História de vida de Lúcia Blauth

06/11/2015

 

 


Nome: Lúcia Blauth

Tempo de participação na IECLB: desde o Batismo

Comunidade: Rincão dos Ilhéus

Paróquia: Estância Velha/RS

Sínodo: Nordeste Gaúcho

 

 

 

 

No domingo dia 26/04/2015, após fazer o curso sobre história de vida das mulheres luteranas, eu, Marcia Laux Blauth, recebi a missão de escrever uma história de vida. Chegando em casa, encontrei a sogra, Lúcia Blauth, pois moramos uma ao lado da outra, e contei como foi o curso. Após contar tudo, fiz a ela a seguinte pergunta:

M: Dona Lúcia, a senhora, que ano passado, em 28/11/2014, completou 50 anos de bênção matrimonial, gostaria de contar a sua história de vida?
Ela pensou um pouco e, após alguns segundos, disse:

L: Sim, aceito! Mas eu preciso primeiro pensar um pouco, lembrar-me de fatos e, talvez, escrever algumas coisas para te passar. E hoje não vai dar: tenho que ir para a chácara, lá tem muito serviço.

M: Ok. Não precisa ser hoje. E também não precisa escrever; podemos marcar um dia e sentar calmamente para começarmos. Eu sei que a senhora tem muitas tarefas para fazer hoje. Mas assim que tiver um tempinho, a gente marca um horário para a senhora contar e eu ouvir a sua história.

A HISTÓRIA

L: Nasci em linha São Jacó – Nova Petrópolis/RS, na época município de São Leopoldo. Fui batizada na igreja da comunidade de Treze Colônias, da IECLB.

M: Do que a senhora se lembra do tempo de criança?

L: Muitas coisas: não tinha escola dominical na comunidade. Os cultos eram de duas em duas semanas. Como éramos entre muitos irmãos (nove homens e oito mulheres), uma turma ia numa semana e a outra turma na outra. Íamos de carroça, e levava mais ou menos uma hora para chegar à igreja.

M: Como era a convivência com tantos irmãos e irmãs?

L: Era boa. Mas teve um momento triste que não consigo esquecer. Certo dia, estávamos à mesa do café quando o irmãozinho de 3 anos começou a tossir muito. Era coqueluche. Ele acabou por falecer neste dia. Isso foi muito difícil para mim.

M: Como conseguiu enfrentar, suportar a dor?

L: A partir disto, a mãe Ida Sommer Klein (in memoriam) pediu para ficar firme em Deus, para colocar a nossa tristeza nas mãos de Deus. Mas, naquela época, ainda não compreendia direito que Deus está do nosso lado em todos os momentos da vida, querendo nos consolar e orientar. A minha caminhada de fé, assim posso dizer, começou mesmo a partir da doutrina.

M: Falando em doutrina, ensino confirmatório, como era no seu tempo? Quem foi o pastor que orientava o ensino confirmatório?

L: O pastor foi o Braun. Lembro-me que, no dia da confirmação, o pastor fez perguntas, em português, sobre questões da Bíblia. As perguntas eram feitas na frente de toda a comunidade, e, a resposta deveria ser em alemão. Ganhávamos pontuação, e eu tirei o primeiro lugar. Hoje em dia, este tipo de prova é realizado antes da confirmação.

M: E sua juventude como foi? Na comunidade tinha encontro de jovens?

L: Não tinha encontro de jovens na comunidade.

M: Como foi então?

L: Trabalhava na roça e em casa. Não consegui estudar, pois a cada ano nascia um irmãozinho ou uma irmãzinha. E como eu era a mais velha dos irmãos, precisava ajudar a cuidar deles.

M: E o seu casamento?

L: Casei aos 18 anos, em 28 de novembro de 1964, com Edgar Blauth. Edgar era da IELB, mas nós nos casamos na IECLB, porque meu pai assim exigiu. Morei junto com a sogra durante seis meses, até compramos um pedaço de terra do meu pai Arthur Klein, onde fizemos uma casinha.

M: Deste tempo lembra-se de algo mais?

L: Nasceu o primeiro filho, Danilo Blauth. Éramos muito pobres, mas tínhamos muita fé e esperança de que as coisas iam melhorar. Trabalhava na roça, e o filho ia junto. Depois nasceram as filhas Margarida, Lorena e Cristina, todos em Treze Colônias.

M: Outros momentos?

L: Triste foi quando um cavalo nosso quebrou a perna e tivemos que matá-lo. Tivemos que pegar dinheiro emprestado para comprar outro.

M: E como pagaram?

L: Pegamos uma junta de bois emprestada para roçar e plantar. Um dia trabalhávamos para nós, em nosso pedacinho de terra, e dois dias trabalhávamos na terra desta pessoa que nos emprestou os bois. Assim pagamos a dívida. Não com dinheiro, mas com trabalho.

M: Mas aqui já estava fazendo diaconia, não é, Dona Lucia?

L: Sim, graças à ajuda dos vizinhos. Assim também foi quando nasceram os filhos. Vinham vizinhas me a lavar roupa, limpar a casa. Quando elas precisavam, eu também ia ajudar: uma mão ajudava a outra.

Oito anos depois vendemos a terra e, em 1973, viemos para Rincão dos Ilhéus, município de Estância Velha/RS. Compramos um terreno, trouxemos a nossa casinha e ali a colocamos. Por nove meses buscávamos água nos vizinhos e, mais tarde, conseguimos fazer um poço artesiano.

M: E na cidade conseguiu trabalho?

L: Sim. Trabalhei primeiro em casa de família, três tardes por semana. Os filhos ficavam em casa, um cuidando do outro. Aqui no bairro também encontramos um ponto de pregação da IECLB, ligado à Comunidade da Ascensão de Novo Hamburgo. Começamos a nos envolver nesse ponto de pregação e entramos nela como membros. Lembro-me muito da Irmã Hildegard Hertel, que fazia visitas nas casas. Certo dia, ela veio me visitar e me convidou para entrar na Assistência Social aqui no Rincão dos Ilhéus, e eu aceitei.

M: O que se fazia na Assistência Social e quem era o pastor no Rincão do Ilhéus na época?

L: O pastor era o Elio Eugenio Müller. Na Assistência foi muito bom. Lá me ensinaram a costurar, fazer tricô, crochê. O que a gente fazia, podia levar para casa. Lembro que fiz capa de chuva de saquinhos de leite, para meus filhos. E tinha momentos de estudos bíblicos com a Irmã Hildegard. Era muito bom. Uma vez por mês toda a família ia aos estudos no centro em Novo Hamburgo, e lá ganhávamos rancho. Neste tempo nasceram Leandro e Adriano, sendo que agora tínhamos seis filhos. Também tínhamos um trabalho da Assistência Social no bairro Roselândia. Lá eu ajudava a cuidar de crianças nos dias de encontro, inclusive podia levar as minhas junto. Era na época da Márcia Paixão e Mara Klein

M: Como a senhora deu conta de todos?

L: Sempre digo: não fui eu sozinha; Deus quem me ajudou em toda a minha vida. Depois trabalhei em casa, fazia o serviço de noite, preparando e virando sapato, para poder ir aos encontros na Assistência de dia.

M: E os cultos e a OASE no Rincão, como eram?

L: Os cultos, nos primeiros anos, eram no pavilhão da comunidade. A OASE, em dia de semana, era nas casas das participantes da OASE e, no sábado, era realizada no pavilhão da comunidade. Depois de dois anos de OASE, a Sra. Ely Seewald (in memoriam), que era a primeira presidente, e a Sra. Ilsa Sturm, (in memoriam) me visitaram e convidaram para eu entrar na diretoria, e aceitei.

M: O que mais gostaria de compartilhar?

L: Fui presidente da OASE por três vezes, cada vez com mandato de dois anos. Na OASE tive bom crescimento, mesmo sem muito estudo. Mas com amor, com fé em Deus e as senhoras me ajudando, tive oportunidade de conhecer outros grupos. Participando, eu aprendi realmente que a OASE é diaconia, assistência, comunhão.

Um estudo que marcou na OASE foi quando o pastor Anibaldo Fiegenbaum pediu para cada pessoa colocar em oração um dom que achava ter, e eu coloquei que gostava de fazer pães e cucas. Fui abençoada! Até hoje posso servir a comunidade com esse dom.

A primeira vez que fui presidente da OASE foi no tempo do pastor Genésio Bobsin. Tínhamos um pavilhão bem simples, que era um local de encontros e festas. Ao lado do pavilhão estava construída a igreja. Lembro que para mobiliar a igreja foram tiradas árvores de cinamomo do pátio da comunidade, das quais se fizeram a mesa do altar, o púlpito e a pia batismal. Os bancos foram doações dos membros da comunidade. A segunda vez que fui presidente da OASE foi na época do pastor Marcio Trentini, e a terceira vez foi na época dos pastor Edemar Zizemer.

Na comunidade já fizemos muitas festas, muitos bailes. Sempre trabalhei na cozinha, fazendo as cucas viradas, os pães, mocotó. Tínhamos e temos, até hoje, pessoas se doando para ajudar a comunidade crescer.

Lembro que uma vez estávamos indo para a comunidade trabalhar, eu e meu esposo, e no caminho, a pé, três pessoas tentaram nos assaltar. Eu gritei tanto que eles fugiram. Ali senti mais uma vez a presença de Deus, que nos protegeu. Eu estava com a Bíblia na mão.

Vários anos depois, foi construído o ginásio de esportes. Por três anos fui zeladora da comunidade. Morei na casa ao lado da igreja. Fazia limpeza na igreja, arrumava as salas para os encontros, puxava o sino de meio-dia e de tarde, às 18:00 horas.

M: Atualmente, na comunidade do Rincão dos ilhéus, a senhora participa de mais grupos?

L: Participo nos trabalhos manuais e nos estudos da OASE, no grupo de canto da comunidade (Cantos para Viver), Dança Sênior, no grupo da Terceira Idade (estudos, cantos, brincadeiras, passeios, visitas a outros grupos, ginástica). Isso tudo é muito bom e importante. Neste grupo não fazemos bailinhos; é um grupo ligado à comunidade. O pastor Edemar Zizemer traz estudos que nos ajudam na formação espiritual. De uns anos para cá ajudo, uma vez por mês, aos sábados, no grupo de diaconia, onde fizemos o brechó, cuja renda é revertida para doações, para lares, para pessoas que precisam de ajuda. Isso tudo é bênção de Deus! Não posso deixar de mencionar o culto infantil. Sempre que precisam, colaboro com o que posso, seja fazendo amendoins para os pacotinhos das crianças, ou ajudando nos almoços dos encontros.

M: O que a senhora espera e sonha?

L: Espero continuar participando sempre onde for possível. É muito importante ter comunhão com outras pessoas. Eu agradeço todos os dias a Deus que me dá forças, coragem e fé. Que eu possa continuar dando exemplos para os outros e para minha família. Sinto-me feliz e abençoada porque muitos membros da minha família aprenderam o caminho da igreja cristã, de Deus, e o seguem. Eu só tenho que agradecer e agradecer.

M: Assim eu, Marcia Laux Blauth (nora), finalizo a entrevista com Lúcia Blauth, com as palavras de agradecimento, muitos agradecimentos.


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