Gênesis 11.1-9

Auxílio Homilético

08/06/1987

Anexo 2 - Pauly
Anexo 3 - Pauly
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Prédica: Gênesis 11.1-9
Autor: Evaldo Luis Pauly
Data Litúrgica: 2ª.-feira de Pentecostes
Data da Pregação: 08/06/1987
Proclamar Libertação - Volume XII


l - Introdução: Ideias da primeira lida

Sou fruto do urbano brasileiro. Nesse lugar vivemos 63% dos brasileiros. Outros 37% não vivem aqui, dependem daqui. Suas vidas se decidem aqui. Uma babilônia de gente a depender da cidade. Todos somos, na maioria, vítimas dessas cidades.

Torre de Babel é história de cidade. Terá algo de nós e nos trará algo novo. É, por mais incrível, pura Palavra de Deus. Há pontes entre a nossa cidade e a Babel. Na minha experiência surgiram estas:

a) Coisa de línguas é com os crentes, os ermãos vivem falando em línguas. Quanto mais, maior a certeza de que Deus está ajudando a Igreja. Línguas em Babel aparentam castigo, para os crentes aparenta recompensa.

b) Levantar torre é com peões da construção civil. Migrados recentemente, aprendem coisas estranhas com mestres, apontadores e engenheiros. Levantam vigas e luxo. Espalham-se pelas periferias. Levantando torres e espalhando-se pelas planícies e morros das periferias: algo semelhante ao texto.

c) Confusão por causa de língua é com a economia do governo. Desinflaciona, desindexa, INPC vira IPCA, ORTN em OTN, fim do open e over, jogando muitos no black. Enfim, até congelamento sem geladeira.. Quem entende?

A cultura dominante identifica cidade com torre. O Espigão e a nova edição da Selva de Pedra. Apesar do esforço global não existem padrões fixos de viver e pensar nas cidades. Torres são também símbolos de morte: Interno na Torre, Joelma, Andorinha... Na realidade vivemos uma imensa confusão nas cidades. Elas exploram os campos, mas os citadinos comem mal. Reúnem multidões, das quais precisam, mas que as tornam inabitáveis, a não ser para as baratas... Na realidade de hoje, vivemos a Babel da Torre, a confusão da cidade.

II - Texto: Ideias da lida crítica

É determinante, ao estudo que faço, o artigo de Schwantes, em especial da p. 83 a 103. Uma tradução criteriosa é apresentada ali.

1. Esquema do texto

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

2. Verso a verso

verso 1: Trabalho redacional evidente. Uma moldura (Schwantes, p. 87). O verso 2 é suficiente para introduzir a história. O objetivo do verso 1 é relacionar nossa narração com as anteriores, a descendência de Noé. O verso 1 repete duas vezes a questão da língua universal.

verso 2: Marca o início da narrativa. Este relato é típico dos itinerários comuns nas narrações de semi-nômades em plena transumância: a partida, o encontro do novo pouso, a instalação do grupo. A planície de Sinear é a parte sul da planície dos rios Eufrates e Tigre (Schwantes, p. 91). Esta informação remete o texto para uma época histórica diferente do contexto imediato.

verso 3: Há uma diferença interna importante: uma ação (3a) e um comentário (3b). A fabricação de tijolos queimados é tecnologia avançada. Pressupõe o trabalho em olaria, e não apenas um buraco com argila, formas e sol. O comentário na 3a pessoa agrega que tais tijolos serviam como pedras na construção, e o betume (asfalto) como argamassa. Este tipo de tecnologia da construção civil exige trabalho especializado, separação entre trabalhador manual e intelectual, organização e gerência do trabalho. Tudo isso só é possível sob a dominação do Estado (Schwantes, p. 98). As tribos semi-nômades do verso 2 não tinham tal tecnologia, e muito menos teriam interesse em conquistá-la. Ocorre uma distinção gramatical entre quem resolve e convida (ordena!) a confecção de tijolos e o comentário lacônico de quem vê a obra erguendo-se. Schwantes vê em 3a a fala dos trabalhadores das olarias, e em 3b, a dos peões nos andaimes. (Schwantes, p. 100)

verso 4: Repete a fala do 3. Os detalhes são mais precisos. Indica que eles edificavam para si uma cidade e uma torre.

a) cidade: O que representa uma cidade na planície? O testemunho bíblico (Josué, por exemplo) indica que as cidades na planície eram inimigas dos semi-nômades. Tais cidades eram governadas por reis, rodeados por uma casta administrativa de tipo feudal...(NOTH, p. 163). O exército real, aí abrigado, saqueava os campos ou, mais sutilmente, tributava sua produção. Tal modelo produziu entro as tribos israelitas a aparição progressiva das diferenças entre pobres e ricos (Noth, p. 205). A relação entre a cidade e a construção civil marcava-se também pela exploração: Talvez já Davi (2 Sm 20.24), com toda certeza Salomão (1 Rs 4.6 e outros) obrigava a população estrangeira (1 Rs 9.20) ou até a israelita (1 Rs 5.27) a trabalhos forçados, principalmente no setor da construção (Schmidt, p. 180). Já no século X o reinado organiza a corvéia. Concomitante a ela se desenvolve a revolta do trabalhador, como é o caso em Jerobão (1 Rs 11.26-40). Há, pois, uma crise social devida a uma imposição muito pesada sobre as tribos do Norte (VV.AA. p. 52). O sistema cananeu, ao qual os reis de Israel recorreram, mantém-se da corvéia, como indica a carta de Biridiya de Meguido ao Faraó no século XIII: Ora eu tomo conta de lavouras em Schunem e conduzo homens de corvéia (VV.AA. p. 26).

O final do versículo indica a função da cidade: manter a coesão (não a dispersão) das pessoas que compunham a classe dominante. Tal coesão é possí¬vel pela acumulação das forças militares nas cidades.

b) Torre. Migdal: fortaleza. O tamanho desta fortaleza é realçado pela expressão de chegar ao céu (Schwantes, 95). Dizemos hoje: arranha-céu. Não se trata, portanto, de uma construção inútil para elevar o homem à condição de Deus. Torres com função de Templo são os zicurates da Babilónia. Tais construções eram uma espécie de estação intermediária na viagem do deus à terra. Na base do zicurate deus residia quando em terra. (Vaux 373-374). Portanto a terra destinada a Deus servia para o seu conforto e não poderia causar a sua ira, como é o nosso caso (vv. 5 a 8). A Torre de Babel, historicamente, era parte principal da defesa militar de uma cidade. Não tinha função religiosa, para os semi-nômades poderia ter uma interpretação teológica, o que é outro caso. Era parte da construção que realizavam os escravos de guerra, os camponeses recrutados pela corvéia e os engenheiros do rei.

c) Nome: Fazer um nome quase equivale a dizer 'organizemos um reinado' (Schwantes, p. 97). A ideologia do reinado requer o nome, em função da estabilidade política.

verso 5: Plasticamente, como que numa escada, Deus desce para ver. Esta teofania é típica da religião dos semi-nômades (Gn., Ex., etc.). O Deus do templo, dos sedentários, já não desce onde lhe apraz ou dele se necessita. Quando não está limitado a manifestar-se no templo, só pode descer através daquela construção, invocado pelo sacerdócio estabelecido pelos donos do templo.

Na exegese popularizada introjetamos a Torre de Babel como uma saga contra a pretensão humana de igualar-se a Deus. Neste verso não é o caso. Deus não vem castigar más intenções ocultas nas mentes e corações dos maus reis. Vem ver, observar o que edificam. Não há interesse divino pelos que edificam, o centro é o quê. O problema é a cidade com sua torre, não as intenções, por certo malvadas, dos responsáveis por ela.

verso 6: Deus faz uma análise da conjuntura social. Sua fala procura analisar o que há por trás de tais edificações. A primeira unidade social que vê é o povo. O texto usa a palavra AM que originalmente não circunscreve a população de um Estado... mas de um clã (Schwantes, p. 99). Povo, categoria social maior que clã, surge apenas com as cidades feudais do reinado. Uma segunda unidade social é a língua única, fator decisivo para a coerção do único povo. A terceira unidade social refere-se ao intento, ao planejamento: centralização da administração. Com a consolidação da cidade, seu domínio necessário sobre os campos e roças em torno, não há mais restrições (seriam as leis dos clãs?) para os desígnios da casa real.

verso 7: Não tive acesso à discussão redacional. O ato de Deus é quebrar as 3 unidades sociais da cidade. Quebra a unidade linguística e a unidade ideológica que ela permite, Com isso o planejamento é impossibilitado a nível tão centralizado.

verso 8: Apresenta uma ação divina diferente da anterior. Deus cria a dispersão. Não permite a aglutinação nem em torno da cidade (dos camponeses sedentários submetidos ao sistema feudal cananeu) e nem dentro das cidades (exército, família real, burocracia estatal). Nessa ação divina a cidade (dentro dela a Torre) deixa de ser edificada. Vencem os trabalhadores, perdem os planejadores.

verso 9: Redacional, fecha a moldura na forma de uma etiologia.

3. No conjunto

A impressão que a Torre me deu foi nova. Minha crença tradicional não resistiu à novidade que a Palavra de Deus exige. Evidente que a leitura da Torre de Babel com a perspectiva da luta classista entre cidade e campo na sociedade de então, é deveras limitada. Há muito o que aclarar, há ainda muito dogmatismo de esquerda a ser vencido. Acho, no entanto, um desafio para nossas comunidades e a nossa teologia. Mesmo os que concordam com a interpretação usual dão pistas para essa nova. Von Rad é um deles. Gn 10 e 11 são parte de um esboço teológico, cujo centro de gravidade se encontra, ..., em Gn 12.1-3 (Rad, p. 213), sendo esta a sua verdadeira conclusão (idem, p. 212). O texto de Gn 12.1-3 é um texto essencial da teologia do clã, dos semi-nômades.

O texto, no seu conjunto, identifica-se partidariamente. Toma a parte anti-citadina no conflito daquela sociedade. Isto parece evidente. Onde está a graça da história? Ela está na parcialidade. Dispersão e pluralidade de línguas justamente são as características da organização social pré-estatal (Schwantes, p. 103). De outra forma, a multidão de povos brota da riqueza criadora de Deus e ao mesmo tempo leva em sua confusão os estigmas de sua (de Javé - N.A.) intervenção punitiva (Rad, p. 215). Rad, da mesma forma que reconhece a graça de Deus, reconhece o castigo. Resta identificar graça e castigo em relação a quem. Na parcialidade de sua intervenção, Deus assegura a universalidade de sua ação: abrange a todos, castigando uns, gratificando outros. A dialética do revelatus, tão cara à nossa confessionalidade, impõem-se neste texto.

Ill - Lidando com a prédica

É uma história com interpretação arraigada no povo. Talvez seja daquelas em que vale o uso do anti-texto para facilitar a reflexão da comunidade (Kirst, p. 108-109). Para grupos menores, a ilustração da torre de Babel como uma usina atómica é excelente (FLM, p. 16).

a) Anti-texto

O texto permanece o mesmo até o v. 5. A partir daí o anti-texto: E disse Deus: Jóia! Essa torre enorme me facilita o serviço. Eu baixo no último andar e vou de elevador até o térreo. Lá converso com o dono da torre, mando dar o recado ao povo. Descanso na suíte presidencial, ou suíte divinal. Depois subo. Não preciso ficar o tempo todo correndo atrás do meu povo espalhado pelas estepes, campos e desertos. Nem vou precisar me meter de novo na desconfortável sarça-ardente.

Tem mais vantagens nessa torre. Todo mundo vai ter que aprender a língua do dono da torre, porque ele falará por mim. Eu não preciso mais falar em tantas línguas. Não preciso continuar resolvendo os problemas que o pessoal traz para mim, eles vão levar ao dono da torre. Enfim, desde que terminei o Jardim do Éden vou poder descansar.

Então, veio o povo do oriente, do ocidente e se amontoou em Babel. Logo todos passaram a falar uma mesma língua. Depois de alguns meses, Deus não pôde mais usar o elevador, pois o dono esqueceu de pagar a conta da luz, que ele já tinha cobrado do povo.

b) A Babel da Jorre

O anti-texto serve para dar um sentido novo ao texto bíblico, para permitir ao fiel uma libertação da interpretação corriqueira. É possível apontar algumas consequências:


 

 

 

 

 

 

 

 

A graça de Deus, que aponta o AT para Jesus, está na dispersão, permitindo a reunião das famílias, a recuperação de sua cultura (língua, no fundamental) e da sua vivência pessoal com Deus. A dispersão destruiu a verdadeira confusão que a cidade-forte causava: a corvéia, gastos em obras faraónicas inúteis, militarização, impostos, guerra política, etc...

Aponto em duas charges a Babel da Torre, a confusão reinante no nosso lugar de vida e fé: As muitas linguagens impostas pela comunicação, a crise habitacional que assola a classe média.

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Perguntas que, na atualização, poderiam ser desenvolvidas:

1) A linguagem única, a ideologia dominante, imposta ao nosso povo, não é tão prejudicial como a de Babel? Um povo falando uma mesma linguagem/ideologia é mais fácil de controlar e explorar no trabalho.

2) A crise da construção em Babel e da construção civil (BNH, financeiras, moradias caras e ruins) no Brasil não está ocasionando sofrimento da maioria e alegria da minoria?

3) Em Babel Deus busca fortalecer a família, protegendo-a da concentração do poder estatal, permitindo sua dispersão e descentralizando o poder entre as famílias, espalhando-as pela terra. Reforma Agrária não teria alguma semelhança com essa proteção divina?

4) A redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais, um seguro-desemprego mais eficaz, não fortaleceriam a dispersão mais rápida dos operários em relação ao local de trabalho e sua concentração na vivência familiar?

5) A urbanização das favelas respeitando a sua dispersão, sem concentrá-la em torres de cimento armado, não estaria de acordo com o texto?

Nossas comunidades preocupam-se com a proteção das famílias. O texto poderia ajudar nessa reflexão, trazendo elementos de análise conjuntural (como Deus fez) que, geralmente, faltam no trabalho de assistência social da comunidade.

Gn 11.1-9, libertado de suas cadeias de interpretação, abrindo-se para a atualização do Espírito Santo, é empolgante.

IV - Subsídios litúrgicos

1. Confissão de pecados: Confessamos, diante da tua Palavra, que não temos combatido o bom combate. Não temos resistido como convém contra a linguagem do mundo, contra a violência, os vícios, os crimes, a ganância que a TV nos traz. Não temos testemunhado tua graça através de nossas obras. Tem piedade de nós, Senhor.

2. Oração de coleta: Deus que destruíste os planos dos donos de Babel, tu que protegeste as famílias que construíam aquela Torre. É a ti que dirigimos nossa oração; Permite que as famílias sem-terra conquistem um chão do qual brote a paz e a fartura. Permite que as famílias dos trabalhadores não se desesperem pela falta de dinheiro e nem pelo medo do desemprego. Dá-nos resistência e perseverança. Dá a nossos governantes a tua sabedoria para que cumpram sua obrigação de proteger-nos, de administrar a justiça, punindo os corruptos e recompensando os justos. Permite que tua Igreja seja portadora da tua Palavra de consolo aos aflitos e de admoestação aos que nos afligem. Amém.

3. Assuntos para a oração final: Notícias locais (prefeitura, Câmara de Vereadores, escolas, etc...) e comunitárias (doenças em famílias da comunidade, morte, batismo, casamento). Orar em especial pelo trabalho de assistência social para que aprenda, com Deus, a fazer análise da situação. Orar pela economia do país; que a sonegação, os custos financeiros, os lucros exorbitantes, a impunidade não tirem o pão da mesa das famílias. Para que a TV possa ser entretenimento sa¬dio dos trabalhadores, que possa ser um serviço de informação e formação dos cidadãos e não uma nova torre de Babel a causar confusão, exploração e morte.

V – Bibliografia

- FLM-Documento. Jesus Cristo Esperança para o Mundo. CEM. ed. Porto Alegre, 1983.
- KIRST, N. Rudimentos de homilética. São Paulo/São Leopoldo, 1985.
- NOTH, M. História de Israel. Barcelona, 1966. - RAD, G. von. Teologia del Antiguo Testamento, v. 1. Salamanca, 1975.
- SCHMIDT, W. H. Aspectos de uma história da sociedade de Israel. Estudos Teológicos, São Leopoldo, 21 (3): 173-184 1981.
- SCHWANTES, M, A Cidade e a Torre (Gn 11.1-9). Estudos Teológicos, São Leopoldo, 21(2):75-106, 1981.
- VV.AA. Israel e Judá: Textos do Antigo Oriente Medo. Col: Documentos do Mundo da Bíblia, n9 2, São Paulo, 1985.


Autor(a): Evaldo Luiz Pauly
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Pentecostes

Testamento: Antigo / Livro: Gênesis / Capitulo: 11 / Versículo Inicial: 1 / Versículo Final: 9
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1986 / Volume: 12
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 14513
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