Gênesis 22.1-14 (15-18)

Auxílio Homilético

16/02/1997

Prédica: Gênesis 22.1-14 (15-18)
Leituras: Romanos 8.(31-34) 35-39 e Marcos 1.12-15
Autor: Günter A. Wolff
Data Litúrgica: 1º. Domingo da Quaresma
Data da Pregação: 16/02/1997
Proclamar Libertação - Volume: XXII


1. O Mito

1.1. Como Era

O que Abraão faz, sacrificar o filho primogênito, não tem nada de anormal para a sua época. Era uma lei geral de seu tempo, aceita por todos e por isso considerada divina. Por isso não é nada anormal Deus pedir que ele faça o que todos faziam: sacrificar o filho primogênito.

O tema do sacrifício de crianças estava em voga nos sécs. 7 e 8 a.C., como podemos ver em 2 Rs 3.27, em que o rei Moabe sacrifica o seu filho em cima dos muros da cidade com o objetivo de fortalecer os muros contra seus inimigos. Já em Dt 12.31 o povo de Israel é alertado para não imitar os povos cuja terra conquista porque eles têm outros deuses e sacrificam crianças a eles. Em Lv 18.21 e 20.2-5 também se fala em não seguir ao deus Moloque, que exige sacrifício de crianças. Em 2 Rs 23.4-14 se fala da limpeza que Josias fez no templo de Jerusalém e arredores tirando as estátuas de outros/as deuses/as que os reis haviam posto ali. O v. 10 lembra que Moloque exigia sacrifício de crianças. Nas cidades cananeias de Megido, Gezer e Jericó foram encontrados ossos de crianças sacrificadas quando se construíram os muros da cidade. Em Israel, no tempo dos juízes, temos o caso de Jefté, que sacrificou sua filha para cumprir um voto, após a guerra — coisa de general. Mas também o rei Acaz de Judá sacrificou o seu filho, como lemos em 2 Rs 16.3, e em 2 Rs 17.17 se diz que isso era prática comum no Reino do Norte e que por isso (entre outras coisas) ele foi destruído. Este último texto é precedido nos vv. 15-16 pela afirmação de que no Reino do Norte também se praticava a adoração a Baal e outros ídolos.

É bom lembrar que todos os textos que falam de sacrifício de pessoas dizem que foi o Estado e não a família que sacrificou. No caso de Jefté era o Estado emergente (líder guerreiro, general) que sacrificou. Essa era, pois, uma prática e tradição do Estado, não da família, do clã, da tribo.

Para que se sacrificava? Basicamente são dois os momentos que requerem a morte da criança: 1) para superar crises e dificuldades agudas, pelas quais passa uma sociedade toda (seca, peste, etc.); nessas ocasiões busca-se aplacar a divindade com sacrifício de crianças; 2) para estabilizar as instituições do Estado: exército, muro da cidade, dinastia; não é por acaso que no Antigo Testamento em geral é o rei e o general que sacrificam crianças. Assim sendo, a morte de crianças está fundamentalmente no interesse do Estado social e essencialmente de suas instituições estatais. (Milton Schwantes, A Família de Sara e Abraão, p. 89.)

O Estado necessita da morte de crianças para se legitimar e se fortalecer, para existir.

1.2. Como Ficou

O texto foi produzido no séc. 8 e posto no início da Sagrada Escritura para deixar claro que já desde a Antiguidade Deus era contra a prática do sacrifício de crianças. Além disso, essa prática era uma prática do Estado, não da família, como aparece em Gn 22. O texto quer proteger a criança que estava ameaçada pelo Estado, pela fome e pela escravidão geradas pelo Estado (2 Rs 4.1-7).

A questão do sacrifício de crianças é uma questão de fé em Javé ou fé nos deuses dos povos vizinhos, de onde Israel copiou a forma de Estado e religião. Quem sacrifica crianças não está na tradição dos patriarcas e nem na sua fé. Esse relato é, pois, um ataque à prática do Estado. Javé institui uma nova prática: o não-sacrifício de crianças. Isso representa uma novidade religiosa e uma contestação à prática assassina do Estado, bem como uma denúncia: quem sacrifica crianças não tem Javé como seu Deus e está usando uma prática religiosa pagã. Sacrifício de crianças é coisa de pagão.

Agora o mito é um novo mito. O mito que requeria a morte agora requer a vida; está totalmente recriado e posto a serviço da vida. Esse texto calou fundo no povo de Deus, pois no NT se fala dele em Hb 11.17-19 e Tg 2.20-22.

Aqui Abraão rompe com a lei e por isso tem que se mudar para Berseba, que fica no Neguebe, deserto ao sul. Mas Abraão é uma pessoa livre, e é só por ser livre que pode romper com a lei. Ele é livre para não sacrificar seu filho, não é escravo da lei, está acima da lei. Com isso ele diz que obedece ao Deus da vida e destrói o mito do sacrifício do filho pelo pai. Rompe com a cultura cananeia alicerçada no Estado que requer esse tipo de sacrifício para se autopreservar.

Deus abençoa Abraão por ter desobedecido à lei do sacrifício de crianças, por ter desobedecido à tradição dos deuses cananeus que legitimam o Estado. A prova da parte de Deus pode ter sido: se ele é capaz de matar teu filho, não tem fé e, portanto, não merece a promessa. Ao negar-se a matar, mostra sua fé e que não nega o filho a Deus (Franz J. Hinkelammert, p. 53). Sacrifício de crianças, de pessoas sempre está ligado à luta pelo poder, tanto na tradição cananeia como na de Israel, quando acontece (Êx 32.26-29; 22.29; Jz 11.30-40). Desobedecer é algo novo e inusitado, o normal é fazer o que todos fazem, é se aliar ao poder e à ideologia da classe dominante.

2. Conflito Central — O (Não) Sacrifício de Isaque

A palavra filho aparece 17 vezes no texto, a palavra pai 16 vezes e a palavra sacrifício seis vezes, o que demonstra que o conflito gira ao redor dessas palavras.

Todo o texto fala claramente sobre o problema do sacrifício da criança chamada Isaque. Assim, problematiza todo o sacrifício de crianças. O texto deixa claro que Deus é contra essa prática. Esta era uma prática dos deuses cananeus e demais povos, cuja religião legitimava o Estado que necessitava dessa prática. O Estado era quem sacrificava crianças, pois é injusto por princípio, pois surgiu para proteger apenas uma classe social. Assim, o sacrifício de crianças vem a favorecer essa classe social económica e politicamente dominante. O Estado e a classe dominante necessitam da morte de crianças para se protegerem e para progredirem economicamente.

Era, pois, uma lei religiosa sancionada pelo Estado, pois os dois são inseparáveis na Antiguidade. O que Abraão faz é desobedecer essa lei religiosa (imposta pelas necessidades do Estado), e por isso tem que se mudar, depois, para Berseba. Com isso Abraão não questiona apenas a religião que requer sacrifícios de crianças, mas questiona também o Estado que é construído em cima da morte de crianças e demais pessoas fracas.

Assim, Abraão é uma pessoa livre da lei e está acima da lei, pois a desrespeita a partir de um pedido do Deus da vida. Abraão viola a lei a pedido de Deus. Com isso ele se coloca sob a vontade do Deus que quer preservar as crianças e é contra o Estado que necessita da morte de crianças para se proteger. Assim, Deus é contra o sacrifício de crianças, e quem o faz não segue ao Deus de Abraão. Se alguém quer proteção de Deus não pode sacrificar crianças: esta é uma frase contrária ao mito existente. Se o Estado necessita da morte para existir, então é uma instituição contrária à vontade de Deus, que diz que para existir necessitamos de vida e não de morte. O texto diz que quem não sacrifica é abençoado, o que é o contrário do mito existente, que requer o sacrifício para receber a proteção dos deuses. Só recebe proteção de Deus quem preserva a vida das pessoas (crianças). Abraão é abençoado por quebrar e desobedecer a lei do mais forte. A criança simboliza e é uma pessoa fraca; se o Estado necessita, para se proteger, matar crianças, isto significa que ele necessita matar as pessoas fracas para existir. Se o Estado pode matar crianças, que são pessoas fracas, pode também matar qualquer pessoa fraca. Esse texto, de fato, denuncia o Estado (a classe dominante) que oprime até a morte os fracos para se proteger e existir.

Na verdade, com o sacrifício do fraco se coloca de maneira clara o que está acontecendo: o Estado (a classe dominante) necessita do sacrifício do fraco para progredir, para viver. A morte resultante do sacrifício do fraco (criança) é a expressão mais pura do cotidiano, se legitima por meio da religião o que acontece diariamente, se sacraliza o massacre que o Estado (classe dominante) promove diariamente, dizendo que o massacre do fraco (criança) é vontade divina para a proteção de toda a nação.

Com o texto onde Abraão não sacrifica se desnuda tudo o que envolve o sacrifício (massacre) dizendo que a vontade de Deus é exatamente o contrário. É a denúncia do massacre. E se aponta para a preservação da vida do fraco (criança) como a vontade de Deus. E somente quem faz isso é abençoado. A bênção de Deus flui da vida, não da morte. A ordem de Deus é desobedecer mitos, leis que requerem a morte; matar não traz bênção.

3. Sacrifício hoje

3.1. Crianças

É só pesquisar um pouco e se descobre em noticiários de TV, revistas e jornais que hoje o sacrifício de crianças no altar do deus Capital continua movimentado. São massacres de menores abandonados, crianças desaparecidas, meninos e meninas de rua aumentando, trabalho escravo de crianças e adolescen¬tes e por aí afora. Nesta altura é bom perguntar se alguém já viu uma vez um bezerro abandonado, uma vaca ou um boi abandonado; se já viu, foi por pouco tempo, pois logo alguém se dispôs a adotá-lo. Agora, crianças abandonadas há milhares neste país. E, se incomodam, sempre há um pistoleiro contratado por comerciantes ou um policial para matar algumas. Para o deus Capital o sacrifício tem que continuar!

Deus não quer as crianças mortas, mas as quer vivas. Nós temos que fazer um sacrifício para que todas as crianças vivam, e vivam plenamente.

3.2. Mulheres

Entre as pessoas fracas aptas para o sacrifício estão as mulheres que são contrabandeadas para o exterior, principalmente para o chamado Primeiro Mundo, para servir de objeto de cama e mesa, para acalmar os ânimos dos insatisfeitos com os rumos que as coisas estão tomando no Paraíso do Capital.

Mas não é só de contrabando de mulheres que o Brasil vive. Ele vive também da violência nossa de cada dia a que as mulheres estão sujeitas nos lares para despistar os verdadeiros motivos da desgraça e pobreza dos marginalizados. Como não se sabe direito em quem bater para descarregar a raiva da miséria, se bate na mulher, que está mais próxima, já que no patrão é difícil chegar para bater — isto para os que ainda têm patrão; a maioria nem patrão tem mais. A teologia do capital diz que é necessário haver sacrifícios, então sacrificam-se as mulheres em casa, no trabalho e na rua quando ousam levantar a cabeça para exigir justiça e direito.

3.3. Homens

O homem pode, até, se considerar um forte, mas frente ao capital ele é um fraco. Falo do homem da classe trabalhadora. Aí ele é enquadrado no sacrifício geral de todos os crentes e não-crentes. Isto nos lembram os Carandirus, os Corumbiaras, os Eldorados, os Vigários Gerais, as Candelárias da vida onde o sacrifício não tem idade nem sexo. Tem apenas classe social!

3.4. Sacrifício no Altar do Deus Capital

Viver não é preciso, sacrificar é preciso. Na verdade o altar do deus Capital sempre é apresentado limpo, sem manchas de sangue. Até uma guerra em que morreram 120 mil pessoas, como a do Golfo, foi mostrada sem o sangue das vítimas do sacrifício, ao vivo. A qualidade total do sacrifício ao deus Capital exige limpeza e muito lucro.

3.4.1. Lei Exige Sacrifícios para que Haja Progresso

A lei do mercado, da livre concorrência, da economia de mercado exige sacrifícios para que haja progresso. Sem sacrifícios da população não há progresso. Portanto, sacrifiquem-se para aplacar a ira do deus Capital e serão abençoados todos os capitalistas eficientes. Só que o sacrifiquem-se vale somente para a classe trabalhadora.

3.4.2. Desobediência à Lei do Capital

A luta para acabar com o sacrifício está baseada na fé no Cristo ressurreto, que foi sacrificado para que não haja mais sacrifícios. Não bastou o texto de Gn 22, Deus teve que dizer isto novamente através de Jesus Cristo: basta de sacrifícios humanos! Por isso a nossa fé neste Deus vivo nos impele na luta contra todos os sacrifícios pedidos pelo deus Capital, que é muito voraz e ávido do sangue de suas vítimas.

Lembremos de Ap 18.4: Retirai-vos dela, povo meu, para não serdes cúmplices em seus pecados. Retirai-vos do sistema capitalista que vive para matar e mata para viver; essa é a sua prática diária. Como comunidade de Jesus Cristo não podemos compactuar com um sistema baseado na morte para obter lucro e que se apresenta como o fim da história (não há mais nada após ele, acabou a esperança!).

4. Propostas para hoje

1) Levantar a bandeira do não-sacrifício e denunciar o sacrifício.

2) Derrubar os altares do deus Capital, identificando-o.

3) Jesus Cristo se sacrificou por nós e não há mais necessidade de sacrifício humano para agradar a Deus ou para ser abençoado por ele (Javé ou Capital). A morte de inocentes não traz bênção!

5. Bibliografia

COLUNGA, Alberto & CORDEIRO, Maximiliano Garcia. Genesis. 3. ed. Madrid, Católica, 1967. (Biblia Comentada, 1).
HINKELAMMERT, Franz. A Fé de Abraão e o Édipo Ocidental. RIBLA, Petrópolis, Vozes; São Leopoldo, Sinodal, 1989. vol. 3 (A Opção pelos Pobres como Critério de Interpretação).
SCHWANTES, Milton. A Família de Sara e Abraão. São Leopoldo, Sinodal, 1986.
—. Não Estendas Tua Mão contra o Menino. RIBLA, Petrópolis, Vozes; São Leopoldo, Sinodal, 1991. vol. 14 (Misericórdia Quero, não Sacrifícios).


Autor(a): Günter Adolf Wolff
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Quaresma
Perfil do Domingo: 1º Domingo na Quaresma
Testamento: Antigo / Livro: Gênesis / Capitulo: 22 / Versículo Inicial: 1 / Versículo Final: 14
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1996 / Volume: 22
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 17652
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