Efésios 4.20-32

Auxílio Homilético

12/10/1980

Prédica: Efésios 4.20-32
Autor: Peter Weigand
Data Litúrgica: 19º. Domingo após Trindade
Data da Pregação: 12/10/1980
Proclamar Libertação - Volume: V


I - Observações exegéticas

Como perícope para este domingo está previsto o texto de Ef 4.22-32. Não consideramos esta delimitação adequada, uma vez que os versículos em questão desenvolvem um pensamento já iniciado em 4.20, que deve ser visto justamente como fundamentação para 4,22ss (cf. Roloff, p.75). Abordaremos o texto, portanto, a partir do v. 20.

O texto em apreço faz a ligação entre a parte doutrinária da epístola (cap. 2-4.19) e a grande parênese, que inicia em 4.20, especialmente em 4.25, e vai até 6.20.

Importante para a compreensão da perícope é a unidade que o autor - provavelmente um discípulo de Paulo - estabelece entre a fé e as suas consequências. Esta unidade é explicada em 4.15-16, onde está dito que a comunidade é o corpo de Cristo, sendo Cristo o cabeça. É com base nesta imagem, ainda melhor elucidada pela dádiva dos dons (4.7-12), que se afirma que o cristão pode tornar-se um homem novo (4.24). Tornar-se novo homem, no entanto, não é uma coisa automática, mas um ato consciente, como bem o demonstra o verbo revestir-se. O pano de fundo desta terminologia é provavelmente o ritual do batismo, ocasião em que o batizando despia suas antigas vestes e revestia-se com novas, costume este também conhecido em rituais místicos do helenismo. Com o batismo, o homem entra nesta nova realidade que consiste na restauração de seu relacionamento com Deus, renovado através de Cristo. Ele passa a fazer parte do corpo de Cristo e livra-se do perigo de ser envolvido por qualquer doutrina herética (4.14); com isso, torna-se possível a unidade dos cristãos. Esta nova existência revestida transforma o homem, alterando o seu estilo de viver. Como o batismo é um ato de criação, ele deve ser repetido sempre de novo, assim como também a criação está em contínuo acontecer. As admoestações de 4.25-32 devem ser entendidas como expressão desta repetição. É no dia a dia que o homem deve se revestir. As normas éticas são relacionadas de modo arbitrário, e não é na escolha em si que devemos ver a sua importância. Elas poderiam provir perfeitamente também do judaísmo. O importante é que o homem novo deve seguir estas regras em favor do outro. Vejamos como isso pode ser demonstrado.

V. 25: Não mentir, mas falar a verdade com o próximo. Vv. 26-27: Não irar-se, não pecar, não dar lugar ao diabo (essas são obras do velho homem - w. 17-19), mas perdoar-se uns aos outros (v. 32). V. 28: Não furtar, mas trabalhar com as próprias mãos em favor dos necessitados. V. 29: Não falar palavras torpes (ou seja, palavras sem sentido, fofocas, bobagens), mas palavras de conforto, de consolo e que sirvam para o outro. Vv. 31-32: Não deixar-se envolver por aquelas coisas que prejudicam o próximo (v.31) mas por aquelas que o favorecem (v.32).

Essas normas não foram arroladas para que, em às cumprindo, o novo homem dê provas de sua novidade. Elas são, isto sim, consequências do novo homem, que é membro do corpo de Cristo (4.25), e que se sabe criado e orientado pelo cabeça deste corpo, que é Cristo.

Esta parênese tira do revestir-se do novo homem - do batismo - qualquer aspecto místico, e coloca a pessoa no meio da realidade em que vive, com uma nova exigência e com uma nova tarefa. E o fundamental, como apontávamos antes, é que aprendemos isto do próprio Cristo (cf. 4.20s).

O que me chama a atenção neste texto é que, embora sendo um ato individual, o batismo não conduz o cristão para uma nova existência individual, que visasse apenas a própria salvação, mas o coloca ao mesmo tempo num contexto social (cf. a imagem do corpo), onde ele deve viver a sua nova existência. Este poderia ser um aspecto chave da pregação.

Resumindo: No ato consciente do batismo - que é nova criação de Deus - o homem recebe uma nova existência, que o conduz a um novo comportamento em relação ao próximo, visando uma vida social diferente, comunitária e sincera. Tudo isso é criação permanente através de Cristo, no qual reside a minha nova realidade e a nova realidade do mundo.

II - Meditação

1. Infelizmente nunca me encontrei numa situação seme¬lhante à dos efésios, porque fui criado num ambiente onde o batismo (e a confirmação) já é parte tradicional da vida da gente. Se passei por eles, isso não foi tanto por um ato consciente, mas antes por um costume tradicional. Nunca experimentei algo parecido com o revestir-se do novo homem, nunca despi conscientemente as roupas velhas - o velho homem. Sinto dificuldades quando desejo experimentar este texto como algo real, que acontece em minha vida, e não sei lidar com a sua radicalidade. Acho que não estou só ao fazer tal constatação.

2. Descubro em nosso meio um desejo profundo de nos tornarmos novos. Sinais não faltam, e sem esforço poderíamos enumerar uma série deles. Cada um de nós tem os seus ideais, e saberia dar o seu palpite de como melhorar o mundo. Sonhamos com grandes revoluções, com grandes mudanças na consciência do povo, com um tempo em que realmente pudéssemos conviver como irmãos. Também as ciências políticas e econômicas estão integradas nesta busca por um mundo novo, procurando promover o desenvolvimento e tentando alcançar um equilíbrio no mercado mundial, que resolvesse satisfatoriamente os nossos problemas econômicos. Sociólogos, psicólogos e pedagogos continuam elabo¬rando teorias e métodos de como tornar a vida humana melhor e mais digna de ser vivida. Como dizíamos, sinais não faltam, e cada um de nós saberia prolongar esta lista indefinidamente.

Por outro lado, olhando para trás e avaliando as tentativas já feitas, uma certa desconfiança passa a tomar conta de nós. Percebemos que a solução de determinado problema trouxe uma série de outros consigo. A exploração das fontes não convencionais de energia nos coloca diante do fantasma do perigo nuclear. A tecnologia avançada está saturando a nossa sociedade com produtos supérfluos e levando-nos a um consumismo desenfreado. A nossa organização social, longe de favorecer a grande massa, está favorecendo a exploração de uns poucos e conduzindo larga camada da população à marginalidade. Ou seja, passamos a desconfiar do novo, porque nossa experiência nos mostra que nem sempre ele nos trouxe os benefícios e as melhorias esperadas. (Talvez essa mesma desconfiança diante do novo também nos Influencie quando ouvimos o presente texto.) É por isso que, ao lado das inovações, uma onda simultânea de nostalgia paira nos ares, onde se mostra um certo saudosismo pelo passado.

3. Flagrante é também o medo de arriscar uma renovação total e radical. Deparamo-nos aqui com uma certa dose de comodismo, mas também com um sentimento muito humano de querer conservar pelo menos aquilo que possuímos e que funciona razoavelmente. Este medo é uma manifestação do velho homem. Buscamos nossa própria segurança, e com isso nos mostramos egoístas.

4. Gostamos de sonhar com grandes inovações, mas consideramos arriscado demais colocá-las em prática. Levando esse modo de pensar às últimas consequências, ele passa a questionar-me. Quem sou eu? Apenas uma pequenina peça na engrenagem Imutável do mundo, ou uma pessoa livre e cheia de fantasia, criatura de Oeus com livre arbítrio para dominar e transformar o mundo?

5. Os vv. 23s me fazem lembrar de como Deus me vê. Para Deus, sou uma criatura que recebeu, através de Cristo a liberdade de revestir-se do novo homem, abandonando o velho homem, o qual vivia uma vida como a que é descrita nos vv. 17-19. Ignorar este aspecto equivaleria a negar a ação salvífica de Deus em Cristo, a trair a minha condição de criatura reconciliada com o Criador e a desprezar os sonhos revolucionários que buscam a igualdade, a fraternidade e a liberdade.

6. Está em jogo, portanto, a minha esperança em Deus e diante do mundo. Minha própria identidade está em jogo. E aqui o texto me fortalece. Sou membro de um corpo - eis a minha identidade - cujo cabeça é Cristo. Nele sou valorizado e conclama¬do a me revestir do novo homem. Sei que Deus quer reconfortar-me através do perdão - perdão que me leva a mudar, a ser radical e revolucionário. Nosso comportamento faz um giro de 180 graus. Quem recebe sua identidade de Cristo, transforma-se e passa a lutar pelos grandes sonhos revolucionários, que buscam suspender a nossa própria destruição e a destruição de nosso mundo.

7. Nosso texto tem uma conotação claramente política. Não me revisto do novo homem, não sou batizado, para que tudo permaneça como está. Não me revisto em meu próprio favor, mas em favor dos outros. Não me transformo para ser visto como gente boa, mas para transformar a situação do outro.

8. O texto também diz claramente onde se pode começar a mudar: em si mesmo - apesar de não devermos entender esta parênese como ética individual. Aqui o texto teria muita coisa a dizer, em relação aos mais diferentes setores de nossa sociedade. Temos que acabar com a mentira na política (que diz agir em favor do povo, mas que em verdade está representando os interesses de uma minoria privilegiada), com a mentira no jornalismo (que conscientemente esconde o que está por detrás dos acontecimentos), com a mentira do modelo econômico (que concentra a renda nas mãos de uns poços à base da exploração barata da mão-de-obra), com a mentira do falso entusiasmo e da falsa confiança em si próprio (que querem resolver todos os problemas por força própria, sem saber-se dependente de Deus e do próximo). Temos que acabar com a corrupção, com a exploração, com a concorrência, com a falsa declaração de impostos. Trabalhar com as próprias mãos (4.27) ganha no Brasil uma conotação toda especial, diante do parasitismo das multinacionais. Penso também no palavrório e nas bobagens da televisão que, ao invés de servir como meio de edificação (v.29), educação e informação, narcotiza a consciência do povo com novelas e enlatados estrangeiros, tornando-o incapaz de se relacionar criticamente com a própria realidade. Temos que pôr a malícia de lado, e tudo aquilo que prejudica o corpo, o próximo e a sociedade; como a poluição, a tecnologia ab-usada e o armamentismo militar. Como dizíamos em relação à enumeração da perícope, também esta nossa lista é arbitrária, e poderia ser perfeitamente ampliada.

9. Talvez não estejamos acentuando suficientemente em nossas comunidades que o nosso batismo tem algo a ver com essas coisas concretas. Ao lado da oferta de Deus, nosso texto salienta a mudança radical que se processa no homem revestido e renovado através do batismo (confirmação), e que o coloca diante de tarefas concretas.

10. Toda esta radicalidade seria gritaria e blasfêmia (4.31) - portanto, manifestações ainda do velho homem - não houvesse um fundamento bem determinado para esta alternativa a ser vivida e experimentada pelo novo homem. A alternativa está fundamentada em Cristo (vv. 20s). Foi ele quem a viveu e no-la ensinou. Através dele podemos renovar o espírito do nosso entendimento (v.23), e viver a realidade de homem novo, criado segundo Deus, em justiça e retidão procedentes da verdade (4.24). A alternativa é enxergar o próximo ao meu lado, em seu favor procurar a verdade, tentar resolver os conflitos antes que o sol se ponha (4.26). O próximo não é mais um objeto do qual eu poderia tirar vantagens (v.28), o próximo é, antes, aquele que necessita da minha ajuda, da minha solidariedade, da minha compaixão e do meu perdão (v. 32). Esta solidariedade se torna possível porque eu próprio experimentei o que Deus está fazendo por nós, através de nosso novo comportamento e de nossa nova identidade, a qual se sente liberta para servir a Deus e ao próximo.

11. É claro que esta “utopia cristã precisa ser garantida por alguém que esteja além da realidade humana. Foi Cristo quem a Iniciou e nós temos que dar continuidade a ela. É nossa tarefa tornar presente o reino de Deus que, mesmo sem ser obra nossa, acontece através de nós e para nós.

12. A espiritualidade dos vv. 20-24 corresponde a concreticidade dos vv. 25-32. Espiritualidade sem ética, sem consequências concretas, nada mais é que misticismo e veneração de um Cristo exaltado; e ética sem espiritualidade, nada mais é que ativismo Ilusório e redução de Cristo a um grande personagem. Ambos os aspectos formam um todo: Cristo como homem solidário e membro principal do corpo (cabeça), e Cristo como o Deus salvador, como o cabeça que dirige e coordena as ações do corpo - um todo do qual esperamos a salvação, que começa já ao nosso redor.

III - Indicações para a prédica

Eu procuraria levar à consciência de nosso povo que aceitar a Cristo significa tornar-se radical. Radical, em vista da identidade que recebo de Deus, e no sentido de transformar esta identidade em comportamento concreto em favor do outro e com o outro. Â base disso, diria que nossa alternativa de vida não é uma utopia, e sim um projeto que pode ser realizado aqui e agora. O texto provoca tantos impulsos e abre tantas perspectivas que não deveria ser difícil encontrar exemplos para a comunidade local. Eu teria especial cuidado em não pregar essa nova ética como lei, mas como oferta, como uma ação libertadora de Deus que me possibilitou revestir-me do novo homem. Deveria ser acentuado que este novo homem não tem a estrutura-padrão de um comportamento a ser seguido; ao contrário, ele recebeu a criatividade da fé e do amor.

Não seria conveniente questionar o batismo em sua prática atual; importa, antes, apontar para o que aconteceu no batismo, com todas as suas consequências - consequências que devem ser exercitadas no convívio com os outros, pois a realidade do batismo só pode ser experimentada na comunidade.

IV - Bibliografia

- BAUER, W. Wörterbuch zum Neuen Testament. 5a. ed. Berlin, 1963.
- BORNKAMM, G. Paulus. 2a. ed. Stuttgart, 1970.
- BORNKAMM, G. Bibel NT. Stuttgart, 1971.
- CONZELMANN, H. Grundriss der Theologie des Neuen Testament. 2a ed. München, 1967.
- CONZELMANN, H. Der Brief an die Epheser. In: Das Neue Testament Deutsch. Vol. 8. 12a. ed. Göttingen, 1970.
- DAECKE, S./SCHARFENBERG, J. Meditação sobre Ef 4.22-32. In: Predigtstudien Vol. 2, Stuttgart, 1974.
- MARXSEN, W. Einleitung in das Neue Testament. 3a ed. Gütersloh, 1964.
- ROLOFF, J. Meditação sobre Ef 4.(20)22-32. In: Calwer Predigthilfen. Vol. 12. Stuttgart, 1973.


Autor(a): Peter Weigand
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Pentecostes
Perfil do Domingo: 20º Domingo após Pentecostes
Testamento: Novo / Livro: Efésios / Capitulo: 4 / Versículo Inicial: 20 / Versículo Final: 32
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1979 / Volume: 5
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 18293
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