Hebreus 5.7-9

Auxílio homilético

17/03/1991

Prédica: Hebreus 5.7-9
Leituras: Jeremias 31.31-34 e João 12.20-33
Autor: Valdemar Gaede
Data Litúrgica: 5º Domingo da Quaresma
Data da Pregação: 17/03/1991
Proclamar Libertação - Volume: XVI

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Acho a assim chamada Epístola aos Hebreus formidável. Pois os textos nela contidos oferecem uma resistência exemplar a um certo método exegético/hermenêutico que, no meu entender, tem a tendência de esvaziar (tirar a profundidade) de qualquer perícope bíblica. Quero referir-me ao seguinte:

Tornou-se quase que um vício generalizado na exegese bíblica — quando se quer interpretar um texto específico — perguntar, antes de mais nada e acima de tudo, pela autoria, pelo destinatários, pela teologia, pela cronologia, pela geografia, etc. da obra toda. Para se chegar ao específico parte-se do geral. Para se chegar ao detalhe parte-se do todo. Falando a grosso modo, molda-se primeiro um teólogo pá rã a obra toda, para, depois, adaptar o conteúdo das perícopes a este teólogo preconcebido. Isto acaba esvaziando o texto todo e todos os textos contidos na obra. Pergunto: por que é tão difícil, entre os exegetas, conceber uma diversidade de vozes, de teologias, de destinatários, de épocas, de lugares, etc. num mesmo livro bíblico como, por exemplo, Hebreus? O que é mais importante: a teologia do teólogo que reuniu diversos materiais teológicos ou as teologias contidas nos diversos mate riais teológicos recolhidos por um teólogo? Esta pergunta parece-me que fica fora pelo menos em boa parte dos trabalhos exegéticos que li sobre Hebreus. Deve-se dar peso à teologia de um redator ou deve-se dar peso à teologia vivida na comunidade primitiva?

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Em que sentido Hebreus resiste ao método acima referido?

a) Em primeiro lugar é preciso dizer que os textos contidos em Hebreus resistem até mesmo a tentativas de colocá-los sob um mesmo nome ou, se assim o quiserem, sob um mesmo rótulo. Que os termos epístola e hebreus são rótulos inadequados para o livro, isto já se concluiu há muito. Não há argumentos suficientes para se afirmar que os destinatários foram hebreus. Muito menos ainda a obra pó de ser considerada uma epístola. Ela contém saudações finais, mas, no todo, falia um estilo epistolar. Seria o livro, então, um tratado teológico? Às vezes parece, mas não é bem isto. Contém muita exortação, pregação. Como chamá-lo, então? Os (ex tos contidos em Hebreus deveras resistem a perguntas assim.

b) Da mesma forma o livro resiste à pergunta pela autoria. Às vezes acaba se descobrindo um autor até mesmo curioso para a obra: uma autoridade eclesiástica do meio judeu-cristão, conhecedora da formação alexandrina, teologicamente independente, porém fortemente imbuída da tradição apocalíptica e do cristianismo primitivo, ligada com a formação litúrgico-confessional da teologia paulina. Não vamos aqui negar que estas características autorais e tantas outras como judeu, conhecedor do AT, com talento para a pregação se façam notar nos textos contidos em Hebreus. O erro logicamente está em se querer, a partir destas características, montar um único autor, especializado teologicamente, para a obra como um todo.

c) Hebreus também resiste, a meu ver, às perguntas pelo lugar, pela época, pelos destinatários, etc. quando estas perguntas são feitas nos moldes convencionais. Mas não é aqui o lugar apropriado para aprofundar estas questões.

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Bom, vamos nos aproximando do texto Hb 5.7-9.

Lendo comentários sobre a perícope, nota-se, logo de saída, o seguinte méto¬do que, convenhamos, não tem muita lógica: primeiro o texto é desmontado. Procuram-se incoerências, mudanças bruscas no estilo e na linguagem, independência do texto em relação ao seu contexto, interrupções na linha de pensamento, dificuldades para encaixar determinados elementos teológicos e litúrgicos, e assim por diante. Procede-se a um verdadeiro desmonte. Mas, surpreendentemente, parte-se logo para uma remontagem do texto. Dominado pela ideia de que atrás de qualquer livro bíblico precisa estar um teólogo até certo ponto coerente teologicamente, remonta-se o texto. Levantados os problemas do texto, faz-se um esforço no sentido de tornar o mesmo texto lógico e encaixável numa determinada linha de pensamento e numa determinada teologia geral do livro. Adapta-se o texto ao contexto, pendura-se a teologia do texto na teologia geral do livro.

Não quero seguir este caminho. Prefiro deixar o texto falar. É preciso libertar a teologia do texto da teologia de um teólogo concebido por teólogos.

Vamos dar atenção ao texto:

v. 7 Ele (Jesus), nos dias da sua carne, apresentou, com fortes gritos e lágrimas, pedidos e súplicas àquele que o podia livrar da morte; e foi atendido por causa de seu temor a Deus;

v. 8 e, embora sendo filho, aprendeu, pelo sofrimentos, a obediência;

v. 9 e, tendo sido aperfeiçoado, tornou-se, para todos os que lhe obedecem, o autor da salvação eterna.

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Entendo que na história da produção teológica existem dois jeitos principais de se produzir material teológico, jeitos estes que, além de muitas outras diferenças, diferenciam-se radicalmente no seguinte aspecto: num fala-se de Deus para se falar do ser humano; noutro fala-se do ser humano para se falar de Deus. Num fala-se do abstrato para se falar do concreto; noutro fala-se do concreto para se falar do abstrato. Num fala-se do céu para se falar do chão; noutro fala-se do chão para se falar do céu. Num fala-se do espírito para se falar da carne; noutro fala-se da carne para se falar do espírito. Num fala-se de salvação eterna para se falar de liberta cão terrena; noutro fala-se de libertação terrena para se falar de salvação eterna Num fala-se de gozo celestial para se falar de lágrimas; noutro fala-se de lágrimas para se falar de gozo celestial.

O texto que estamos estudando percorre o segundo caminho: primeiro fala-se da carne, dos gritos, das lágrimas, dos sofrimentos. A partir disto é que se fala de Deus, de salvação, de eternidade. Fala-se primeiro de Jesus para depois se falai do Cristo. Ou, no máximo, fala-se do Cristo partindo-se de Jesus. Primeiro vem a jesulogia, depois a cristologia. Este texto, portanto, questiona o tipo de produção teológica que sempre foi dominante na história do cristianismo. Falou-se muito do Cristo e esqueceu-se de falar de Jesus. A cristologia sufocou a jesulogia. Demorou muito até que alguém começou a resgatar Jesus de Nazaré.

Em Hb 5.7-9 está colocado em evidência Jesus de Nazaré. Fala-se do Cristo a partir de Jesus. Temos, portanto, neste texto, evidências claras de uma teologia primitiva, ainda livre daquele jeito de produção teológica que veio a dominar na história do cristianismo. É teologia popular, ligada à realidade da carne, das lágrimas, dos gritos, dos sofrimentos. O texto tem cheiro de chão, de gente.

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Acompanhemos o texto no seu falar de Cristo a partir de Jesus de Nazaré:

a) Jesus de Nazaré (Jesus de carne e osso) pediu, suplicou, gritou, deixou rolar as lágrimas:

Pedidos, súplicas, gritos e lágrimas são sinais de amor à vida. Quem quer a vida dama, grita e chora. Quem não ama a vida é apático. Não sofre. Não tem lágrimas para deixar rolar. Viver ou morrer lhe são indiferentes. Está acostumado à morte mesmo antes de ela chegar. Jesus queria a vida. Por isso gritou e chorou.

Deus ama a vida. Por isso gritou e chorou em Jesus. Os gritos e as lágrimas de Jesus de Nazaré eram os gritos e as lágrimas de Deus.

b) Jesus temeu a Deus, foi obediente a Deus nos seus sofrimentos:

Em que consistiram o temor e a obediência de Jesus a Deus? Jesus cedeu sua carne, sua voz, suas lágrimas, para que Deus pudesse gritar e chorar pela vida e contra a morte. Onde humanos choram e gritam pela vida e contra a morte, Deus está sendo temido e obedecido. As lágrimas que os humanos deixam rolar e os gritos que os humanos fazem ressoar não são protestos pessoais contra destinos individuais. São gritos e lágrimas de Deus contra a morte e a favor da vida.

c) Jesus foi aperfeiçoado e tornou-se o autor da salvação:

Obediência e temor a Deus através de gritos e de lágrimas conduzem à perfeição, trazem a salvação. Apatia conduz à perdição. Calar-se e não chorar é abafar os gritos de Deus pela vida, é estancar as lágrimas de Deus pela vida. Abafar gritos de vida e estancar lágrimas de vida é o mesmo que acenar para a morte, é tornai se aliado da morte.

Para a prédica eu seguiria um esquema parecido com o seguinte:

a) Chorar é feio. Gritar é falta de educação. Será? Já pensamos alguma vez que lágrimas e gritos podem ser protestos contra injustiças, opressões, morte? Será que alguém chora e grita por safadeza?

b) Lágrimas e gritos humanos são vistos, na Bíblia, como voz de Deus. Deus fala através do choro e dos gritos humanos.

c) Vamos ler o texto de Hb 5.7-9!

d) Quem está chorando, gritando, clamando? Jesus. Mas Jesus fez isto? Justamente. As lágrimas e os gritos de Jesus eram protestos contra a morte e luta pela vida. Onde gritos de desespero ressoam e lágrimas de sofrimento rolam está se dando lugar para a voz de Deus. Nisto consistiu o temor de Jesus a Deus. Nisto consistiu a obediência de Jesus a Deus. Isto fez de Jesus de Nazaré o Cristo, autor da salvação.

e) Quais são as lágrimas e os gritos que se ouvem hoje por aí? São os gritos dos sem-tudo: sem-terra, sem-casa, sem-comida, sem-saúde, sem-paz, sem-salário, sem-vida. Jesus de Nazaré, que, pelo seus gritos e lágrimas, veio a ser o autor da salvação, faz-nos entendê-los como gritos e lágrimas do próprio Deus. É intervenção de Deus em favor da vida. Aquilo que causa lágrimas e gritos humanos passa a ser inimigo de Deus.

f) Onde sofredores, em vez de gritar e de chorar, vestem-se com ternos e gravatas, estampando sorrisos nos seus rostos esmagados, está se abafando os gritos de Deus, está se secando as lágrimas de Deus. Foram programados para sorrir para a morte. Ao corpo de um lambari foi colocada uma cabeça de tubarão. Foram programados para acenar para a morte. Tornaram-se apáticos. Apatia é sinal de doença. É desinteresse pela vida, falta de sentimento, ausência de sofrimento. Quando os gritos são abafados e as fontes das lágrimas se secam, estão tomando conta a desumanidade e o ateísmo ao mesmo tempo. Está acontecendo um acostumar-se à morte mesmo antes de ela engolir a vida.

g) Deus é um apaixonado pela vida. Este apaixonado grita e chora quando a vida está distante. Isto é paixão de Cristo, isto é Quaresma: paixão de Deus pela vida. Deus, em Jesus de Nazaré, revelou-se como a namorada ou o namorado da vida.


 


Autor(a): Valdemar Gaede
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Quaresma
Perfil do Domingo: 5º Domingo na Quaresma
Testamento: Novo / Livro: Hebreus / Capitulo: 5 / Versículo Inicial: 7 / Versículo Final: 9
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1990 / Volume: 16
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 13159
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