Haverá um juízo final?

20/11/2020


Mateus 25.31-45
Prezada Comunidade
Estimados rádio-ouvintes:

Hoje é o último domingo do ano eclesiástico. O ano da Igreja não começa no dia 01 de janeiro, mas sim no primeiro domingo de Advento. E no próximo domingo, dia 29 de novembro, já será o primeiro domingo de Advento.

Na história da Igreja, esse último domingo do ano era chamado de Domingo da Eternidade. Principalmente nas igrejas protestantes, nesse domingo o tema para reflexão era a fragilidade da vida, a necessidade de reconhecer que nossos dias estão contados e que nada nesse mundo é eterno. “Toda carne é como a erva e toda a sua glória como a flor da erva” (1Pe 1). “Ensina-nos a contar os nossos dias para que alcancemos um coração sábio” (Sl 90.12).
Em relação à morte, na igreja luterana nós ensinamos que as pessoas já falecidas estão perto de Deus. Quem está perto de Deus não está sofrendo. Por isso, não precisamos nos preocupar com eles. Pois “Na casa de meu Pai há muitos quartos e eu vou preparar um lugar para vocês....... E quando eu for e preparar um lugar para vocês, voltarei e os levarei comigo para que onde eu estiver vocês estejam também. (João 14.2-3). “Cristo não apenas destruiu a morte, mas trouxe à luz a vida e a imortalidade, mediante o Evangelho”. (2Tm 1.10). Até o dia do juízo, estaremos todos dormindo à espera do chamado de Jesus. E quando ele nos chamar – então teremos de prestar contas das coisas que fizemos ou promovemos em nossa vida. No dia do julgamento – como confessamos no Credo Apostólico – seremos separados entre aqueles(as) que foram fiéis aos ensinamentos de Jesus Cristo e aqueles que nunca se importaram ou até manipularam os ensinamentos de Jesus Cristo a seu favor. Esse tem sido o conteúdo da pregação cristã nesse último domingo do ano da igreja.

Mas no ano de 1925 o Papa Pio XI decidiu que esse domingo da Eternidade deveria chamar-se de domingo Cristo Rei. No começo do século XX a igreja católica romana estava tendo sua influência na política questionada. Movimentos como o Positivismos estavam questionando a educação religiosa nas escolas. As missões protestantes estavam enviando missionários para a África, Ásia e América Latina. O movimento ecumênico nessas igrejas protestantes estava crescendo. Para enfrentar a tudo isso, o Papa Pio XI decide chamar esse último domingo do ano de Cristo Rei, para lembrar a igreja católica romana é a representante desse Cristo Rei aqui na terra e portanto ela deve estar acima de tudo e de todos.

Esse desejo até teve seu impacto sobre muitos países, mas isso não durou muito. Hoje a maioria dos países se declaram laicos. Isso quer dizer que o Estado deve governar usando a Constituição. A Bíblia pode até inspirar uma Constituição, mas jamais deve substitui-la.
Muitas pessoas não gostam dessa imagem de Cristo Rei, como um imperador do mundo. Quando nós falamos de reis, a história nos diz que a maioria dos reis sempre foram tiranos, promoveram guerras por interesses pessoais, não tinham consideração pelas pessoas. Reis e reinos poderosos invadiram terras, mataram populações para roubar suas riquezas e acumular poder.

Se procuramos nos Evangelhos vamos ver que Jesus nunca disse que ele queria ser comparado aos reis deste mundo. Todo o contrário, ele dizia que não tinha vindo para ser servido, mas para servir (Mt 20.28). Na tentação que Jesus sofreu no deserto, o diabo lhe oferece a possibilidade de ser o rei e o senhor supremo sobre todos os reinos do mundo. Mas Jesus recusa essa possibilidade dizendo: Ao Senhor teu Deus adorarás e somente a Ele prestarás culto (Mt 4.10). Depois da multiplicação dos pães, o Evangelho de João nos diz que as pessoas queriam proclamar a Jesus como rei, mas ele fugiu dessas pessoas (Jo 6.15). Ao entrar em Jerusalém montado sobre um jumentinho, Jesus parece debochar com a figura do rei. E quando Pilatos manda colocar uma placa na cruz de Jesus dizendo: Este é o rei dos judeus, Pilatos fez isso para humilhar os judeus. Portanto, nos Evangelhos não encontramos nenhum apoio para identificar a Jesus como rei ou com qualquer outro governante.

Por isso, quando nós protestantes luteranos falamos que “Jesus é Rei”, nós logo enfatizamos que o seu reino não é deste mundo. Jesus é um rei – que não pode ser comparado nem identificado com os reis e os governantes deste mundo. Jesus é muito mais sábio, justo e honesto com sua gente do que os governantes desse mundo. Jesus tratava de ajuntar não dividir ou humilhar as pessoas. Portanto, comparar Jesus com qualquer governante nesse mundo seria uma humilhação, não um elogio.

Nenhuma autoridade nesse mundo deve ser comparada com Jesus, seja autoridade política ou religiosa. Os governantes jamais devem ser endeusados. Quem faz isso peca contra o primeiro mandamento.

Como pessoas luteranas nós dizemos que Jesus deve ser Senhor de nossas vidas. Ele é o Senhor, nós somos seus servos. É a vontade de nosso Senhor que deve orientar nossos pensamentos e atitudes.

Por isso, nós não honramos a Cristo dando a ele títulos pomposos ou nomes divinos. Jesus não quer estar acima de tudo e de todos. Jesus quer estar no meio de nós. Na leitura do grande julgamento que nós ouvimos hoje do Evangelho de Mateus, nós ouvimos que no dia do juízo final, Jesus não vai nos perguntar quantas vezes o chamamos de rei. mas o que ele vai nos perguntar é:

- O que você fez quando você encontrou com uma pessoa que precisou de sua ajuda?
- Como você reagiu diante dos problemas e dos sofrimentos das pessoas?
- Como você reagiu diante do racismo, da discriminação, do ódio, da violência social?
- Como você reagiu diante da destruição irresponsável da Boa Criação de Deus?

No dia do julgamento, o decisivo será o que temos feito da fé em Jesus.

Por isso, fechar nossos olhos diante do sofrimento, tratar de justificar atitudes racistas, homofóbicas ou qualquer outra coisa que degrada o respeito à vida, essas coisas nos serão cobradas no dia do juízo. Aí sim, Jesus será o grande Rei, que vai separar as pessoas boas das pessoas más, as pessoas que tiveram um bom coração nesse mundo daquelas que não souberam amar.

No dia do grande julgamento, vamos ser lembrados das coisas que fizemos, das ideias que promovemos e das vezes que deixamos de ajudar – quando deveríamos ter ajudado. E assim como as pessoas no texto bíblico, também nós vamos dizer: Mas Senhor quando foi que nós fizemos isso ou aquilo/ Quando foi que nós promovemos isso ou aquilo?

Portanto, esse último domingo do ano da igreja quer nos chamar a atenção que nossos pensamentos, nossas atitudes vão aparecer no dia do juízo final.

E ao nos lembrar disso, Jesus não quer nos ameaçar, mas ele quer nos lembrar que ainda podemos nos colocar a nossa vida sob o senhorio de Jesus. Ainda podemos alinhar nossos pensamentos e nossas atitudes com os ensinamentos de Jesus. Jesus quer abrir nossos olhos para que enxerguemos
o objetivo de nossa vida que é o de amar, cuidar, proteger, respeitar. Jesus nos quer a todos – homens e mulheres, jovens e idosos – ele nos quer ativos em sua igreja como pessoas que são capazes de amar e se preocupar com o bem estar de outras pessoas e da boa criação de Deus.

Nesse último domingo do ano eclesiástico Deus nos faz lembrar da fragilidade da vida, da necessidade de reconhecer que nossos dias estão contados e que nada nesse mundo é eterno. “Ensina-nos a contar os nossos dias para que alcancemos um coração sábio” (Sl 90.12).

E que assim, a graça de nosso Senhor Jesus Cristo permaneça no meio de nós. Amém.


Autor(a): Nilton Giese
Âmbito: IECLB / Sinodo: Paranapanema / Paróquia: Curitiba - Igreja de Cristo
Área: Confessionalidade / Nível: Confessionalidade - Prédicas e Meditações
Testamento: Novo / Livro: Mateus / Capitulo: 25 / Versículo Inicial: 31 / Versículo Final: 46
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Prédica
ID: 60067
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