Formatura

Alocução

23/11/1994

1. Ponderações sobre o evento

A formatura não se enquadra no rol dos ofícios eclesiásticos primários, tais como Batismo, Confirmação, Bênção Matrimonial e Sepultamento, nem nos casos de inauguração de prédios eclesiásticos. Ela ultrapassa as divisas eclesiásticas, visto que os/as formandos/as pertencem a diferentes denominações religio¬sas ou a nenhuma. Por isso a celebração deve ter caráter transconfessional ou ecumênico.

A formatura representa a conclusão de uma etapa de formação da pessoa, sem que seja considerada pronta em termos de formação. Mas lhe é certificada a conclusão de uma etapa importante, o que lhe dá a legitimação para exercer determinada função/tarefa/profissão. Embora muitos ingressem no mundo profissional já durante o seu estudo, para financiá-lo, apenas a formatura confere o diploma. E o diploma influi no salário. Até há pouco, no Brasil, havia formatura só para universitários. Entrementes já existe também para artesãos, nos cursos profissionalizantes. Aliás, para a problemática da discriminação do trabalho braçal em relação ao intelectual alerta Sperb (v. PL XHI, pp. 80ss.).

De qualquer modo, a formatura ainda assemelha-se a um rito de passagem. Celebra-se ritualmente a passagem de um estado de vida estudantil para o estado de vida profissional. Em analogia, podemos lembrar o que Josuttis escreve sobre a função psicossocial do ritual do sepultamento (cf. Josuttis, pp. 200-205). Na maioria dos casos, os/as formandos/as tinham que dar duro para ganhar dinheiro a fim de custearem os estudos. Assim, o tempo era caracterizado por poucas horas de sono, poucos fins de semana livres e poucas férias, muito esforço e sacrifício. É por isso que, na formatura, os/as formandos/as querem externar um sentimento de alegria e gratidão por finalmente terem chegado lá. Sentem liberdade, independência e esperam por reconhecimento. Os/as professores/as, por sua vez, sentem a alegria da realização de mais uma etapa profissional — alegria que talvez possa ser comparada à alegria de pós-parto ou àquela que pedreiros e carpinteiros sentem na festa da cumeeira (isto é, quando, na construção da casa, o telhado foi colocado). Os pais sentem que sua filha ou seu filho agora tem condições de viver de maneira independente. Sentem também que agora a andorinha vai seguir o seu próprio caminho.

Esses são alguns dos sentimentos que caracterizam o evento da formatura.

Eles querem ser levados em consideração. Se nós os ignorarmos ou frustrarmos, os ouvidos dos ouvintes certamente fechar-se-ão.

2. Ponderações sobre a escolha de textos

É costume a turma de formandos/as escolher um lema para a sua formatura. O grau de envolvimento consciente deles/as pode variar. Mas, independentemente disso, convém que o/a pregador/a procure um encontro com a turma para auscultar e sentir o que querem expressar por meio do lema. Assim poderemos ganhar uma ideia sobre o eventual tema a ser perseguido na montagem do programa litúrgico.

A fim de não escolher sempre os meus textos prediletos e favoritos, convém olhar primeiro quais são os textos que são sugeridos no calendário eclesiástico para o dia ou o dia mais próximo. Mas nem sempre esses textos fazem jus ao evento e ao tema. Para não cair num automatismo funcional (cf. Kirst, p. 49), será necessário procurar por textos que possam iluminar o evento e o tema específicos.

A escolha de textos poderia ser norteada por ideias afins, tais como: gratidão a Deus; inconformidade com o velho mundo e o sonho com o mundo novo; trabalhar para viver, mas não viver para trabalhar; servir a Deus no mundo; etc. Eis algumas sugestões de textos que podem servir de base para a pregação ou como simples leitura bíblica:

Sl 98; 100; 103.1-5; 126.3;

Pv 3.1-8; Ec 3.1-8;

Is 65.17-25; Jr 22.13-19;

Mt 5.13-16; 25.14-30; Lc 12.13-21;

Fp 1.6; Tg 3.13-19; l Pe 4.7-11.

3. Ponderações sobre a montagem do programa litúrgico

Quem não se lembra daquelas formaturas intermináveis, onde a gente geme sob alocuções numerosas e compridas, sem querer falar ainda da falta de conteúdo contextualizado!? E do calor de fim de ano e da falta de lugar para sentar nem se fala! Quem ainda não teve o sentimento de que os católicos são encampados pelos protestantes ou vice-versa?! Sim, quando uns impõem suas formas litúrgicas aos outros, estes só podem sentir-se desrespeitados e marginalizados. Isso se mostra de maneira especial quando a Ceia do Senhor for celebrada. Será que não nos deveríamos esforçar ao máximo para evitar tudo que possa separar e marginalizar?

Vislumbremos, portanto, uma celebração contextualizada, participativa, envolvente e significativa para os participantes, e que faça jus ao nosso compromisso evangélico com este evento da vida! Para caminhar nessa direção, parece necessário atentar a muitos aspectos.

Destaco apenas alguns:

a) Realizar pelo menos uma reunião preparatória com pastor/a, padre, paraninfo/a, professor/a conselheiro/a, orador/a da turma mais outro/a representante da turma, diretor/a ou chefe do educandário (se possível).

b) Diminuir ao máximo o número de alocuções. Naturalmente isso deverá ser negociado com muita liberdade e humildade. Mas se o/a diretor/a faz a acolhida, será que ainda precisa fazer uma alocução? E se o/a paraninfo/a, antes da entrega dos diplomas, alude brevemente ao significado do diploma, será que precisa ainda fazer uma alocução? E se o padre faz a prédica, será que não basta o/a pastor/a fazer a oração inicial e final? Os dois não podem se alternar de ano para ano, e não podem também trocar de templo? Essas perguntas talvez já indiquem como cuidar para que a celebração não se estenda em demasia.

c) Importante é envolver essa equipe toda. Assim como o padre ou o/a pastor/a terá uma breve alocução a proferir, também o/a orador/a da turma terá esta oportunidade. Mas que as alocuções sejam breves! Uma oração pré-elaborada, em forma de assuntos que falem da perspectiva de formandos, de pais e de professores poderá ser proferida por uma formanda, um pai e uma professora respectivamente.

d) Importa oportunizar a participação da comunidade toda. Nesse sentido pode ser lido um Salmo em forma de responsório. Cantos devem ser conhecidos ou ensaiados previamente.

e) Ornamentar o ambiente pode ser uma tarefa a ser abraçada por um grupo de formandos e pais.

Essas dicas talvez já bastem para mostrar a intenção: quanto mais nos envolvermos com a equipe preparatória, tanto mais participativa, significativa e bela poderá ser a celebração.

4. Sugestão de roteiro da celebração

Lema: Hoje os feitos serão muitos e eles são a realização de antigos sonhos. Nossas esperanças de hoje nos guiam para feitos futuros. Nossos defeitos são poucos e nos ajudam a nos manter no caminho.

Tema: Sonhar o sonho de Deus.

a) Entrada ao som de sinos e/ou prelúdio ou coro.

b) Diretor/a: Acolhimento (desemboca nos dizeres: ... iniciemos esta celebração em nome de Deus Pai ..., cientes de que o nosso auxílio vem do Senhor que...).

c) Comunidade: Hino (caráter de invocação e ligado ao Advento — HPD 9).

d) Padre: Oração de invocação.

e) Padre: Preparação para a leitura bíblica (Advento — tempo de espera pela chegada do esperado e sonhado).

f) Paraninfo/a: Leitura bíblica — Is 65.17-25.

g) Pastor/a: Alocução sobre o lema e Is 65.17-25.

h) Formandos/as: Leitura responsorial — Sl 130.1-5.

i) Comunidade: Hino (HPD 130.1-4).

j) Diretor/a e professor/a conselheiro/a: Comprometimento de formandos /as; entrega dos certificados.

k) Orador/a da turma: Breve alocução.

1) Oração final (proferida por uma formanda, um pai e uma professora) desemboca no Pai-Nosso orado por todos.

m) Padre: Envio e bênção.

n) Comunidade: Hino (HPD 130.5-6).

5. Alocução

Prezados formandos, prezadas formandas, estimados mestres, autoridades e pais, queridas irmãs e irmãos em Cristo!

Confesso que o lema escolhido para esta formatura me cativou. Usando as minhas próprias palavras, eu o interpretaria assim: O que somos e fazemos hoje é resultado de sonhos de ontem. O que sonhamos hoje nos coloca a caminho para a frente. Nossos defeitos e desacertos nos estimulam para novos passos e novas tentativas.

Sim, sonhar é muito importante. Vocês sonharam concluir um dia o Científico. E hoje isso se realizou. Isso é motivo de alegria e gratidão. Gratidão sobretudo a Deus. Pois não foi ele quem lhes deu a vida com saúde física e mental? Não foi Deus quem lhes possibilitou estudar no Colégio JB? Não foi Deus que oportunizou que os seus mestres perseguissem o sonho de servir como instrumentos de formação'? Não foi Deus quem fez seus pais sonharem que você, filha ou filho, um dia pudesse estudar bem mais do que eles mesmos tiveram chance'.'

Assim, muitos sonhos, de gente diferente, convergiram numa mesma direção. É assim que hoje se deu o dia da realização.

O lema escolhido por vocês também fala em nossos defeitos. Que bom! Pois isso também caracteriza o ser humano. Somos seres imperfeitos, inacabados, não prontos, sempre a caminho. E infeliz de quem se esquece disso! Mas os nossos defeitos, desacertos e erros não apenas ajudam para nos manter a caminho, como diz o lema. Eles também barram a comunhão com Deus e com as pessoas. Impedem a comunhão em paz, amor e justiça. Aí está uma razão pela qual a situação da educação em nosso país está tão calamitosa. E é também em consequência dessa calamidade que há tanta miséria em nosso país.

No texto bíblico que N. N. nos leu, vimos que tudo isso é contra a vontade de Deus. Deus nos quer contagiar com o seu sonho de vida digna para todos — onde todos terão motivo de alegria, terão moradia, trabalho, salário justo, acesso à educação e saúde. Sim, esse é o sonho de Deus. O profeta Isaías o descreveu em palavras mais belas do que eu sou capaz de formular. Com esse sonho Deus quer contagiar-nos, a vocês formandas/os, a mim e a todo o povo. Imaginemos como seria, se todos nós participássemos de uma corrente de gente, espalhada pelo mundo afora, gente cativada pelo mesmo sonho! Pois dizia Dom Hélder Câmara: Sonho que se sonha sozinho, é apenas sonho. Sonho que se sonha em conjunto, é o começo da realidade. Que assim seja!

Observação: Já que a literatura sobre o assunto formatura é muito pouca e pensando também em estudantes de Teologia, tomei a liberdade de fugir do esquema costumeiro. Essas minhas ponderações não são exaustivas, nem acabadas. Querem servir de estímulo para serem complementadas e melhoradas.

6. Bibliografia

JOSUTTIS, Manfred. Prática do Evangelho entre Política e Religião. 2. ed. São Leopoldo, Sinodal, 1982.
KIRST, Nelson. Rudimentos de Homilética. São Paulo, Paulinas; São Leopoldo, Sinodal, 1985.
SPERB, Ulrico. Auxílio Homilético sobre Estudar para Ganhar mais — Jr 22.13-19. In: MALSCHITZKY, Harald & WEGNER, Uwe, comps. Proclamar Libertação. São Leopoldo, Sinodal, 1987. v. 13, p. 80ss.


Autor(a): Günter K. F. Wehrmann
Âmbito: IECLB
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1994 / Volume: 20
Natureza do Texto: Liturgia
Perfil do Texto: Alocução
ID: 17683
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