Filipenses 1.3-11

Auxílio Homilético

26/10/1986

Prédica: Filipenses 1.3-11
Autor: Breno Dietrich
Data Litúrgica: 22º.Domingo após Trindade
Data da Pregação: 26/10/1986
Proclamar Libertação - Volume: XI


I — Introdução

A comunidade de Filipos foi fundada por Paulo no ano 51 d.C. A obra que Deus começou em Filipos, por intermédio de Paulo, frutificou. Nove anos mais tarde Paulo se encontra na prisão em Roma(57-59 d.C.). A comunidade de Filipos envia Epafrodito a Roma por dois motivos: fazer companhia a Paulo e levar-lhe ajuda material. Em Roma, porém, Epafrodito adoece; depois de recuperado, Paulo manda com ele a carta aos filipenses. (Outros pesquisadores admitem a possibilidade que Paulo tenha escrito aos filipenses enquanto esteve na prisão em Éfeso sob o Procurador Félix 54-56 d.C. cf. At 23.23ss).

Filipenses é o escrito mais pessoal do apóstolo, cheio de afeto e compreensão humana. É um escrito simples, porém de grande profundidade teológica. O amor permeia toda a epístola.

A data e o local da prisão não são essenciais para o conteúdo da carta mas sim o fato de Paulo estar na prisão e que, mesmo assim, a obra iniciada não sofre, não pára. Deste modo 1.18 estaria dando o tema que norteia toda a carta: Todavia, que importa? Uma vez que Cristo, de qualquer modo, está sendo pregado, quer por pretexto, quer por verdade, também com isto me regozijo, sim, sempre me regozijarei.

Filipos era a comunidade mais fiel do NT e ela começou a sustentar o apóstolo associando-se a ele na obra missionária, apoiando-o também materialmente.

II — Texto — Estrutura

Vv. 3-6: Ação de graças

V. 3: Dou graças ao meu Deus por tudo que recordo de vós,

V. 4: fazendo sempre, com alegria, súplicas por todos vós, em todas as minhas orações,

V. 5: pela vossa cooperação no evangelho, desde o primeiro dia até agora.

V. 6: Estou plenamente certo de que aquele que começou n boa obra em vós há de completá-la até o dia de Cristo Jesus.

Ao pensar nos filipenses Paulo sente gozo, alegria e se sento motivado a orar, a dar graças a Deus. Há entre Paulo e a comunidade uma estreita relação; o sentimento fraterno é mútuo. A comunidade se preocupa pelo apóstolo em seu todo: com sua missão de apóstolo e com suas necessidades materiais. A obra iniciada em Filipos, mesmo com o afastamento involuntário do apóstolo, continua dando seus frutos; a mensagem do Evangelho continua sendo pregada e a comunidade vai ao encontro do apóstolo levando sua ajuda material como sendo algo natural, como sendo parte de sua fé. O agradecimento não se dirige de forma direta a comunidade mas sim a Deus; o engrandecimento de Paulo reside na bondade de Deus que se concretizou/encarnou no bom relacionamento de Paulo com a comunidade. A estreita relação com a comunidade é motivo, é estímulo para que Paulo agradeça a Deus em todas suas orações.

A oração de Paulo engloba toda a comunidade, não só os membros fiéis e piedosos mas também os que estão à margem, os que dão preocupação e os que sofrem tentação: súplicas por todos vós. Estando na prisão, o apóstolo não consegue ter uma visão completa da comunidade; além disso ele não conhece a todos e não simpatiza com todos (1.15,17). Por isso a razão da sua oração não é a comunidade mas a bondade de Deus. Por causa da bondade de Deus, Paulo ora com alegria; trata-se, pois, de uma alegria em Deus (SI 43,4; 73.28; Fp 4.4).

Naquele tempo Deus agiu em sua bondade, através do Evangelho, para que Filipos viesse a ser comunidade. Deus, portanto, através do Evangelho, chamou, criou, formou, consolidou, uniu a comunidade, fazendo dela uma unidade, um todo. Paulo, por ser portador do Evangelho, foi, portanto, igualmente unido à comunidade. O aspecto concreto pelo qual Paulo ora, em relação à comunidade, é a cooperação/-participação/comunhão da comunidade no Evangelho (v. 5). O evangelho é, pois, o centro, o que determina o falar e o agir da comunidade.

A participação (koinonía) e a unidade no Evangelho aconteceram já no primeiro dia e perduraram. Esta é a base da confiança de Paulo. Aquele que havia começado a boa obra, a continuaria e a levaria ato o fim. Deus, através do Evangelho, havia inaugurado nos filipenses a sua obra. Eles estavam em Cristo. A sua confiança não está ancorada na comunidade e seus membros, mas na bondade/fidelidade de Deus; é Deus quem lhe dá força e expressão ao seu trabalho. O agradecimento, as súplicas, a alegria e a convicção de Paulo têm suas raízes na fidelidade de Deus. Para Paulo a comunidade toda é um processo dinâmico, ela está a caminho, em direção à plenitude (Jesus) quando se completará a obra iniciada. Deus nos manterá crendo até a fase final (v.6).

VV. 7-8: Sentimentos para com a comunidade

V. 7: Aliás, é justo que eu assim pense de todos vós, porque vos trago no coração, seja nas minhas algemas, seja na defesa e confirmação do evangelho, pois todos sois participantes da graça comigo.

V. 8: Pois minha testemunha é Deus, da saudade que tenho de todos vós, na terna misericórdia de Cristo Jesus.

Aqui o apóstolo chama a Deus por testemunha para dar seriedade aos seus sentimentos para com a comunidade. Paulo crê que este seu sentimento/saudade é fruto da obra/bondade/fidelidade de Deus; por isso ele chama a Deus por testemunha.

Aqui se faz notório o aspecto humano. Paulo, porém, não fundamenta seus sentimentos a partir do lado humano, mas busca sua razão fora da comunidade, fora da sua pessoa como apóstolo. A razão da sua saudade, do seu amor está na graça que se manifestou a ele e a toda a comunidade. Por isso Paulo pode dizer que a comunidade é co-participante nessa graça. Esta graça fica mais clara ainda pelo seguinte: Paulo, estando na prisão, sofre. A ele foi dada a graça de sofrer por Cristo. O apóstolo, pela graça, é incentivado a defender e a fortalecer o Evangelho. A comunidade recebeu a graça de continuar divulgando o Evangelho em palavra e ação, apesar da ausência e situação do apóstolo.

Assim como Paulo pode confiar na graça, a comunidade o pode também. Os filipenses são, portanto, partícipes de toda a situação e através de ambos o evangelho progredirá. O cristão é aquele que ouve e faz a vontade de Deus (Tg 2.17; 1 Jo 2.3-4). O amor e a responsabilidade mútua são resultantes de uma existência comum em Cristo. A missão e o mistério de Paulo não estão limitados pelo seu contexto.

VV. 9-11: Intercessão

V. 9: E também faço esta oração: que o vosso amor aumente mais e mais em pleno conhecimento e toda a percepção,

V. 10: para aprovardes as cousas excelentes e serdes sinceros e inculpáveis para o dia de Cristo,

V. 11: cheios de fruto de justiça, o qual é mediante Jesus Cristo, para a glória e louvor de Deus.

Esta intercessão é uma conclusão lógica e necessária. Esta intercessão pressupõe a comunhão entre Paulo e a comunidade. Apesar da obra de Deus acontecer por si mesma, a oração não é supérflua, pois na oração Paulo agradece pela obra de Deus. Aquele que está a caminho, a caminho da meta, ora. Paulo pede que a comunidade cresça no amor e transborde; o amor é provocado pelo evangelho. O amor deve transbordar em toda sorte de conhecimento e experiências relacionadas com o evangelho. A comunidade deve ser cheia de frutos de justiça que crescem para a glória de Deus.

Mesmo que o apóstolo se encontre em situação difícil, a comunidade não deve desanimar, pois não depende do apóstolo e sim do Deus mesmo que levará sua obra à plenitude. Deste modo é necessário agradecer e pedir, pois no fim está a glória e o louvor de Deus.

IV — Meditação

O Evangelho é uma grandeza cuja realização não depende diretamente do homem. Deus mesmo dá começo a sua obra e cuida para que ela seja concluída. Mas Deus, para realizar sua obra, usa homens; não super-homens, mas homens com todas suas insuficiências, sujeitos ao seu contexto e limitações.

Mesmo que os homens, seus instrumentos, não possam aluar por vias normais e planejadas, Deus usa inclusive os imprevistos empecilhos para continuar realizando sua obra. Diante deste quadro ocorre: a) união com todos os que estão comprometidos com a obra de Deus e b) manifestação de agradecimento e intercessão por ser a obra de Deus tão eficaz, apesar da sua humildade e aparento fraqueza. As pessoas que se deixam envolver pela obra de Deus só empunham polo progresso dessa obra mesmo encontrando-se pessoalmente em situações bastante adversas. O engajamento em favor do progresso da obra de Deus acontece através da palavra, conduta o ação. O testemunho, a vivência do evangelho acontece através da pessoa toda. O progresso do Evangelho desperta na testemunha/no evangelista uma conduta de alegria, agradecimento e intercessão.

VI — Sugestões para a prédica

— Saulo/Paulo: uma curta resenha biográfica;
— Do encontro com o ressurreto nasce um compromisso incondicional com o Evangelho; o Evangelho permeia toda a vida/existência de Paulo;
— Paulo se dispõe a ser um instrumento de Jesus e seu Evangelho;
— Paulo realiza viagens missionárias, prega, semeia o Evangelho e surgem comunidades;
— A pessoa de Paulo e a comunidade não são o mais importante e sim o Evangelho, a obra de Deus (Jo 3.30).
— O Evangelho chama, reúne e une pessoas, formando comunidade (explicação do 3.° art. da C.A.); o evangelho inclui também o pregador nessa união; na comunidade há responsabilidade mútua em palavra e ação; diaconia é uma resposta da fé.
— A importância da comunidade: nela todos devem sentir-se aceitos e valorizados; nela todos são importantes e cada um tem uma função; nela cada um busca o bem-estar físico e espiritual do outro; nela um está a serviço do outro.
— Desta maneira Deus mesmo concluirá sua obra para a sua glória.
— A comunidade não deveria depender de homens (pastor/diretorias) mas ela deve poder subsistir por si mesma, isto é, impulsionada pelo evangelho que é a sua base e a razão da sua existência.
— Também a comunidade, como um todo, deve estar à disposição do evangelho para que o evangelho possa continuar o seu curso e arranque dos despertos ações de graça, súplicas e intercessões até que Cristo venha em definitivo.

VII — Subsídios litúrgicos

1. Confissão de pecados: Confessamos, Senhor, que muitas vezes achamos que a tua mensagem só poderá ser levada adiante se nós o fizermos. Esquecemos de contar com o poder do teu Espírito Santo. Por outro lado, desanimamos tão depressa quando nossos planos não funcionam como queremos. Nós rogamos: Tem piedade de nós, Senhor!

2. Oração de coleta: Tua palavra, ó Deus, corre o mundo e desafia pessoas ao discipulado engajado. Neste momento nos lembramos de todos aqueles que, por causa do Evangelho, sofrem privações, perseguições e até a morte. Ensina-nos que o teu caminho passa pela cruz também para aqueles que te seguem. Por Cristo, que contigo o com o Espírito Santo reina e vive eternamente. Amém.

3. Assuntos para a oração final: Agradecimento porque a palavra chegou até nós — apesar de perseguição e prisão; agradecimento por todas aquelas comunidades e grupos de cristãos nos quais os frutos do Evangelho são palpáveis; intercessão por todos aqueles que, por este mundo a fora, sofrem em decorrência de uma vida cristã; intercessão por todos os que pregam e ensinam, a fim de que o façam com alegria e desprendimento; intercessão para que a palavra pregada caia em bom solo e traga muito fruto.

VIII — Bibliografia

- BUECKMANN, O. Meditação sobre Fp 1.3-11. In: EICHHOLZ, G. ed. Herr, tue meine Lippen auf, v. 2,2a ed. Wuppertal-Barmen, 1959.
- VICEDOM, G.F. et alii. Gepredigtden Völkern, v. 2, Breklum, 1967.


 


Autor(a): Breno Dietrich
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Pentecostes
Perfil do Domingo: 23º Domingo após Pentecostes
Testamento: Novo / Livro: Filipenses / Capitulo: 1 / Versículo Inicial: 3 / Versículo Final: 11
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1985 / Volume: 11
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 17760
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