Gálatas 2.16-21

Auxílio Homilético

14/08/1988

Prédica: Gálatas 2.16-21
Autor: Otto Porzel Filho
Data Litúrgica:12º. Domingo após Pentecostes
Data da Pregação: 14/08/1988
Proclamar Libertação - Volume XIII


I - Introdução

A lei é algo inerente a cada cultura. O nosso ser só se torna possível onde valores e normas compensam nossas deficiências. São as leis que definem uma vida em liberdade ou de escravidão. Mas acontece também que a lei sempre de novo é manipulada às escondidas com má fé, visando beneficiar pessoas ou grupos. Isto vale tanto para o indivíduo quanto para a coletividade. Este manipular também está presente na estrutura eclesiástica. Lei e ordem também são anseios das forças e grupos conservadores toda vez que o status quo é questionado.

Entre nós evangélico-luteranos de origem germânica, está bem impregnada a lei do trabalho, aliás até como característica inerente ao ser cristão como tal. Como consequência do trabalhar então vem o bem-estar sócio-econômico. Para a grande maioria é o cumprimento desta lei do trabalho que dá sentido e significado à vida em si, mas também caracteriza o ser cristão. Mas também com facilidade tudo isto cai por terra, quando surgem casos de doença prolongada, desemprego, aposentadoria, etc.

A fé cristã nos compromete a partir do seu centro a um estilo de vida alternativo, mas que seja fruto da liberdade, de Jesus Cristo. E onde encontrar sinais, evidências de uma tal vida sem leis?

II - O texto

O texto de Gl 2.16-21 pertence ao cerne do NT e também dentro dos escritos paulinos é um dos mais importantes. Ao lado de Rm 3 a presente perícope também está inserida de forma muito sólida na base da teologia da Reforma. Temos aqui o apóstolo Paulo empenhado com todas as suas forças em favor do solus Christus.

Para a compreensão da perícope temos que levar om conta o sou contexto. Ela é uma parte da discussão entre Pedro o Paulo sobro o significado da lei. Segundo Paulo, Pedro e seus companheiros estão ameaçando a fé om Cristo com a sua prédica. Estes condenam a pregação do Paulo, afirmando quo ele é um transgressor que está destruindo a sua própria cultura, inspirada pela revelação do próprio Deus. Paulo vê que assim tudo está sendo colocado em jogo. Diante disso ele acentua de maneira categórica a fé em Cristo, o que a simples leitura da perícope deixa transparecer. É a fé em Cristo que fundamenta a nossa salvação e a nossa liberdade. Isto fica bem transparente no v. 16. Aqui o tema fé em Cristo é colocado enfaticamente três vezes. A fé em Cristo decide tudo. A justificação perante Deus fundamenta-se só na fé em Jesus Cristo. E nisto observe-se ainda o , seguinte: não é porque nós cremos em Jesus Cristo que somos justificados, mas | quando cremos. A fé não pode ser transformada em condição para que haja salvação.

No v. 17 Paulo está dizendo sim ao fato de ele ser judeu, mas simultaneamente derruba por terra toda e qualquer prerrogativa que isto venha a lhe dar diante dos gentios. Na fé em Cristo não existem mais diferenças. Não é mais o cumprimento da lei que pode ser apresentada diante de Deus tal qual um escudo protetor, mas somente Cristo, o que ele fez e a fé nele; isto para todos, indistintamente. O cristão não está mais no âmbito da lei (v. 18). Mas quem assim mesmo ainda se entende como tal, será continuamente transgressor da lei e por isso será condenado. Sim, o cristão morreu para a lei e vive, portanto, para Deus (v. 18; cf. também Rm 6). Por trás destas palavras estão as afirmações centrais sobre a cruz e a ressurreição de Cristo, e aqui, ainda ligadas por Paulo ao batismo. No batismo aconteceu a morte do velho homem, e por isso a lei não tem mais poder para nada, está vencida. No v. 20 Paulo coloca que o velho Paulo, que tinha o seu centro na lei, está morto. O novo Paulo, o cristão, é determinado totalmente por Cristo, nele o próprio Cristo vive. Importa, isto sim, a fé em Jesus Cristo. Esta é a grande batalha de Paulo: ele luta em suas colocações em favor da vitória da graça sobre as obras da lei. E toda vez que se voltar a colocar as obras da lei como condição para a salvação, Cristo morreu em vão.

Ill - Meditação

O texto de Gl 2.16-21 traz dentro de si a pergunta pela identidade do homem: Quem sou eu? Quem eu quero ou posso ser? Quem ou o que dá sentido e segurança à minha vida? E neste sentido a perfcope aponta que a partir de Cristo e f do batismo esta identidade tem a necessidade de um envolvimento com o todo que nos cerca. Isto traz também consigo a impossibilidade da dissociação da justificação com a eclesiologia. Na época da Reforma este caminhar conjunto da justificação com a eclesiologia era algo natural. Mas para nós, que vemos nossas comunidades não mais serem simplesmente aceitas como tais, e bem por isso também muitos dos seus membros as abandonando, urge trabalhar teologicamente para dentro da realidade social aspectos concretos da doutrina da justificação. A justificação deve ser uma experiência palpável dentro das nossas comunidade e no contexto no qual elas estão inseridas. A partir da justificação por fé o centro do ser e do agir da pessoa é Cristo. Onde Cristo está no homem, este não mais poderá entender-se apenas como indivíduo, mas estará simultaneamente ao lado de irmãos e irmãs concretos para os quais Cristo estará tão presente como para ele. 

Em outras palavras: a justificação não é algo que diz respeito somente a indivíduos, mas envolve a coletividade, que é formada a partir de um conjunto de indivíduos.

Nós, como pregadores e ouvintes, integramos uma igreja em cuja origem está a doutrina da justificação por fé. A confiança na justificação por graça e fé dá-nos a experiência de que vida é dádiva e não mérito. Com criticidade e melhor embasamento podemos avaliar as tantas ofertas ilusórias de vida, pois estas fundamentam-se unicamente em conquistas humanas. E nesta busca por mais vitórias, uns esmagam e outros são esmagados, enquanto ainda outros nem sequer conseguem participar desta competição. A partir da justificação por graça e fé já não precisamos mais preocupar-nos com méritos, porque sabemos que somos aceitos por Deus em Jesus Cristo. Não há mais necessidade de competição para conquistar algo, e portanto, estamos livres para ir ao encontro do outro. Sabedores de que a justificação, que nos foi dada em Jesus Cristo, não levou em conta o nosso esforço (ou melhor levou-o sim, do contrário estaríamos irremediavelmente perdidos), nossa posição social, nossas virtudes, nossas riquezas, podemos aceitar aqueles que estão ao nosso lado com suas necessidades e anseios bem concretos e por eles empenhar-nos sem antes avaliá-los por estes valores. Assim estaremos livres do medo de ver no próprio semelhante alguém que nos ameaça e que por isso precisa ser combatido. É Deus que nos dá a vida, ela não depende do nosso esforço e conquista, e, portanto, ninguém mais poderá tirá-la de nós. Nova vida, comunhão de vida, só poderá existir onde formos libertados deste medo. Em Jesus Cristo recebemos vida para vivê-la em abundância e para ajudar outros a viver em abundância. É assim que surge a verdadeira igreja/comunidade de Jesus Cristo.

A justificação por graça e fé dentro da nossa sociedade sempre será pedra de tropeço para muitos, também para nós, principalmente quando estivermos ocupando lugares de destaque, como fruto da competição. Então falar desta graça sempre será um tema perigosamente subversivo, pois já não será mais algo que só diz respeito à alma, mas obrigatoriamente estará ligado à realidade social. Sim, será subversiva, pois minará toda e qualquer estrutura erigida sobre a competição e o mérito.

Graça sempre será algo dinâmico, em dois sentidos: valoriza a quem sabe nada merecer e questiona a quem pensa muito merecer. A valorização, por um lado, e o questionamento, pôr outro, trará forçosamente o conflito, principalmente pensando-se numa organização mais igualitária. Teremos assim a luta ferrenha e constante entre graça e méritos.

A graça sempre cria espaços para a vida, enquanto a competição procurará diminuir estes espaços, sobretudo para os vencidos, mas também para os próprios vencedores, pois estes justamente procuram vida onde não é possível encontrá-la.

Neste sentido o cristão tem a experiência da graça imerecida pela fé em Jesus Cristo, e esta será e deverá sempre ser a sua motivação para celebrar em gratidão e ver fortalecida a vontade de ver o seu semelhante experimentando-a também. E mais, o cristão procurará tomar patentes sinais desta graça em seu ambiente social. Aí ele empenhar-se-á para realizar o bem, já não para valorizar-se diante de Deus, mas sim para dar resposta à valorizar-se diante de Deus, mas sim para dar resposta à valorização recebida por graça.

IV - Indicações para a prédica

A prédica sobre Gl 2.16-21 deve procurar acentos concretos dentro de situações da comunidade. A que se dá valor na vida cristã? Onde em nome do evangelho se fazem exigências legalistas? Onde são colocadas aos membros condições para que possam ter uma participação plena na vida da comunidade? Onde a tradição e expectativas mostram-se mais fortes do que a mensagem libertadora do evangelho?

Sentir-se atraído uma vez por Cristo e outra vez ceder à lei é pecado, mas do mesmo modo é pecado a liberdade que não sabe do seu real significado e importância. O objetivo da perícope é colocar Jesus Cristo no centro e não algo de aparência cristã.

Não podemos também perder de vista aqueles que, em nome da fé em Jesus Cristo, esperam de si próprios mais e mais obras cristãs e sempre estão de consciência pesada, pois continuam achando ainda terem feito muito pouco. Em tudo isto não podemos perder de vista o fundamento libertador do texto. O evangelho não pode de forma alguma ser substituído pela lei.

O que Paulo acentua devemos também acentuar. Em Jesus Cristo, a alegria da libertação conduz à gratidão serviçal.

V - Subsídios litúrgicos

1. Intróito: I Pe 5.5b

2. Confissão de culpa: Amado Pai celeste. Na nossa vida somos levados a toda hora a colocar-te de lado e considerar mais importantes os nossos bens materiais. Tornamo-nos tão dependentes deles que achamos que sem eles nossa vida não tem sentido, é em vão. Mesmo assim, Senhor, não podemos te pedir que tu nos ajudes a viver sem eles. A nossa fé é fraca e não somos capazes de colocar a nossa confiança em ti somente. Contudo, te pedimos, ajuda-nos a não te esquecer, a não te colocar em segundo plano, apesar deles. Ajuda-nos a ver que as pessoas são muito mais importantes que as nossas posses. Por isso humildemente clamamos a ti: Tem piedade de nós, Senhor!

3. Absolvição: 1 Jo 3.23

4. Coleta: Senhor Jesus. Lembramo-nos que tu nos ensinaste a dizer seja feita a tua vontade. Porém, nós sempre de novo nos sentimos tão importantes, que mesmo dizendo-o, de fato não é isto que queremos. Falamos ao Pai. mas no fundo não queremos mostrar a nossa gratidão pelo que ele nos fez. Senhor, dá-nos agora força para podermos deixar de fingir, e coragem para com nossos pensamentos, palavras e ações celebrar o teu amor. Amém.

5. Assuntos para intercessão: Oremos por todos aqueles que acham que a ostentação de bens materiais lhes trazem segurança e vida plena. Pelo que acham que somente com esforço próprio se alcança salvação. Por aqueles que ignoram que o centro da vida cristã é a fé em Jesus Cristo, e nele já temos salvação. Por todos aqueles que na fé em Cristo celebram o amor de Deus, pedindo que ele os faça ver que esta fé tem consequências no mundo. Por todos aqueles que trabalham, na imprensa, na educação, atuam na política para que a partir da fé em Jesus Cristo promovam a comunhão e o bem comum.

VI - Bibliografia

- BRAKEMEIER, G. A justificação por graça e fé em Paulo e sua relevância hoje. Estudos Teológicos. São Leopoldo, 16(1) 3-17, 1976.
- MEINCKE, S. A justificação por fé - Um novo espaço para a vida. Estudos Teológicos. São Leopoldo, 23(3): 205-230, 1983.
- NORDSTOKKE, K. Meditação sobre Gl 2.16-21. In: KIRST, N., coord. Proclamar Libertação. São Leopoldo, 1981, v. 7.
- VOIGT, G. Meditação sobre Gl 2.16-21. In: ——————. Die himmlische Berufung. Göttingen, 1981.


Autor(a): Otto Porzel Filho
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Pentecostes
Perfil do Domingo: 12º Domingo após Pentecostes
Testamento: Novo / Livro: Gálatas / Capitulo: 2 / Versículo Inicial: 16 / Versículo Final: 21
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1987 / Volume: 13
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 17906
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