Ezequiel 17.22-24

Auxílio Homilético

14/06/2009

Prédica: Ezequiel 17.22-24
 Leituras:Marcos 4.26-34 e 2 Coríntios 5.6-10 ( 11-13), 14-17
 Autor: Gottfried Brakemeier
 Data Litúrgica: 2º. Domingo após Pentecostes
 Data da Pregação: 14/06/2009
 Proclamar Libertação - Volume: XXXIII

1. Informações exegéticas

O texto reporta-se a um período extremamente trágico na história do antigo Israel. Os babilônios haviam invadido o reino de Judá depois de esse ter se rebelado contra o jugo da vassalagem. Diante da esmagadora superioridade dos exércitos estrangeiros, a capital Jerusalém se rendeu. O rei Joaquim e sua corte, juntamente com uma significativa parcela da elite intelectual, foram deportados. Inicia o cativeiro babilônico. Isso em 597 a.C. Por en- quanto, o rei Nabucodonosor não liquida o estado de Judá. Impõe-lhe pesada carga tributária e renova sua condição de vassalo. Zedequias é constituído rei subalterno. Mas, em vez de conformar-se com sua sorte, esse rei trama alianças com os egípcios na esperança de se livrar da dependência. Ele rompe o contrato que lhe havia sido imposto pelos babilônios, insurgindo-se contra a tirania. A reação não iria tardar. Novamente Nabucodonosor manda suas tropas, que agora chegam para aniquilar. Depois de longo cerco, Jerusalém é conquistada, destruída, arrasada. O templo é incendiado, Zedequias é capturado e cegado, nova deportação acontece. É a catástrofe do ano de 587 a.C., que deixa a terra de Israel terrivelmente devastada.

Nesse cenário situa-se a mensagem do profeta Ezequiel, registrada no capítulo 17 de seu livro. Compara o rei da Babilônia a uma gigantesca águia (v. 1-10), que arranca a ponta de um cedro no Líbano e transplanta-a para uma “terra de negociantes”. É uma referência à deportação do rei Joaquim e seu grupo à terra dos rios Eufrates e Tigre. Na própria terra de Israel, porém, ele planta uma parreira baixa com boas condições de crescimento. É uma alusão a Zedequias e seu reinado. No entanto, vem uma segunda águia; também ela enorme, na qual se deve reconhecer o faraó do Egito. E a parreira estende suas raízes e seus galhos a ela, provocando a pergunta: “Será que a primeira águia não vai arrancá-la pelas raízes?” (17.9). Trata-se de uma alegoria que tem a finalidade de denunciar o jogo não só estúpido como imoral de Zedequias. Ele faltou com sua palavra e quebrou o tratado que assinou. Essa interpretação é dada nos v. 11-21 aos acontecimentos. A ruína desse rei, pois, é castigo justo de Deus (v. 19s).

Segue, nos v. 22-24, uma nova unidade, que é o texto para a pregação. À catástrofe o profeta contrapõe uma promessa. Não outra águia, e sim Deus mesmo vai entrar em ação. Vai tirar a ponta de um cedro alto e plantar o broto no monte mais elevado de Israel. O broto vai crescer e transformar-se em uma árvore grande, sob cuja sombra pássaros de todos os tipos acharão abrigo. Todas as demais árvores dos campos vão reconhecer nisso a obra de Deus, que derruba as árvores altas e faz crescer as pequenas. O profeta, pois, anuncia a reconstituição do reinado em Israel. Indiretamente, dá a entender que um descendente de Joaquim, da casa de Davi, será empossado soberano em Israel, a quem os povos pagãos, os “pássaros”, tributarão reverência. Deus é capaz de converter derrotas em vitórias, de fazer com que árvores secas fiquem verdes de novo. Portanto, após o juízo, Deus trará salvação a seu povo.

2. Refexões teológicas

A profecia de Ezequiel não se cumpriu. A casa de Davi jamais se recu- perou do golpe sofrido em 587 a.C. O posterior reinado dos hasmoneus e dos herodianos era de outra natureza e sempre amargou a falta de legitimidade junto ao povo. Mas a esperança pelo “filho de Davi”, que iria restaurar o reino em Israel e libertar da opressão estrangeira, não se apagou. Continuou viva através dos séculos. No tempo do Novo Testamento, atingiu particular intensidade na forma da expectativa messiânica. As promessas dos profetas pareciam cumprir-se em breve e restabelecer a independência política de Israel. Como se sabe, não foi o que aconteceu. No ano 70 d.C., mais outra catástrofe sobreveio a Jerusalém. O exército romano aniquilou de vez os anseios por justiça e liberdade.

Perspectiva diferente abre-se a partir da fé cristã. Se Jesus é o “filho de Davi” (Mt 1.1 etc.), a promessa de Ezequiel adquire outro feitio. Ela se cumpre sim, mas de modo inesperado. Deus planta seu reino em Israel e entre os “pagãos” por palavra, ação e pela pessoa de Jesus Cristo. Despreza a força militar. Antes transforma o mundo por seu amor e seu Espírito. Isso significa que a comunidade cristã dá uma interpretação cristológica à profecia de Ezequiel. Julga ter o direito a tanto a partir de Jesus de Nazaré. Sob tal ótica, torna-se flagrante também a estreita conexão que há entre a promessa de Ezequiel e o texto de Marcos, previsto como leitura paralela. Enquanto é difícil descobrir uma correlação temática com 2 Coríntios 5, as duas parábolas de Jesus, transmitidas em Marcos 4.26-34, são altamente significativas. O semeador é o próprio Jesus. Ainda que a semente por ele lançada seja pequena como um grão de mostarda, ela vai crescer e tornar-se grande, assim que os passarinhos possam fazer ninhos em seus galhos. Deus planta o seu reino.

Ele faz isso em situações catastróficas. Acumulam-se justamente no século XXI as notícias de desastres, chacinas, crimes hediondos, terror. As condições de outrora e de hoje parecem assemelhar-se. Não temos como explicar os tsunamis, os terremotos, os ciclones, e muito menos o cinismo desumano de determinados governos, de bandos paramilitares, de quadrilhas mafiosas. Culpa humana mistura-se aos caprichos da natureza. Torna-se cada vez mais alto o grito por salvação. E aí Deus planta o seu reino. Não o faz com força e poder. Seu messias, o filho de Davi, não dispõe de batalhões de soldados nem de armas de destruição em massa, nem mesmo de capital de investimento. Ele vem humilde como broto de um cedro, como grão de mostarda e, no entanto, com o poder de transformar mentalidades, consertar o que quebrou, curar as feridas. Jesus, ele mesmo, mostra do que o reinar de Deus é capaz. Poderoso mesmo é quem sabe construir. Destruir é fácil.

3.  Pistas para a prédica

Nada melhor para entusiasmar as massas do que um desfile militar. Sugere força e serve para intimidar possíveis agressores. A mesma lógica se esconde atrás do esforço para desenvolver bombas atômicas. Armas parecem garantir paz e segurança. Nem mesmo o cidadão comum quer largar o revólver. Alega precisar dele para a autodefesa. Ora, Deus não pensa assim. Por isso cumpre a profecia de Ezequiel de outra forma do que se imaginava. Em vez de reentronizar em Israel um guerreiro, envia Jesus. Esse parece ser em tudo o contrário de um salvador. É fraco, humilde, morre na cruz. Mas justamente assim ele cura, reconcilia, cria comunhão.

A prédica deveria iniciar, assim nos parece, com um rápido informe sobre a situação na qual Ezequiel proferiu suas palavras. A intenção do profeta é animar um povo duramente castigado. Em nome de Deus promete-lhe um novo início. Mas esse reinício seria diferente daquele com o qual muitos sonhavam. Quem aposta na força bruta vai ficar frustrado. Conforme o profeta Zacarias (4.6), a transformação acontecerá “não por força nem por poder, mas pelo meu Espírito, diz o Senhor dos Exércitos”. É o que se enxerga em Jesus. Sua “arma” é o amor. Ele quer transformar mentalidades, não liquidar seus inimigos. Quer arrancar o ódio das pessoas e capacitá-las para a aceitação mútua, a amizade.

Foi esse o erro do “combate ao terror” proclamado em conseqüência dos atentados de 11 de setembro de 2001 em Nova Iorque. O combate travou-se quase que exclusivamente na forma de contraterror. Também no Brasil essa é a opinião dominante. Como deve ser combatida a criminalidade? Ora, com mais polícia e repressão. Deus mostra-nos um outro caminho. É preciso atacar as raízes dos males. São as mentes que criam a violência, são experiências traumatizantes que produzem as anormalidades, são condições desumanas que geram o crime, é o ódio do qual nasce o assassinato. Eis uma das grandes tarefas da comunidade cristã: apontar para a origem dos males e iniciar com a terapia exatamente aí. Não precisamos dos exemplos da grande política internacional para perceber a relevância da educação para a paz, para a aprendizagem do amor, para o respeito à vida. O que deve ser feito para reintegrar os menores infratores na sociedade? Eis apenas uma das muitas perguntas decisivas para o futuro do país.

É claro que o amor não vai poder dispensar as armas. Sempre haverá criminosos, cuja ação precisa ser barrada à força. Mas a arma deverá ser o último recurso a ser empregado quando os demais não surtiram efeito. Infelizmente, a prática é outra. Em tal situação, a profecia de Ezequiel e seu cumprimento na pessoa de Jesus são instrutivos. Mostram a “guinada” salutar que Deus dá às expectativas humanas. “Eles queriam um grande rei...” Mas quem veio foi alguém que acabou na cruz. Essa cruz é a tragédia humana por exce- lência. Por que deverá ser eliminado alguém que cobra amor e misericórdia das pessoas? A comunidade cristã herdou seu mandato. Ela não tem a chave para explicar as tragédias que fazem as pessoas sofrerem. Mas uma coisa ela sabe: o amor, a solidariedade e a “filantropia” aliviam as dores e, em muitos casos, até mesmo as evitam. Então vamos nos empenhar na tarefa de lançar essa semente na terra, esperando que ela, apesar da pequenez, cresça e de- senvolva galhos, nos quais os pássaros conseguem fazer seus ninhos.

4. Subsídios litúrgicos

Confissão dos pecados:
Senhor, nosso Deus! Perante ti não adianta mentir. Tu nos conheces e sabes que temos faltado com nossas obrigações. Nós nos irritamos quando deveríamos ter mostrado paciência. Nós temos permanecido indiferentes quando teria sido necessária nossa ajuda. Nós condenamos quando deveríamos ter sido compreensivos. Nós reclamamos quando deveríamos ter sido gratos. Pecamos não só por nossos atos. Pecamos também por nossas omissões. Trazemos diante ti, pois, nossa culpa e pedimos por perdão e força para corrigir o que está errado em nós. Sê misericordioso conosco, assim como também queremos ser misericordiosos com nossos semelhantes. Tem piedade de nós!

Oração do dia:
Deus, é um privilégio poder dirigir-nos a ti. Tu és parceiro, pai e mãe, proteção e esperança em nossa vida. Nós te agradecemos por nos acolheres como teus filhos e tuas filhas. Por isso já não somos órfãos neste mundo, mesmo que às vezes nos sintamos sós e abandonados. Não obstante, seguras a nossa mão e nos diriges a palavra, assim como também neste culto. Tu tens promessa para nós, ainda que o futuro nos seja desconhecido. Nem mesmo capitulas diante da morte. Por isso podemos ter bom ânimo, sabendo que teu reino vencerá os reinos da desgraça. Dá-nos forças para vencer os desafios da semana que está à nossa frente e para espalhar bênçãos por onde andarmos. Por tua graça queiras concedê-lo. Amém!

Intercessão:
Senhor, diariamente somos informados sobre horrores que acontecem em nosso mundo, perto e longe de nós. Corremos o risco de tornar-nos apá- ticos frente ao sofrimento alheio. Protege-nos contra esse perigo, contra o qual a intercessão é um poderoso meio. Nós nos lembramos das vítimas de violência e desgraça, nós nos solidarizamos com elas e as recomendamos a teus cuidados. Socorre os necessitados, sensibiliza as consciências para a dor dos vizinhos e mobiliza a ajuda de uns aos outros. Consola as pessoas que sofreram perdas ou injustiça, dá ânimo aos ameaçados de resignação, dá força para vencer a quem enfrenta dificuldades. Não menos, porém, pedimos por um novo espírito em nossa sociedade. Acontecem loucuras demais. Já não mais contam a honestidade e o trabalho. Mais rentáveis são a especulação e o desvio das verbas públicas. É preciso ser vivo para subir na vida. Tudo se transformou em mercadoria que se negocia, inclusive a vida humana. Senhor, muda essa desgraçada mentalidade para recuperarmos a paz e boas perspectivas de futuro. Nós te rogamos, não por último, por tua igreja. Protege-a de se tornar conivente com o que promete êxito e lucro às custas da fidelidade ao evangelho. Senhor, ouve nosso clamor, atende a nossa prece. Amém!


Bibliografia

POHLMANN, Karl-Friedrich. Das Buch des Propheten Hesekiel. Kapitel 1-19. In: Das Alte Testament Deutsch, v. 22/1. Göttingen, 1996.

ZIMMERLI, Walter. Ezechiel. In: Biblischer Kommentar: Altes Testament, v. XIII/1. Neukirchen-Vluyn: Neukirchner Verlag, 1969.


Autor(a): Gottfried Brakemeier
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Pentecostes
Perfil do Domingo: 2º Domingo após Pentecostes
Testamento: Antigo / Livro: Ezequiel / Capitulo: 17 / Versículo Inicial: 22 / Versículo Final: 24
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 2008 / Volume: 33
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 20093
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