História de vida de Noeli Ritter

13/10/2015

 

 

 

Nome: Noeli Ritter

Tempo de participação na IECLB: desde Batismo

Comunidade: Rincão dos Ilhéus – Estância Velha

Paróquia: Estância Velha/RS

Sínodo: Nordeste Gaúcho

 

 

 

 

Noeli nasceu em 18/07/1954, filha de Arthut Bech e Ilma Plautz Bech, em Rincão da Serra – Linha Nova/RS. É a quarta filha de cinco irmãos e tem 60 anos.

Sua família trabalhava na terra, em agricultura de subsistência, e sua renda provinha principalmente da venda de porcos. Os porcos eram vendidos no armazém, de onde vinham, então, as mercadorias que não tinham em casa, tecidos, sal e açúcar, por exemplo. E também, uma vez por semana, passava um senhor de carroça, trazendo mantimentos secos e comprando galinhas, ovos e o que houvesse da roça. Não havia energia elétrica, e a água era buscada no poço. Eles tinham um rádio que funcionava a bateria e, depois a pilha. Em geral, andavam a pé, e, quando o trajeto era mais longo, a cavalo.

Na colônia trabalhava-se desde cedo. Com 7 anos ela era “dona” de uma vaquinha jérsei. Pela manhã ia à escola, mas à noitinha tirava leite; isto era um compromisso. Da mesma forma ela buscava água do poço, e tinha que fazer isto rápido. Seu pai era exigente e todos tinham que trabalhar.

Sua família costumava frequentar os cultos, que aconteciam de três em três meses, na língua alemã, numa escola próxima de sua casa, pois não havia templo, como é ainda hoje na localidade. As crianças sentavam nos bancos da frente para assistir ao culto e, na hora da Santa Ceia, que ocorria em geral na Páscoa e no Natal, elas tinham que sair da sala, as portas eram fechadas. A Santa Ceia acontecia somente para os adultos. O advento da Confirmação era o momento de conhecer este ritual.

Seu Batismo ocorreu no dia 11/09/1954, e foi celebrado pelo pastor Kolfhaus. Sua Confirmação foi no dia 11/02/1966, pelo pastor Streber.

No primeiro ano da Doutrina (ministrada em alemão), ela estudava na escola perto, mas, a partir do segundo ano, ela e outra colega iam de carona com o leiteiro até Linha Nova e depois voltavam a pé, numa caminhada de duas horas. Para a volta, elas ganhavam um lanche do pai da colega que trabalhava num armazém: uma “gasosa”, bolacha Maria e um pedaço de linguiça; ela gostava muito deste lanche.

Após a Confirmação, além de conhecer o rito na igreja e participar dela, outras coisas eram também liberadas, como ir a bailes. Ela ia então com sua irmã, já casada na época, e depois com uma vizinha cujo namorado tinha uma “Rural”. Num destes bailes, conheceu seu esposo Orêmio Ritter, que na época já tinha saído da Vila Olinda, onde sua família morava, e trabalhava em Novo Hamburgo, numa indústria de componentes para calçados. O namoro durou oito anos. Ele vinha uma vez por mês para visitá-la, mas antes ia até sua casa, e depois caminhava uma hora para chegar até a casa dela.

Nesta época, era também costume preparar o enxoval. As moças em geral preparavam um enxoval com algumas coisas básicas necessárias para o lar, como roupas de cama, panos de prato, louças e outras. Ela e sua irmã, então, nos dias de chuva, iam ao galpão e lá tiravam a palha do milho para palheiro. Faziam pacotes de mil e vendiam. Foi com a venda desta palha que fizeram o enxoval. Na época, elas só ganhavam roupas novas, em geral, no Kerb e na Páscoa.

Noeli mudou-se para Novo Hamburgo após o casamento, que ocorreu em Linha Nova, no dia 24/09/1976. O pastor Manfred Jacob celebrou, às 10 horas, o culto de casamento; após houve um almoço (eles mataram um boi no dia anterior) e à tarde, tinha café para os convidados. Eles chegaram à igreja num fusca azul claro de um amigo que os levou. Neste mesmo dia, vieram para Novo Hamburgo, para morar no Bairro Rincão, onde moram até hoje. A casa mudou, foi reconstruída, mas o lugar é o mesmo. Ela não conhecia muita gente quando veio para cá, mas seu esposo já estava participando ativamente da igreja, tinha a “mordomia” na comunidade, o que significava ser encarregado de algumas coisas, como entregar boletins informativos, participar de reuniões no centro e outras. Ele também participou da juventude, ajudando a formá-la no bairro com alguns amigos. Noeli conhecia a Adélia, que já morava em Novo Hamburgo, e começou a ir com ela às atividades da igreja, que eram realizadas num salão de madeira. Ia aos cultos, à OASE, ajudava nas festas e em todas as atividades, como faz até hoje. Antes do casamento, ela não tinha contato com a Bíblia; isso ocorreu somente depois de casada, uma vez que o esposo já possuía uma e estava bem familiarizado com ela.

O casal tem dois filhos, Marcos (hoje com 38 anos, casado com Fabiane Rückert Ritter, pais de Amanda, de 7 anos, e Moisés (hoje com 34 anos, casado com Diane Alves). A partir do nascimento de seu primeiro filho, ela começou a trabalhar cuidando de crianças em sua casa. Quando os filhos ficaram maiores e iam para a escola, ela trabalhava em casa para um atelier de calçados. No entanto, não fez registros nem teve carteira assinada, como tantas mulheres que trabalhavam em casa para a indústria calçadista. Hoje ela sente não ter tido seus direitos garantidos, pois não recebe aposentadoria. No entanto, na época não se falava sobre direitos trabalhistas; ela diz que “era assim”.

Mais tarde, começou a produzir tortas e biscoitos para vender. Ela sempre gostou de cozinhar, e seu esposo disse que ela puxou à mãe, e que ele gostava muito de ir lá quando namoravam. Não é difícil imaginar quão boa era uma comida caseira para quem morava sozinho na cidade. Esta atividade ela realiza até hoje, inclusive fazendo tortas e bolos para as festas e chás na Comunidade.

A comunidade se mobilizou e construiu uma igreja ao lado do salão e, alguns anos depois, um novo salão atrás da igreja. Ela ajudou nestas construções participando ativamente da comunidade, ajudando nas festas e fazendo parte da diretoria da OASE. Ajudava especialmente na cozinha.

Já atuou como conselheira, tesoureira, vice-presidente, presidente e coordenadora da OASE. Hoje atua como conselheira no presbitério. Participa nos cultos, no grupo de terceira idade, dança sênior, grupo de canto, grupo de liturgia, grupo de estudos bíblicos, grupo de trabalhos manuais e diaconia. A participação nestes grupos possibilita a convivência entre os membros da comunidade e favorece o aprendizado da palavra de Deus e o crescimento na fé. Ela observa a importância das mulheres nos trabalhos da comunidade, e como vem crescendo a liderança delas nos presbitérios em geral, ocupando diversos cargos nas equipes de trabalho.

Na atuação da diaconia, a comunidade ajuda pessoas em dificuldades eventuais com o que necessitam e emprestam muletas ou cadeiras de rodas; é um trabalho necessário, devido aos problemas sociais existentes. A intenção é ampliar sempre mais os trabalhos neste setor e aprender cada vez mais sobre como ser igreja solidária.

Noeli observa a importância de participar da igreja em sua vida e na de sua família, pois cresceram juntos na fé, cresceram em convivência, aprenderam e ensinaram; o casal é companheiro na vida da igreja e serve como exemplo de engajamento nas atividades da comunidade. A fé é fortalecida na comunhão.

A história da Noeli foi escrita a partir do seminário “Como coletar e narrar histórias de vida: subsídios metodológicos” em Ivoti. A partir daí a entrevistei e fiz o relato. Agradeço a sua colaboração.

Joseida Schütt Zizemer


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