Isaías 42.1-7

Auxílio Homilético

09/01/2000


Prédica: Isaías 42.1-7
Leituras: Atos 10.34-38 e marcos 1-4-11
Autor: Wanda Deifelt
Data Litúrgica: 1° Domingo após Epifania
Data da Pregação: 09/01/2000
Proclamar Libertação - Volume: XXV
Tema: Epifania

Exegetas e comentaristas tendem a identificar três grandes blocos no livro de Isaías. Os caps. 40-55 formam a segunda parte, também conhecida como Dêutero-Isaías. O texto de Is 42 está dentro de um conjunto literário maior, escrito provavelmente na época do exílio babilônico, no séc. VI a.C..

Retomando a história

O exílio representa, na vivência do povo de Israel, uma grande ruptura. Primeiro porque as pessoas que foram para o exílio não eram as pessoas comuns, mas a liderança: elite governante, sacerdotes, funcionários reais, chefes militares. Os babilônios tinham uma ideia fixa com relação ao modo de estender o seu domínio: removiam a liderança local e deixavam seus próprios funcionários como administradores. A ideia é que o povo seguiria uma nova liderança como um corpo segue o que lhe diz a cabeça.

Isso funcionava com a maioria dos povos, mas de modo especial entre aqueles que entendiam que sua liderança era imposta divinamente, ou seja, que o rei era como um representante dos deuses na terra. Por isso, suas ordens deveriam ser seguidas sem discussão. Mas com o povo de Israel isso não funcionava, pois o rei não era visto como divindade. Antes, era alguém que deveria ser o mais exemplar em termos de justiça, humildade, coragem e testemunho de fé. Como se sabe, no entanto, os próprios reis em Israel nem sempre seguiam esse princípio, mas frequentemente abusavam de seu poder.

Por isso surgiram os profetas, pessoas de profunda convicção de fé, dispostas a denunciar as injustiças e anunciar o novo dia de Javé. O seu clamor era que o caminho da justiça fosse restabelecido e todas as relações de exploração eliminadas. A grande crítica dos profetas era contra a idolatria — não meramente o culto a outras divindades, mas a própria fabricação de imagens e ídolos pelo povo de Javé. Essa realidade é relembrada em Is 41.7,29. Os profetas usavam todo tipo de recursos, desde a persuasão até a ameaça, para que seus voltassem ao caminho correio. Nem sempre tinham sucesso e às vezes acabavam sendo perseguidos e aprisionados.

Dentre as ameaças anunciadas pelos profetas, uma freqüentemente empregada era a de que um rei estrangeiro viria para livrar o povo das mãos dos seus malfeitores e despojaria os reis de Israel, aniquilando-os em sua soberba e arrogância. Assim também foi entendido o exílio babilónico para as elites deportadas: um castigo pelo seu mau desempenho como líderes, por terem sido pessoas que se preocupavam em assegurar seus próprios interesses e não o bem-estar do povo. Os ensinamentos de Deus eram distorcidos e deturpados em benefício próprio.

Em 605 a.C. a Babilônia havia se estabelecido como nova potência na região, exigindo o pagamento de tributos. Pagando os tributos, Jeoaquim permaneceu rei em Judá. Quando reteve os tributos, Nabucodonosor enviou uma expedição a Jerusalém, em 597, como represália. Joaquim (ocupando o trono três meses, após a morte de seu pai Jeoaquim) foi levado à Babilônia, juntamente com outras pessoas da corte, ferreiros, serralheiros, sacerdotes, etc. O número de deportados chegou a 3.023 (de acordo com Jr 52.28). No lugar de Joaquim foi designado Zedequias, tio do rei, que tinha uma pretensão de independência, conclamando o povo para tal. Mas o resultado foi desastroso. Em 586 Jerusalém foi sitiada, os muros e o templo destruídos e a cidade incendiada.

O exílio foi entendido como castigo para essa liderança deportada para a Babilônia. Depois de algum tempo, e após se darem conta de que seu retorno não seria imediato, as próprias lideranças deportadas se deram conta de que sua realidade era outra. Experimentaram uma profunda mudança. Trata-se, agora, de um povo que precisa de consolo, que não tem mais o poder de que usufruía anteriormente: Já é findo o tempo de sua milícia, que a sua iniquidade está perdoada e que já recebeu em dobro da mão do Senhor, por todos os seus pecados. (Is 40.2.)

Para o povo que ficou em Israel, o exílio naturalmente significou outra coisa. Muitas pessoas, apesar de insatisfeitas com a instauração de mudanças no sistema de tributos, com a destruição do templo (em 586) ou com a subjugação estrangeira, perceberam elementos positivos, como a remoção de uma liderança que se fazia de surda aos apelos de justiça. O profeta Jeremias mostra esta tendência, apoiando o projeto de Gedalias (um funcionário sem parentesco com a família real). Para Jeremias, Nabucodonosor era um enviado de Javé para punir Judá e Jerusalém por não terem escutado o chamado de seus profetas (Jr 25. l -12).

Os exilados, no entanto, experimentavam uma conversão. De gente da corte, passaram a ser trabalhadores braçais. De autoridade, passaram a ser subjugados. De perseguidores de profetas, passaram eles mesmos a ser profetas. IV senhores, passaram a ser servos. Essa inversão na relação de poder lhes ofereceu um outro ponto de vista. Os ricos e arrogantes se chamam agora de vermezinho de Jacó, povozinho de Israel (Is 41.14).

Nessa nova relação existe também uma redefinição da relação com Deus. O Deus que castiga e pune dá lugar a outro, um Deus que ampara, consola e protege quem sofre. É um Deus que encoraja seu povo: Tu és o meu servo, eu te escolhi e não te rejeitei, não temas, porque eu sou contigo; não te assombres, porque eu sou o teu Deus; eu te fortaleço, e te ajudo, e te sustento com a minha destra fiel. (Is 41.9-10.)

O texto

O texto que estamos analisando é descrito como um dos quatro cânticos do servo sofredor. A exegese os delimita assim: 42.1-4; 49.1-6; 50.4-9; 52.13-53.12. Estamos tratando, portanto, do primeiro cântico. E bem provável que originalmente estes textos tenham sido independentes, mas na redação do Dêutero-Isaías os cânticos estão inter-relacionados. Também é quase certo que esses cânticos tenham surgido como uma forma de lamento e anúncio de esperança, como canções conhecidas pelo povo antes de serem registradas pelo autor (ou autores) do texto.

Quem é o servo a que o texto se refere'.'' Ele existe mesmo ou é uma idealização? É um indivíduo ou é toda uma comunidade? Na tradição cristã temos associado este e os demais cânticos a Jesus, fazendo comparações entre o sofrimento de um e do outro. Mas o texto não trata de Jesus. A beleza do texto é que ele justamente não identifica quem esse servo sofredor de fato é. O servo pode ser um indivíduo, mas pode ser uma comunidade. Ele já está no meio de nós, mas ainda não pode ser identificado plenamente.

A primeira parte do texto (v. 1) identifica o servo, mostrando que ele é escolhido: meu servo, a quem sustenho, cm quem minha alma se compraz. Sua natureza especial é destacada através da expressão pus sobre ele o meu Espírito, o que demonstra a vocação distinta do servo, a sua identificação com um plano divino, uma sintonia com a vontade de Deus. A variação na terminologia do eleito, do ungido quer dar um caráter enfático ao seu ministério, que é descrito nos versículos que seguem.

A descrição do ministério inicia com a observação ele promulgará o direito para os gentios (v. 1), reafirma este compromisso no v. 3 (em verdade promulgará o direito) e culmina com outra expressão que enfatiza a sua conexão com a justiça, até que ponha na terra o direito (v. 4). O direito será promulgado e seus ensinamentos serão aguardados (e as terras do mar aguardarão a sua doutrina). Numa compreensão nova para dentro do contexto do povo escolhido, a justiça se estende além dos que estão no exílio, ou do próprio povo de Israel: ela vale também para os gentios.

Os vv. 2-4a dão indicações sobre a qualidade desse ministério e a maneira como esse servo procederá. A descrição se dá pela negação, ou seja, descrevendo o que o servo não fará: não clamará nem gritará, nem fará ouvir sua voz na praça (v. 2); não esmagará a cana quebrada nem apagará a torcida que fumega (v. 3); não desanimará nem se quebrará (v. 4). Que características poderíamos usar se quiséssemos colocar esse ministério em termos afirmativos? Como é esse servo'.' Em primeiro lugar, humilde, alguém que não chama a atenção sobre si. Depois, alguém que pratica a solidariedade: não oprime quem já é oprimido. Por fim, alguém que é persistente e consegue resistir.

O cântico do servo é formado pelos vv. 1-4. O v. 5 já não fala mais do servo, mas introduz a dimensão do Deus criador. Em um único versículo, o texto resume a teologia da criação (a mesma desenvolvida em Gn 1.1-2.4a, que surgiu no mesmo período). Deus criou o céu e o estendeu. Formou a terra e tudo que ela produz. Dá fôlego de vida a seu povo e o espírito a quem anda nesta terra. De maneira poética, a descrição retoma os conceitos principais da teologia da criação.

O v. 6 dá continuidade ao tema do caráter especial dado por Deus ao servo. Trata-se de um ser ungido que tem uma tarefa a cumprir. Os vv. 6 e 7 não fazem referência ao servo, especificamente, mas descrevem no que esse chamado de Deus consiste. Trata-se de um ser (ou uma comunidade) chamado em justiça, a quem Deus toma pela mão e guarda, mediador da aliança com o povo e luz para os gentios. A tarefa colocada à sua frente é grandiosa: ' 'para abrires os olhos aos cegos, para tirares da prisão o cativo e do cárcere os que estão em trevas (v. 7).

Pensando na prédica

É difícil imaginar que, na concepção veterotestamentária, uma única pessoa pudesse encarnar todas as qualidades e expectativas que este cântico arrola. Talvez, ao invés de um indivíduo, o cântico esteja se referindo à coletividade, ou seja, que o servo represente a comunidade em exílio. Para ela se colocam novas possibilidades, criadas por uma realidade diferente daquela que haviam experimentado (ou que seus pais e mães, avós e avôs haviam experimentado) enquanto elite pensante e atuante em Israel.

Uma solução demasiadamente fácil é a de transferir essas expectativas para a figura de Jesus Cristo, afirmando nele o ser ungido. De fato, Jesus se destaca em seu ministério justamente pelas características da humildade, solidariedade c resistência que o cântico enaltece. As leituras adicionais, sugeridas para este domingo, apontam para esse papel de Jesus. A passagem de Mc 1.4 II pode contribuir para essa associação entre o servo e Jesus, especialmente nos vv. 7 e 11. João Batista é aquele que aparece no deserto, pregando batismo de arrependimento. Pela sua simplicidade (as vestes de João eram feitas de pelos de camelo; dr trazia um cinto de couro e se alimentava de gafanhotos v. 6) se estabelece uma certa semelhança com o servo. Mesmo tendo seus próprios seguidores, de não aponta para si como o escolhido, mas para um outro: Após mim vem aquele que é mais poderoso do que eu, do qual não sou digno de, curvando-me, desatar-lhe as correias das sandálias. (V. 7.) Jesus mesmo, vindo da (Galiléia, é batizado por João e, ao sair da água, o Espírito desce como pomba sobre ele, ao que se ouve uma voz dos céus dizendo: Tu és o meu filho amado, em ti me comprazo (v. 11). Confirma-se, então, a eleição de Jesus da mesma maneira como a do servo em Isaías.

Essa conexão entre um texto e o outro é feita com muita facilidade, e quase automaticamente. Mas se nós, hoje, apontamos somente para essa leitura estaría¬mos destituindo o texto de seu valor intrínseco, um texto que surgiu como palavra de Deus em um outro momento da história de seu povo. A leitura cristocêntrica pode diminuir o impacto do cântico de Is 42. Tem-se a impressão de que o evento de Jesus representa uma experiência única e absoluta de ministério, onde a comunidade (e as pessoas que confessam Cristo como seu salvador) não teria também a mesma função: de assumir o chamado do servo como um chamado para seu próprio ministério, enquanto comunidade confessante e atuante.

Neste sentido, o texto de At 10.34-38 oferece subsídios adicionais para a reflexão. É um texto que remete tanto para a comunidade quanto para Jesus Cristo. A ênfase em Jesus se dá mais especificamente no v. 38, na formulação Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com poder, o qual andou por toda parte, fazendo o bem e curando a todos os oprimidos do diabo, porque Deus era com ele. Juntamente com Isaías e Marcos, a unção é destacada, estabelecendo uma ponte entre os três textos. Mas os versículos iniciais também nos dão uma boa ideia do que esse ministério representa para a comunidade, no seguimento de Jesus Cristo e no sacerdócio de todas as pessoas que crêem.

A primeira indicação está na declaração de que Deus não faz acepção de pessoas (At 10.34). Se a sociedade e a cultura fazem tal acepção, discriminando pessoas por causa de cor, raça ou etnia, sexo ou preferência sexual, o mesmo não acontece por parte de Deus. Na mesma linha, o credo batismal em Gl 3.27-28 nos relembra que já não há mais judeu nem grego, nem escravo nem liberto, nem homem nem mulher, porque somos um em Cristo. A acepção de pessoas é descartada também no cântico, em Is 42, quando apresenta sua preocupação com os gentios. A justiça e o amor de Deus se estendem sobre outros povos e nações, como um grande manto que cobre toda a terra. Consegue-se entender, assim, a ênfase do cântico na teologia da criação, pois todos os seres foram criados pelo mesmo, único Deus. Como filhas e filhos de Deus, também recebemos o convite de sermos como o servo, alguém que promulga a justiça sem fazer distinção entre as criaturas de Deus.

Uma segunda pista de como o ministério do servo de Deus foi entendido pela comunidade cristã está em At 10.35: Em qualquer nação, aquele que o teme e faz o que é justo lhe é aceitável. O tema da justiça aparece mais uma vez como ingrediente necessário para o seguimento de Deus, exatamente como havia sido proclamado no cântico de Isaías. Não se trata mais de um indivíduo histórico isolado (alguém que viveu no exílio babilônico), mas de alguém que serviu como um modelo de liderança e ministério para as gerações futuras. Por suas qualidades, Jesus foi muitas vezes identificado com esse servo, mas os seus atributos valem também para toda comunidade que pratica e vive em justiça. A prática da justiça introduz a dimensão ética. A justiça deve ser praticada em todos os níveis: desde a pessoa mais simples até a mais alta autoridade. Todos se colocam sob a mesma lei.

Uma palavra final quanto ao texto de Is 42.1-7 deve ser dita. Trata-se de uma palavra de cautela. Este texto já foi muito usado para ensinar humildade, paciência e mansidão, enaltecendo estes valores justamente entre aquelas pessoas que mais sofrem. A idealização desses valores sem o ingrediente da justiça poderá facilmente desvirtuar o texto, estimulando a passividade ao invés do anúncio da esperança. Por isto, a dimensão ética e comunitária deve estar presente na reflexão. O texto de Is 42.1-7 traz uma nova proposta de liderança, de exercer o ministério: não machucar nem ofender os mais fracos, não usar propaganda nem demagogia, não desanimar nem desfalecer, até estabelecer o direito sobre a terra. Por ser tão radical, esta proposta pode levar ao martírio e ao sofrimento, assim como levou Jesus à cruz.]

Bibliografia

MESTERS, Carlos. A missão do povo que sofre. Petrópolis : Vozes, 1981.
PIXLEY, Jorge. A história de Israel a partir dos pobres. 3. ed. Trad. Ramiro Mincato. Petrópolis : Vozes, 1991.
SCHULZ, Valdemar. Isaías 42.1-7. In: SCHNEIDER, Nélio, DEIFELT, Wanda (Orgs.). Proclamar Libertação. São Leopoldo : Sinodal, 1995. vol. 21, p. 51-54.
SCHWANTES, Milton. Sofrimento e esperança no exílio : história e teologia do povo de Deus no século VI a.C. São Paulo/São Leopoldo : Paulinas/Sinodal, 1987.


Proclamar Libertação 25
Editora Sinodal e Escola Superior de Teologia


Autor(a): Wanda Deifelt
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Epifania
Perfil do Domingo: 1º Domingo após Epifania
Testamento: Antigo / Livro: Isaías / Capitulo: 42 / Versículo Inicial: 1 / Versículo Final: 7
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1999 / Volume: 25
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 12793
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