Gênesis 50.15-21

Auxílio Homilético

11/09/2011

Prédica: Gênesis 50.15-21
Leituras: Mateus 18.21-35 e Romanos 14.1-12
Autor: Hans alfred Trein
Data Litúrgica: 13º Domingo após Pentecostes
Data da Pregação: 11/09/2011
Proclamar Libertação - Volume: XXXV 

Quando o passado não pesa mais,

Deus transforma o mal em bem.

1. Introdução

Faz 10 anos que um ato terrorista com milhares de mortos colocou abaixo as Torres Gêmeas, um símbolo do poder ocidental. O episódio reveste-se de significado histórico. Depois dele, o mundo não é mais o mesmo. As represálias foram expressas em duas guerras vingativas e punitivas de caráter intercultural e inter-religioso: Ocidente contra Oriente e cristãos contra muçulmanos. A relação entre as culturas foi colocada drasticamente na agenda mundial, de um lado, evidenciando a assimetria imperialista reinante e, de outro, a fragilidade de entendimento entre as culturas. Aos arautos da supremacia do Ocidente e aos profetas da guerra entre as culturas opõe-se o projeto de diversidade cultural e étnica. Através dele, desde os tempos pré-históricos da Torre de Babel, Deus busca uma alternativa de sobrevivência para o planeta. À imposição pela força opõem-se a firmeza e a permeabilidade da kenosis.

Os irmãos de José do Egito, após a morte do pai Jacó, esperavam que ele se vingasse pelo mal que lhe tinham causado. Mas Deus mudou o mal em bem para salvar muita gente. José acalmou seus irmãos com palavras carinhosas, que tocaram seus corações. A reflexão de Jesus em Mateus sobre perdoar setenta vezes sete ao nosso irmão lembra-nos a nossa dívida infinitamente maior já perdoada por Deus, diante da qual nossas cobranças mútuas passam à categoria de picuinhas. Se não lidarmos consequentemente com elas, anulamos o perdão de nossa dívida maior. Na Carta aos Romanos, ressalta-se a diversidade de usos e costumes com comida e o tempo como sendo para a glória de Deus. Que cada qual permaneça firme em seus pensamentos diferentes! Nada de atropelos, pois tudo recebe sua finalidade em Cristo.

2. Exegese

José teve uma história impressionante. Como filho mais novo, queridinho do já idoso pai Jacó, permitia-se algumas liberdades, que enfureceram seus irmãos. Um dia, veio a vingança dos irmãos: venderam-no como escravo para o Egito, o império de então. Lá sua história continuou com altos e baixos. Sua máxima de temer a Deus e fazer o que é justo guiou sua vida e marcou seu comporta mento nessa terra e cultura estranhas. Lentamente, foi consolidando sua trajetória até o mais alto posto de confiança do Egito. Ali é confrontado novamente com seu passado, com seus irmãos, agora enfraquecidos pela fome e pela necessidade. A tentação de fazer valer seu poder, pelo menos numa brincadeira para borrar de medo seus antigos malfeitores, acaba sendo superada exatamente pelo temor a Deus que o leva a fazer o que é justo.

Temer é um misto entre ter medo, venerar e adorar. Juntam-se nesse termo a adoração pelo Criador, pelo poderoso e santo, com o temor de que ignorá-lo pode resultar em desgraça. O temor a Deus impediu que José traísse a confiança de Potifar; por isso não cedeu às seduções da esposa dele. O temor a Deus motivou-o a respeitar os hebreus, mesmo quando suspeitos de espionagem, respeito a um direito humano básico. Temer a Deus implicou perdoar e desistir de qualquer revanchismo contra os irmãos. O temor a Deus impediu que ele partisse para abuso do poder quando ministro do faraó, negociando com a população faminta... O temor a Deus parece ter sido uma postura reguladora de toda a vida de José. Com ela José integrou-se sem problemas na cultura egípcia, totalmente diferente da sua. Em resumo: o temor a Deus leva a gente a fazer o que é justo. Em nosso texto, José percebe que os irmãos o temem. Mas temor é devido apenas a Deus. E José não é Deus. Essa distinção – que é tudo menos óbvia naqueles tempos – faz de José um precursor do Estado laico.

Certamente não é um acaso que os irmãos invocam em José a memória ainda enlutada com a morte do pai para dar ênfase a seu pedido de perdão. Não acreditam que eles próprios tenham moral suficiente para mover o coração de José a uma atitude condescendente. A estrutura mental dos irmãos é aquela do “quem pode mais chora menos” ou “manda quem pode e obedece quem tem juízo”. Quem está por cima tem poder, quem está por baixo se curva, entrega-se como escravo. Com sua atitude de perdão, com seu temor a Deus somente, José rompe com essa lógica e cria uma outra realidade. Essa outra lógica, no fundo, é o evangelho experimentado pelos irmãos.

Outra reflexão necessária é aquela que enfatiza o Deus do “Antigo Testamento” como um Deus vingativo, violento e cruel em contraposição ao do “Novo Testamento”, que é amável, perdoa, é bonzinho acima de tudo. Esse é um engano produzido por uma hermenêutica que não conseguiu livrar-se totalmente da síndrome de Marcião (cortar o Antigo Testamento da Bíblia cristã) e da ideia de que o cristianismo veio substituir um judaísmo degradado. Essa hermenêutica que chama de antíteses as radicalizações de Jesus no Sermão do Monte e que foi capaz de perverter o sentido original restaurativo do “olho por olho e dente por dente” deve ser urgentemente abandonada em favor de uma hermenêutica analógica entre o Primeiro e o Segundo Testamentos. Deus é o mesmo, e sua conduta é analógica. Ele transforma mal em bem para salvar a vida de muita gente. O temor a esse Deus capacita mesmo poderosos tentados à vingança a uma atitude de perdão e de carinho.

3. Meditação

Os três textos relacionados para o domingo de hoje tematizam o perdão. Cada um a seu modo constata que a vida nos coloca diante de situações e dilemas e propõe uma atitude fundamental de compreensão, de superação, de respeito pelo outro. José foi amadurecido por sua trajetória de vida numa cultura estranha. Tendo alcançado nela um alto posto de poder, foi recompensado por Deus, que transformou mal em bem e não recaiu na mesquinharia do sentimento vingativo. Pelo contrário, tratar seus antigos malfeitores com generosidade e carinho causou-lhe grande alegria. Não reconhecer o dedo de Deus mantém a atitude mesquinha. Entretanto, ser perdoado e não perdoar implica juízo. Perdoar é mais difícil e desafiador quando se passa de uma cultura para outra, pois então valores e símbolos são muito diferentes, costumes às vezes incompreensíveis para o outro. Perdoar os inimigos e orar pelos que nos perseguem talvez seja o ápice desse desafio à compaixão. Alguns estudiosos das religiões destacam exatamente esse postulado como exclusivo na fé cristã. Não fui atrás para confirmar isso.

Costumamos associar perdão com o âmbito religioso. O perdão solicitado e anunciado em celebrações religiosas pode levar à sua bagatelização. É tão fácil vir ao culto, pedir perdão, recebê-lo de graça, voltar para casa e tocar a vida. Quem não tem consciência do pecado obviamente não sentirá necessidade de pedir perdão. No senso comum vale: não matei, não roubei, não forniquei... vou pedir perdão para quê? Não temos, às vezes, a sensação de que tudo isso é um grande teatro ritualizado que a gente cumpre, mas que não tem efeito sobre o cotidiano?

Os textos bíblicos de hoje exemplificam situações de vida que não estão num contexto necessariamente religioso. O maltratado tornou-se poderoso, a pessoa está endividada ou tem outros usos e costumes... São situações que geram conflito de relacionamento e convivência e, em geral, resultam em demandas judiciárias. É para dentro desse cotidiano que somos convocados/as a anunciar o evangelho.

Está recebendo o nome de justiça restaurativa uma prática ainda em caráter muito incipiente e experimental no Judiciário Brasileiro, que tem o objetivo de restaurar relações entre ofensor e ofendido, propondo superação da violência e pacificação – bem no sentido original do antigo “olho por olho e dente por dente”. Há juízes e operadores/as do direito investindo para que essa prática possa ser realizada também dentro das instituições judiciais do Estado, se não como processo regular, pelo menos como procedimento complementar. A justiça restaurativa é proposta em contraposição à justiça retributiva em vigor. Para auxiliar na compreensão, duas breves caracterizações que você pode ampliar consultando a internet (veja bibliografia):

A justiça retributiva entende o crime como violação ao Estado. A justiça determina culpa e administra a pena, sujeita à sanção. Atualmente, a técnica da defesa é negar a responsabilidade. Aqui imperam culpa, perseguição, imposição, castigo, coerção.

  • A justiça restauradora entende crime como violação a pessoas e relacionamentos. Envolve a vítima, o ofensor e a comunidade. Incentiva o assumir responsabilidade. Objetiva restaurar o estado ideal, original. Cria obrigações, acordos e compromissos. Remete às pessoas ofendidas e aos relacionamentos. A vítima pode dizer o que espera. Aposta na dignidade humana. Aqui predominam responsabilidade, encontro, diálogo, reparação do dano, coesão.
  • Estrategicamente, a humanização da justiça restauradora tem que se dar a partir de fora da justiça institucional. Dentro dela não é possível, dado à montanha de casos que precisam de um tratamento sumário.
  • Testemunho de juiz: Aprendi como julgar. Desde que conheci a justiça restaurativa tive que desaprender tudo o que aprendi. Na justiça restaurativa, não sou ninguém para dizer como as necessidades de uma vítima podem ser restauradas.
  • É necessário reforçar os processos de justiça restaurativa, incluindo a mediação de conflitos.
  • Núcleos de justiça popular são coisa nova; vem da década de 1980; são espaços políticos de aprendizado e transformação.
  • No interior do Senegal, quando duas pessoas estão se confrontando, não se tem apenas os vivos presentes no confronto, mas também os mortos. Negar responsabilidade significa enfrentar os espíritos dos mortos, forças invisíveis e poderosas. São práticas culturais que podem servir de modelo. Assim também as práticas de povos indígenas.

4. Imagens para a prédica

4.1 – Primeiro causo

Dois adolescentes assaltaram um policial à paisana. Esse reagiu com a arma que tinha escondida na canela. Um menino conseguiu fugir. O outro foi alvejado na perna e preso. Depois de julgado e condenado, a vítima do assalto visitou o menino agressor na FASE, onde cumpria internação com medidas socioeducativas. Na sequência, realizou-se um encontro entre o agressor e a vítima juntamente com os familiares de ambos. O círculo restaurativo foi moderado por um juiz, em que todo o episódio pôde ser analisado e sentimentos puderam ser manifestados. Houve oportunidade para o agressor dizer que sentia muito arrependimento do que fizera, assumir a responsabilidade por seu ato e pedir perdão. O policial vítima afirmou estar aliviado por não ter morto o garoto. Os familiares de ambos puderam dar depoimentos afirmativos da dignidade dessas duas pessoas, conhecer e olhar nos olhos uns dos outros na busca por superação desse ato de violência. No decorrer das conversas, soube-se que a mãe do ofensor se suicidara. Psicanalistas leram o episódio como uma tentativa do ofensor de reencontrar a mãe. A cura psíquica dá-se no momento em que o ofensor constata durante a conversa: “Agora a minha vó está no lugar de minha mãe”. Uma necessidade interna de reconciliação com sua mãe levou a um ato violento, resultante de uma necessidade não-atendida. A história do menino que, há alguns anos, manteve refém um ônibus da Linha 174 no Rio de Janeiro com desfecho trágico é muito semelhante.

4.2 – Segunda ilustração

Sempre me pergunto sobre qual será a sensação dos familiares de uma vítima de assassinato que assistiram à execução do assassino condenado à pena de morte? É costume num povo indígena africano que a comunidade toda participe do julgamento de um ofensor. Em caso de uma condenação à morte por assassinato, o condenado é amarrado para ser jogado num rio de piranhas. A família ofendida é a única que pode impedir essa pena de morte, resgatando o condenado da correnteza. Isso significa em última análise: a família ofendida, mesmo que por um crime de assassinato, nesse momento está decidindo se está disposta a livrar-se do peso da ofensa sofrida e buscar um novo começo ou se quer assumir a duvidosa satisfação de carregar sua consciência com mais uma morte no intuito de compensar o dano sofrido ou vingar a morte do familiar querido (cena do filme “A intérprete” nas videolocadoras).

4.3 – Terceira experiência

Em 2005, conheci um homem que perdeu as duas mãos num atentado de carta-bomba na África do Sul e tornou-se o mais aguerrido lutador pela paz. Trata-se do ativista político do Congresso Sul-Africano Michael Lapsley e de sua impressionante trajetória para superar o papel de vítima (confira www.healingofmemories.co.za). Com duas mãos mecânicas e uma notável precisão no uso cotidiano (conseguia tirar um cartão do bolso da camisa sem dificuldades), ele se apresentava com a frase: I am no longer a victim, nor even simply a survivor. I am a victor over evil, hatred and death (Eu não sou mais uma vítima, nem apenas um simples sobrevivente, mas um vitorioso sobre o mal, o ódio e a morte). O bispo Desmond Tutu apresentou-o de uma forma incomum: What happened was probably the best for him, and for all of us. As broken as he is, he was made for wholeness. He is probably the most whole person I know. He has been able to inspire people worldwide and has given the Institute for Healing of Memories credibility (O que aconteceu provavelmente foi o melhor para ele e para todos nós. Quebrado como é e se nos apresenta, ele foi feito íntegro. Ele provavelmente é a pessoa mais inteira que eu conheço. Ele tem sido capaz de inspirar pessoas mundo afora e tem dado credibilidade ao Instituto para a Cura de Memórias). De fato, com seus dois ganchos mecânicos em lugar das mãos, ele tem autoridade para propor a vítimas que arrisquem sair de sua condição de vítimas passivas para reassumir o controle e a direção de suas vidas.

4.4 – Quarto subsídio

Se você dispõe de aparelhagem de projeção, recomendo como ilustração o PowerPoint sobre a “Canção dos Homens”, de um grupo africano. Se não tiver acesso, baixe no site do www.comin.org.br.

5. Subsídios litúrgicos

Oração inicial:

Deus de amor e ternos afetos! Louvamos-te por tua fidelidade e dedicação, por tua palavra criadora, salvadora e animadora. Nesse culto, nos prestas mais
uma vez o serviço sagrado de nos puxar para ti. Dá-nos a certeza de que estás perto de nós e nos acompanhas. Aquieta agora o nosso ser, para que ouçamos a tua boa-nova e saiamos daqui renovados para te servir e glorificar. Envia o teu Santo Espírito para coordenar toda a celebração.

Canto inicial:

Hino n° 360 – Hinos do Povo de Deus V. 2.


Kyrie:

Deus de toda a compaixão! Trazemos-te as nossas angústias com o estado em que se encontra o nosso mundo (cidade, país). Desavenças e guerras sacodem e ferem a tua bela criação. Injustiça e opressão estigmatizam as relações sociais. Os fortes não têm coração para os miseráveis. Há brigas por herança e desentendimentos nas famílias. A nossa comunidade não consegue influenciar para que as relações familiares e sociais se tornem mais compreensivas e amorosas, para que se tenha paciência com aqueles que se tornaram devedores. As diferenças culturais em nossa comunidade dificultam ainda mais a convivência baseada no teu grande perdão. Tem piedade, Senhor!

Oração de coleta:

Deus de toda a graça, que consegues transformar os corações das pessoas, como o de José do Egito, para que não reproduzam o mal que sofreram. Nós te
pedimos que agora entres com tua palavra em nossos corações e mentes, libertando-nos dos pesos que nos amarram a sofrimentos passados, para que possamos em alegria servir-te, multiplicando a compreensão e o amor ao nosso redor. É o que te pedimos por Jesus Cristo, teu Filho que contigo e com o Espírito Santo vive e reina, de eternidade a eternidade. Amém.

Canto da pregação:

Hino n° 437 – Hinos do Povo de Deus V. 2.

Oração geral da igreja:

Deus todo-amoroso! Nesse momento em que nos dirigimos de volta ao nosso cotidiano, queremos agradecer-te por esse encontro contigo, pelo perdão, pela renovação da esperança, pelo novo ânimo com que nos envias de volta para a convivência. Acompanha-nos com o teu Espírito, para que levemos os impulsos aqui recebidos e organizemos a nossa vida ao redor deles. Pedimos que intervenhas em todas as religiões para que todos busquem uma convivência em respeito às diferenças e em favor de tua sagrada criação. Assiste governantes bem-intencionados e não permitas que assumam aqueles que apenas pensam em usurpar o poder. Concede-nos que consigamos sair dos caminhos da injustiça e do desentendimento para trilhar um novo caminho de justiça e de paz. Assiste as pessoas sobrecarregadas com seus sofrimentos passados, para que possam levantar-se e experimentar nova vida. Amém.

Canto final:

Hino n/ 433 – Hinos do Povo de Deus V. 2

Bibliografia

TISS, Frank. O conto de José, filho de Jacó: realizando a vontade de Deus para além das fronteiras. In: WEGNER, Uwe e WACHHOLZ, Wilhelm. Estudos Teológicos, EST, ano 42, n. 3, 2002, p. 80-9.

Para mais informações, acessar o site www.justica21.org.br/ ou pesquisar no Google e no Youtube (vídeos) o verbete “justiça para o século 21”.
 

 










 


Autor(a): Hans Alfred Trein
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Pentecostes
Perfil do Domingo: 13º Domingo após Pentecostes
Testamento: Antigo / Livro: Gênesis / Capitulo: 50 / Versículo Inicial: 15 / Versículo Final: 21
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 2010 / Volume: 35
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 25062
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Foi assim que Deus mostrou o seu amor por nós: Ele mandou o seu único Filho ao mundo para que pudéssemos ter vida por meio dele.
1João 4.9
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