a linguagem discursiva e litúrgica, e outro mais prático, com diversas parêneses e recomendações familiares e comunitárias. A primeira parte da carta (cap. 1-3) apresenta a estrutura litúrgica judaica: louvor/bênção; ação de graças; doxologia. Em termos de gênero literário, a carta apresenta várias citações do Antigo Testamento, autobiografia (3.1-13), parêneses (vícios: 4.31; 5.3-5; virtudes: 4.23; 4.32-5.2 (5.9); catálogo de comportamento familiar/código doméstico: 5.22-6.9; exortação à luta espiritual: 6.10-17), hino (1.3-14).

1.2 – Temas principais

A Carta aos Efésios tem como foco central a igreja. Uma das preocupações centrais dessa carta é com a unidade comunitária, concebida a partir dos conceitos básicos de fé e espiritualidade comum e da unidade dos diversos ministérios (4.1-16). A proposta de unidade familiar entra como uma das formas de preservar a unidade mais ampla: a unidade familiar está ligada à unidade comunitária (o privado se faz público). Isto se mostra no código doméstico (5.[21] 22-6.9), que trata de normas para a vida doméstica, ou seja, dos deveres das mulheres, homens, crianças, pais; escravos/escravas e senhores, segundo o modelo patriarcal. A família patriarcal é colocada como parâmetro para entender a relação entre Cristo e a igreja. A comunidade é entendida como um corpo, porém com uma cabeça. Nas cartas de Paulo às comunidades de Corinto e Roma, a idéia de Cristo e/ou a igreja como corpo ainda não aparece ligada a concepções hierárquicas de funcionamento e funções. O corpo é concebido como uma realidade dinâmica, com participação dinâmica da diversidade de suas partes – “conquanto muitos somos um só corpo em Cristo... tendo diferentes dons” – e a mútua solidariedade como “membros uns dos outros” (Rm 12. 3-8; 1 Co 12). A concepção de igreja na Carta aos Efésios, portanto, é menos dinâmica e mais centralizadora em relação a 1 Coríntios e Romanos.

Em Paulo, a idéia do corpo, como metáfora relacionada à comunidade, aparece como corpo dinâmico e integral, incluindo a cabeça, que somente funciona com a cooperação e o serviço de cada membro (1 Co 12 e Rm 12). A comunidade forma o corpo completo, integral. Em Efésios, assim como em Colossenses, essa idéia paulina do corpo está presente. Em Ef 4.11-13, por exemplo, os dons e ministérios na comunidade – apóstolas, profetas, evangelistas, pastores, mestres – são compreendidos como concedidos pelo próprio Cristo, com o objetivo do aperfeiçoamento das santas e dos santos para o desempenho do serviço de Cristo, a edificação do corpo de Cristo, a unidade na fé e o pleno conhecimento do Filho de Deus. A unidade da igreja, como corpo de Cristo, é construída sobre a unidade da fé, da esperança e do amor (Ef 4.4; 5.15)

Na Carta aos Efésios, a comunidade é vista como corpo, que é bem ajustado por toda junta e pela cooperação de cada parte para o crescimento e a edificação de Cristo. Esse crescimento, porém, somente se dá a partir da cabeça, que é Cristo (Ef 4.16; cf. Cl 2.19). No decorrer do desenvolvimento temático e prático da carta, contudo, a ênfase está mais na divisão desse corpo em partes diferentes, pelo menos em cabeça e outros membros, ou pela justaposição de suas partes. Cristo não é mais o corpo completo e dinâmico, mas é a cabeça desse corpo. Cabeça e corpo estão separados; o corpo está fragmentado e hierarquizado. Com isso podemos perceber que nem tudo o que é concebido como unidade nessa carta e nas interpretações da história traditiva da mesma tem como fundamento a diversidade, tal qual é afirmado na carta, mas também há elementos que evocam a uniformidade.

A cristologia em Efésios, pelo menos em seu desdobramento prático, aparece vinculada às regras de comportamento familiar vigentes na sociedade, que se tornaram regras de relações comunitárias das igrejas na casa. A fundamentação ética em Efésios é desenvolvida a partir da eclesiologia, e esta se desenvolve a partir da cristologia, que têm como ponto de convergência o corpo (Wendland, p. 108). Este corpo, no entanto, tem uma cabeça, à qual se deve se subordinar. E, assim como Cristo é cabeça do corpo, algumas pessoas podem ser cabeça sobre outros membros da comunidade. Especialmente o homem sobre a mulher, mas também o pai sobre as crianças e os senhores sobre escravas e escravos. Uma outra cristologia, concebida de maneira hierárquica, reforçada com a entrada dos códigos domésticos, demonstra que as comunidades cristãs passam por um processo de patriarcalização.

2. – O texto da pregação

2.1 – O texto em seu contexto da carta

O texto proposto de Ef 1.3-6 e 15-18 faz parte de duas partes litúrgicas da Carta aos Efésios: o hino litúrgico de 1.3-14 e a oração de ação de graças e intercessão por sabedoria de 1.15-18. O hino louva a Deus por sua obra de salvação, revelação e redenção, evidenciando a graça e o amor filial de Deus através de Jesus Cristo às cristãs e aos cristãos como escolhidos e chamados por ele, e daí a sua vinculação espiritual com Jesus. Aqui há um acento no conhecimento dessa revelação, dada pela luz espiritual, que conduz à sabedoria e à revelação de Deus (1.17-18). O conjunto do texto de Ef 1.15-23 apresenta um eixo de uma visão de Cristo presente e atuante no cosmo (cristologia cósmica), de Cristo como vencedor de todo principado, potestade, poder e domínio e da supremacia de Cristo sobre todas as coisas e como cabeça da igreja, o corpo de Cristo.

2.2 – A esperança que serve de horizonte para o nosso caminhar

Um dos temas de reflexão dessa perícope poderia concentrar-se no tema da esperança. Na formulação do v. 18, menciona-se a esperança da vocação, do chamamento. O texto apresenta enfoques muito interessantes. A vocação é chamado, convocação, e não se restringe ao talento. Chamar, convocar é o significado de kalein, a raiz de ekklesia – chamado, convocação para reunir-se, assembléia, igreja. Portanto, o vínculo com a igreja é interpretado como chamado e vocação. Este chamado acontece a partir da esperança: tendo iluminados os olhos do vosso entendimento, para que saibais qual seja a esperança da sua vocação e quais as riquezas da glória da sua herança nos santos (1.18).

A esperança não está colocada como esperar passivamente pelas coisas e ações, mas como atitude. Esperança como atitude nos torna membros ativos e nos conecta a projetos de esperança. Sobretudo em nosso contexto, marcado por projetos de morte, que geram violência, injustiças, guerras, fome, desemprego, estruturas de educação e saúde precárias, caracterizando a sociedade pela não-esperança, quando não pelo desespero, a igreja é convocada para demonstrar a esperança de seu chamamento. Essa mesma idéia aparece em Ef 4.4, indicando que é a própria esperança que favorece a unidade comunitária: há um só corpo e um só Espírito, como também fostes chamados em uma só esperança da vossa vocação. A unidade da igreja, corpo de Cristo, é construída sobre a unidade da fé, da esperança e do amor (Ef 4.4; 5.15), e estes são o fundamento da atuação cristã, colocando sinais de esperança no mundo.

A afirmação da esperança como marca ou mesmo distinção da comunidade cristã também provoca uma pergunta: no que consiste a esperança cristã? A esperança como atitude destaca a sua dimensão ética, de convocação para a prática da justiça e a libertação de escravidões, o sentido do termo grego de redenção (1.7) , sejam econômicas, espirituais, sociais, pessoais, das relações malcuidadas, de discriminações racistas e sexistas, da condição física e mental, da mídia, de estruturas opressoras. A esperança é o que nos faz caminhar, que nos alenta para superar essas amarras e condicionamentos e nos convoca e vocaciona a abrir horizontes novos e práticas renovadas no plano pessoal, social e comunitário.

3. - Subsídios para uso do texto na celebração comunitária

A pregação desse texto está prevista para o domingo anterior à Epifania – o tempo de aparição, de manifestação, de revelação do significado da intervenção salvadora de Deus na realidade humana. No tempo de Epifania, lembra-se a revelação de Deus em Jesus Cristo, o tempo das luzes, da revelação da sabedoria de Deus ao mundo e do conhecimento dessa revelação. É tempo de observar o curso das estrelas no céu – como os magos – e contemplar luzes em estrebarias na terra. O texto de pregação aponta para o “acontecimento” Deus na realidade humana (em Jesus Cristo), a sua encarnação e a redenção (que literalmente quer dizer libertar-se da escravidão), bem como os textos indicados para leituras.

Versículo de saudação do culto: Falou-lhes, pois, Jesus outra vez, dizendo: Eu sou a luz do mundo; quem me segue não andará em trevas, mas terá a luz da vida (Jo 8.12).

Confissão/unção
Estrela-guia...
D: Poderoso Deus, que enviaste uma estrela para guiar teu povo ao Menino, confessamos que não temos seguido a luz de Tua Palavra.
C: Não temos buscado os sinais de teu amor no mundo ou dado crédito à bondade do evangelho.
D: Temos falhado em não louvar com nossa alma o nascimento de Teu Filho e temos afastado a Sua paz de nossa terra.
C: Perdoa nossos pecados e renova em nós toda boa vontade para transformar nosso mundo em teu reino. Amém. (Paulo Roberto Rodrigues).
Deus amou tanto o mundo...
Deus amou tanto o mundo que enviou seu Filho.
As estrelas do céu falam-nos de seu perdão ao brilhar nas noites escuras de nossas vidas. (Inês de França Bento) – Conforme Rubem Alves (Org.). Culto Arte (p. 66).
– Leituras dos textos indicados
Versículo de aclamação às leituras: Lâmpada para os meus pés é tua palavra e luz, para meu caminho (Sl 119.105).
– O texto de pregação
Pode-se incluir os versículos 7 a 14 na leitura do texto e na reflexão. O eixo da reflexão poderia ser a esperança. Sugiro trabalhar o texto de forma litúrgica, preservando, assim, sua característica original. Iniciar com a leitura do texto de forma bem pausada (a). Depois, repetir a leitura (b), intercalando os versículos indicados com pequenas reflexões (frases reflexivas) e cantos (c). Por fim, fazer uma pequena reflexão sobre a esperança e convidar a comunidade para participar, levantando desafios concretos de esperança e epifania de Jesus no mundo (d). A seguir, uma sugestão de roteiro para concretizar essa proposta:
Roteiro
– Canto: Em ti, ó Deus, nossos olhos esperam.
Em ti, ó Deus, nossos olhos esperam.
a) Leitura completa da perícope de Efésios
b) Leitura intercalada da perícope (com cantos e pequenas reflexões)
– Canto: Caminhamos pela luz de Deus (HPD 2, 463).
– Leitura do v. 3
– Canto: Envia teu Espírito Senhor e renova a face da terra.
Envia teu Espírito Senhor e renova a face da terra.
– Leitura dos v. 4-6
– Canto: Louvemos todos juntos, o nome do Senhor,
Louvemos todas juntas, o nome do Senhor.
– Leitura dos v. 15-16
– Canto: Graças, Senhor! Graças, Senhor! Por tua bondade,
teu poder, teu amor: Graças, Senhor!
– Leitura do v. 17
– Canto: Envia teu Espírito Senhor e renova a face da terra.
– Leitura do v. 18
– Canto: Dá-nos esperança e paz, dá-nos bênção, dá-nos fé,
dá-nos a luz do teu olhar, dá-nos teu amor.
c) Pequena reflexão sobre a esperança e a epifania de Jesus, incluindo a comunidade
– Canto da esperança (HPD 2, 438)
– Sugestão de canto de despedida e envio da comunidade: Vamos agora em paz (HPD 2, 374)

Bibliografia

ALVES, Rubem (Org.). Culto Arte: Celebrando a vida – Advento/Natal/Epifania. Campinas: CEBEP, Petrópolis: Vozes, 1999.
BANKS, Robert. Paul’s idea of community: the early house churches in their cultural setting. 2. ed. rev. Peabody (Massachusetts): Hendrickson Publishers, 1994. 233 p.
COMBLIN, José. Epístola aos Efésios. Petrópolis: Vozes/Imprensa Metodista/Sinodal, 1987. 111 p. (Comentário Bíblico, NT).
FOULKES, Francis. Efésios: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, Mundo Cristão, [198-], 150 p. (Série Cultura Bíblica, 10).
SCHLIER, Heinrich. Carta a los Efésios: comentário. Salamanca: Sígueme, 1991. 415 p. (Biblioteca de Estudios Bíblicos, 71).
WENDLAND, Heinz-Dietrich. Ética do Novo Testamento: uma introdução. 2. ed. São Leopoldo: Sinodal, 1981.

Proclamar Libertação 30
Editora Sinodal e Escola Superior de Teologia
 


Autor(a): Marga Janete Ströher
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Natal
Perfil do Domingo: 2º Domingo após Natal
Testamento: Novo / Livro: Efésios / Capitulo: 1 / Versículo Inicial: 3 / Versículo Final: 6
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 2004 / Volume: 30
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 13191
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