Isaías 29.17-21

Prédica

Isaías 29.17-21 - 12º. DOMINGO APÓS TRINDADE

Prezados irmãos! 

Esperança. A esperança é como o pão de cada dia, como o ar que se respira, como a água que se bebe. Para todos nós. Já perceberam isso alguma vez? A gente vive da esperança. A gente luta, vira e mexe no dia-a-dia, mas sempre com os pensamentos voltados para frente, sempre alimentando uma esperança, sempre esperando alguma coisa. Esperança de que eu passe na sabatina da semana que vem, que o Inter dê outra goleada, que eu não perca a namorada, que eu ganhe uma motoca no Natal, que minha promoção na firma não demore, que a gasolina e a carne não aumentem tão cedo, que a filha arrume um marido direito, que os europeus comprem mais calçados, que o marido pare de beber, que a meningite no pegue meu filho. Todo mundo esta sempre esperando alguma coisa. Quem não espera mais nada, é porque já esta parando de viver. 

Bem, mas isto aqui é um culto cristão e a esperança do cristão não fica por ai, não é? Ela vai mais longe, bem mais longe. Suponhamos que alguém nos perguntasse aqui agora: Qual é a tua esperança, como cristão? Como seria a resposta? Se fizéssemos uma pesquisa de opinião aqui entre nós, provavelmente daria no seguinte: Como cristão, minha esperança vai além dos limites desta vida terrena. Eu deposito minha esperança na ressurreição de Jesus Cristo. Eu espero que, quando chegar a minha hora, ele me chame, me perdoe e me leve para a vida eterna junto do Pai. - Não é isso que nas, vocês e eu, esperamos? Não é por causa desta esperança que cultivamos nosso contato com Deus e com a igreja? Que Deus me chame, me perdoe os meus pecados e me dê a vida eterna? 

Meus amigos, vocês podem imaginar algo mais egoísta e anticristão que esta esperança? É, vocês me ouviram bem: Pode haver algo mais anticristão do que este tipo de esperança? Nossa esperança cristã geralmente segue aquele lema que durante muito tempo se via escrito sobre uma cruz na frente de cada igreja católica: Salva tua alma! Mas, minha gente, Jesus Cristo nunca falou disso. Jesus Cristo nunca mandou ninguém salvar a si próprio. Pelo contrario, ele disse: Quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; quem perder a vida por minha causa, esse a salvara (Lc 9.24). 

Mais, Jesus ensinou a orar: O pão nosso - nosso!- de cada dia dá-nos hoje. E não, me da o meu pão! Perdoa-nos as nossas dívidas. E não, perdoa-me as minhas dívidas. É, Jesus fez o possível para que nós, cristãos, pensássemos mais nos outros do que em nós. Para que pensássemos mais nos outros - em suas situações e necessidades bem reais e concretas. E este pensar nos outros vale também, e especialmente, quando se trata da nossa esperança. Uma esperança egoísta é tão anticristã como qualquer ato de desamor. 

O texto que a igreja prevê para a pregação do domingo de hoje vem muito bem, porque pode servir de corretivo para a nossa esperança. É um texto do AT. São palavras ditas aos antigo;- israelitas, numa época em que passavam por enormes dificuldades. Elas se encontram no capítulo 29 do livro de Isaías: 

II

Por acaso dentro em breve as florestas do Líbano não se transformarão em pomar, e o pomar não ser a considerado uma floresta ? Naquele dia os surdos ouvirão as palavras do livro e, livres da escuridão e das trevas, olhos de cegos verão. Os miseráveis no Senhor se alegrarão sem parar, e os pobres da humanidade explodirão de alegria (pela ação de Deus, o) Santo de Israel. Pois desapareceu o tirano e acabou-se o gozador. Foram exterminados todos os que andam atrás da maldade, aqueles que em questões jurídicas fazem pecar as pessoas, aqueles que atormentam os juízes corretos e perseguem o inocente sem motivo. 

Estas palavras falam do futuro - naquele dia. Elas falam de esperança. E que esperança, minha gente! Aí não diz: Naquele dia cada um sai vara a sua alma. Ai diz: Naquele dia os surdos ouvirão e os cegos verão - não haverá mais doença. Naquele dia os pobres vibrarão de alegria - não haverá mais pobres, famintos, maltrapilhos. Naquele dia desaparecerão os tiranos - não haver a mais exploradores entre os homens. 

Estas palavras estão no Antigo Testamento. Mas será que elas não manifestam uma esperança muito mais cristã do que o nosso mesquinho salva a tua alma? 

III

Jesus não falou de modo semelhante? Quem é que acaba sendo convidado para a grande ceia? Não são os pobres, os aleijados, os cegos e os coxos que andam pelas ruas e becos da cidade? Quando João Batista manda perguntar a Jesus: És tu aquele que estava por vir, ou havemos de esperar outro?, que diz Jesus? No prenuncio de novos tempos ele diz: Os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e aos pobres esta sendo pregada a boa nova. É, a esperança que Jesus propõe e fundamenta é bem maior que o nosso pequenino salva a tua alma e combina muito bem com o que diz o nosso texto. 

Por isso eu gostaria de convidar vocês a me acompanharem numa revoada de pensamentos muito audaciosa. Vamos procurar descrever o que esta esperança pode significar em termos de hoje. Nós depositamos nossa esperança no Deus de Jesus Cristo. Certo. Nós cremos que Jesus Cristo ressuscitou dos mortos. Nós cremos que com esta ressurreição Cristo venceu a morte e todas as forças adversas, negativas, do mundo, abrindo caminho para uma realização nova. 

Agora vamos tentar descrever esta realidade nova. E vamos deixar que nosso texto nos guie. Mas já vou avisando. É preciso coragem e muita fantasia. O que Cristo nos faz antever é fantástico demais. 

Esperamos, em Cristo, um mundo sem doenças. Surdos ouvirão e cegos verão. Um mundo sem arteriosclerose, sem ataques cardíacos e sem úlceras no estômago. Um mundo sem leucemia, meningite ou câncer. Um mundo sem cansaço. Um mundo onde não se envelhece. (Vocês, que quando passam dos trinta já olham apavorados para cada ano que passa, pois sentem o Fim chegar mais perto.) Um mundo sem morte. Um mundo só de vida. Um mundo em que não haver a médicos, hospitais e enfermeiras, pois não ser a preciso curar ninguém.

Esperamos, em Cristo, um mundo sem pobres e miseráveis. Ninguém mais vai ter que se rebaixar para pedir alguma coisa. Ninguém mais vai ter que se degradar e bater a minha porta, lá em casa, pedindo uma calça, um pedaço de pão, uma roupinha para o nenê - enquanto eu mesmo, naquele mesmo dia, pude me dar ao luxo de escolher o que quero vestir. Ninguém mas vai se degradar, pois todos vão ter o que precisam. Mães esqueléticas não sentarão mais nas calçadas com filhos esqueléticos no colo, esperando que alguém se digne a botar um cruzeirinho miserável na lata. Não existirão mais mães e filhos esqueléticos. 

Esperamos, em Cristo, um mundo sem exploradores e explorados. Naquele mundo, ninguém vai enriquecer à custa do salário de fome de ninguém. Naquele mundo a riqueza de poucos não será conquistada com o trabalho penoso e mal pago da maioria. Naquele mundo ninguém vai comprar automóveis de 60 ou 80 mil cruzeiros, enquanto seu empregado no tem sequer um sapato inteiro para calçar. Esperamos, em Cristo, um mundo sem violência. Nem grande nem pequena. Um mundo sem guerra no Oriente Médio, sem medo da bomba atômica e sem sequestros. Mundo sem medo de nenhum poderoso. Um mundo onde os pais não vão judiar dos filhos, onde maridos não vão maltratar esposas, onde superiores não vão se aproveitar de subalternos. Mundo sem policia e forças armadas, pois serão desnecessárias. 

Eu devo ter sonhado, não é? Devo estar maluco. Mas talvez seja mesmo necessário ter a fantasia de um maluco para captar todo o fantástico da esperança que a Bíblia nos propõe. E estejam certos de uma coisa: Se de fato cremos que em Cristo Deus venceu as forças adversas e negativas deste mundo, então não podemos deixar por menos. Temes que ser radicais ao extremo em nossa esperança. Temos que esperar dele o fim da doença, da miséria e pobreza, da violência, da opressão e da morte. 

IV

Para finalizar, dois comentários: 

1) Um testemunho bem pessoal: Eu não conseguiria viver se Deus não me permitisse alimentar essa esperança tão fantástica e absurda. Se eu não contasse com uma intervenção radical de Deus para acabar com tudo que há de corrompido, quebrado, podre neste mundo; se eu no pudesse ter a esperança de que, cedo ou tarde, Deus vem acabar com a doença, com a violência, com a opressão e com a morte - eu não suportaria a vida como ela é. Eu me transformaria num cético, cínico, alcoólatra, sei lá. E aí eu estaria morto. Eu só posso viver porque Deus me dá esperança. 

2) Se eu me alimento da esperança na intervenção radical de Deus, se eu vivo dela, isso implica para mim num compromisso. O compromisso de sinalizar esta esperança na minha vida. De sinalizar a nova realidade. De agir no sentido de aliviar a carga dos outros. De lutar para que todos tenham saúde, para que os pobres e miseráveis tenham vida digna e humana, para que desapareça a tirania, a violência, a perseguição, a opressão, na minha vida, ao meu redor, no meu país e no mundo. É muita coisa. É ser pretencioso. Mas é o compromisso com a esperança que me dá vida. Amém. 

Oremos: Nosso Deus e nosso Pai, tu nos dás esperança. Nós te louvamos por isso. Dá-nos coragem e fantasia para captarmos a realidade que nos prometes. Dá-nos forças para em nossa vida semearmos sinais da esperança que nos ofereces. Por Jesus Cristo. Amém.

Veja:
Nelson Kirst
Vai e fala! - Prédicas
Editora Sinodal
São Leopoldo - RS


Autor(a): Nelson Kirst
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Pentecostes
Perfil do Domingo: 13º Domingo após Pentecostes
Testamento: Antigo / Livro: Isaías / Capitulo: 29 / Versículo Inicial: 17 / Versículo Final: 21
Título da publicação: Vai e fala! - Prédicas / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1978
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Prédica
ID: 20319
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