Estudo 13 - A palavra libertadora na boca do irmão ( CA XI, XII e XXV )

Estudos da Confissão de Augsburgo

16/01/1980

ESTUDO 13
A PALAVRA LIBERTADORA NA BOCA DO IRMÃO
(CA XI, XII e XXV)

Renatus Porath 

Um mendigo quando fica sabendo que em algum lugar se fazem ricas doações e se distribuem dinheiro ou roupas, não precisa ser instigado à força para ir. Correrá o quanto puder, para não perder essa rara oportunidade. Assim Lutero descreve no Catecismo Maior a situação do homem, consciente de seu fracasso e de sua miséria, que com tamanha vontade e alegria correrá em, busca da palavra que o liberte, que o faça ser e agir diferente. 

1. Homem fracassado e miserável: Visão negativa ou realista? 

Houve quem considerasse a visão de homem, proclamada pelo cristianismo, doentia, deprimente e humilhante. Nada de bom e de sublime restava para elogiá-lo. Tudo está encerrado sob a sentença: Todos se extraviaram e juntamente se corromperam: não há quem faça o bem, não há nem um sequer! (Sl 14.3, tb.Rm 3.10ss) 

Será um juízo apressado? ou demasiadamente radical? A Reforma não hesitou em assumir integralmente esta constatação do testemunho bíblico.
Por todos os meios à nossa disposição tentamos fugir a este veredito. Não agüentamos tal julgamento unilateral. Mesmo para dentro das lutas mais nobres — onde, por exemplo, procuramos defender com o índio um espaço de vida para ele, onde nos empenhamos com colegas de trabalho por melhores condições de vida — carregamos conosco esta corrupção e este extravio. Não que eu defenda uma retirada desses campos de luta. Mas facilmente deixamos amarrar nossa realização à vitória ou à derrota dessa luta. Não estamos libertos do resultado de nossa ação. Facilmente derrota e fracasso tomam conta de nós e nos arrasam. Precisamos de uma palavra que nos liberte para uma ação que não fazemos para nossa velada realização e justificação, mas apenas por causa do próximo. Por isso toda nossa ação, não motivada pelo amor, está sob a mesma sentença do Sl 14.3. 

Outros, a olhos vistos, classificamos como corruptos e extraviados. Por exemplo, pessoas que investem todo seu esforço em acumular bens, sem perguntar se isto custará a vida de famílias inteiras. Egoísmo e ganância passam por qualidades de comerciantes espertos. Outros, aparentemente sem remorsos, se tornam gerentes, técnicos e agentes de empresas internacionais, cujo único objetivo é o desvio de lucros escandalosos às custas de uma mão-de-obra barata. Quantos pais de famílias estão só preocupados com o bem-estar seu e de seus dependentes. Vivem acomodados, mantendo-se distantes de qualquer ação conjunta para resolver problemas comuns no local de serviço e de residência. 

Não serão estas manifestações da corrupção e da miséria que nos mantém escravizados? 

Aqui entra o papel da palavra de Deus que, enquanto lei, lança por terra a ambos, tanto os pecadores manifestos, quanto os falsos santos e não deixa que alguém tenha razão. Todos vocês devem mudar e agir diferente. Assim escreve Lutero nos Artigos de Esmalcalda. A palavra de Deus derruba os falsos deuses que adoramos. Ela destroça os falsos fundamentos sobre os quais construímos nossa vida. Ela nos leva à dolorosa conclusão: Nada em mim é prestável! 

2. Arrependimento Radical: A nova e única postura possível 

O batismo produz, principia e impulsiona adiante a nova vida (Lutero, Catecismo Maior cf. estudo 11). Lá nos é proclamada com a água o fim do velho homem corrupto que somos, e nos é dado Cristo com todas as suas obras e o Espírito Santo com todos os seus dons. 

O que queremos tratar aqui é justamente da volta ao batismo, da atualização do que lá nos foi concedido. Lutero recomenda: Se tu não creste (quando batizado), então crê ainda agora e dize: 'O batismo foi correto, eu infelizmente não o recebi corretamente'. (Catecismo Maior) 

Mas quando ocorrer qualquer queda após este início de luta na nova vida, a Confissão de Augsburgo ressalta o arrependimento como volta para o que antes se começara e do qu21 nos afastáramos: 

Ensinamos que aqueles que depois do batismo caíram em pecado, a qualquer hora poderão obter perdão dos pecados, quando chegarem ao arrependimento. (CA XII) 

Sempre de novo é a palavra que nos convence de que, por inteiro, com tudo que somos, pensamos, vivemos dando oportunidade à nossa natureza corrupta, contraditória e incoerente. Não são, portanto, apenas algumas ações nossas que merecem a classificação de 'pecado'. Nesse sentido também, crescer na fé é crescer no reconhecimento da dimensão real desta alienação e, simultaneamente, crescer no reconhecimento da dimensão real da libertação oferecida. 

Com o arrependimento é ferida mortalmente essa dominação e dizemos 'sim' ao juízo que a palavra de Deus faz sobre nossa vida. 

Examine também o texto de Lc 3.8-14 com relação ao 'arrependimento'! 

A Reforma não só assumiu a palavra de Deus como denúncia e juízo sobre o ser humano, mas de igual e bom som falou da libertação radical, da ordem de soltura que esta palavra encerra. 

3. A Palavra Libertadora na boca do irmão 

Sem esta palavra de soltura, de vida nova, morte e inferno (Lutero) estariam criados, tamanho desespero produziria a palavra de Deus enquanto lei apenas. 

Esta palavra libertadora, o Evangelho propriamente dito, é trazida a nós de diferentes maneiras, para que de alguma forma possamos agarrá-la: 1.0 pela palavra oral (pregação); 2.° pelo batismo; 3.° pela santa ceia; 4.0 pela confissão e pelo conversar e consolar mútuo entre irmãos (Lutero, Artigos de Esmalcalda). 

Aqui vamos nos concentrar só na última das quatro formas. 

A respeito da confissão ensinamos que na igreja deva ser conservada a absolvição particular, não permitindo que caia em desuso. (CA XI) 

Com certeza conhecemos a confissão comunitária nos cultos dominicais, onde como comunidade assumimos conjuntamente nossa culpa, nosso pecado, e onde ouvimos publicamente a palavra de absolvição. Aqui, porém, se trata da confissão secreta que ocorre diante de um irmão. Quando não a abolimos completamente de nosso meio, dado a abusos e ao caráter obrigatório na igreja católica, só a reservamos ainda para a conversação pastoral. 

Com a quase ausência da confissão secreta em nossas comunidades, buscam-se confessionários e confessores substitutivos. Quantos não caem na dependência de curandeiros e outros conselheiros espirituais para lá ouvirem receitas e versos prontos a fim de tranquilizarem suas inquietações! Querem se ver livres, não aguentam mais carregar consigo aquela culpa bem concreta. Talvez alguém saiba de algum caso concreto para ilustrar. 

Nas cidades maiores passou a ser status fazer análise. As pessoas caem na dependência de psicanalistas, às custas de altos honorários. Sabe-se também de criminosos que conseguiram escapar das autoridades, após um homicídio. Poderiam viver livres em outro estado ou país vizinho, mas eles voltam e se entregam à justiça com a declaração: Não aguento mais viver com este peso! 

Muitos se arruínam física e psicologicamente, por não terem com quem se abrir e de quem ouvir urna palavra orientadora. 

a) Quem se dispõe a ouvir? 

Quantos companheiros de fé, ativos na luta, anseiam por alguém com quem possam compartilhar suas angústias e de quem pudessem ouvir a palavra que os liberte, que os oriente e lhes assegure a presença de Deus. Estude, sob este aspecto, os seguintes textos: Tg 5.16; 1 Jø 1.9-2.2. A comunidade de Cristo que ouviu esta palavra de perdão, a deve aos outros (Jo 20.22-23). Não é privilégio de um só (pastor), mas de todos. Nada podemos guardar. Tudo o que de Deus recebemos devemos repartir. Tornamo-nos um Cristo para nosso irmão. A confissão quer ser útil lá onde algo de especial nos preocupa ou nos acusa, com que nos debatemos e não chegamos à paz e contra que não nos sentimos suficientemente fortes na fé ,(Lutero, Catecismo Maior). 

b) Deus liberta, absolve por intermédio de um homem

É um homem que empresta sua boca para Deus proferir a palavra que traz Cristo até nós com seu perdão, início de nova vida. 'É o mesmo que disse filho, teus pecados estão perdoados! (Mc 2.5b), que agora usa a boca do irmão.

Deus exige que creiamos nesta absolvição tão firmemente como se a voz do próprio Deus ressoasse dos céus. (CA XXV) 

Leia neste contexto Mt 18.18-20! 

Este perdão não se restringe apenas aos pecados enumerados. Quem poderia recitar a todos? O artigo XXV ainda diz que estamos tão profundamente atolados que não somos capazes de fazer um levantamento total dos pecados ou de fazer grandes distinções. O que não significa que nossa corrupção não assumisse formas bem concretas em ações que esperam por perdão concreto. 

Apesar de falar em nome e em lugar de Deus, aquele que nos ouve não passa de mendigo como nós. Também ele vive da mesma palavra que Deus lhe reparte. 

Não cabe arrependimento ao povo de Deus por ter relegado ao esquecimento a confissão diante de um irmão? Será que não teríamos uma luta motivada pelo amor, quando a ela nos lançarmos na condição de mendigos que tudo esperam de seu Deus? 

4. Perguntas para reflexão e debate em grupo 

a. Que tipos de confissão de pecados vocês conhecem? 

b. Vocês podem citar casos de gente que sofreu por sentimento de culpa? 

c. Vocês conhecem casos em que se buscou alívio para a consciência fora da Comunidade? 

d. Como se poderia ativar o costume da confissão particular ao pastor ou irmão na fé? 

5. Hinos sugeridos 

Nr. 161: Ó Cristo, sol da graça.
Nr. 167: Renova-me, ó eterna luz.

Veja:

Confessando Nossa Fé – Estudos da Confissão de Augsburgo

A Confissão de Augsburgo (sem notas e comentários)
 

 


 


Autor(a): Renatus Porath
Âmbito: IECLB
Título da publicação: Confessando Nossa Fé - Estudos da Confissão de Augsburgo / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1980
Natureza do Texto: Educação
ID: 19798
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