Gênesis 11.1-9

Prédica

Gênesis 11.1-9 - EXAUDI

Prezada Comunidade! 

Às vezes olhamos ao nosso redor e ficamos embasbacados. Quanta discórdia! Quanto mal-entendido! Quanta dificuldade de comunicação, de compreensão mútua! Em todos os setores e em todos os âmbitos: desde a alta política internacional até o reduto da nossa própria vizinhança. E a gente se pergunta: Por que tudo isso? Por que Deus permite? Por que é que ele não faz do homem um ser pacífico, compreensivo? Por que não há união, entendimento entre os homens? Nos tempos mais remotos do antigo Israel, há cerca de uns 3 mil anos, contava-se no seio do povo uma história que procura responder a estas perguntas. É a história que se encontra em Gênesis 11,1-9: 

Aconteceu que toda a terra tinha uma única língua e um só vocabulário. E, tendo eles partido do Oriente, deram com uma planície na terra de Sinear, e se radicaram lá mesmo. E eles confabularam entre si, dizendo: Vamos lá, vamos fazer tijolos e queimá-los bem! Os tijolos serviram-lhes de pedra e o betume, de argamassa. Disseram eles: Vamos construir para nós uma cidade e uma torre cujo topo chegue até o céu e façamos para nós um nome, para que não sejamos espalhados por toda a terra. Então o Senhor desceu para ver a cidade e a torre que os homens construíam. E o Senhor falou: Eles são um povo só e todos têm uma só língua. Isso aí é (apenas) o começo do seu fazer. Agora, nada mais lhes será impossível, seja lá o que pretendam fazer. Vamos lá, desçamos e confundamos lá mesmo a sua língua, para que ninguém mais entenda a língua do outro. Assim o Senhor os espalhou de lá sobre toda a superfície da terra e tiveram que parar de construir a cidade. Por isso a cidade se chama Babel, porque lá o SENHOR confundiu a linguagem de toda a terra e de lá o Senhor os espalhou sobre toda a superfície da terra. 

II

Prezada comunidade, para mim, esta é uma das histórias mais impressionantes do Antigo Testamento. Vejam bem o que os antigos israelitas nos testemunham aí. Eles dizem: Nos inícios não havia essa desunião. Não foi Deus que criou todas essas barreiras. No início, os homens tinham uma só língua e se entendiam, moravam juntos, trabalhavam juntos. E, juntos, chegaram a alcançar muita coisa. Juntos fizeram progresso e desenvolveram uma técnica importante: na falta de pedras, aprenderam a queimar tijolos, e usavam betume como argamassa, em suas construções. Aqueles homens souberam como desenvolver as capacidades que Deus lhes tinha dado, como a suas criaturas. 

E tudo ia muito bem, até que um belo dia aqueles homens resolveram dar o golpe, fazer a sensação: construir uma torre. Aproveitar a sua técnica para algo mais. Não se para fazer casas. Não! Para fazer uma torre!

Para que queriam esta torre? Qual era a sua intenção? O que pretendiam com ela? Três coisas: 1º. - A torre deveria chegar até o céu, atingir as regiões (segundo os antigos) habitadas por Deus. Queriam tornar-se vizinhos de Deus, de igual para igual. 2º. - Com a torre queriam fazer para si um nome. Queriam erguer um monumento para si. Algo que ficasse para atestar sua capacidade e glória para as gerações futuras. Algo que mostrasse que eles foram alguém. 3º. - A torre deveria evitar a dispersão deste povo. Deveria evitar que ele se espalhasse e se perdesse, se extinguisse no individualismo anônimo. A torre seria o instrumento da sobrevivência.

É para isso que eles usam aquela técnica, aquelas capacidades recebidas: para evitar o esquecimento no anonimato, para fazer um nome para si, para colocar-se ao lado do seu Criador. A torre, aquele monumento fabuloso, é o símbolo do titanismo do homem, que não se contenta com ser mera criatura, que quer equiparar-se aquele que o criou.

E o que faz Deus? Primeiro ele desce. Aquela obra monumental, fantástica no entender dos seus construtores, é tão minúscula, que Deus precisa descer, chegar mais perto para enxergá-la. 

E Deus resolve: Assim não dá! Não posso deixar toda essa potência na mão dessa gente. Em vez de aproveitar o que eu lhes dei para uma finalidade sensata, o que é que eles fazem? Vão lá e resolvem se levantar contra mim. Em vez de aproveitar a técnica e a força da sua união para o bem, para o benefício de muitos, o que é que eles fazem? Vão lá e só pensam em fazer um nome para si. Assim não dá! Isso é apenas o começo. Eles não conhecem limites. 

E o que faz Deus? Confunde a língua do povo. Comunicação interrompida - união desfeita. 0 povo se espalha. 

Estão vendo, prezada comunidade, o que aquele antigo povo de Israel nos diz aqui? Ele diz: Toda essa desavença, toda essa falta de comunicação entre os homens, essa dificuldade de entender-se mutuamente não foi Deus que fez. Isso tudo não estava previsto na criação. Quem provocou tudo isso foi o homem. Foi o homem com seu titanismo. Foi o homem, aproveitando sua força e sua união para se engrandecer, para ser alguém, para ser igual a Deus. E nesta tentativa absurda, nesta rebelião contra seu Criador, o que é que ele conseguiu? A dispersão, a desunião, a falta de comunicação, a própria inimizade. Toda essa dolorosa situação reinante é obra do homem.

III

Foi este, portanto, o erro daquele povo: Deus tinha estabelecido uma relação com este povo. Deus tinha dito: Eu criei vocês, o que vocês são, o que vocês têm - tudo fui eu que dei. Eu sou o Criador, vocês são minhas criaturas. O erro do povo foi romper esta relação estabelecida por Deus, foi deixar de ser criatura para ser igual ao Criador. 

E agora a situação aí está. Nós continuamos vivendo, milhares de anos depois, numa humanidade dispersa, desunida sob todos os aspectos. E então? Vamos jogar pedras naquela gente? Vamos apontar o dedo e dizer: É tudo culpa deles!? Acho que é melhor olhar um pouco para nós, para a nossa era, para o nosso mundo. 

O que é que este nosso mundo fez com as capacidades recebidas? O que é que se faz com a ciência, com a técnica que Deus nos permitiu desenvolver? Só para dar um exemplo: Quando Neil Armstrong pôs os pés na lua, um cientista americano disse: Agora, nada mais é impossível! Palavras que lembram muito bem o que Deus falou, na nossa história: Isso aí é (apenas) o começo do seu fazer. Agora, nada mais lhes será impossível, seja lá o que pretendam fazer.
O que é que se faz com a técnica? Antes de mais nada, se faz nome com a técnica. Mandam-se homens á lua, e todo mundo fica sabendo e ninguém mais esquecerá. Constroem-se armas fabulosas, bombas atômicas, bombas H, napalm, caças a jato e bombardeiros, submarinos e porta-aviões ... Para quê? Para defender e impor o nome. Com a técnica criam-se fantásticos instrumentos de influenciar a opinião pública, para impor o nome. Com a técnica fabricam-se casas, fabricam-se roupas, fabrica-se pão, fabrica-se tudo - para vender a outros; para vender aos que não têm e não conseguem fazer; para vender e ganhar e ter meios para fazer um nome. 

São as dádivas do Criador empregadas para fazer um nome, para impor respeito, para mostrar que se é alguém, para subir, para se por lado a lado com Deus. As dádivas do Criador transformam-se em armas para destroná-lo, para mostrar que aqui Deus não tem mais nada o que dizer ... em vez de se empregar esta técnica para saciar a fome de 2/3 da humanidade ... em vez de se usar a técnica para vestir, para curar, para dar moradia ao nosso irmão, que também é criatura, sem querer escravizá-lo, domesticá-lo. 

Como vemos, prezada comunidade, o nosso mundo constrói constantemente a torre de Babel. Mesmo disperso, mesmo com as barreiras impostas, continua a construção da torre. Continua a criatura erguendo-se contra seu Criador. 

Isso tudo num campo mais global. Mas o mesmo também acontece entre nós, cristãos, no campo pessoal. A relação entre Deus e nós, cristãos, não mais é uma mera relação Criador-criatura. Aqui a relação é mais íntima. O fundamento desta relação é a sua bondade, aquilo que nós chamamos de graça. Nesta relação Deus nos diz: Meu amigo, eu já te tirei da lama, eu já quebrei o teu galho, toda a tua ofensa contra mim está eliminada, não conta mais, eu dei meu Filho por ti para poder aceitar-te, para podermos ser amigos. Esta é a nossa relação com Deus, como cristãos. 

No entanto, nós insistimos em estragá-la. Nas insistimos em não entender que o nosso galho está quebrado de fato, que não precisamos fazer mais nada para nos salvar a nós mesmos, que Ele já fez isso por nós e que isso nos basta. Então, nós sempre de novo procuramos outra base de vida. Procuramos fazer o nosso nomezinho. Insistimos em construir a nossa torrezinha. E não notamos que isso é supérfluo para quem tem Jesus Cristo. 

E, então, nós usamos as mesmas armas, usamos a nossa técnica, usamos as capacidades que foram dadas a nós para a nossa torre, para mostrar aos outros que nós, sim, é que somos os tais. Come se a nossa própria vida dependesse da opinião dos outros. A nossa torre é a nossa posição profissional e social, é o status que apresentamos, a nossa residência, o nosso carro, a nossa família bem vestida, também o nosso primeiro lugar na escola, a nossa reputação. É nisso que nos baseamos. É nisso que fundamentamos nossa vida. Por isso é que lutamos. Pela nossa torre - e os outros que se lixem. 

E aqui nas nos voltamos contra Deus. Aqui nós destronamos o nosso Deus de Jesus Cristo. Com a construção da nossa torre, nos estamos dizendo: A tua graça não me basta, eu não confio muito nela, eu acho que o melhor é eu mesmo procurar dar um jeito. Eu não confio muito em ti como meu Salvador; acho que o meu salvador sou eu mesmo. 

E nos tornamos irmãos daqueles antigos construtores da torre. Irmãos na rebelião, irmãos no titanismo, irmãos na estupidez. Irmãos no pecado. Nós, porém, muito maiores do que eles. Eles se rebelaram contra o Criador. Mas nós nos rebelamos contra o Deus que veio nos oferecer sua graça, que veio nos tirar da lama. Nas ignoramos o braço estendido. Para nós a história da torre de Babel vale elevada ao quadrado. É uma prédica incômoda, esta prédica de hoje. Mas não se pode deixar por menos. A situação é grave de fato E o que Deus nos quis dizer hoje foi justamente isso. Foi apontar o monstruoso da nossa atitude em toda a sua extensão.

De maneira que agora, meus amigos, só nos resta uma coisa: vamos ser bem humildes, vamos confessar-lhe nossa rebelião, e vamos orar para que ele nos ajude e não nos deixe entregues a nós mesmos. 

Oremos: Senhor Deus, nos te confessamos do fundo do nosso ser que não merecemos a tua bondade, que sempre de novo procuramos ser os nossos próprios salvadores, que sempre de novo usamos as dádivas que tu nos deste para construir a nossa torrezinha. Perdoa-nos, Senhor! Perdoa a nossa rebelião. Perdoa o pouco caso que fazemos da tua graça. Dá-nos muita fé. Ajuda-nos a confiar que tu já fizeste tudo por nós; que nós não precisamos fazer um nome para nós; que agora podemos usar as tuas dádivas para o nosso irmão. E aceita-nos, Senhor. Não nos deixes entregues a nós mesmos. Por Jesus Cristo, te pedimos. Amém.

Veja:
Nelson Kirst
Vai e fala! - Prédicas
Editora Sinodal
São Leopoldo - RS

 


Autor(a): Nelson Kirst
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Páscoa
Perfil do Domingo: 7º Domingo da Páscoa
Testamento: Antigo / Livro: Gênesis / Capitulo: 11 / Versículo Inicial: 1 / Versículo Final: 9
Título da publicação: Vai e fala! - Prédicas / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1978
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Prédica
ID: 20310
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