Estudo 17 - Por que santos/ (CA XXI )

Estudos da Confissão de Augsburgo

12/01/1980

ESTUDO 17
POR QUE SANTOS?
(CA XXI)

Silvio Tesche

1. Qual a diferença entre cristãos católicos e evangélicos luteranos? A resposta mais breve e frequente que ouvimos é: Os católicos têm santos, os evangélicos não! Vamos analisá-la por passo, para vermos se confere ou não.

Estudando a obra do Reformador da Igreja universal, Martim Lutero, veremos que todo seu trabalho gira em torno de um ponto: a restauração do 1.° mandamento que trata do senhorio incondicional que Deus, cantado pelos serafins como o Santo, Santo, Santo Senhor do Universo (Is 6.3), possui em relação à sua Criação. E no seu Catecismo Maior explicando o 1º. mandamento, Lutero fala contra aqueles que buscam apoio nos santos, usurpando com isso o lugar que cabe unicamente a Deus: 

A idolatria (...) não consiste unicamente em erigir uma figura qualquer e se prostrar diante dela, mas sim, antes de mais nada, consiste em distrair-se, olhando para o lado, ao invés de olhar para Deus. 

O que a doutrina luterana nega aos santos é, portanto, o papel que a piedade popular lhes quer atribuir, de intercessores e milagreiros. Nisso, ela apenas demonstra e comprova o seu caráter apostólico (cf. Hebreus 4.14-16). Só e exclusivamente em Jesus Cristo, o Grande Advogado, diante do qual se dobre todo joelho dos que estão nos céus, na terra e debaixo da terra (Fp 2.10), temos quem defenda a nossa causa de filhos de Adão. Todo o sacrifício de Cristo terá sido em vão, se em seu lugar outros são invocados ou servem de intercessores. Tanto Diana e Luciana, nas quais se amparavam as mulheres grávidas do mundo pagão, como outros santos em que se apoiam muitos que se acreditam cristãos, não passam de objetos de idolatria (= adoração de ídolos; veja Dt 32.21), frutos de sua imaginação poética. Isso os coloca em total oposição àquele que é o único Santo de Deus: Jesus Cristo (Jo 6.69). E diz Lutero: É como se não confiassem em nada.

Sabemos que a doutrina cristã nega a existência de uma hierarquia diante de Deus: Todos pecaram e carecem da glória do Pai (Rm 3.23). Entre os Apóstolos, dos quais se serviu Jesus Cristo, estavam presentes as mais diferentes fraquezas humanas. Isso mostra que a sua santidade não provinha deles próprios, e sim da sua participação na santidade de Deus, mediante a comunhão no Espírito vivo e ativo. 

Assim que o sentido da expressão comunhão dos santos, no 3º. artigo do Credo Apostólico, tem em vista justamente essa situação: toda a Criação, homens e coisas, servindo a vontade salvadora de Deus, como meios da graça. 

Todavia, a doutrina da Reforma, pela sua origem apostólica, não deixa de confirmar que em todos os séculos houve pessoas que se distinguiram dos demais crentes pelo seu engajamento, nos quais se podia comprovar a realidade da promessa de Deus (Mt 28.20). Assim como o tempo da antiga aliança tinha seus heróis da fé (confira Hebreus 11), também no novo tempo estamos rodeados de uma tão grande nuvem de testemunhas (Hb 12.1). Nessas personalidades vemos refletidos os sinais do novo tempo, suas vidas comprovam em elevado grau a realidade da nova existência trazida e oferecida por Cristo. Por isso, a Confissão de Augsburgo, ao expor aquilo que segundo as Escrituras é o conteúdo da fé cristã, não desprezou aqueles que a piedade popular convencionou de santos e que o Novo Testamento grego chama de martis, mártires ou testemunhas: a eles foi dedicado o Artigo XXI: 

2. Dos santos. Confissão de Augsburgo, artigo XXI: 

Sobre a veneração dos santos ensinamos que se deve guardar a sua memória, pois vendo a maneira com que eles foram atingidos pela graça e como a fé os ajudou, seremos fortalecidos na nossa fé. Da mesma forma, ensinamos que eles devem ser lembrados, para que as suas boas obras nos sirvam de exemplo, cada um dentro da sua vocação: seguindo os governantes a exemplo do Rei Davi, promovendo proteção e segurança entre os seus cidadãos, e assim por diante em cada vocação. Por outro lado, as Escrituras não ensinam que se deve invocar os santos, nem que neles se busque auxílio. 'Se alguém pecar temos um intercessor junto ao Pai: Jesus Cristo' (1 Jo 2.1). 'Porquanto há só um homem e um só Mediador entre Deus e os homens: Jesus Cristo, homem' (1 Tm 2.5). 

3. O Reformadores sabiam do valor e da importância dos santos ou mártires para a vida da Igreja peregrina que busca o Reino do Senhor (hino 159 do hinário da IECLB). Através do seu exemplo e do seu testemunho, torna-se concreto e visível aquilo que é a essência do cristianismo: a fé, a esperança e o amor (I Co 13.13). O seu destemor e a sua fé viva os tornam os maiores defensores da fé cristã, diante do seu exemplo os mais céticos e sarcásticos adversários são neutralizados, e os cansados e tentados recebem novo ânimo. 

Neste tempo de Igreja, caracterizado pela luta contra o pecado e a desagregação, em favor da santificação da Humanidade, a sua presença firme e decidida transforma-os em sinais ardentes do amor divino neste mundo. Por isso, podemos definir os santos ou mártires como homens que através da sua fidelidade e do seu exemplo nos encorajam a perseverarmos no testemunho da fé, da esperança e do amor entre os homens. Por serem justamente cooperadores de Deus (I Co 3.9), é que as suas figuras proeminentes não devem ser esquecidas pela cristandade. Assim como um povo que ignora os seus heróis verdadeiros torna-se uma massa anônima, sem raízes, sem identidade, nem caráter, também uma congregação que se aliena daqueles que no passado tiveram um papel fulminante e destacado torna-se um corpo sem dor, nem forma, nem cheiro. Lembrai-vos dos vossos guias que vos pregaram a palavra de Deus, considerando atentamente a sua maneira de viver, e imitando a fé que tiveram, insiste o livro dos Hebreus (13.7). 

Sim, os mártires da fé devem ser lembrados e seus feitos tornados conhecidos, para que as gerações posteriores consigam restabelecer sua identidade diacônica novamente, pois suas biografias são prédicas vivas que atestam aos homens a presença do Espírito Santo. Uma congregação que redescobre a dignidade que tiveram os seus irmãos mártires, não cairá tão facilmente nas mãos de heróis forjados para enganarem as massas, pois tem diante de si a amostra daquilo que o poder de Deus consegue, usando simples vasos de barro (leia 2 Co 4.7). 

Alimentando-nos nas histórias dos mártires, nos fortaleceremos e sentiremos a comunhão da nossa Mãe Igreja (como Lutero tão simpaticamente a chamava), que caminha pelos séculos e cuja presença, tal como a de Maria, assim pode ser cantada: Desde agora as gerações me chamarão bem-aventurada (Lc 1.48).

4. Sugestões para trabalho: 

a) Estude a vida de um mártir (sugiro como fonte, Pedras Vivas, de Joachim Fischer, Ed. Sinodal; um opúsculo breve e agradável, contendo várias biografias), e discuta: o que este mártir atacaria, se vivesse nos nossos dias? 

b) Aprofunde-se na importância que Maria tem para nós hoje, geração do plástico e da televisão. Consulte para isso um livrinho muito atual e simples que trata com muita profundidade aquilo que os santos querem aumentar em nós. Espiritualidade, de Hermann Brand, Ed. Sinodal. 

c) Debata em grupo como poderíamos em nossas comunidades evangélicas luteranas lembrar melhor os santos, no sentido de CA XXI. 

5. Hinos sugeridos 

Nr. 159: Eu sou um peregrinador.
Nr. 133: Santo! Santo! Santo! Deus onipotente! 

Veja:

Confessando Nossa Fé – Estudos da Confissão de Augsburgo

A Confissão de Augsburgo (sem notas e comentários)
 

 


 


Autor(a): Silvio Tesche
Âmbito: IECLB
Título da publicação: Confessando Nossa Fé - Estudos da Confissão de Augsburgo / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1980
Natureza do Texto: Educação
ID: 19822
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