Entrevista com o Pr. Nestor Friedrich nos 500 anos da Reforma Protestante

Caminhada ecumênica une fiéis em Santa Cruz do Sul

31/10/2017


Cinco séculos depois de Martinho Lutero publicar na porta da Igreja de Wittenberg (Alemanha) as 95 teses contestando o poder e as ações da Igreja Católica na época, dando assim início à Reforma Luterana, uma caminhada ecumênica marcará o ponto alto da comemoração do jubileu em Santa Cruz do Sul. Luteranos e católicos começam a confraternização às 19h30, na frente da Catedral São João Batista, e seguem depois para uma parada na Praça da Bandeira, com o encerramento na Igreja da Comunidade Evangélica Centro, na Rua Venâncio Aires. A celebração terá a participação de corais e da banda do 7º Batalhão de Infantaria Blindado (7º BIB) e os participantes levarão a Cruz, Bíblia, Círio, bandeirolas e velas.

Herdeiras diretas do movimento de Lutero, a Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB) e a Igreja Luterana do Brasil (IELB) desenvolveram nos últimos meses diversas celebrações e confraternizações para marcar a contagem regressiva para os 500 anos da Reforma. O objetivo foi resgatar o legado deixado por Lutero para cristãos e não cristãos, pois as suas pregações foram muito além da fronteira da religião. As suas palavras e atitudes influenciaram a política, economia, educação, cultura e ética.

Natural de Agudo, o presidente da IECLB, Nestor Friedrich, defende que Lutero redescobriu a mensagem verdadeira da Escritura. O pastor participou durante o ano de número expressivo de comemorações relacionadas ao jubileu, como o lançamento do selo comemorativo pelos Correios, homenagens na Assembleia Legislativa e em câmaras de vereadores, celebrações e encontros ecumênicos e de comunidades que celebram centenário de fundação, por exemplo.

Friedrich explica que os sínodos e as comunidades em geral cuidaram para que as comemorações fossem coerentes com os princípios da Igreja. Graduado e com doutorado em Teologia, Friedrich atuou como pastor nas paróquias de Canguçu/Piratini, Dr. Maurício Cardoso e Nova Hartz. Entre 2003 e 2010 foi secretário-geral da IECLB até assumir a presidência em janeiro de 2011.



Gazeta do Sul – Quais, em seu entender, são as marcas mais salientes que o luteranismo deixa nos dias atuais no contexto da religiosidade em âmbito de Brasil?
Nestor Friedrich
– Martinho Lutero e o seu empenho que resultou na Reforma precisam ser compreendidos a partir da sua Teologia. Enquanto a Igreja da época difundia a imagem de Deus como juiz severo, o que favorecia o comércio de indulgências (a venda do perdão), Lutero redescobriu a mensagem verdadeira da Escritura: o sacrifício de Cristo trouxe (e traz a cada novo dia) o presente (a graça) chamado perdão. O que Deus requer de nós (e este é seu amoroso convite) é que peçamos perdão, nos arrependamos e, em resposta, vivamos como pessoas generosas, solidárias, promotoras da paz e da justiça. A partir dessa redescoberta, Lutero sentiu-se livre, livre de medo e culpa diante de Deus e pronto para mostrar as consequências dessa fé para a vida em sociedade. No caso do Brasil, para falar sobre o contexto no qual a IECLB está inserida, essa característica da Teologia da Reforma ou Teologia Luterana é um elemento que se distingue. Obviamente, não é tarefa fácil proclamar a graça de Deus em meio a uma religiosidade crescente que substitui a graça de Deus por novas formas de indulgência.

Gazeta do Sul – Como a igreja luterana busca conviver ou como avalia o crescente movimento de outras igrejas chamadas evangélicas?
Friedrich
– Por um lado, trata-se de saber conviver. Vivemos num Estado laico. Cada pessoa tem o direito de ter a sua crença e nós respeitamos esse direito.

Gazeta do Sul – O que essa expansão sugere ou o que sinaliza em relação à fé e às crenças no mundo contemporâneo?
Friedrich
– Vivemos hoje em meio a um “mercado religioso”. Esta expressão não precisa apontar, necessariamente, algo negativo. Infelizmente, porém, esse “mercado” aponta que há práticas religiosas questionáveis, se confrontadas com a teologia luterana. Diante disso, o desafio não consiste em criticarmos, mas de afirmarmos, com clareza e voz convidativa, o que nós cremos e professamos.

Gazeta do Sul – Como tem sido a reflexão, dentro da igreja luterana, no que concerne a dogmas ou à busca de uma linguagem sempre atualizada com seu tempo, diante dos avanços havidos na área das comunicações e das novas ferramentas de interação com o público?
Friedrich
– Este é um desafio para cada novo dia. A palavra dogma é um tanto complexa, mas se tomarmos o cerne da teologia luterana como exemplo de dogma, então é cabível apontar que é desafio cotidiano para a Igreja traduzir esse dogma para a linguagem de hoje, a partir dos meios hoje disponíveis, com a difícil tarefa de alcançar o público que é bombardeado constantemente com convites e mensagens de todo teor.

Gazeta do Sul – E a relação da igreja luterana com o espírito científico ou com as descobertas, inclusive as que, por vezes, levam a duvidar de afirmações bíblicas. Como os luteranos, nos dias atuais, buscam se relacionar e se posicionar com esses outros discursos?
Friedrich
– A IECLB tem posição sobre isto. Somos Igreja com mensagem e confissão fundamentadas na Escritura. É com base nisso que a IECLB, ao longo da sua história, tem tomado posição diante dos temas mais diversos e complexos. Isto a Igreja faz em constante diálogo com a ciência. Se Deus criou o ser humano, mulher e homem os criou, então é evidente que o ser humano está dotado de capacidade tremenda para pesquisar e descobrir. Que seria de nós se assim não fosse! Morreríamos diante do mais banal resfriado! Entretanto, é óbvio que a IECLB tem consciência que a ciência ou em nome da ciência há o alto risco de serem ultrapassados limites que, ao invés de promover e defender a vida, a menosprezam, ameaçam e até ferem. Resumindo, somos Igreja que defende o diálogo entre ciência e teologia.

Gazeta do Sul – O que significa a figura humana de Lutero para os luteranos nos dias atuais? Como ele é visto, entendido e compreendido?
Friedrich
– Às vezes, há alguns exageros. Isso ocorre quando se vê Lutero como alguém quase vindo de outro mundo. Temos que receber e compreender a figura de Lutero como ele mesmo se definiu: um ser humano, cheio de falhas e fraquezas, que se colocou a serviço de Deus depois que superou os próprios medos que o afligiam. Sem dúvida, Lutero é exemplo de pessoa que, ao compreender o Evangelho, não o transformou em consumo intimista e reservado, mas passou a atuar e dar testemunho, pois o Evangelho é boa notícia para este mundo. Foi por isso que Lutero se “meteu” e se empenhou em assunto do cotidiano do seu povo: a importância da educação, o dever de quem exerce a função política, a defesa das pessoas mais frágeis, a sua crítica contundente a todas as formas de usura, a motivação para a vida em comunidade, o reconhecimento de cada profissão como meio digno de servir e ser reconhecido.

Gazeta do Sul – Como o luteranismo olha para o futuro? Com apreensão ou com confiança?
Friedrich
– Não podemos afrouxar o nosso empenho diante das dificuldades e dos desafios de hoje, mas olhamos para o futuro confiantes. Com toda a humildade e sem falsa modéstia, entendemos que a Igreja Evangélica de Confissão Lutera no Brasil tem o seu lugar insubstituível neste país. Temos uma tarefa na Missão de Deus neste país. Disso não podemos abrir mão e por isso nos empenhamos. (Por Gazeta do Sul)

Fonte: Gazeta do Sul

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Quando eu sofro, eu não sofro sozinho. Comigo sofrem Cristo e todos os cristãos. Assim, outros carregam a minha carga e a sua força é também a minha força.
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