Gênero e cotidiano comunitário na IECLB: um desafio de todas as pessoas

13/10/2013

Gênero e cotidiano comunitário na IECLB: um desafio de todas as pessoas

Dra. Débora Erileia Pedrotti-Mansilla1

“Enquanto houver alguém gritando no mundo,

sejam mulheres, afrodescendentes, indígenas, pessoas discriminadas,

sempre têm sentido, a partir da fé, falar e atuar de forma libertadora”.

Leonardo Boff, 2012

A opção por começar este texto com uma frase do teólogo Leonardo Boff se deve ao fato de eu reconhecer nela a mesma intencionalidade e a coragem de Jesus Cristo, nosso maior exemplo de como caminharmos na construção do Reino de Deus na Terra.

Ao pensar sobre o que escrever neste texto e após muitas leituras de literaturas pertinentes ao tema, percebo que poderíamos tratá-lo sob vários aspectos, no entanto, acredito que o desafio maior consiste em fazermos um mergulho consciente da Igreja de Jesus Cristo sobre a questão de gênero na contemporaneidade.

O conceito de gênero tem sido discutido por muitos autores e autoras, aqui utilizamos o conceito que está descrito no livro A Questão de gênero no Brasil (CEPIA; Banco Mundial, 2003), na sua Introdução feita por Jacqueline Pitanguya:

O conceito de gênero é uma construção sociológica relativamente recente, respondendo à necessidade de diferenciar o sexo biológico de sua tradução social em papéis sociais e expectativas de comportamentos femininos e masculinos, tradução esta demarcada pelas relações de poder entre homens e mulheres vigentes na sociedade.

A bíblia nos traz exemplos de distinção entre os gêneros, inclusive das relações de poder existentes. Os relatos, em sua grande maioria, beneficiam os homens, porém temos que considerar o contexto social e a organização da sociedade patriarcal daquela época. Mesmo naquele contexto, temos histórias de mulheres que são exemplos, tanto no Antigo como no Novo Testamento. Se fôssemos dar exemplos de grandes líderes que aparecem na Bíblia, o gênero masculino seria beneficiado e, em menor número, teríamos mulheres líderes, porém, o que realmente importa é a quantidade ou o exemplo de Jesus de incluir todas as pessoas?

Guardadas as devidas proporções, ouso dizer que a Bíblia traz excelentes exemplos de homens e mulheres que contribuíram para a construção do Reino de Deus na Terra. E, nesse sentido, quando pensamos o cotidiano das nossas comunidades, temos que pensar na igualdade de homens e mulheres, respeitando as suas diferenças.

No Evangelho de Marcos (12. 31-32), Jesus nos traz dois mandamentos Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento, e de todas as tuas forças; este é o primeiro mandamento. E, o segundo, semelhante a este, que é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que estes. Tais mandamentos deixados por Cristo nos levam ao nosso maior desafio de vivência cristã na contemporaneidade: amar o próximo e a próxima. Este desafio nos impulsiona a promover ações que suscitem reflexões nas comunidades acerca da igualdade de gênero.

O desafio consiste em nos perguntarmos, como pessoas luteranas: quanto Igreja, de que maneira temos testemunhado a questão da igualdade de gênero? Conversamos abertamente sobre as atrocidades sofridas por mulheres em nosso município e dentro da nossa própria comunidade? Como pessoas cristãs, temos sido exemplo de homens e mulheres que se respeitam e que respeitam as pessoas diferentes? Temos vivenciado os mandamentos deixados por Jesus?

Tenho a felicidade de ter conhecido fortes e excelentes exemplos de homem e mulher em minha formação pessoal e cristã. Meu pai José Pedrotti enfrentou de forma corajosa e destemida a Ditadura Militar instalada no Brasil em 1969. Certamente sua vida mudou em virtude da sua luta pelos direitos coletivos, pois em muitos momentos renunciou aos seus sonhos pessoais em busca da igualdade na sociedade. Dessa forma, sempre que se discute a questão de gênero, tenho o exemplo do meu pai e, assim, não há como não admirar os homens. Durante a ditadura, ele também teve que deixar sua terra natal e procurar outro lugar, onde pudesse viver e criar as suas quatro filhas. Nesse período, meu pai contou com o companheirismo de minha mãe Iris Pedrotti, que é um exemplo de fé na caminhada cristã e também para a história da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil. Ela atuou no Presbitério da Comunidade de Cuiabá, no Sínodo do Mato Grosso e no Conselho Diretor da Igreja, tendo se tornado a primeira mulher a ocupar o cargo de Presidente do Concílio da IECLB. Esta caminhada de fé, certamente, contribuiu para que, junto ao meu pai, ela tivesse forças para suportar os difíceis momentos que passaram em virtude da escolha que fizeram. Assim, cotidianamente, minha mãe cuidou das filhas, da casa e ainda trabalhou como professora, numa tripla jornada de trabalho. Com este exemplo, não há como não admirar as mulheres.

A opção de minha mãe e de meu pai pela igualdade, liberdade e garantia dos direitos de todas as pessoas foi abençoada por Deus que esteve com ele e com ela em todos os momentos. Tenho, assim, o privilégio de ser fruto de um homem e de uma mulher que têm ideais, mas, acima de tudo, amor, fé e compromisso com a construção do Reino de Deus.

Quantas Iris e Josés não há na sociedade? Homens e mulheres que, no seu fazer diário, qualquer que sejam e onde quer que estejam, buscam uma vida de paz, de igualdade, de respeito e de amor ao próximo? São exemplos que devemos admirar e seguir.

Não adianta defendermos a igualdade de gênero somente nos documentos oficiais da Igreja, ela também tem que ser experimentada e vivida no planejamento e na comunhão das inúmeras comunidades da IECLB, de modo que o movimento pela igualdade de gênero vivenciado no interior das comunidades nos faça ser reconhecida como uma Igreja pautada no projeto de Deus.

Que sejamos exemplo e que Deus nos abençoe nessa caminhada que pode ser serenada pela palavra de Jesus. Que nosso existir seja ressignificado pelas lutas de homens e mulheres em favor de uma vida mais justa, solidária e com o desafio colocado a nós por Leonardo Boff (2012): “nosso desafio não é o de criar cristãos, mas de criar pessoas honestas, humanas, solidárias, compassivas, respeitosas da natureza dos outros. Se conseguirmos isso é o sonho de Jesus realizado”.

1. Dra. Débora Erileia Pedrotti-Mansilla: doutorado em Ciências, mestrado em educação, licenciatura e, Ciências biológicas. SEDU/MT. Cuiabá/MT

Referencias bibliográficas

BOFF, Leonardo. Os intelectuais que têm algum sentido ético precisam falar sobre a Terra ameaçada. Entrevista especial com Leonardo Boff. Disponível em http://www.ihu.unisinos.br/entrevistas/514475-deus-acredita-em-todos-os-seres-humanos-entrevista-especial-com-leonardo-boff

BANCO MUNDIAL. A Questão de gênero no Brasil. Unidade de Gênero Departamento de Política Econômica e Redução de Pobreza Região da América Latina e Caribe. Rio de Janeiro: CEPIA; Banco Mundial, 2003. Disponível em: . Acessado em: 20/11/2012.

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Autor(a): Débora Erileia Pedrotti-Mansilla
Âmbito: IECLB
Título da publicação: Estudos sobre Gênero / Ano: 2013
Natureza do Texto: Artigo
ID: 25305
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