Isaías 40.1-11

Auxílio Homilético

04/12/2005

Prédica: Isaías 40.1-11
Leituras: Marcos 1.1-8 e 2 Pedro 3.8-14
Autor: Silvia Beatrice Genz
Data Litúrgica: 2º Domingo do Advento
Data da Pregação: 04/12/2005
Proclamar Libertação - Volume: XXXI
Tema: Advento

O texto de Is 40.1-11 foi abordado no Proclamar Libertação nº VIII, p. 40; no nº XIV, p. 124 e no nº XIX, p. 15. Apresentarei um estudo baseado nos três textos e com ênfase especial na proposta de atualização, liturgia e pregação.

1. Localização do texto no contexto e na época

Os autores são unânimes em afirmar que Is 40.1-11 faz parte do Deutero- Isaías e é uma introdução aos capítulos 40 a 45 do livro de Isaías. O Deutero- Isaías é atribuído a um profeta anônimo que atuou entre os anos 587 a 539 a.C.; foi a época em que ocorreu o exílio babilônico. O Deutero-Isaías fala do cativeiro, do exílio de uma parcela do povo, dos líderes, dos mais ricos. O rei Nabucodonosor, da Babilônia, que reinou entre 604 a 562 a.C. com mão de ferro, tinha como objetivo não somente as vitórias nas guerras, mas a deportação dos líderes dos territórios conquistados. Assim fez com a população de Jerusalém. Após a conquista, os principais líderes foram levadas para o exílio. Em 597 a. C. foram levados o rei e sua corte, junto com altos funcionários do Estado, militares, sacerdotes e cantores do templo.

O Deutero-Isaías ainda desconhece a conquista da Babilônia em 539 a.C. pelo exército persa. Por isso deve ser anterior à entrada triunfal de Ciro na capital do império babilônico. Mas Ciro, o rei persa, já é conhecido pelo profeta anônimo, pois o Deutero-Isaías refere-se a Ciro no capítulo 41.1-5. Ciro parece ser o ungido como libertador. Sua ascensão ocorre a partir de 550 a.C. Por isso podemos datar o Deutero-Isaías entre 550 e 540 a.C. no declínio babilônico e ascensão persa no domínio internacional.

2. Perspectiva de mudança

A ascensão do império persa com as vitórias sucessivas de Ciro trazia a esperança para os exilados na Babilônia. A elite do povo hebreu, que havia sido levada para a Babilônia, está nesse momento com a perspectiva de que a punição está chegando ao fim. Is 40.2 traz este anúncio: “Falai ao coração de Jerusalém, que já é findo o tempo da milícia, a iniqüidade está perdoada e que já recebeu em dobro das mãos do Senhor por todos os seus pecados”. O pecado levou-os para o exílio, e agora vem a boa notícia de que a libertação se aproxima. O texto de Is 40.1-11 é o anúncio da mudança.
A mudança vem por intermédio de outro imperador, de outro tipo de submissão; agora os persas trazem por intermédio de Ciro o novo. Ainda não é a tão esperada mudança, mas traz novo alento, falsas esperanças.

3. O anúncio através do texto

O texto apresenta quatro momentos:

1 – Consolai o meu povo (vv. 1-2) .
2 – Preparai o caminho do Senhor – endireitai no ermo vereda a nosso Deus (vv. 3-5).
3 – O que hei de clamar? (vv. 6- 8).
4 – O anúncio das boas-novas (vv. 9-11).

3.1 – Consolai o meu povo

Os primeiros dois versículos dão o tom da fala do profeta: “Consolai, consolai o meu povo”, pois Deus vai agir e terminar com o sofrimento imposto pelo pecado. A iniqüidade está perdoada e o castigo foi grande; recebeu em dobro da mão de Javé por todos os seus pecados. O novo vem, mas não irrompe de modo mágico. “Torna-se possível por causa do perdão. Per- dão significa que o passado deixou de ser determinante. Já não continua a ser uma amarra. Está concluído. Está pago, inclusive em dobro” (40.2). O passado já era. Por isso, nossa profecia anônima pode afirmar tão enfaticamente: “Não vos lembreis das coisas passadas, nem considereis as antigas” (Is 43.18). O perdão de Javé supera o passado. Não faz de conta como se não tivesse existido. Supera o exílio. Não o acoberta. Esse exílio é consequência do pecado. Não é acidente. O próprio Deus anunciara-o por meio de seus profetas. A deportação fazia-se “necessária” (Milton Schwantes). O novo vem! Consolai! É o fim do tempo daquela escravidão; agora vem um novo tempo.

3.2 – Preparai o caminho do Senhor; endireitai no ermo vereda a nosso Deus

Do deserto vem a possibilidade de um novo caminho: a passagem para a vida, a libertação. Segundo o escrito de Wanda Deifelt, os babilônios ti- nham o costume de fazer procissões em homenagem às divindades através de caminhos, estradas majestosas, por onde os deuses e deusas, bem como os representantes humanos, os reis, desfilavam... O Deutero-Isaías apresenta o caminho da liberdade: Preparai o caminho do Senhor. A voz vem do deserto e anuncia um caminho novo que atravessa os desertos. É o deserto que está separando os exilados da terra de origem. Esse caminho novo é o caminho que permite a saída triunfal dos cativos. O caminho de Deus é o caminho da liberdade. A grande mudança que traz esse caminho mostra-se nas afirmações: os montes e outeiros serão nivelados, o que é tortuoso será endireitado e os lugares escabrosos aplanados.

O anúncio do Deutero-Isaías recupera o êxodo. Agora, no segundo exílio, os exilados que haviam sido reassentados na Babilônia, como colônia agrícola, que lhes possibilitou manter a tradição religiosa, a língua, os costumes e a memória da libertação do Egito, o êxodo, podem vislumbrar o retorno, o segundo êxodo. O deserto, que na tradição do êxodo, na memória da libertação do Egito, mostrava-se como inimigo, agora aparece como possibilidade e inclusive favorável ao retorno. A saída parece muito difícil e deve ser milagrosa, grandiosa. Alguns já estavam há 50 anos no exílio. Muitos haviam nascido no exílio, e agora o que esperar? A palavra do profeta tem que ser forte, convincente. E quem será o escolhido para levar o “povo” de volta? Haverá um novo Moisés? Não, apenas Ciro, o ungido de Deus (Is 45.1). O rei da Pérsia significa uma nova esperança. A sua ascensão, as vitórias consecutivas nas guerras e conquistas, fará com que a Babilônia seja o alvo de eminente conquista. Os exilados sabiam que Ciro estava se aproximando e que mais cedo ou mais tarde seria o fim do império babilônico. O Deutero-Isaías dá as boas-vindas a Ciro como libertador do povo, dos exilados.

3.3 – O que clamar?

Os vv. 6,7 e 8 mostram o tom do poder de Deus. O que acontece quando o sopro de Deus passa sobre a erva? Seca a erva, caem as flores. Toda carne é como a erva. O povo é como a erva, também o imperador; a Babilônia é como a erva. Tudo passa; a palavra de Deus e o poder de Deus permanecem eternamente.

Deus, que castiga o pecado, também é poderoso para erguer e consolar. Ele tem poder. O profeta mostra a fraqueza do povo; parece morto, sem condições de crer em suas palavras. Faz-se necessário um tom mais forte para conclamar o povo à esperança e à mudança eminente.

3.4 – Anúncio das boas-novas

O profeta precisa de uma estratégia especial para poder anunciar a boa-nova. Ele precisa subir a um monte alto. O povo precisa ser despertado, o impacto precisa ser forte. A voz deve ser erguida, a fala deve ter força e deve ser sem temor. O anúncio é: Eis aí está o vosso Deus! Eis que o Senhor virá com poder! Até aqui o povo exilado havia ouvido muito dos ídolos, dos deuses, das deusas dos babilônios, dos caminhos preparados para esses deuses estranhos e falsos. Agora chegou a vez de ouvir.

“Eis aí está o vosso Deus!” Ele vem com poder, o braço dele dominará; haverá recompensa. O profeta anuncia a presença de Deus como ação do pastor que traz as ovelhas e cuida de todas. Carregar as ovelhas também pode significar resgate, despojos que Deus carregará. A ação de Deus é para com todos, mas especialmente para com os fracos, os cordeirinhos do rebanho, os bem pequenos que cansam na caminhada e as ovelhas-mães que estão amamentando seus filhotes. O profeta apresenta esse jeito de Deus agir, que com atenção e carinho cuida de seu povo, agora perdoado e que será libertado.

4. Possibilidades para a pregação

Um breve relato sobre a conjuntura de Isaías é muito importante. Mas, na seqüência, o texto de Isaías é muito oportuno para mostrar que o pecado leva à desgraça individual e coletiva. Quando na casa, no lar, há incidência de atos de injustiça, opressão, exclusão, violência, mentira... e outros, isso leva à destruição da família, do lar e assim da vida que Deus quer. Quando na sociedade o governo comete pecados contra a dignidade humana, com leis injustas, permitindo o desvio de recursos, o descumprimento de leis, permite que haja poucos recursos para a saúde, a educação e a habitação, comete o pecado coletivo contra o povo. Quando o judiciário não encaminha as decisões à luz das leis e muito menos à luz da palavra de Deus, então esse pecado faz o povo sofrer. Quando políticos demonstram com ações e promessas o descumprimento das normas de respeito e dignidade, manipulando com dinheiro e favores o povo, então o pecado tem terra fértil e quem sofre é o povo. Quando as pessoas se voltam a outros deuses, ocorre a confusão da fé.

Advento é tempo de esperança. Anúncio de mudança. Voz do que clama no deserto, como diz em Isaías e também no Evangelho de Marcos; pode ser um forte convite para falar da transformação pessoal e coletiva. Somente a vinda, a incursão de Deus, de Cristo é luz para a transformação na busca pelo novo. O novo é possível. A libertação, o perdão dos pecados se traduz em nova vida. O segundo domingo de Advento aponta para o Jesus menino, que de uma estrebaria vem e anuncia com palavras e ações a graça de Deus, o seu reino. Agora não queremos mais somente o fim do exílio babilônico, do exílio mais suave da Pérsia, mas vida abundante com comunhão, paz e justiça. Vida de pessoas que confiam em Deus e se deixam guiar pela estrela de Belém rumo ao novo projeto de vida abundante. O bom combate dos males e a transformação pelo perdão são elementos fundamentais para nós cristãos hoje. Só há mudança quando acontece o perdão dos pecados. O passado não dá para mudar; é daqui para frente. O anúncio da boa-nova da graça de Deus, que transforma e compromete, é sem dúvida a melhor mensagem de Advento.

4.1 – Simbologias e dinâmicas

O tempo de Advento é muito rico em simbologias: a coroa, a luz, o verde, as luzes que enfeitam casas e ruas, o preparo da cidade, das casas ou mesmo a festa... Tudo isso pode ser ou não ser expressão da alegria da boa notícia. Creio que é necessário falar forte, bem alto, com impacto... Às vezes, é oportuno o uso de algum som forte para falar com impacto ou mesmo pedir à comunidade reunida qual a forma de maior impacto para anunciar o novo Advento de Cristo Deus e o nosso Advento para uma nova vida.

4.2 – Acolhida

(Após o sino, prelúdio... fazer silêncio e olhar com atenção para os presentes e iniciar a fala) Escutem, ouçam, parece que há algo novo, algo importante no ar, algo forte e que muda a vida, algo para anunciar e viver... O advento de Deus, a vinda de Cristo o Senhor, e hoje neste segundo domingo de Advento queremos juntos anunciar com o nosso canto neste culto a boa-nova de Cristo o Salvador.

Intróito: Aqui chegamos e estamos reunidos para que o Advento de Deus nos alimente e conduza na vida e em seu nome aqui estamos: Em nome do Pai, do Filho Jesus Cristo Salvador e do Espírito Santo. Amém


Bibliografia

DEIFELT, Wanda. Isaías 40.1-11. In: Proclamar Libertação XIX. São Leopoldo: Sinodal, 1993. pp. 15-21.
KILPP, Nelson. Isaías 40.1-11. In: Proclamar Libertação XIV. São Leopoldo: Sinodal, 1988. pp. 124-131.
PISKE, Meinrad. Isaías 40.1-11. In: Proclamar Libertação. São Leopoldo: Sinodal, 1982. pp. 40-48.
SCHWANTES, Milton. Sofrimento e esperança no Exílio: História e Teologia do Povo de Deus no Século VI a.C. São Paulo: Paulinas/ São Leopoldo: Sinodal, 1987.

 


Autor(a): Silvia Genz
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Advento
Perfil do Domingo: 2º Domingo de Advento
Testamento: Antigo / Livro: Isaías / Capitulo: 40 / Versículo Inicial: 1 / Versículo Final: 11
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 2005 / Volume: 31
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 18438
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