Gênesis 18.1-10a (10b-14)

Auxílio Homilético

06/08/1995

Prédica: Gênesis 18.1-10a (10b-14)
Leituras: Colossenses 1.21-28 e Lucas 10.38-42
Autor: Norberto da Cunha Garín
Data Litúrgica: 9º Domingo após Pentecostes
Data da Pregação: 06/08/1995
Proclamar Libertação - Volume: XX


1. Arredando a cortina

Nosso texto é fantástico, especialmente se pudermos imaginar a cena que descreve. Se fosse possível filmá-lo, daria um documentário paisagístico sedutor: o carvalho; a tenda; o sol escaldante; os três homens; a água limpa e fresca para lavar os pés; o pedaço de pão; o vitelo tenro e bom; etc. Basta ler o texto para que a gente fique desejando estar bem no meio da cena.

Por outro lado, possui símbolos que necessitam ser decifrados para que a sua mensagem nos edifique.

Vamos entrar?

2. A primeira olhada

2.1. Os três homens

O desconhecido sempre carrega consigo uma porção de riscos. Nem sempre estamos dispostos a assumi-los, visto que de repente podem trazer consigo o engodo e a falsidade.
Somente o desconhecido, porém, pode provocar a curiosidade. Não se fica curioso diante de algo que é conhecido. A curiosidade está atrelada ao mistério, que em muitos casos pode provocar nossa veneração.

Os homens estão de pé diante da tenda de Abraão.

2.2. Abraão

O comportamento de Abraão não reflete uma atitude normal diante de desconhecidos. Ele corre ao seu encontro e os acolhe da melhor maneira possível. Sua postura é de veneração. Indica, muito claramente, que Abraão reconhece a presença de ahweh naqueles três personagens.

Abraão prostra-se diante deles.

2.3. Sara

Sara permanece oculta, como prescrevia o costume social da época. Não avança para os desconhecidos porque tem medo. Prefere a segurança de quem fica às costas do esposo. Ela tem medo de enfrentar o desconhecido e por isso não aparece para os três homens que estão diante de Abraão. Quando os três verbalizam a promessa de um filho, ela ri.

Sara escutava na entrada da tenda, atrás dele.

3. Entrando na tenda

Esta é uma perícope javista (Gn 18.1-14), que vem na sequência de uma perícope eloísta (Gn 17.15-22), tratando de tema semelhante, ou seja, a promessa de um filho para Abraão. Ora, Yahweh já tinha prometido, anteriormente (Gn 17.2), uma grande descendência ao patriarca. Entretanto, a esposa que lhe dera era estéril (Gn 11.30). O arranjo de encontrar uma descendência para ele através de uma escrava (Gn 16.3) não satisfazia completamente a promessa.

Tanto Abraão (Gn 17.5) quanto Sara (Gn 17.15) têm seus nomes mudados. Primitivamente essa mudança de nome tinha o sentido de mudar o destino da pessoa. Estava ligada à construção de uma outra caminhada. A mudança do nome significava a mudança de vida que Yahweh operava nas pessoas, tão profunda quanto a mudança da identidade.

A significação popular dos novos nomes pode ser entendida, no caso de abraham, como pai da humanidade ou pai das nações, enquanto que sarah quer dizer princesa e foi interpretado posteriormente como mãe dos reis. De qualquer forma, o nome Sara' está ligado à prática do culto à deusa Lua, própria especialmente das cidades de Ur e Haran.

O texto de Gn 18.1-14 é emoldurado pela repetição da promessa que aparece no capítulo anterior. Uma grande posteridade vai surgir para Abraão, e isso começa a partir de um ano após o encontro no carvalho de Mambré, na mesma estação do ano.

Sara não compreende a predição do mensageiro desconhecido e, por causa do medo, põe-se a rir. O filho da promessa é yshaq, que, a partir de uma tradução possível, pode significar que Deus ri por ele no sentido de que Deus tem alegria por ele. O riso de medo de Sara tem uma correlação com o riso de alegria de Deus. É um jogo de palavras muito próprio do javista. Esta foi também a reação de Sara diante da criança: Deus me deu motivo de riso, todos que o souberem rirão comigo. (Gn 21.6.)


4. Costurando os panos com palavras

4.1. Os panos da realização pessoal

O homem e a mulher, desde que reconheceram as marcas de sua presença sobre o Planeta, têm se empenhado na conquista de um estado de vida ao qual chamam realização ou felicidade. Para alcançar tal estado, têm empenhado altíssimos investimentos. Até sacrifícios são feitos em busca dessa tão almejada realização.

Faz parte dessa luta a compreensão da vontade de Deus mediada pelas diferentes religiões. A diferença está em que as religiões sempre procuraram encontrar essa realização numa base mais sólida e profunda, confessando que em Deus todas as pessoas se realizam. O plano divino é capaz de trazer a felicidade para toda e qualquer pessoa por causa de sua perfeita justiça.

Uma parcela dessa busca da realização pessoal é abrangida pelos medicamentos que prometem a felicidade imediata e sem maiores sacrifícios.

Em dezembro de 1987, a indústria farmacêutica Lilly & Company, sediada em Indianápolis, nos EEUU, lançou o famoso Prozac, um antidepressivo, com¬posto de cloridrato de fluoxetina, capaz de curar qualquer crise depressiva e restituir a felicidade e a realização pessoal. Em 1989 as vendas mundiais atingi¬ram a marca de 350 milhões de dólares. No ano seguinte pularam para 760 milhões de dólares (Folha de S. Paulo, 27/2/94, p. 5-6).

Podemos considerar que a tarefa do pregador hoje é ainda mais complexa na medida em que se proponha oferecer a resposta de Deus para as pessoas em sua busca de realização.

4.2. Os panos de Abraão e Sara

O casal Abraão e Sara vivia a contradição de trilhar os caminhos de Deus, mas amargar a frustração de não possuir filhos. Ambos já estavam em idade avançada. A desesperança havia ocupado o lugar de horizonte maior. A despeito da fé de Abraão, de toda a sua fidelidade a Yahweh, não possuíam filhos. Não podiam ter a alegria de sentir a vida continuando, como uma corrente que se projeta para o futuro. Faltava o elo que permitiria vislumbrar o amanhã. A dúvida, a frustração e a depressão certamente ocuparam o lugar da confiança pessoal. Qualquer mortal poderia colocar em xeque a promessa feita por Yahweh diante da ausência de filhos. O testemunho bíblico, no entanto, não registra nenhum deslize de Abraão. É possível supor que a desolação e o desespero estivessem à entrada da tenda de Sara e Abraão.

4.3. Os panos desconhecidos

Aparecem à porta da tenda de Abraão, no acampamento de Mambré, nas proximidades de Hebron, três homens de pé. Abraão, tomado de curiosidade, vai ao encontro deles.

O desconhecido sempre carrega consigo riscos ao mesmo tempo que desperta curiosidade misturada com mistério. Abraão sabe que o desconhecido pode trazer consigo o engodo, mas sabe também que é no desconhecido que pode habitar o novo — a realização, a felicidade.

Abraão identifica no desconhecido a presença do novo. Não apenas um novo qualquer, mas um novo repleto de possibilidades. Deus, certamente, estava reafirmando sua promessa de uma grande posteridade. Ele se joga para fora da tenda ao encontro do desconhecido simbolizado na presença daqueles três personagens.

Diante do desafio, a atitude de resposta de Abraão é de acolhimento aos desconhecidos que se apresentam diante da porta de sua tenda. Ele se prostra com a finalidade de dignificá-los numa clara postura de veneração. Percebe que Yahweh está ali.

Prostra-se diante deles e suplica que fiquem um pouco com ele. Reconhece neles a presença do misterioso, do sagrado que vem para habitar com ele.

Para Abraão, a presença desse sagrado, que ele reconhece, representa um novo momento para sua vida. Ele acolhe os desconhecidos e lhes prepara a melhor refeição.

Sara, ao contrário, permanece oculta diante do desconhecido. Não se permite arriscar, visto que não identifica o misterioso, o sagrado naqueles que chegam à porta de sua tenda em Mambré. O medo desse desconhecido a leva ao riso, que é percebido pelos chegantes.

4.4. Os novos panos

A segurança das formas elaboradas, estabelecidas e comprovadas pelo uso leva a muitas soluções para a vida humana — só não conduz ao novo. Torna-se um constante rodar em velhas estradas cujas paisagens já foram vistas e revistas pelo viajante.

O desconhecido sempre carrega para o inesperado. Um momento de ansiedade e êxtase forma-se antes do encontro fatal.

Abraão escolhe o inesperado — vai ao encontro do desconhecido para sentir de perto o sabor do novo. Tem a certeza de que Yahweh lhes mostrará uma nova luz em seu olhar e, diante dos desconhecidos, enche-se de veneração. O seu coração manifesta a hospitalidade para acolher quem está chegando, não se sabe de onde. Prefere correr o risco de se meter num engodo a perder a oportunidade de tocar o misterioso (o sagrado).

Sara refugia-se atrás de Abraão porque teme se arriscar. Deseja abrigar-se às costas do esposo, um lugar familiar e aconchegante. Busca o caminho conhecido e seguro, abrindo mão da possibilidade do novo. Renuncia ao sagrado por medo de perder o que já não possui mais. Seu coração havia se tornado descrente e a desesperança tinha tomado conta de sua alma. Fica distante do sagrado para não ser tocada pelo misterioso.

O desconhecido resolve anunciar o inacreditável para quem não se aventurava mais à vida. Diante da dúvida e da incerteza proclama a realidade do misterioso (o sagrado): onde houver a desesperança e o medo, onde estiverem plantadas a morte e a incredulidade, Yahweh planta a certeza carregada pela vida que explode em meio à sepultura do descrédito.

5. Ocupando a tenda

Diante de nossos olhos está o desconhecido. Pode ser representado pelo amanhã, pelo conhecimento que ainda não temos, pelo sagrado que ainda não provamos, pela vida que ainda não vivemos, não importa — estamos diante do desconhecido.

De outro lado estão os Prozacs da vida com suas ofertas mirabolantes, prometendo alegria e realização sem riscos e sem dor, capazes de transformar vidas amargas e tristes em pessoas cheias de felicidade e realizações sem qualquer contato arriscado com o sagrado.

As ofertas de resultados fáceis estão sempre nas vitrines de drogarias, supermercados, shopping centers, etc. Aliam-se a essas ofertas ideologias e pregações políticas com propostas mirabolantes. A tentação de comprar uma solução conhecida que possa resolver os problemas de uma só vez está sempre em pauta.

O caminho que Deus nos oferece, o de construir um reino onde as relações sejam pautadas pela justiça, contando sempre com o excedente — a sua graça —, é o mais complicado e difícil. Ele exige compromisso e comprometimento. São poucos os que abraçam o caminho trabalhoso, cujo resultado é incerto, desconhecido.

Diante de nós está sempre o desafio:

a) ou encaramos o desconhecido e nos arriscamos ao novo que pode estar contido nele, sabendo que estamos apostando a vida contra a insegurança a cada dia;

b) ou nos tomamos vendedores de Prozac, cuja segurança de sucesso e satisfação é comprovada no mundo inteiro.

Para quem desejar se prostrar diante do desconhecido há uma promessa: através dele Deus pode penetrar nas entranhas de nossas vidas e fertilizá-las, com o seu Espírito. Ele quer nos transformar, restaurando a alegria que não vem do cloridrato de fluoxetina, mas do Espírito de Deus.

6. Sugestão de símbolos litúrgicos

Prepare um cenário atrás do púlpito, ou noutro lugar bem à vista de todos, onde apareça alguma sombra refletida num pano (lençol, colcha, toalha) que só poderá ser descoberta após a mensagem. É importante que o objeto que projeta a sombra sobre o pano tenha um sentido dentro da mensagem (uma Bíblia semi¬aberta, um conjunto de cálices de Santa Ceia, cruzes entrelaçadas, etc.).

Outra possibilidade, se não houver jeito de improvisar uma sombra: coloque algum objeto simbólico sobre uma mesa, bem no meio do templo, e o cubra com um pano, assegurando-se de que somente ao final da mensagem é que esse objeto será descoberto.

Urna outra possibilidade ainda seria a de criar uma cena através de uma história contada durante a mensagem, sendo que somente ao final o pregador revelaria os detalhes dos personagens da história.

7. Bibliografia

BUTTRICK, George Arthur. The Interpreter´s Dictionary of the Bible. New York, Abingdon, 1962.
DE VAUX, R. Instituciones del Antiguo Testamento. Barcelona, Herder, 1964.
Enciclopédia de Ia Bíblia. Barcelona, Garriga, 1963. v. 4 e v. 6.
KIRST, Nelson; KILPP, Nelson; SCHWANTES, Milton et al. Dicionário Hebraico-Português & Aramaico-Português. Petrópolis, Vozes; São Leopoldo, Sinodal, 1988.
ORCHARD, B; SUTCLIFFE, E. F.; FULLER, R. C.; RUSSEL, R. Verbum Dei: Comentário a la Sagrada Escritura. Barcelona, Herder, 1960. v. 1.
SCHWANTES, Milton. A Família de Sara e Abraão. Petrópolis, Vozes, 1986.


Autor(a): Norberto da Cunha Garín
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Pentecostes
Perfil do Domingo: 9º Domingo após Pentecostes
Testamento: Antigo / Livro: Gênesis / Capitulo: 18 / Versículo Inicial: 1 / Versículo Final: 10
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1994 / Volume: 20
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 17723
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É isto que significa reconhecer Deus de forma apropriada: apreendê-lo não pelo seu poder ou por sua sabedoria, mas pela bondade e pelo amor. Então, a fé e a confiança podem subsistir e, então, a pessoa é verdadeiramente renascida em Deus.
Martim Lutero
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