Estudo sobre a Santa Ceia

Estudo Bíblico

01/10/2008

 Mateus 26.26-28; Marcos 14.22-24; Lucas 22.19-20; João 6.51-69; 1 Coríntios 11.23-26

Como Comunidades Evangélicas de Confissão Luterana no Brasil, temos em comum nestes anos recentes a reflexão conjunta sobre a Santa Ceia com a participação das crianças. Por este fato de que entre nossas comunidades de fé está ocorrendo a participação de crianças na Ceia, nós devemos, aqui na Paróquia Evangélica de Confissão Luterana Martim Lutero, no Oeste Baiano, refletir, dialogar e chegar a um consenso sobre este assunto.

Para compreendermos a proposta que surgiu na IECLB, devemos primeiramente entender o que é a Ceia do Senhor, ou a Santa Ceia, e a partir daí tirar nossas conclusões.

1 - A Santa Ceia é um chamado à fé

Lemos nas Sagradas Escrituras, nos evangelhos e na Primeira Carta aos Coríntios que o próprio Jesus Cristo instituiu a Santa Ceia. Lemos em 1Coríntios 11.23-26:

Pois recebi do Senhor o que também lhes entreguei: Que o Senhor Jesus, na
noite em que foi traído, tomou o pão e, tendo dado graças, partiu-o e disse:
‘Isto é o meu corpo, que é dado em favor de vocês; façam isto em memória de
mim.’ Da mesma forma, depois da ceia ele tomou o cálice e disse: ‘Este cálice
é a nova aliança no meu sangue; façam isso, sempre que o beberem, em
memória de mim.’ Porque, sempre que comerem deste pão e beberem deste
cálice, vocês anunciam a morte do Senhor até que ele venha.”

Portanto, a Ceia do Senhor não é uma invenção humana, mas foi instituída pelo próprio Cristo, não sendo algo opcional para os cristãos. Jesus Cristo mesmo diz: Façam isso! Diferentemente da ceia pascal dos judeus, a Ceia do Senhor não acontece uma vez por ano, e nenhum cristão deveria se dar por satisfeito com isto, mas Jesus Cristo ressalta “sempre que comerem deste pão e beberem deste cálice.” Não se trata somente dos benefícios, mas celebramos a Ceia do Senhor em obediência ao próprio Cristo. E, devido à nossa fragilidade e nossa fraqueza, devemos buscar constantemente a Ceia, assim como devemos buscar constantemente ouvir sua Palavra e confessar nossos pecados. Pois é por meio da Ceia que nós temos acesso às promessas de Jesus Cristo, assim como quando ouvimos e meditamos a sua Palavra e quando recebemos o Batismo.

O próprio Cristo vem até nós por meio do pão e do fruto da videira (algumas comunidades usam o vinho, outras o suco de uva). Nós nos encontramos com Jesus Cristo, o recebemos, temos comunhão com ele na Santa Ceia. E em resposta à sua presença salvadora, oramos, louvamos e obedecemos a sua palavra.

Por isso, devemos receber a Ceia como quem recebe o próprio Cristo, pois ele prometeu estar no pão e no fruto da videira, e o recebemos em fé. Isto pode parecer impossível, pois vemos somente pão e suco ou vinho, e sua presença real não é provada cientificamente, pois, se mandarmos fazer análise em laboratório, veremos se tratar de pão e de suco ou vinho. Mas isto se dá da mesma maneira como quando Jesus estava entre nós antes da sua morte e ressurreição. Se fosse feito um exame moderno em Jesus Cristo, teríamos o resultado de sua real humanidade. Entretanto, ele era tão humano quanto era o próprio Deus. O Cristo encarnado tinha pele, sangue, ossos e carne. Mesmo assim, Ele é Deus e exigiu fé daqueles que se encontravam com Ele. Deus se fez carne (João 1.14) e o fez se esvaziando a si mesmo, limitando-se ao estado humano (Filipenses 2.5-8). E tanto o Deus feito carne como a Ceia geram escândalo aos descrentes, mas geram alegria e fé aos que o buscam (João 6.51-69, e ressaltamos a confissão de Pedro diante do que Jesus Cristo perguntou aos discípulos).

Deus vem e se relaciona conosco e exige fé, confiança na sua palavra. Por isso, cremos que na Santa Ceia nos encontramos com Jesus Cristo, o sentimos e temos comunhão com ele, ou seja, no pão e no suco ou vinho temos verdadeiramente o corpo e o sangue de nosso Senhor Jesus Cristo.

2 - O que recebemos na Santa Ceia?

Na Santa ceia recebemos o perdão dos pecados. Jesus Cristo diz: “que é dado em favor de vocês”. E, ainda mais, no Evangelho segundo Mateus 26.28, Jesus afirma: “para o perdão de pecados”. Portanto, podemos buscar na Santa Ceia o perdão dos pecados, vida e salvação; pois onde há perdão dos pecados há vida e salvação.

E, diante de nossa fragilidade e fraqueza na fé, Jesus Cristo se entrega na Ceia sob o pão e o suco ou vinho, para termos comunhão com Ele e uns com os outros. O apóstolo Paulo afirma em 1Coríntios 10.16-17: “Não é verdade que o cálice da benção que abençoamos é uma participação no sangue de Cristo, e que o pão que partimos é uma participação no corpo de Cristo? Como há somente um pão, nós, que somos muitos, somos um só corpo, pois todos participamos de um único pão.” Portanto, a Ceia do Senhor promove a comunhão entre todos os cristãos por meio da comunhão que temos com o próprio Jesus Cristo.

Desta forma, também, a Ceia promove a edificação da fé. Pois é em confiança nas palavras do próprio Jesus Cristo que buscamos a Ceia. E quanto mais nós participamos, mais somos animados a permanecer firmes nas palavras de Jesus. E realmente a Ceia só pode ser recebida em fé. Martim Lutero afirmou: “E como oferece e promete perdão dos pecados, não pode ser recebido de outra maneira senão pela fé. Essa fé exige-a Ele mesmo (Jesus Cristo) na palavra, ao dizer “Dado em favor de vocês e derramado em favor de vocês.”1 Portanto, é digno de receber a Ceia aquele que busca na Ceia o próprio Cristo, ou seja, crê nas suas promessas e palavras. Buscamos, portanto, em Jesus Cristo a mudança de vida que ele promete e não queremos mais viver em nosso pecado e impiedade, mas queremos e vivemos em Cristo e em sua justiça. Assim, vivemos em obediência de fé ao nosso Senhor.

Entretanto, aqueles que aos seus próprios olhos se acham sem pecados, que não crêem em Jesus Cristo nem no perdão de seus pecados, os que vivem uma vida leviana quanto às promessas divinas e também não se importam com o juízo de Deus, que vivem manifestamente em pecado e até incentivam os outros a viver em pecados, estes não devem buscar a Ceia do Senhor. Mas se buscarem, buscam sobre si todo juízo e condenação por tomarem indevidamente o corpo e sangue de Jesus Cristo. E não só juízo no dia final, mas até males antes da volta de Cristo, como afirma o apóstolo Paulo em 1 Coríntios 11.30.

3 . Crianças podem participar da Santa Ceia?

Historicamente, somente no século 12 as crianças foram excluídas da Santa Ceia. Entre os motivos alegados na época, um era do medo de as crianças deixarem cair o corpo ou o sangue de Cristo no chão. O passo seguinte deste argumento foi o de tirar o cálice dos adultos; somente o oficiante tinha acesso ao cálice. Esta é uma prática que temos na Igreja Católica Romana até hoje.

Outro fator de exclusão das crianças da Santa Ceia é o texto de 1 Coríntios 11.27-29, onde o apóstolo Paulo trata da falta de discernimento no tomar a Santa Ceia. E a IECLB, até pouco tempo, ainda tirava deste texto a conclusão de que crianças não deveriam participar da Ceia por não terem discernimento sobre a Ceia e sobre si mesmas, mesmo que o texto não fale da exclusão de crianças, mas da impiedade e falta de comunhão entre os participantes da comunidade de Corinto, como vemos em 1 Coríntios 11.17-22.

A partir de tudo o que escrevo até aqui, tiro as seguintes conclusões e faço alguns questionamentos para refletirmos.

O fato de nossas crianças não terem discernimento sobre a Santa Ceia não está no fato de não ensinarmos a elas, desde pequenas, o que é a Santa Ceia? Tenho constatado que os pais estão deixando de lado a sua obrigação de ensinar seus filhos e filhas também no que diz respeito à fé em Jesus Cristo. Deixam o ensino para outros, como, por exemplo, para a pessoa que atua no ensino confirmatório. Esquecemos que as crianças, assim como os adultos, são cristãos em construção, e que de fato o aprendizado passa pela experiência. Sendo nossos filhos e filhas parte da comunidade, elas são chamadas a participar na Santa Ceia e, junto com toda a comunidade, aprender o que recebemos e quem recebemos na Santa Ceia. As crianças têm, sim, a capacidade de entender o que é receber perdão e desde cedo devem aprender quem é Jesus Cristo e como nós devemos confiar em suas promessas. Entretanto, pais que não ensinam o que é a Santa Ceia aos filhos não deveriam trazê-las para a comunhão.

Lemos anteriormente que recebemos a Santa Ceia em fé. Nossas crianças não teriam mais facilidade em crer do que nós, que criamos tantas dúvidas e nos achamos tão espertos e sabidos? As crianças têm os seus pensamentos muito mais concretos do que nós. Muitas vezes, usamos isso para inventar historinhas e nos divertimos vendo o quanto elas levam a sério o que dizemos. Entretanto, achamos que elas não são capazes de crer no fato de que Jesus Cristo vem até nós de forma concreta e verdadeira na Santa Ceia.

Sabemos também que a Santa Ceia é oferecida a toda a Igreja de Jesus Cristo. As crianças não fazem parte da Igreja de Jesus Cristo? Nosso esforço, como comunidade de fé, em cativar, ensinar e instruir nossas crianças está fundamentado no fato de que as crianças também fazem parte da comunidade de fé e que não queremos deixá-las de fora da graça e do amor de Jesus Cristo. Fazendo parte da comunidade, elas podem participar também da Santa Ceia. E vale ressaltar que as crianças também são pecadoras e carecem do perdão de Deus (Gênesis 3; Romanos 3.22-23). Como fica claro nos textos, não existe um estado neutro entre ser pecador e ser salvo por meio da fé em Jesus Cristo. Só é salvo aquele que recebe e crê em Jesus Cristo. Por isso, a Santa Ceia reforça o aprendizado na fé em Jesus Cristo para a salvação e também oferece o perdão às crianças.

Ainda temos os textos clássicos de Mateus 18.3 e Marcos 10.14-15, que expressam o acolhimento de Jesus Cristo frente à sua pessoa e obra. Não podemos negligenciar as palavras de Jesus que diz: “Em verdade vos digo: Quem não receber o Reino de Deus como uma criança, de maneira nenhuma entrará nele”. Ou ainda mais: “Deixem vir a mim as crianças, não as impeçam; pois o Reino de Deus pertence aos que são semelhantes a elas”.

Concluindo:

Os pais, como responsáveis, diante do que até aqui foi exposto, devem decidir sobre a participação de seus filhos na Santa Ceia ou não. Entretanto, não podem deixar de ensinar o que recebemos e quem recebemos na Santa Ceia. É tarefa da comunidade acolher nossos pequenos membros de forma que façam realmente parte da comunidade. Sabemos que precisamos ter critérios para a participação das crianças na Santa Ceia, mas não podemos impedi-las de receber o próprio Cristo em suas vidas. Assim, vamos educar e motivar nossas crianças a seguir a fé em Jesus Cristo.

Que nosso Senhor Jesus Cristo nos ajude na tarefa de educar e de ser bons exemplos às nossas crianças. Que em nossas comunidades elas se sintam acolhidas e amadas.

1 Martim LUTERO, Catecismo Maior, in: Livro de Concórdia, p. 489.


Autor(a): Murilo Jung
Âmbito: IECLB
Título da publicação: Crianças na Ceia do Senhor / Ano: 2008
Natureza do Texto: Educação
Perfil do Texto: Estudo Bíblico
ID: 14041
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Ainda não somos o que devemos ser, mas em tal seremos transformados. Nem tudo já aconteceu e nem tudo já foi feito, mas está em andamento. A vida cristã não é o fim, mas o caminho. Ainda nem tudo está luzindo e brilhando, mas tudo está melhorando.
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