Gênesis 2.18-24

Auxílio Homilético

04/10/2009

Prédica: GÊNESIS 2.18-24
Leituras: MARCOS 10.2-12; HEBREUS 1.1-4 e 2.5-12
Autor: Vera Immich
Data Litúrgica: 18º Domingo após Pentecostes
Data da Pregação: 04/10/2009
Proclamar Libertação – Volume: XXXIII

1. Introdução

O texto de pregação deste domingo remete-nos ao ato criador de Deus em uma determinada cultura e chega até nós envolto em vários elementos, hábitos e costumes de povos e lugares onde essa palavra foi pregada e confrontada. Nós também a lemos sob a ótica de nossa cultura, de nosso referencial teórico, de nossas vivências e expectativas. A dinamicidade da própria palavra permite esse exercício.

O texto pode ser usado em casamentos, para dar ênfase à complementaridade que a própria dinâmica da união de duas pessoas possibilita, sem superioridade e sem opressão de nenhuma das partes. Também pode ser usado em uma pregação dominical, com o objetivo de refletir sobre namoro e casamento, sobre dinâmica familiar, responsabilidade compartilhada com ênfase na complementaridade como via de duas mãos. Pode ser feito um culto especial com o grupo de casais, quando houver, para torná-lo mais significativo para a comunidade de casais, solteiros, separados, enfim todos os presentes.

2. Considerações exegéticas

René Krüger, no volume 25 do Proclamar Libertação, faz excelentes aportes exegéticos, os quais reproduzo em parte, partindo do pressuposto de que nem todos os leitores possuem a coletânea completa. Segundo a Bíblia e bem captado pelo autor, o ser humano não nasceu para viver só, mas é por natureza um ser relacional, que precisa e busca companhias significativas para viver e crescer como pessoa, para ensinar e aprender.

A promessa de Deus de prover ao homem uma auxiliadora idônea não dá margem à submissão, pois tudo indica que a auxiliadora tenha por referência Deus, como que continuando seu plano criador, e não uma serviçal ao homem para lhe prestar serviço no lar, com a criação dos filhos, ou na agricultura. Igualmente a palavra idônea complementa a idéia de complementaridade, de semelhança. O texto aponta para uma relação em nível horizontal entre homem e mulher, onde um possa ouvir, opinar, auxiliar, amparar, estender a mão ao outro e caminhar junto em direção a objetivos comuns ou para superar adversidades que recaiam sobre uma das partes, seja o homem ou a mulher. Também se pode traduzir por “frente a frente”, em alemão Gegenüber, que nos confirma a idéia de complementar, olho no olho, horizontalidade e até oposição dialogal, quando não se pensa igual, buscando uma alternativa comum e apropriada.

Essa complementaridade e semelhança o ser humano encontra apenas em outro ser humano, e não nos animais. Esses cabe ao ser humano cuidar, proteger, deixá-los viver bem em seu habitat natural, protegendo também esse habitat. Por melhor que seja sua relação com certos animais domesticados, como o cão, por exemplo, ela não é de complementaridade, pois lhe falta a semelhança.

O autor também remete à etiologia, que é o ramo da ciência que estuda a origem das coisas. Olha para esse texto procurando entender por que homem e mulher sentem uma atração física tão forte e podem ligar-se de maneira tão profunda, que supere a força dos laços sangüíneos e familiares. Um sentimento capaz de enfrentar diferenças culturais, oposição familiar, pobreza, distanciamento da família ou o que quer que seja para poder unir-se, juntarse carnalmente até a exaustão. A Bíblia fala-nos do homem deixar sua família e juntar-se a uma mulher e iniciar uma nova família. O relato do texto levanos a pensar que o toque de Deus ao criar homem e mulher à sua imagem e semelhança, mas também semelhantes entre si, fê-los da mesma carne e dos mesmos ossos, ou seja, da mesma essência. Ele os fez como seres complementares para constituir suas famílias no desejo corpóreo da proximidade, do doar-se ao outro, da entrega espontânea, privada e cheia de cumplicidade.

3. Meditação

O próprio Deus cria o homem e, percebendo que não é agradável que esse viva só, cria a mulher. Deus adormece o homem, porque o ato criador não precisa de testemunhas. O homem, ao acordar, fica muito feliz com a companheira. O texto não dá margem a subordinação ou inferioridade. Quem vê isso é escravo da cultura e aprisiona a palavra de Deus e seu ato criador aos ranços de uma cultura machista. Isso não é conteúdo dado e nem expressa a vontade de Deus.

Deus cria dois semelhantes desiguais, que se complementam e não se somam para que ninguém se anule. Ele possibilita uma bela interação entre homem e mulher, onde ambos são sujeitos ativos. São os opostos que se atraem e se escolhem. Para que duas peças se unam, é necessário que elas estejam em oposição. Unidas, serão uma peça formada de duas partes. No casamento, duas pessoas se unem e formam um casal, que poderá vir a ter filhos, sangue de seu sangue, ossos de seus ossos ou não. O casamento deve possibilitar a individualidade, onde cada um permanece quem é, mas ao unirse a alguém se forma simultaneamente algo novo, um casal, sem anular a individualidade de cada um.

Ao casar-se, o homem deixa pai e mãe, forma uma nova família, inicia um novo tronco. Não lhe cabe, naturalmente, abandonar sua família de origem e esquecê-la. O mandamento de honrar pai e mãe continua valendo até para filhos casados. O cuidado dos genitores permanece como obrigação dos filhos, mesmo quando esses deixam o lar. O casamento, porém, faz um novo lar.

Na atração, há um instinto de união, afinal instinto de preservação, presente na maioria das espécies animais. No ser humano, a necessidade de associação, agregação vai além de um mero instinto de preservação. Porque os filhos precisam de pai e mãe para crescer saudáveis, ser alimentados até a idade adulta, ver nos pais modelo e exemplo. A busca por uma família é um dos resultados da imagem e semelhança de Deus nele imprimida. E como base da sociedade humana, como sua célula-mãe, está a família. E incluemse todas as famílias, mostrando que, quando não é possível a perpetuação da família nuclear, outros modelos de família vão assumindo essa função. O ser humano não nasceu para viver por muitos e longos anos e precisará de seus pais para alimentá-lo e aninhá-lo, para amá-lo e ensiná-lo a amar, para cuidálo e ensiná-lo a ser um bom cuidador.

O texto convida-nos, em tudo isso, também a dar graças. Não podemos deixar de lembrar a ação primária de Deus no mundo do qual deriva tudo isso. A mão criadora de Deus no mundo, que em um gesto de amor tudo criou e nos confiou, entregou-nos uma vida de dons, talentos e habilidades. Entregou-nos o destino e a possibilidade de decidir e de conduzir os nossos passos. Isso é bom e mostra que Deus confia em nós.

4. Imagens para a prédica

Homem e mulher, imagem e semelhança de Deus e semelhantes entre si. Adão reconhece que ela é carne de sua carne, ossos de seus ossos, reconhecendo, dessa forma, a complementaridade. Pode-se trabalhar a partir de um hábito comum entre casais de namorados e que permanece naqueles que desejam a proximidade física do outro, que é o de dar as mãos e caminhar na mesma direção. Não dá certo se um está um passo atrás; tem que ser lado a lado, com delicadeza, mas com firmeza, que não machuque, mas não dê a idéia de frouxidão e abandono. Mãos dadas pedem passos ritmados, e logo até os batimentos cardíacos se assemelham. Os mais rápidos diminuem o passo, e os mais lentos os apressam até encontrar o ritmo próprio.

5. Subsídios litúrgicos

Uma poesia para a acolhida da comunidade no culto e uma forma de informar o tema do dia, que pode ser preparado pelo grupo de casais, quando houver.

Carlos Drummond de Andrade fala do amor antigo:

Amor antigo

O amor antigo vive de si mesmo,
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.

O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.

Se em todo o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
o antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.

Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.

Para finalizar, pode-se convidar os casais para renovar seus votos sob a bênção de Deus. Eles podem ser convidados para vir ao altar de mãos dadas, lado a lado.

Bênção oriunda de Israel

Deus vos guarde as lembranças – dos tempos altos e sublimes,
ao terdes de caminhar pelas baixadas.
Deus vos aproxime um do outro – por caminhos sempre renovados,
quando poderes do mundo ameaçarem separar-vos.
Deus inflame vossos corações com amor primaveril, quando frieza e
monotonia outonal se alastrarem.
Deus vos dê fantasia para não perder a capacidade de surpreender um ao outro.
Ele vos revele que jamais todas as portas estão fechadas.
Deus vos dê o dom de gerar paz, que não necessita sempre ficar com a razão.
Ele vos mantenha a capacidade de rir, assim que em
tempos de cansaço seja resguardado vosso vigor.
Deus vos mantenha dentro do redil do amor.
Ele vos dê a distância e o respeito mútuos, assim que cada um possa
continuar a ser um vivo mistério para o outro.
Deus dê ao menos a um de vós paciência,
no caso de o outro fazer algo inesperado.
Deus vos ilumine com a sabedoria de poderdes distinguir
o que importa do que não importa.
Deus vos dê a sensatez de saberdes qual o momento certo
para falar a palavra certa.
Deus vos dê força e compaixão para saberdes perdoar
um ao outro quando culpa vos quiser separar.
Deus vos guarde da crença de que nós humanos
tudo podemos ter e que tudo podemos fazer.
Deus vos dê a serenidade e a sensatez de saberdes suportar o que é difícil.
Mas ele vos dê antes de tudo sentidos abertos para os sinais de felicidade,
assim que possais resguardar ternura e carinho – até o final.
E assim vos abençoe o altíssimo. O eterno abençoe o vosso caminho,
assim que ao fim um leve o outro ao reino celestial. Amém!


Autor(a): Vera Immich
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Pentecostes
Perfil do Domingo: 18º Domingo após Pentecostes
Testamento: Antigo / Livro: Gênesis / Capitulo: 2 / Versículo Inicial: 18 / Versículo Final: 24
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 2008 / Volume: 33
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 24562
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Ser batizado em nome de Deus é ser batizado não por homens, mas pelo próprio Deus.
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