Gênesis 8.1-13

28/01/1990

Prédica: Gênesis 8.1-13
Autor: Leonídio Gaede
Data Litúrgica: 4º. Domingo após Epifania
Data da Pregação: 28/01/1990
Proclamar Libertação - Volume: XV

 

Você, leitor e leitora, e eu fazemos parte de gerações responsabilizadas por viverem um período que se alimenta de catástrofes. Carlos Aveline diz que se a terra tivesse o tamanho de uma laranja de umbigo, a biosfera — onde se situam as formas de vida conhecidas — seria uma camada tão grossa como um fio de cabelo. É este fio de cabelo que pode morrer integralmente se os arsenais atómicos atuarem um dia naquilo para o qual foram concebidos e produzidos (Aveline, p. 14). O ecologista diz também que é possível, se não quase inevitável, um colapso generalizado da produção alimentar na primeira metade dos anos 90 (p. 15). No Brasil tem gente que já sentiu efeitos deste colapso uma década antes. Ladislau Dowbor diz que recentemente, constatou-se que as crianças de 10 anos medem 5 cm a menos em 1980, do que em 1950, isto num dos Estados mais bem alimentados, o Rio Grande do Sul, e o exército espantou-se, ao fazer as estatísticas, de que 43'/. dos jovens que se apresentam para servir não tem condições físicas para carregar uma mochila (Souza Minayo, p. 70). Se, por um lado, vivemos o medo da possibilidade de uma catástrofe por causa das armas nucleares ou do efeito estufa, por outro, já nos sentimos dentro da catástrofe por causa da fome. Nesta situação certamente nos fará bem um exercício de imaginação que nos coloque vivos no fim da catástrofe. Duvido que, neste dilúvio, alguém não queria ser o Noé da arca que se salvou! Digamos, então, que você e eu escapamos do terrível e grande desastre. Estamos às vésperas de reiniciar a vida sobre a terra depois que tudo passou. Pronto! Chegamos a Gn 8.1-13.

l - O texto

O texto inicia dizendo que Deus se lembrou de Noé. O verbo SAKAR que aparece no texto hebraico indica não apenas uma lembrança saudosista, mas um relembrar de compromisso. Trata-se de um lembrar que motiva um ato salvador. É neste sentido que, por exemplo, aparece o mesmo termo em Gn 19.29 e 30.22 e ÊX 2.24. Nosso texto inicia, pois, anunciando que logo Deus estará interferindo com sua atuação libertadora. E neste tempo em que a consciência ecológica cresce no Brasil, não podemos deixar de dizer que, no texto em questão, a salvação na qual Deus se empenha atinge também os animais. Está presente o sentido de Jn 4.11.

Na sequência do texto (até o v. 3) precisamos observar algumas dificuldades: Temos muitas experiências com o vento. Experimentamos até que ele resseca muito a pele da gente, mas querer secar um dilúvio com vento é brincadeira! E o v. 3, ao contrário do v. l, diz que as águas se foram escoando. Precisamos observar que, no v. l, o verbo usado para dizer que as águas baixaram é CHAKAK, o que quer dizer que as águas diminuíram de volume e não que sumiram.

Nos vv. 3b-5 temos a tentativa de colocar os acontecimentos narrados dentro de um tempo determinado. No v. 4 percebemos a incerteza quanto ao local exato em que a arca teria pousado. É mencionada apenas a região das montanhas de Ararate. Quanto ao v. 5, mencionemos apenas que a aparição dos cumes dos montes evoca a lembrança do relato da criação (Gn 1.9).

Os vv. restantes de nosso texto, 6-13, podem ser agrupados conforme as tentativas feitas por Noé para descobrir como está o ambiente fora da arca. O agrupamento pode ser feito assim:

1) Vv. 6 -9c:

- Indicação da época da tentativa (v. 6a)
- Seu encaminhamento técnico (v. 6b (e 7?))
- Um procedimento inicial (v. 8a)
- Sua finalidade (v. 8b)
- Seu resultado prático (v. 9a)
- Conclusões (1) a partir da primeira tentativa (v. 9b)
- Procedimento final (v, 9c)

(1) O texto conclui, mas não diz que Noé conclui.

Vv. 10-llb:

- Indicação da época da tentativa (v. 10a)
- Procedimento inicial (v. 10b)
- Resultado prático (v. 11 a)
- Conclusões (2) a partir da segunda tentativa (v. 11 b)

(2) O texto diz explicitamente que Noé conclui.

Vv. 12-13:

- Indicação da época da tentativa (v. 12a)
- Procedimento inicial (v. 12b)
- Resultado prático (v. 12c e 13b)

Obs.: Os relatos das segunda e terceira tentativas diminuem sua extensão pela omissão de detalhes presentes no relato da primeira tentativa.

O que fazer com o v. 7 neste agrupamento? Há n 8.1-13 faz lembrar uma antiga técnica na arte de narrar: faz-se primeiro uma afirmação. Depois faz-se uma segunda, que é quase igual à primeira. A narração só progride porque um item da segunda afirmação contradiz ou supera o mesmo item presente na primeira. Transferindo isto para o nosso texto, notamos que a primeira afirmação — que chamamos de tentativa (vv. 6-9c) - é superada pela segunda no item que fala que Noé recolheu a pomba: na segunda afirmação/tentativa a pomba de 8.1-13 faz lembrar uma antiga técnica na arte de narrar: faz-se primeiro uma afirmação. Depois faz-se uma segunda, que é quase igual à primeira. A narração só progride porque um item da segunda afirmação contradiz ou supera o mesmo item presente na primeira. Transferindo isto para o nosso texto, notamos que a primeira afirmação - que chamamos de tentativa (vv. 6-9c) — é superada pela segunda no item que fala que Noé recolheu a pomba: na segunda afirmação/tentativa a pomba traz o bico uma folha (ou ramo) de oliveira; e Noé entende alguma coisa. Assim também a terceira afirmação (vv. 12-13) supera a segunda (vv. 10-llb) no mesmo item: Noé agora não mais só entende, mas age (v. 13b). A lógica de superação presente é, então, esta: CONSTATAR-ENTENDER-AGIR. Isto é: a) Noé constata que a pomba voltou e a recolhe (v. 9b); b) Noé entende que as águas baixaram quando a pomba volta com uma folha (v. 11); c) Noé parte para o que, afinal de contas, interessa mesmo: sair da arca (v. 13b).

Além disso, este texto parece se servir de uma prática talvez comum na época: quando alguém saía de navio, costumava levar junto algumas pombas. No caso de o navio se perder no mar, soltava-se uma pomba. A pomba naturalmente tentaria voar em direção do continente. Em caso de dúvida, a operação era repetida até ser solta a terceira pomba. Esta tinha a função de tirar a dúvida: a direção que ela apontasse, o navio devia seguir.

O caso das pombas evoca novamente a lembrança do relato da criação do mundo (Gn 2.19-20): o ser humano tem a inteligência de colocar animais a seu serviço. Mas o serviço dos animais ao ser humano só é digno e justo se o ser humano está a serviço de Deus: Noé não sai da arca quando faz suas conclusões a partir do recado que a pomba traz, mas quando recebe ordem de Deus (vv. 15-16). Neste contexto deve ser entendido também o v. 9: que a pomba retorna para as mãos de Noé aponta, sem dúvida, para um relacionamento harmonioso e de confiança entre um animal e um ser humano. Há uma confirmação do relato de Gn 1.26-28.

II — Meditação

Uma é a força do texto, outra é a força da vida. Tem gente que parece querer enclausurar o sentido de um texto quando ensina a Bíblia só buscando correspondência entre a nossa situação e eventos narrados pela Escritura. Isto tende a fechar o texto, pois faz com que se encontre uma mensagem só quando se encontra uma correspondência entre uma experiência de Israel ou da Comu¬nidade Primitiva e uma experiência de hoje.

Uma é a força do texto, outra é a força da vida. Um texto fala quando alguém lhe dirige uma pergunta. Um texto bíblico não fala só aquilo ao que se referiu quando foi produzido. Pelo contrário, ele responde às inquietudes do contexto histórico de sua leitura. Ele respondeu, por exemplo, às inquietudes do contexto catastrófico da II Guerra Mundial. Depois do desastre, Karl Barth disse: (.. .) tive que repensar e desdobrar tudo de novo a partir daquele centro que considero correio (o testemunho vétero e neotestamentário da pessoa e obra de Jesus Cristo) (Barth, p. 421). Penso que o exemplo fala da humanidade deste teólogo. Um gesto assim humaniza! E por isso parece que deixa de ser um gesto humano para ser um gesto divino. O texto bíblico fala isto pelo avesso: O Senhor aspirou o suave cheiro e disse consigo mesmo: não tornarei a amaldiçoar a terra por causa do humano, isto é, por causa do desígnio íntimo do ser humano que é mau desde a sua mocidade, nem tornarei a ferir todo vivente como fiz (Gn8.21).

O que a humanidade jurará não mais fazer após entender que passou por mais uma catástrofe? (O ritmo de morte por fome é dez vezes superior ao genocídio de judeus durante a II Guerra Mundial.)

Ill – Prédica

Fico ofendido quando, por exemplo, a Rede Globo de Televisão usa um programa seu, como oFantástico, para arrepiar os telespectadores. Sempre tenho a impressão de que estes programas sensacionalistas (sobre a invasão de ETs, sobre o conflito Leste-Oeste sob o ângulo dos equipamentos técnicos de Washington e Moscou, sobre o degelo progressivo do pólo-norte e consequente inundação de partes importantes dos continentes) têm a função de substituir uma ansiedade por outra. Minha ansiedade provocada por alguém que posso agarrar à unha é substituída por uma ansiedade cujo causador não está ao meu alcance no momento.

Antes de preparar a prédica temos que ter claro como queremos lidar com a ansiedade de nosso povo.

1. Digo isto porque quero sugerir que a prédica seja iniciada comparando a igreja (o local da pregação) com a arca de Noé. Todos estão ali, participando do culto, ainda não foram tragados pelo dilúvio. Definir o que é o dilúvio na sua comunidade é responsabilidade séria do pregador.

2. De forma alguma está dito que os que estão na arca (bancos da igreja) são os salvos. Pelo contrário, Deus precisa se lembrar deles (Gn 8.1; 19.29; 30.22; Êx 2.24). A comunidade não é santa porque não cai, mas é santa porque os caídos vêem braços estendidos nela. Eventualmente o demorado minguar das águas do dilúvio (vv. 2-5) poderia ser comparado aqui com alguma atuação que está acontecendo na comunidade e que não é movida pela sede dos resultados imediatos. Se existe, por exemplo, um grupo de defesa da ecologia, é sinal de que as fontes do abismo (v. 2) já se fecharam.

3. Identificado o dilúvio da sociedade em que vivem os ouvintes da prédica e pregada a certeza de que a copiosa chuva dos céus se deteve, isto é, que os dilúvios da vida não são mais mandados por Deus, chegou a hora de planejar a saída coletiva da arca (igreja). As três tentativas de Noé orientam a saída: constatar — entender — agir. Este é o critério para iniciar a atuação no mundo que cada dia resta da catástrofe.

IV — Subsídios litúrgicos

1. Textos: 2 Pe 3.1-9 e ÊX 9.8-17

2. Confissão: Perdoa-nos, Deus, se mais uma vez festejamos o Natal sem compreender os teus planos para nos salvar. Perdoa se te procuramos nos Palácios e não nas estrebarias. Perdoa se atribuímos a ti o mal que vem dos Palácios. Perdoa quando achamos que Noé se salvou quando se escondeu na arca e não entendemos que tu o salvaste quando ele se dispôs a reconstruir o mundo em aliança contigo. Tem piedade de nós, Senhor!

3. Coleta: Já sabemos que tu queres falar conosco, Deus, mas não é fácil ouvir a tua voz quando há tantas vozes querendo ser ouvidas. Mas também não te ouvimos porque é confortável fugir de ti. No meio de nossas correrias é confortável seguir a voz que chama para o nada. Mas tu tens força sobre nós porque nos reuniste aqui. Dispõe-nos também agora ao serviço de te ouvir. Por Jesus Cristo que reina agora e sempre. Amém!

4. Intercessão: Orar pelos que não estão na comunidade: porque algu¬ma vez se sentiram rejeitados, estão confusos quanto ao que querem, vêem a comunidade como uma fuga dos compromissos com a vida no mundo, porque estão fisicamente impedidos, etc. Orar pelos que estão na comunidade: porque querem se dopar com a religião para aguentar o dia-a-dia, porque querem aprender como sair responsavelmente da arca; (. . .) Agradecer pela misericórdia de Deus que se tornou visível nos grupos atuantes da comunidade.

V – Bibliografia

- AVELINE, Carlos. Aqui e Agora, para viver até o século XXI. São Leopoldo, Editora Sinodal, 1985.
- BARTH, Karl. Dádiva e Louvor - textos selecionados. São Leopoldo, Editora Sinodal, 1986.
- CROATTO Severino. Hermenêutica Bíblica. São Leopoldo, Editora Sinodal/Edições Paulinas, 1986.
- CRÜSEMANN, Frank. Wie Gott die Welt regiert. München, Chi. Kaiser Verlae 1986.
- WESTERMANN. Claus. Genesis 1.11. Biblischer Kommentar Altes Testament. Vol. 1. Neukirchen-Vluyn, 1974.


Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Epifania
Perfil do Domingo: 4º Domingo após Epifania
Testamento: Antigo / Livro: Gênesis / Capitulo: 8 / Versículo Inicial: 1 / Versículo Final: 13
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1989 / Volume: 15
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 13499
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